27 abril 2017

A árvore de Gernika

Imagem do filme A Árvore de Gernika, de Fernando Arrabal

Eram quatro e meia da tarde, os camponeses chegavam com suas carroças para a feira a céu aberto, quando a chegada do primeiro Heinkel 111 alemão foi anunciada pelos sinos da igreja. Logo em seguida outro Heinkel apareceu para despejar suas bombas de 22,5 quilos. Quando as pessoas deixavam os abrigos, quinze minutos depois, um troar de Junkers 52 foi ouvido a leste, cerca de 50 deles, que lançaram bombas de 22,5 e 45 quilos, além dos bastões de termita para potencializar o incêndio, o fogo de Prometeu. Foram ondas sucessivas de ataques, a cada vinte minutos, que impedia o deslocamento dos habitantes para fora da cidade. Quando não eram as bombas, era a metralha dos caças que varria indistintamente o que se movesse pelas ruas. Às 7h45, depois de três horas, o último avião nazista desapareceu no horizonte, deixando apenas o "crepitar nervoso da conflagração criminosa em toda a cidade". Gernika havia acabado.

Casa das Juntas, Gernika, 1989 (foto: autor)

Sem dúvida o filme de Fernando Arrabal, A Árvore de Guernica, visto no início dos anos 1980, acabou por me conduzir à pequena cidade basca, em agosto de 1989. Sua narrativa alegórica e marcada pela luta republicana na Guerra Civil me comoveu de modo definitivo. Uma das sequências inesquecíveis é a encenação de uma corrida de touros pelos falangistas, depois da tomada da fictícia Villa Romero, assistida por representantes da burguesia e pelo clero local. Carrinhos de mão são conduzidos com anões amarrados, condenados a morrer na arena por um franquista que faz as vezes de toureiro. Sob o silêncio completo, interrompidos pelos aplausos forçados da claque burguesa, o 'toureiro' completa sua performance ao projetar a espada no peito do anão. Por fim, um plano geral de uma enorme bandeira espanhola estendida na arena, acolhendo os vários anões assassinados na sessão, sob o hino espanhol.  

Fac-símile da capa A Árvore de Gernika

Poucos dias mais tarde, em visita ao Prado, em Madri, detive-me longamente diante do quadro de Pablo Picasso, Guernica, inspirado pelo texto do jornalista George L. Steer que relatou de modo contundente o antes, o durante e o depois da tragédia basca. A propósito, que maravilhosa cobertura jornalística desse cidadão inglês, que não poupou esforços pessoais para transformar sua presença no território basco sitiado em contundente testemunho da brutalidade franquista. Leio-o aos bocados, os capítulos se sucedem fora da ordem cronológica, que me relatam o isolamento e a fome em Bilbao, os brutais ataques aéreos alemães, a mentira dos informes oficiais franquistas e a contrapartida, o esforço por uma cobertura mais equânime dos jornalistas estrangeiros, dentre eles, Steer. No Prado, distante da aura marcante da cultura basca, apreciei os diversos esboços da obra de Picasso, então expostos no corredor que conduzia ao grande salão em que repousava o quadro final.

No momento em que escrevia o primeiro parágrafo deste texto, cumpria-se exatamente oitenta anos do ataque realizado por um misto de aviões alemães e italianos. Realizado entre as 16h30 e as 19h45 do dia 26 de abril de 1937, o bombardeio ceifou a vida de três centenas de pessoas, de uma população aproximada de 6.000 habitantes, acrescida por cerca de 3.000 camponeses que participavam da feira a céu aberto. Dois dias mais tarde, segundo a descrição de Steer, "o governo de Salamanca foi claramente desonesto" ao passar para a opinião pública que a destruição de Gernika fora obra dos Vermelhos. A má-fé das versões fascistas - haveria mais de uma em um breve lapso de dias - foram encampadas por parte da imprensa estrangeira, havendo o caso de um correspondente francês que, quando da queda da cidade, "acabou liberado (pelos franquistas) e escreveu artigos favoráveis ao generalíssimo". 


