17 setembro 2025

Das trevas, para um novo tempo


Arnaldo Antunes, show Novo Mundo


Como é triste ver tanto desconsolo junto. Mas chegará o dia, e não tenho a menor dúvida, de que toda essa balbúrdia política proclamada com tanta pompa e pouca substância pela direita no mundo será desmascarada, e seus cúmplices devorados pelo ocaso. Pelo menos por uma geração, ou duas, tal como ocorreu com o fascismo europeu dos anos 1930. Há, no final das contas, uma fragilidade humana que procura se travestir de heróis justiceiros e, com isso, pobremente convencer as pessoas de que agem de acordo com a justiça e a liberdade. E maltratam. E assassinam. Lançados uma vez mais ao proscênio das ações políticas, essas lideranças xenófobas reagem às demandas populares com sua habitual retórica verborrágica, que por um momento entusiasmam, para depois consubstanciarem o trágico. 

Como se o aprendizado histórico não tivesse mais efeito, e toda a tragédia precisasse ser revivida, com uma outra roupagem. Desta vez, nenhuma guerra mundial salvará a humanidade de tantas personagens lamentáveis; restará a ação da resistência de uma esquerda de distintas colorações que, em um trabalho difícil, persistente, assumirá para si e para o mundo a consolidação de bastiões democráticos, renitentes, consistentes, a rebater os malefícios socio-político-econômicos dessa safra de tiranos. Não faço a menor ideia de quanto isso dura, mas a farsa irá sucumbir diante das evidências. Estamos todos compelidos à luta de nosso fundamental de nosso tempo. 

E não há como medir esforços para romper a ignorância política, com o compromisso de restabelecer o convívio entre adversários (e não a produção de novos inimigos), a prática indispensável dos intensos, indispensáveis e verdadeiros embates políticos. 



02 setembro 2025

Sobre um prefácio



 

Um mundo de diferenças

 

Nunca silenciarás minhas melodias,

Porque sou o amante da terra,

O trovador do vento e da chuva.

Salem Jubran (1941-2011)

 

Quando F. me pediu para escrever o prefácio de seu romance, aceitei sem pensar duas vezes, ao acreditar que com a leitura, vivenciaria novas impressões dos espaços devastados da Gaza de nossos dias. Meses antes, já havia saído de uma incômoda experiência, definida pela infindável pesquisa a que me submeti sobre a cultura palestina, ao concluir depois de muitos anos minha peça Terra Devastada, cujos personagens transitam de uma realidade atormentada por bombas e proibições, à realidade etérea da vida após a morte. 

Perguntava-me, o que mais poderia apresentar o romance de F.? Pois foi essa a bela surpresa. Com a leitura, não contava deparar-me com a fantasia, com as paixões e angústias como reflexos de um mesmo espelho, a mover a história, a ilustrar as tensões subjetivas que escondem seus personagens tão humanos. Em meio a um espaço conflagrado, eis que emerge o valor dos sentimentos, fazendo o leitor a compartilhar sonhos e confissões. Os percalços estão nos momentos de lirismo de cada indivíduo tolhidos pelo genocídio em curso, com o jogo de vozes narrativas a expandir-se indefinido entre o tempo presente e o tempo passado, entre o tempo da realidade cotidiana e o tempo mítico, assim como o reflexo nos espelhos denota a dualidade entre o real e o imaginário.

A dor e o sofrimento pelo que acontece em Gaza, e mais especificamente, em Rafah, surge aqui e ali, no transbordamento das personagens, que se sucedem tal qual uma apresentação teatral, em que a luz da cenografia os trazem ao proscênio para mitigar suas aflições. E nada parece escapar ao escrutínio das emoções, e o mundo real a cercear o distanciamento que é lembrado na narrativa indireta, Raquel nutre em si raiva e indignação. Raiva e indignação pela dor das mulheres que veem os filhos explodindo pelos ares e pela dor dos filhos diante das mães desfazendo-se em sangue, ossos e lágrimas (...).

É no capítulo Montanha Mágica que sobrevém a fantasia, como uma necessidade para contribuir com os fatos históricos, a ideia de um casal fundador, que uma vez desaparecidos, retornariam com um exército de anjos para salvar Rafah dos fuzis e bombas. Não há qualquer incompatibilidade nessa mitologia, ainda mais se considerarmos o cul-de-sac em que os palestinos se encontram hoje, cercados e à beira de mais uma expulsão sionista. Como na poesia de Refaat Alareer, em que uma criança olha para os céus no aguardo de seu pai, desaparecido em um resplendor, e ao mirar um barrilzinho voando alto, imagina que ali existe um anjo trazendo de volta o amor e a esperança.

