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| Arnaldo Antunes, show Novo Mundo |
17 setembro 2025
Das trevas, para um novo tempo
02 setembro 2025
Sobre um prefácio
Um mundo de
diferenças
Nunca silenciarás minhas
melodias,
Porque sou o amante da terra,
O trovador do
vento e da chuva.
Salem Jubran (1941-2011)
Quando F. me pediu
para escrever o prefácio de seu romance, aceitei
sem pensar duas vezes, ao acreditar que com a leitura, vivenciaria novas
impressões dos espaços devastados da Gaza de nossos dias. Meses antes, já havia
saído de uma incômoda experiência, definida pela infindável pesquisa a que me
submeti sobre a cultura palestina, ao concluir depois de muitos anos minha
peça Terra Devastada, cujos personagens transitam de uma realidade
atormentada por bombas e proibições, à realidade etérea da vida após a
morte.
Perguntava-me, o que mais
poderia apresentar o romance de F.? Pois foi essa a bela surpresa. Com a
leitura, não contava deparar-me com a fantasia, com as paixões e angústias como
reflexos de um mesmo espelho, a mover a história, a ilustrar as tensões
subjetivas que escondem seus personagens tão humanos. Em meio a um espaço
conflagrado, eis que emerge o valor dos sentimentos, fazendo o leitor a
compartilhar sonhos e confissões. Os percalços estão nos momentos de lirismo de
cada indivíduo tolhidos pelo genocídio em curso, com o jogo de vozes narrativas
a expandir-se indefinido entre o tempo presente e o tempo passado, entre o
tempo da realidade cotidiana e o tempo mítico, assim como o reflexo nos
espelhos denota a dualidade entre o real e o imaginário.
A dor e o sofrimento pelo
que acontece em Gaza, e mais especificamente, em Rafah, surge aqui e ali, no
transbordamento das personagens, que se sucedem tal qual uma apresentação
teatral, em que a luz da cenografia os trazem ao proscênio para mitigar suas
aflições. E nada parece escapar ao escrutínio das emoções, e o mundo real a
cercear o distanciamento que é lembrado na narrativa indireta, Raquel
nutre em si raiva e indignação. Raiva e indignação pela dor das mulheres que
veem os filhos explodindo pelos ares e pela dor dos filhos diante das mães
desfazendo-se em sangue, ossos e lágrimas (...).
É no capítulo Montanha
Mágica que sobrevém a fantasia, como uma necessidade para contribuir
com os fatos históricos, a ideia de um casal fundador, que uma vez
desaparecidos, retornariam com um exército de anjos para salvar Rafah
dos fuzis e bombas. Não há qualquer incompatibilidade nessa mitologia,
ainda mais se considerarmos o cul-de-sac em que os palestinos
se encontram hoje, cercados e à beira de mais uma expulsão sionista. Como na
poesia de Refaat Alareer, em que uma criança olha para os céus no aguardo de
seu pai, desaparecido em um resplendor, e ao mirar um barrilzinho voando alto,
imagina que ali existe um anjo trazendo de volta o amor e a esperança.
Há sempre a leveza na escrita de F., que enseja a leitura continuada. Os capítulos se sucedem em novas revelações, conectando-as com o já conhecido: a narrativa assim não nos deixa reféns do desconsolo; nas fronteiras de Rafah procura dar a tensão subjetiva da vida que nos é negada nos relatos jornalísticos. Assim, Emmanuel, Raquel, Ava, Cashemira, despontam com suas dúvidas, embrenhados em uma tormenta psicológica que estremece o ser, tal como as bombas de um inimigo invisível. Em um ambiente de turbulência sem fim, a destruição é simultânea e nada poupa, seja o mundo pessoal com seus afetos, seja o mundo coletivo com a força de uma cultura.
31 agosto 2025
Poesia Palestina
Se devo morrer
Se devo morrer,
você deve viver
para contar minha história
vender minhas coisas
comprar um pedaço de tecido
e uma corda,
(que seja branco com cauda negra)
para que uma criança, em algum lugar de Gaza,
enquanto olhe o céu nos olhos
esperando a seu pai que se foi em um resplendor -
e não se despediu de ninguém,
nem mesmo de sua carne,
nem de si mesmo -
veja o barrilzinho, meu barrilzinho que fizestes, voando alto
e pense por um momento que ali há um anjo
trazendo de volta o amor.
Se devo morrer
que traga esperança
que seja um conto.
(Rafaat Alareer, 1979 - assassinado em 06.12.2023)
Entre estrangeiros
(Gaza, 1951)
fragmentos
Pai!
Por favor, por Deus, diga-me
Iremos algum dia a Jaffa?
Sua preciosa imagem
segue flutuando diante de meus olhos.
Regressaremos a ela algum dia com orgulho,
apesar desses tempos, com dignidade?
Diga-me, entrarei em minha casa?
Entrarei nela com meus sonhos?
E a encontrarei, e ela me encontrará?
Ouvirá meus passos?
Entrarei através deste coração
tão nostálgico, tão sedento?
Pai,
se tivesse, como os pássaros
asas para levar-me,
haveria voado com um desejo despreocupado
pela saudade de meu país.