Gernika após o ataque aéreo franquista, em 26.04.1937

Para mim, as impressões que obtenho com a leitura ainda não finalizada de A Árvore de Gernika, de George Steer, são de um qualificado registro jornalístico, sob as condições mais duras, onde se destaca uma elegância sensível no estilo narrativo, que nos posiciona com clareza diante dos fatos descritos. Particularmente gosto de sua isenção comprometida, simpática aos bascos, mas sem ser "incapaz de detectar suas deficiências". E aprecio sua declaração espontânea ao bom jornalismo, que escreve como que num impulso, ao final do capítulo 16, cansado pelas farsas publicadas em relação ao suposto bloqueio de Bilbao pela marinha franquista, que na ocasião quase sacrifica a causa basca: 

“Um jornalista não é mero fornecedor de notícias, sejam sensacionais ou controversas, bem ou mal escritas, ou apenas engraçadas. Ele é um historiador dos eventos cotidianos, e tem um dever para com o público. Se lhe impedem o acesso a esse público, cabe a ele recorrer a outros métodos; pois, como historiador em ponto menor, ele pertence à mais honrada profissão do mundo, precisa estar tomado do apego mais passional e crítico pela verdade, e por isso o jornalista deve, com o enorme poder que detém, cuidar para que prevaleça a verdade”.
   
Penso que esta declaração sirva perfeitamente aos propósitos atuais de como deve atuar um verdadeiro jornalista.


11 abril 2017

Jorge Teillier



Para falar com os mortos
(Jorge Teillier)


Para falar com os mortos
há que escolher palavras
que eles reconheçam tão facilmente
como suas mãos
reconheciam a pelagem de seus cães na escuridade.
Palavras claras e tranquilas
como a água da torrente domesticada na taça
ou as cadeiras ordenadas pela mãe
depois que se foram os convidados.
Palavras que a noite acolha
como os pântanos aos fogos fátuos

Para falar com os mortos
há que saber esperar:
eles são temerosos
como os primeiros passos de uma criança
porém se tivermos paciência
um dia nos responderão
com uma folha de álamo presa por um espelho partido
com uma chama de súbito reanimada na lareira
com um regresso velado de pássaros
frente ao olhar de uma mulher
que aguarda imóvel em um umbral.

(Extraído e traduzido de Jorge Teillier: Poemas Secretos. In: Anales de la Universidad de Chile, julio-septiembre de 1965). 


29 março 2017

As sequelas escravocratas

Eduardo, OsGêmeos e Dick Tracy nos baixios da praça Roosevelt

Nesta semana discutimos em sala de aula o capítulo As Raças e os Mitos do livro de Dante Moreira Leite, O Caráter Nacional Brasileiro, que sempre contribui para compreendermos mais a formação social e política de nosso país. Em especial, são abordados dois pensadores conservadores do início do século XX, Nina Rodrigues e Oliveira Viana, fortemente influenciados pelo que se denominava então de evolucionismo social, com um olhar pessimista para a nossa miscigenação.

O olhar racista de Nina Rodrigues para nossa sociedade analisava o negro como raça inferior, e dessa forma, a herança de nosso mestiçamento marcada pelo "pelo equilíbrio mental instável que acarreta", inferindo-se, conforme Moreira Leite, que o brasileiro seria um desequilibrado. De Oliveira Viana, a descrição social pouco ou nada tem de científico, onde enaltece os sentimentos de uma aristocracia rural do início de nossa colonização, "não são eles somente homens de cabedais, com hábitos de sociabilidade e luxo; são também espíritos do melhor quilate intelectual e da melhor cultura".

Moreira Leite desmonta passo a passo a construção dessa hipotética visão idílica de nossa sociedade; a esse respeito, vale a pena consultar as páginas de Tinhorão Ramos sobre o cotidiano tedioso e modorrento de nosso momento, mais animado nos espaços onde a festa e o batuque de negros escravos, quando permitida, se fazia presente. A aristocracia rural, para Oliveira Viana, constituía o "centro de polarização dos elementos arianos da nacionalidade", por certo aqui influenciado pelos ventos do fascismo europeu que sopravam vigorosos nos anos 1930. 