Há sempre a leveza na escrita de F., que enseja a leitura continuada. Os capítulos se sucedem em novas revelações, conectando-as com o já conhecido: a narrativa assim não nos deixa reféns do desconsolo; nas fronteiras de Rafah procura dar a tensão subjetiva da vida que nos é negada nos relatos jornalísticos. Assim, Emmanuel, Raquel, Ava, Cashemira, despontam com suas dúvidas, embrenhados em uma tormenta psicológica que estremece o ser, tal como as bombas de um inimigo invisível. Em um ambiente de turbulência sem fim, a destruição é simultânea e nada poupa, seja o mundo pessoal com seus afetos, seja o mundo coletivo com a força de uma cultura.



31 agosto 2025

Poesia Palestina



 

Se devo morrer


Se devo morrer,

você deve viver

para contar minha história

vender minhas coisas

comprar um pedaço de tecido

e uma corda,

(que seja branco com cauda negra)

para que uma criança, em algum lugar de Gaza,

enquanto olhe o céu nos olhos

esperando a seu pai que se foi em um resplendor -

e não se despediu de ninguém,

nem mesmo de sua carne,

nem de si mesmo -

veja o barrilzinho, meu barrilzinho que fizestes, voando alto

e pense por um momento que ali há um anjo

trazendo de volta o amor.

Se devo morrer

que traga esperança

que seja um conto.


(Rafaat Alareer, 1979 - assassinado em 06.12.2023)


Entre estrangeiros

(Gaza, 1951)

fragmentos


Pai!

Por favor, por Deus, diga-me

Iremos algum dia a Jaffa?

Sua preciosa imagem

segue flutuando diante de meus olhos.

Regressaremos a ela algum dia com orgulho, 

apesar desses tempos, com dignidade?

Diga-me, entrarei em minha casa?

Entrarei nela com meus sonhos?

E a encontrarei, e ela me encontrará?

Ouvirá meus passos?

Entrarei através deste coração

tão nostálgico, tão sedento?


Pai,

se tivesse, como os pássaros

asas para levar-me,

haveria voado com um desejo despreocupado

pela saudade de meu país.

Mas sou da terra;

a terra continua atando-me.


Vamos recuperá-lo,

retomemos este país

nunca aceitaremos um substituto,

nunca aceitaremos um preço por ele!


Nenhuma fome nos matará,

nenhuma pobreza nos esmagará,

a esperança prevalecerá

cada vez que a vingança convoque.

Paciência, filha minha, paciência.

Amanhã, a vitória estará de nosso lado.


(Harun Hashim Rasheed, 1927-2020)


(tradução livre do espanhol realizada por Marco Antonio Bin)



29 agosto 2025

Chalámov e outras rememorações


As narrativas de Chalámov


E aí estão mais uma vez as memórias de nossos atos, de nossas situações vividas, de nossos lamentos, de nossas não tantas, porém saudáveis alegrias. Cada qual as reporta à sua maneira, de Primo Levi, com que facilidade o homem se esquece de ser um homem, a Chalámov, lembre-se do principal: o campo é uma escola negativa para qualquer um (...) quanto a mim, decidi que dedicarei todo o resto da minha vida justamente a essa verdade. Claro que se trata aqui de recordações individuais que se tornam universais pela brutalidade humana, no trato com humanos. 

As histórias de Varlam Chalámov me seduzem em um aspecto simples, o espírito de sobrevivência onde é quase impossível sobreviver. E nos descreve como se dá o inverno, se há nevoeiro gelado, na rua faz quarenta graus abaixo de zero; se o ar da respiração sai com ruído, mas ainda não é difícil respirar, então, quarenta e cinco graus (...) abaixo de cinquenta e cinco graus o cuspe congela no ar". Boris Schnaidermann que faz o prefácio do livro, diz que o leitor deve ficar imerso em um grande cansaço espiritual, não basta a simples leitura. E é assim que ocorre, história após história, ao mesmo tempo que somos capturados pela narrativa de Chalámov, nos cansamos espiritualmente em deparar com tantas situações duras ao extremo para se contornar. 