Mas sou da terra;
a terra continua atando-me.
Vamos recuperá-lo,
retomemos este país
nunca aceitaremos um substituto,
nunca aceitaremos um preço por ele!
Nenhuma fome nos matará,
nenhuma pobreza nos esmagará,
a esperança prevalecerá
cada vez que a vingança convoque.
Paciência, filha minha, paciência.
Amanhã, a vitória estará de nosso lado.
(Harun Hashim Rasheed, 1927-2020)
(tradução livre do espanhol realizada por Marco Antonio Bin)
29 agosto 2025
Chalámov e outras rememorações
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| As narrativas de Chalámov |
11 agosto 2025
A apresentação de Cenas...
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| Cenas que se diluem com o tempo, ed. Urutau |
Será nesta terça-feira, dia 12, o lançamento de meu quarto livro de contos, Cenas que se diluem com o tempo, resultado de chamada feita pela editora Urutau. Junto ao prazer de lançar o livro publicamente, a satisfação de reencontrar pessoas que fazem parte de minha história, e que seguem de alguma forma próximas de mim. Tudo acaba sendo um privilégio, desde a possibilidade de redigir, preparar e lançar uma obra, a poder estar em contato com o carinho de tanta gente querida. Quem puder, cola lá!
Bar Balcão, Rua Dr. Melo Alves, 150, Consolação, das 18h às 21h. Um lugar muito bacana.
Grande abraço.
08 agosto 2025
Hiroshima, por Tamiki Hara
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| Gaza, tal qual Hiroshima |
29 julho 2025
As cenas do cotidiano
23 julho 2025
O fim, e as questões singelas
Como é difícil olhar vez ou outra para esse congresso e deparar com tantos imbecis eleitos se manifestando a favor de Trump! Mais difícil é imaginar que muitos desses tantos imbecis serão reeleitos na próxima eleição, ainda que trabalhem para o fim das políticas sociais. Um dos filhos do ex-presidente segue fazendo campanha contra o Brasil, lá nos EUA. Trump, ansioso e pouco informado, tascou um tarifaço de 50% nos produtos brasileiros, que passa a valer a partir de 1. de agosto. Se a diplomacia brasileira não for bem-sucedida nas negociações em curso (há negociações?) Lula deverá aplicar a política de reciprocidade, e taxará em 50% os produtos estadunidenses. Mas o absurdo é ver o filhote babaca mais essa bancada bolsonarista dando toda a corda para Trump. Ela não tem escrúpulos, desfralda bandeiras com o nome do presidente estadunidense em pleno congresso! O neoliberalismo cacarejando sem qualquer noção de como proceder, em um mundo cada vez menos dependente da economia dos EUA e expandindo as relações multilaterais. Os Brics ganham musculatura e isso nos enche de esperança, é o que nos resta, é o que se contrapõe ao que Yanis Varoufakis chama de tecnofeudalismo, onde as plataformas digitais atuam como feudos nas nuvens. Em outras palavras, elas não produzem nada, exceto reunir produtores e consumidores, para que o dono desse feudo na nuvem possa extrair uma renda, que é como a renda da terra no feudalismo, mas agora é uma renda da nuvem baseada em capital. Aí estão os Musks, os Bezos, os Galperins, a fazer fortuna em nome da precarização do trabalho. Concentração de poder e riqueza, à expensa da imensa maioria desafortunada.
As falidas lideranças neoliberais fomentam a exploração do capital em novas vestes: sujeitam-se aos ditames desses novos superpoderosos, em nome da extinção do Estado. Não conseguirão, e não porque o socialismo prevalecerá, mas porque a tirania tecnológica será pesada demais para os anseios irrefreáveis desses autocratas, meros pistoleiros do entardecer, condenados desde sempre a prestar contas à justiça social. Essa justiça social pressupõe uma resistência que abarca os seres humanos determinados a lutar pelo bem-estar do outro. Como disse Antonio Cândido, o grande homem é aquele que descobre quais são as necessidades fundamentais do seu tempo e consagra a elas a sua vida. Os indivíduos livres e responsáveis estão alinhados a esta consigna.
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Estes dias têm sido de leituras fragmentadas e pouca escritura. Visitei mamãe no domingo, pudemos conversar ao longo da tarde sobre a viagem dela com minha irmã até Buganvília. Confesso que me despertaram o desejo de lá regressar, ainda que o cenário seja desolador. Com a morte de minha tia Romina, sobra apenas a tia Neli, em meio a uma cidade transformada. Segundo minha irmã, não há mais nada que lembre a velha Buganvília. Ou nós estamos velhos e a cidade se remoçou, modernizando-se. Não há mais casas de madeira, não há mais ruas sem asfalto ou de paralelepípedos. Muitos dos pontos de referência desapareceram, como a loja de meu avô, ou o clube da cidade. Meu bom tio Rosario, com a morte de sua esposa, ficou solitário na farmácia que sempre teve, na avenida Brasil. Meu romance é um derradeiro chamado àquela cidade que conheci, e minha descrição se remete a um tempo que não mais existe. Talvez agora valha a pena reler o livro e depois retornar a Buganvília.