A discussão em aula torna-se muito oportuna pois assim identificamos de algum modo a linhagem do pensamento conservador, machista e ainda com fortes elementos escravocratas de nossa elite econômica, que promoveu o golpe institucional para assumir as rédeas políticas, ao modelo da Velha República, para não dizer do Segundo Império. Nina Rodrigues e Oliveira Viana são apenas alguns dos representantes desse pensamento arcaico, que como Euclides da Cunha, Silvio Romeiro e tantos outros intelectuais formadores de opinião, escoravam-se nas teses do embranquecimento como o caminho para a virtude moral e o desenvolvimento da nação.  

As marcas desse pensamento derivadas da superioridade biológica persistem nos dias presentes, em manifestações regulares pelas redes sociais, reproduzidas por quem apenas se inspira em reproduzir e causar impactos, sem mensurar os efeitos, como também por esse universo medíocre de pseudo-intelectuais que se arvoram em buscar ideias às suas palavras. No extremo desse conduto de presunções, a bancada ruralista do congresso não se cansa de revelar pequenos Oliveiras Vianas.

Ao fim e ao cabo, a imensa e complexa realidade do povo brasileiro, mestiço, pobre e trabalhador, descartado como gênese e fundamento do nosso processo histórico e social. Para a construção de pontos de vista mais abrangentes é que estão aí os coletivos e os movimentos sociais, e a eles não resta alternativa senão lutarem renhidamente, pois nenhuma contemplação terá desses das classes dominantes. E felizmente sucedem-se os interpretes intelectuais adictos à análise crítica de nossa sociedade, Caio Prado Jr., Moreira Leite, Gilberto Freyre, Milton Santos, Florestan Fernandes, Jessé Souza, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Manoel Bomfim e tantos outros, com os quais alimento-me e ofereço aos educandos. 

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Com regularidade bissexta tenho trabalhado com um texto muito oportuno, de Robert Pechmann, que discute o controle dos "vadios", os negros escravizados, em sua circulação pelo espaço urbano. A designação da vagabundagem, prevista como crime no Código Penal da colônia e do império, de algum modo ilustra a discussão acima, e incide diretamente em uma parcela sem direitos e arbitrariamente submetida da nossa sociedade. Destaco um trecho do texto de Pechmann, ligando-o ao vídeo Enquadro, um relato atual da realidade de nossas periferias urbanas.


Enquadro, reportagem de José Cícero da Silva, 2017
    
"Soltos no mundo, obrigados a perambular pela cidade à procura de sobrevivência, os 'vadios' são identificados na sua viração como desordeiros. Ninguém lhes perdoa a fluidez, mormente numa cidade escravista, cujo equilíbrio era conseguido, em grande parte, pela vigilância dos passos dos escravos. (...) Tidos como incapazes de educação e de princípios, os 'vadios' são vistos como tendo outra humanidade, representantes que são da 'anti-sociedade'."

(Robert Pechmann, Cidades estreitamente vigiadas, 2002).


20 março 2017

Um pouco mais com Cortázar





Sequências


Deixou de ler o relato no ponto onde um personagem deixava de ler o relato no lugar onde um personagem deixava de ler e se encaminhava à casa onde alguém que o esperava se havia posto a ler um relato para matar o tempo e chegava ao lugar onde um personagem deixava de ler e se encaminhava à casa onde alguém que o esperava se havia posto a ler um relato para matar o tempo.

(Traduzido do original em espanhol, Papeles Inesperados, Buenos Aires: Alfaguara, 2009).



16 março 2017

Dia Nacional de Paralisação e Mobilização


por volta das 19h,  milhares reunidos


Ontem, provavelmente a mais grandiosa manifestação contra o desgoverno golpista de Temer. Pudemos sentir na pele a concentração espetacular, vinda de todos os lados da cidade, articulada por diversos sindicatos e movimentos, em nossos deslocamentos ao longo da avenida Paulista. Ao contrário de tantas outras em que participamos, a aglomeração de manifestantes começou antes das 16 horas, horário programado, e prolongou-se bem depois da fala de Lula, que ocorreu quando já passavam das 19 horas; a desmobilização do ponto de encontro, diante do Masp, foi lenta e dificultosa para os dois lados da avenida, lembrando-me o público dos grandes clássicos no Morumbi, nos anos 1970, quando se ultrapassava facilmente 100 mil pessoas. 