Soljenitzin ao descrever Um dia na vida de Ivan Denissovitch, expõe o terrível de uma jornada em um dos gulags stalinistas, a amargura e o sofrimento que por sua vez, como nas obras anteriormente citadas, revelam a honestidade dos relatos, deixando o leitor de algum modo ciente pelas coisas reveladas e que tinham de ser ditas. 

Creio que assim ocorre com todas essas narrativas recordatórias, que aportam uma nova dimensão da intolerância humana, ultrapassa os muros desses campos e nos alcança tal qual uma lança no peito. Formas de tormentos humanos que graças à competência em se contar sobre a dor e a torpeza, esses escritores imprimem a ferro e fogo nas páginas de nossa civilização. 

Mas também se pode alimentar a memória considerando as passagens efêmeras que nos encantam. No conto Cartas, do meu recente livro Cenas que se diluem com o tempo, estão ali registrados, em sequência, a beleza das recordações alinhavadas nas cartas de um tal de Vincent ao irmão Theo; de um certo Severino Giovani a sua amada América Scarfó e de uma mulher anônima que reencontra, após décadas, o caderno contendo os poemas escritos a ela por seu amor. Lembranças passageiras que destaquei de outras lembranças apaixonantes e que designam, estas sim, o orgulho de nossa condição humana.



11 agosto 2025

A apresentação de Cenas...


Cenas que se diluem com o tempo, ed. Urutau


Será nesta terça-feira, dia 12, o lançamento de meu quarto livro de contos, Cenas que se diluem com o tempo, resultado de chamada feita pela editora Urutau. Junto ao prazer de lançar o livro publicamente, a satisfação de reencontrar pessoas que fazem parte de minha história, e que seguem de alguma forma próximas de mim. Tudo acaba sendo um privilégio, desde a possibilidade de redigir, preparar e lançar uma obra, a poder estar em contato com o carinho de tanta gente querida. Quem puder, cola lá!

Bar Balcão, Rua Dr. Melo Alves, 150, Consolação, das 18h às 21h. Um lugar muito bacana.

Grande abraço.  



08 agosto 2025

Hiroshima, por Tamiki Hara

 

Gaza, tal qual Hiroshima


Oitenta anos da hetatombe atômica de Hiroshima. Retomo o livro Flores de Verão de Tamiki Hara, um dos poucos sobreviventes, sua descrição límpida, serena, como se tudo não tivesse passado de um lamentável equívoco, ou algo muito previsível de acontecer e portanto, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. É uma narrativa dentre tantas que poderiam surgir, por toda a tragédia, Tamiki Hara consegue manter uma linha cronológica que de alguma forma situa o leitor diante de tanto horror. A cidade destruída, tal como aparece nas fotos aéreas, tiradas pela força aérea dos Estados Unidos, ocorreram com os escombros já frio. Mas na descrição de Hara, as ruínas estão escaldantes, muitos focos de incêndio e fumaça. O que existia deixou de existir, e essa constatação surgem de modo indireto, quando ele relata que pelo terreno plano, havia chegado a uma rua, ou que o bosque de bambus tinha sido derrubado. 

Talvez seja esse modo oblíquo de descrever que torne o livro fascinante, pois exige que o leitor interprete o que exatamente significava toda a destruição ao redor. No capítulo final, escrito anos mais tarde, é interessante ver as relações que Tamiki Hara cria ao se descrever, ao falar das coisas ao redor, na sucessão delicadamente opressora dos acontecimentos. "O que surge nos meus olhos, porém, é a imagem das pessoas em desalento a observar os trilhos. Sempre penso que perto deles vagueiam as sombras de pessoas com a vida devastada, atiradas num local de onde, ainda que lutem, não conseguem se desvencilhar".

Sobreviver ao ataque atômico exerce uma dor estranha, indescritível como o trágico evento, e permanente, que não se descola por um minuto da consciência de mundo. O sucesso de sua narrativa, a beleza das flores, a reorganização social, os raios de sol, tudo parece exercer uma beleza secundária, que não recompõe mais o modo de ser. E o modo de ser já não se define por "sou isso" ou "sou aquilo", de maneira concreta, como se a fragmentação da cidade só lhe permitisse ser as coisas volúveis de um sentimento passageiro. Assim, tudo é perceptível de modo suave, com um valor indispensável, uma rajada de vento, o aroma primaveril sussurrando poemas, pinturas e músicas, "Apenas o ardor da vida emite um súbito raio de luz, e a cotovia, tendo escapado aos limites humanos, se converte em estrela cadente". 

