08 fevereiro 2009

O retorno



Receberam-no com um sorriso insuspeito, a três metros de distância, encostados no vão de entrada da rodoviária. Permaneceram imóveis, observando-o se aproximar, enquanto conversavam entre si. O viajante estava exausto e envolveu ambos os homens em um abraço, cuidando para beijá-los respeitosamente nas faces. Um retorno longamente protelado, que acontecia no pior dos momentos. Sentiu pela vez primeira a brisa fria da madrugada acariciar-lhe o corpo, ajudando-o a recompor-se um pouco da longa viagem. A bem da verdade, não esperava que o aguardassem na rodoviária, tinha imaginado cumprir o percurso até a casa da avó à pé, pensando como faria ao encontrar todos, como exprimir as primeiras palavras sem criar embaraços pela sua visita.
O tio tomou-lhe a pequena bagagem enquanto o pai perguntava sobre... Respondeu o que pôde, como pôde, ainda sem se dar conta que havia chegado, que havia por fim superado os dilemas que o impediam de voltar. Andaram a passos vigorosos, atravessaram a rua e se encaminharam até o jipe. Sentiu o aroma dos crisântemos, ocultos no jardim pela noite espessa. Ouviu o estrilado dos pequenos insetos, as ramagens roçando umas às outras, o ar puro penetrando-lhe fundo os pulmões. Estava contente por rever os homens que iam no banco da frente, era um sinal de que ainda o tinham com respeito. Além do sorriso mútuo, um ou outro comentário breve sobre a viagem, sobre...
O jipe avançou por ruas escuras, percorrendo espaços da infância, não demoraram a chegar em um pátio iluminado, com dezenas de pessoas silenciosas. Saltou do veículo com o pai e o tio e serpenteou por entre a pequena multidão, rostos em sua maioria conhecidos. Sua mãe se destacou para recebê-lo, à entrada do recinto. Tinha o olhar caloroso, a expressão vigorosa em um corpo frágil. O abraço como há muito não sentia, a pergunta se não estava com frio. Entraram juntos. O espaço interno era como havia imaginado, um pouco mais espartano talvez, com dois ambientes, o principal mais amplo e arejado, o outro, uma pequena cozinha com fogão e mesa com umas poucas cadeiras. Separou uma e aconchegou-se, deixando escapar uma expressão de desamparo. Aceitou uma taça de café quente das mãos da mãe e sorveu o líquido sem pressa, aos bocados...
Retornou ao salão principal, fitando um a um em seu desamparo. Uma paisagem solene, composta por tios, tias, velhos amigos, primos... As velas se consumiam em um delicado fragor, sustentando a frágil luminosidade. Na cabeceira do caixão, uma jovem muito bela, Raquel. Beijou a prima e por fim, voltou-se para a mulher deitada. Sem qualquer manifestação íntima de pesar, uma pergunta lhe ocorreu: por que demorara tanto para regressar?... A sua avó jazia diante de si, estirada inapelavelmente. Foi possível rememorar trechos de histórias familiares narradas por ela, envolventes, misteriosas, sobre o avô desaparecido no cerco de Viazma, as dificuldades pela sobrevivência com os filhos, a vida pioneira em um rincão que, muitos anos depois, se transformaria na cidade que agora lhe serviria como repouso final...
A mulher que inspirara sua personagem principal, no romance recém-acabado, era a única a não se manifestar em sua chegada. Sob os abraços e cumprimentos silenciosos, ele olhou a disposição da sala, a arrumação fúnebre, o movimento das pessoas, sentiu o arrepio da noite fria penetrar-lhe o âmago, desatando a dor procrastinada. Por fim, constatou a mesma ambientação descrita na morte de sua personagem. Só não imaginou que a realidade pudesse imitar a ficção, em seus detalhes mais singulares.


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