a chegada dos manifestantes, vindos da praça da República

Desta vez, diferente das manifestações anteriores, contribuiu muito a enorme concentração dos professores na República, no início da tarde, e que se deslocaria para a Paulista. Repentinamente, um mar de gente representando diversos coletivos e movimentos pela educação transbordavam feito a água que agora chega ao agreste nordestino, pela transposição do São Francisco, gente de todas as cores, de todos os gestos, chegando para ficar. 


presença das  professoras  aguerridas, sem perder a ternura

Se havia pela manhã a expectativa de paralisação dos serviços de transporte, à tarde ela se verificou parcial, permitindo que a mobilização para o encontro ocorresse sem problemas. Ao contrário das vezes anteriores, não concorreu um clima pesado pela presença ostensiva da polícia militar; desta feita, ela mal foi percebida em alguns cantos da avenida, e mesmo  seus helicópteros não surgiram com seus rasantes, para incomodar a massa.


quando possível, o esboço do gesto socialista

Contribuiu para o sucesso do evento a presença de dois enormes carros de som, um da Frente Brasil Popular, atravessado entre o Masp e o Trianon,  e o que veio da República, da Apeoesp, que chegou literalmente estremecendo a avenida com o cântico Fora Temer na versão Carmina Burana. Espetacular e poderoso, que arregimentava com emoção as pessoas que iam caminhando.  O tempo ajudou, se não fez sol, também não choveu, e se não estava quente e abafado, também não esfriou, pudemos avançar em meio a encontros com amigos; às nossas avaliações sobre o espectro político; ao registro contínuo em fotos e vídeos do crescimento da mobilização.


presença de centrais sindicais, mas não só

O tempo passou e a avenida se coloriu em tons vermelhos, com muitos balões indicando os partidos, centrais e sindicatos presentes. Nenhuma presença da mídia corporativa, o que não causou surpresa, ao contrário, reforçou a certeza de que nossa luta não se limita à preservação dos direitos trabalhistas, ou ao enfrentamento do posicionamento neoliberal privatista desse desgoverno, mas a uma pauta indispensável, a democratização dos meios de comunicação, que assumiram  às caladas, ao longo desse interminável processo golpista, uma postura de apoio inequívoco às ações de Temer e seus lacaios (permito-me recuperar este termo).


um mar de gente, a perder de vista

Até porque é fato que os lacaios de Temer se reuniram de modo conspirativo para vencerem as eleições de 2014, tanto na esfera majoritária (governo), quanto na esfera legislativa (congresso), o que explica ao menos parcialmente a força e a amplitude do movimento golpista. Os políticos misóginos de Brasília articularam-se com o dinheiro da Fiesp e com a boutade das mídias patronais para  o assalto ao poder. Uma vez lá instalados, não dão respostas às demandas sociais que sejam continuidade das praticadas no governo Lula e Dilma, e o que é pior, vendem a preço de banana nosso patrimônio, ameaçando com essa reforma trabalhista estapafúrdia.


um  Lula mais  incisivo  e direto

Lula demorou, mas chegou e falou, curto e grosso. Acaba tendo uma importante representação na luta, nesse enfrentamento desigual contra todas essas instâncias dominantes que esmagam nossos direitos. Pode parecer contraditório, mas delegamos nossa esperança a um homem que acertou em muitos atos, mas também errou em tantos outros, dentre eles, não ter mantido a proximidade com o movimento sindical, não ter realizado profundamente as reformas necessárias, como a agrária e a dos meios de comunicação. Aliou-se a grupos da casa grande, na esperança de uma governabilidade sem turbulências, e quando a conta veio, ela foi brutal, e todos estamos pagando. 

A Síria também é aqui, não aquela da demolição das estruturas físicas e morais, mas a da demolição do estado social. Lula tem essa força de galvanizar mobilizações e esperanças; de outra parte, nas palavras de Antonio Cândido, ele teria a estatura de um radical, aquele que propõe transformações sem deixar de contemporizar. Talvez, e apenas um talvez, será oportuno que retome neste seu final de vida a grandeza da ousadia de seus primeiros dias, e que possa contribuir para a consolidação de uma esquerda verdadeiramente unida e mobilizada.