A tragédia criminosa de Hiroshima não deixa de pulsar no coração dos seres sensatos, assim como Gaza o faz em nossos dias.

 

29 julho 2025

As cenas do cotidiano






E por fim, chegaram! 

Uma bela partilha de livros que estarão presente no lançamento, em breve. Um livro que tive grande prazer em organizar, com seus textos abordando diversos gêneros, escritos ao longo dos últimos vinte anos. Estruturados em duas partes distintas, cada qual com o mesmo número de narrativas, a primeira expressa em uma proximidade mais acolhedora, e a segunda em um olhar mais árido, mais distante, os textos oferecem os afetos, as impulsividades, as penumbras de recortes cotidianos, que fazem diluir a força e as certezas dos sentimentos, o que faz da memória o derradeiro testemunho do relato. 

Para logo, o encontro com amigos leitores e com quem mais desejar se aproximar.



23 julho 2025

O fim, e as questões singelas




Como é difícil olhar vez ou outra para esse congresso e deparar com tantos imbecis eleitos se manifestando a favor de Trump! Mais difícil é imaginar que muitos desses tantos imbecis serão reeleitos na próxima eleição, ainda que trabalhem para o fim das políticas sociais. Um dos filhos do ex-presidente segue fazendo campanha contra o Brasil, lá nos EUA. Trump, ansioso e pouco informado, tascou um tarifaço de 50% nos produtos brasileiros, que passa a valer a partir de 1. de agosto. Se a diplomacia brasileira não for bem-sucedida nas negociações em curso (há negociações?) Lula deverá aplicar a política de reciprocidade, e taxará em 50% os produtos estadunidenses. Mas o absurdo é ver o filhote babaca mais essa bancada bolsonarista dando toda a corda para Trump. Ela não tem escrúpulos, desfralda bandeiras com o nome do presidente estadunidense em pleno congresso! O neoliberalismo cacarejando sem qualquer noção de como proceder, em um mundo cada vez menos dependente da economia dos EUA e expandindo as relações multilaterais. Os Brics ganham musculatura e isso nos enche de esperança, é o que nos resta, é o que se contrapõe ao que Yanis Varoufakis chama de tecnofeudalismo, onde as plataformas digitais atuam como feudos nas nuvens. Em outras palavras, elas não produzem nada, exceto reunir produtores e consumidores, para que o dono desse feudo na nuvem possa extrair uma renda, que é como a renda da terra no feudalismo, mas agora é uma renda da nuvem baseada em capital. Aí estão os Musks, os Bezos, os Galperins, a fazer fortuna em nome da precarização do trabalho. Concentração de poder e riqueza, à expensa da imensa maioria desafortunada.

As falidas lideranças neoliberais fomentam a exploração do capital em novas vestes: sujeitam-se aos ditames desses novos superpoderosos, em nome da extinção do Estado. Não conseguirão, e não porque o socialismo prevalecerá, mas porque a tirania tecnológica será pesada demais para os anseios irrefreáveis desses autocratas, meros pistoleiros do entardecer, condenados desde sempre a prestar contas à justiça social. Essa justiça social pressupõe uma resistência que abarca os seres humanos determinados a lutar pelo bem-estar do outro. Como disse Antonio Cândido, o grande homem é aquele que descobre quais são as necessidades fundamentais do seu tempo e consagra a elas a sua vida. Os indivíduos livres e responsáveis estão alinhados a esta consigna.

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Estes dias têm sido de leituras fragmentadas e pouca escritura. Visitei mamãe no domingo, pudemos conversar ao longo da tarde sobre a viagem dela com minha irmã até Buganvília. Confesso que me despertaram o desejo de lá regressar, ainda que o cenário seja desolador. Com a morte de minha tia Romina, sobra apenas a tia Neli, em meio a uma cidade transformada. Segundo minha irmã, não há mais nada que lembre a velha Buganvília. Ou nós estamos velhos e a cidade se remoçou, modernizando-se. Não há mais casas de madeira, não há mais ruas sem asfalto ou de paralelepípedos. Muitos dos pontos de referência desapareceram, como a loja de meu avô, ou o clube da cidade. Meu bom tio Rosario, com a morte de sua esposa, ficou solitário na farmácia que sempre teve, na avenida Brasil. Meu romance é um derradeiro chamado àquela cidade que conheci, e minha descrição se remete a um tempo que não mais existe. Talvez agora valha a pena reler o livro e depois retornar a Buganvília.