12 março 2017

Pablo Neruda e sua morte



O que me toca neste pequeno vídeo é o destemor. Sob todos os riscos, chilenos saem às ruas logo depois do golpe de estado, para prantear o poeta Pablo Neruda e diante de forte presença militar, caminham junto ao féretro e cantam a Internacional. A ameaça dos gorilas adere ao fatalismo das circunstâncias.

O ato de despedida se transforma em um franco desafio, será a derradeira manifestação pública em anos. A dor reveladora, insondável, exprime o sentimento de rupturas definitivas: não era apenas a morte do grande poeta, mas igualmente o fim de um projeto político único, o socialismo em plena democracia.


EXPLICO ALGUNAS COSAS
(Pablo Neruda)


PREGUNTARÉIS: Y dónde están las lilas?
Y la metafísica cubierta de amapolas?
Y la lluvia que a menudo golpeaba
sus palabras llenándolas
de agujeros y pájaros?


Os voy a contar todo lo que me pasa.

Yo vivía en un barrio
de Madrid, con campanas,
con relojes, con árboles.


Desde allí se veía
el rostro seco de Castilla
como un océano de cuero.
                                      Mi casa era llamada
la casa de las flores, porque por todas partes
estallaban geranios: era
una bella casa
con perros y chiquillos.
                                                        Raúl, te acuerdas?
Te acuerdas, Rafael?
                               Federico, te acuerdas
debajo de la tierra,
te acuerdas de mi casa con balcones en donde
la luz de junio ahogaba flores en tu boca?
                                                   Hermano, hermano!
Todo
eran grandes voces, sal de mercaderías,
aglomeraciones de pan palpitante,
mercados de mi barrio de Argüelles con su estatua
como un tintero pálido entre las merluzas:
el aceite llegaba a las cucharas,
un profundo latido
de pies y manos llenaba las calles,
metros, litros, esencia
aguda de la vida,
                        pescados hacinados,
contextura de techos con sol frío en el cual
la flecha se fatiga,
delirante marfil fino de las patatas,
tomates repetidos hasta el mar.


Y una mañana todo estaba ardiendo
y una mañana las hogueras
salían de la tierra
devorando seres,
y desde entonces fuego,
pólvora desde entonces,
y desde entonces sangre.
Bandidos con aviones y con moros,
bandidos con sortijas y duquesas,
bandidos con frailes negros bendiciendo
venían por el cielo a matar niños,
y por las calles la sangre de los niños

corría simplemente, como sangre de niños.

Chacales que el chacal rechazaría,
piedras que el cardo seco mordería escupiendo,
víboras que las víboras odiaran!


Frente a vosotros he visto la sangre
de España levantarse
para ahogaros en una sola ola
de orgullo y de cuchillos!


Generales
traidores:
mirad mi casa muerta,
mirad España rota:
pero de cada casa muerta sale metal ardiendo
en vez de flores,
pero de cada hueco de España
sale España,
pero de cada niño muerto sale un fusil con ojos,
pero de cada crimen nacen balas
que os hallarán un día el sitio
del corazón.

Preguntaréis por qué su poesía
no nos habla del sueño, de las hojas,
de los grandes volcanes de su país natal?


Venid a ver la sangre por las calles,
venid a ver
la sangre por las calles,
venid a ver 
la sangre

por las calles!


02 março 2017

#OcupaPaulista

A Poesia vinda do fundão da ZL, declamada no centro financeiro


Décimo quinto dia de #OcupaPaulista, dia de novas entregas de livros para o MTST. Retiro de minha pequena biblioteca os textos de geografia, de urbanismo, de literatura que poderão voltar a ser úteis na biblioteca do movimento. No crepúsculo do dia, mais uma jornada vencida e nos espaços da ocupação, o sentimento de se estar em um território livre. Em meio ao turbilhão de famas atarantados, que se movem na calçada ao ritmo dos relógios, os cronópios cantam e desafiam. Um ato simbólico certamente muito mais potente do que foi o encontro de Fidel com Malcolm X no Harlem, em 1960, pois o acampamento do MTST se estende em pleno centro financeiro da metrópole. Enquanto aguardam as negociações a se realizarem em Brasília, trabalham na melhoria da infraestrutura, na preparação das refeições, dos eventos poéticos e musicais, das reuniões internas, da recepção de convidados ilustres. Ainda assim, permanecem invisíveis para as instâncias do desgoverno golpista: a justiça, a mídia latifundiária, o Congresso, os aparelhos de segurança e mesmo para os pequenos intelectuais, 'os pensadores de lâmpadas", como diria Martí. Não importa, sob essa invisibilidade, organizam pacientemente os próximos passos.


A bandeira do MTST tremula na av. Paulista



15 fevereiro 2017

Sob o signo dos bancos

No setor onde prosperava obras econômicas e políticas, 
agora a miséria da autoajuda empresarial


Tive a oportunidade de consultar antigos arquivos de documentos de meu pai, do tempo em que era bancário. Deparei com alguns memorandos emitidos pelo setor de recursos humanos e rememorei a parte triste de minha infância, quando adentrava as agências em que ele trabalhava. Sobreveio o cheiro ocre de dinheiro, a profusão de mesas de fórmica branca e de empregados de camisa branca e gravata esbaforidos em meio a uma correria sem fim. Um verdadeiro espremedor de consciências, pois o que contava era a força de trabalho física, tudo sob o acompanhamento de contadores mesquinhos. 

Pois bem, os memorandos. Eram uns cinco ou seis, respostas a solicitações de férias de meu pai. O primeiro de 1960, o último de 1973, o mesmo estilo linguístico, a mesma resolução, provavelmente a mesma máquina de datilografia e o mesmo autômato a redigir. Em todos, a permissão para que meu pai gozasse de férias de tal a tal dia, desde que indicasse antecipadamente seu substituto e verificasse se o mesmo não possuía alguma pendência financeira no mercado! Controle e submissão. Como eram tristes aqueles textos, sem nenhuma inspiração, sem qualquer liberdade de expressão, cumpria-se a cartilha assim como nas agências, a correria era o produto da cartilha tayloriana. 

Na central do banco, em um bairro de Osasco denominado Cidade de Deus, na entrada do prédio administrativo havia um burrico de bronze, carregado de gravetos. A epígrafe embaixo, igualmente gravada em placa de bronze, dizia "Só o trabalho pode produzir riquezas". Esse burrico era para mim, uma criança e depois um adolescente, o sinônimo da perversidade bancária e, por consequência, da exploração do capital. Lembro do terror que ao final de cada ano abraçava a cada gerente de agência, e por extensão meu pai, pois era o tempo do acerto de contas, a conferência da produtividade ao longo do ano, e os que não atingiam as metas (estou falando dos anos 1960 e 1970!) eram "recolhidos", era essa a expressão. Ser um recolhido era a humilhação máxima que podia acontecer a um gerente, isso significava que o sujeito era chamado para trabalhar na central do banco, diretamente sob o controle do grande irmão, em uma mesinha de fórmica repleta de papéis, perdendo completamente a (mínima) autonomia de decisões.

Ser recolhido era o sinônimo do banco para o que se chamada de "reeducação" no estalinismo. Era o lado perverso do sistema. Ninguém saía impune dali, o melhor que podia acontecer era retornar a uma agência funcionalmente rebaixado, sem as "divisas", para um trabalho junto aos contínuos. A outra alternativa que podia acontecer era a demissão.  Meu pai sobreviveu nesse ambiente por longos 30 anos, e literalmente sobreviveu pois em três ocasiões escapou da morte certa, dentro das agências em que trabalhava. Enfim, não consigo imaginar como poderia desenvolver uma consciência crítica nesse trabalho esmagador, degenerativo da alma. Os memorandos mofados me fizeram relembrar como esse lugar de trabalho era vil e insalubre. 

Agora vejo os bancos saírem da administração e dos lucros de sua atividade financeira e expandir os tentáculos para outras áreas. Então surgem salas de espetáculo, salas de cinema, estações de rádio controladas por bancos, formatando suas estratégias mais ambiciosas. Eles voltam a se aproximar de mim com seus tentáculos infames. Também aquilo que um dia foi a maior livraria do Brasil, aqui na avenida Paulista, torna-se a passos largos em mero galpão de livros de autoajuda empresarial, depois de sua aquisição por um grande banco. Uma abundância de títulos descartáveis, como se o sistema quisesse nos "recolher". As tristes tumbas bancárias estão de volta, agora para agrilhoar as consciências de todos indistintamente.