17 março 2018
Retrato de um sonho
28 fevereiro 2018
O fim e o recomeço
Simultaneamente avancei na expectativa de que as mídias digitais alternativas chegavam para democratizar a informação. Escrevi empolgados textos acadêmicos projetando uma democratização das mídias via coletivos e movimentos sociais, e penso hoje que me antecipei exageradamente ao processo histórico.
O pior foi ver, ao longo desses anos, a esperança de independência política e econômica ao sul do rio Bravo dissipar-se como água na água. Nem autonomia política, nem desenvolvimento nacionalista, nem tampouco o fim da "velha mídia", como passamos a nos referir ao condomínio carcomido das famílias midiáticas.
As coisas falharam de modo desavergonhado, pois políticos da pior laia, os neoliberais de cartilha, os agentes do mercado financeiro, a burguesia ignara, a mídia corporativa-publicitária, assumiram a canalhice de fazer andar o desmantelamento do Estado do bem-estar social. Mais além de Keynes, Aristóteles e mesmo Maquiavel ficariam chocados com a destruição do conceito do bem viver.
Seja como for, a imagem que ilustra esta postagem é a prova cabal da desfaçatez desses atores que, juntos, e por um punhado de dólares, desestabilizam o Estado democrático de direito, fazendo prevalecer os seus interesses, formatados sabe-se lá em quais escritórios ideológicos. Uma coisa sei, essa corja não teria competência por si só para elaborar um projeto tão brutal e acabado.
São sombrias as perspectivas, muito mais do que as que se apresentavam no pós-golpe de 1964. Agora, a impressão é que não sobrará pedra sobre pedra ao final dos mandatos, golpistas ou não, após a vigência desse governo a serviço do Capital e das ordens forâneas. Venderão nosso patrimônio, dilapidarão nossos direitos, farão prevalecer uma ordem miserável e o que é grave, nos informarão disseminando a publicidade de seus interesses. Não sobrará além de um rastro de desconsolo e humilhação.
Nossa luta, em um governo de salvação nacional, há de começar pela denúncia dos traidores lesa-pátria, e prosseguirá com a democratização à força dessa mídia-corporativa-publicitária, que uma vez não tendo mais preocupações com o jornalismo - as verbas publicitárias governamentais são cada vez mais polpudas - já se desvincularam de qualquer responsabilidade ética com a notícia produzida.
08 fevereiro 2018
Formas de sucumbir a um golpe institucional
São percepções incompletas, que apreendo ao longo desses meses infindáveis de martírio contra as classes trabalhadoras brasileiras, e transcrevo sem a preocupação de desenvolver um texto linear, com a profundidade acadêmica necessária que por certo virá mais tarde. Opto por chamar os partidos da coalizão deposta, impedida, de nacionalista, que me parece mais adequada do que 'partidos de esquerda'. E considero, sem meias palavras, os atores que assumiram o poder como golpistas - e que se mostram habilmente entreguistas do nosso patrimônio. Nada mais do que uma livre e pesarosa reflexão. Vamos às impressões.
3) Os políticos da plataforma golpista representam a face mais sinistra desse ventriloquismo, ao se exporem cotidianamente como correia de transmissão e expressar a abjeção de caráter. Boa parte da articulação parlamentar do golpe é constituída por delinquentes que respondem processos por peculato, e até segunda ordem, são apropriados para avançar o processo de desmonte social.
7) Portanto não é exagero se afirmar que o desenvolvimento do golpismo pós-moderno se define, antes de mais nada, pela sociopatia característica de seus atores, cujos atos, burlescos ou não, confirmam uma outra ruptura infame na tradição política: desqualificar a sobriedade do poder.
24 janeiro 2018
Olga Berggolts
18 janeiro 2018
O desprezível mundo bancário
17 janeiro 2018
Poesia 14
trânsfugas no circo
a trama que atribulou o trapezista
trapaceou
trepidou
tripudiou
trociscou
trucidou
trogloditas
(fev/87)
13 janeiro 2018
Los pasos todavía perdidos
23 dezembro 2017
Descrições natalinas
Ouço lá fora, do outro lado da Augusta, o que me parece uma guitarra espanhola. Os acordes melodiosos, quase hipnóticos, é que me prendem aqui, e por isso escolho escrever. Ao meu lado, dois autores do século de ouro da literatura espanhola, livros que adquiri nestes dias: El Criticón, de Baltasar Gracián, e Antologia Poética, de Francisco Quevedo. Há algumas semanas, adquiri Don Quijote, do mais afamado e referendado Miguel de Cervantes. Ainda me falta Calderón de La Barca, que devo buscar na próxima semana.
Presentes que me concedo, em edições belíssimas, com farta edición (introdução sobre os autores e a obra). Um mais surpreendente que o outro no estilo narrativo, e assim encontrarei, tenho de encontrar, o tempo necessário para deliciar-me nessas páginas de sonhos e reflexão. Esse barroco espanhol, que por certo torna-se o caudal das letras dos escritores hispano-americanos que sobrevêm, mormente os da literatura maravilhosa, Alejo Carpentier, Manuel Scorza, Juan Carlos Onetti, Lezama Lima, Carlos Fuentes e tantos outros.
São as conexões de meu tempo presente, as harpas que ambientam minhas origens, meu passado que se faz futuro. A guitarra silenciou, remeto-me a um trecho de Garcián que já havia observado antes, Mirá, los sábios son pocos, no hay cuatro em uma ciudad, !que digo cuatro!, ni dos em todo um reino. Los ignorantes son los muchos, los necios, son los infinitos; y assí, el que los tuviere a ellos de su parte, esse será señor de um mundo enterro. Está lá, em Crisi Quinta, tão lindo quanto insofismável! E um trecho do famoso Letrilla satírica, de Quevedo, Madre, yo al oro me humillo/ él es mi amante y mi amado/pues, de puro enamorado/de contino ando andarillo/ que pues, doblón o sensillo/hace todo cuanto quiero/ poderoso caballero es don Dinero. (...)
Alegro-me imenso em dispor dessas obras, quero sondá-las, sem uma sequência lógica, apenas submetido ao apreço e à delicadeza das palavras, sem pressa para nada. A guitarra silenciou, sim, e parece de modo definitivo, porém me propiciou algo da inspiração e do esforço para firmar essas serenas impressões de Natal.
Mas a notícia grosseira da semana, medíocre, estapafúrdia, foi o final do semestre no campo da educação. Não pelos alunos ou pelas minhas obrigações, mas pelo que se passou com alguns de meus colegas, demitidos de modo vil, por razões insensatas, que se prendem à necessidade do lucro. E teremos de conviver com esse espetáculo dantesco, proporcionado por meros líderes contábeis, que nada conhecem da alma humana, e talvez pouco da razão financeira.
Vejo-os todos os dias aqui ao redor, circulando pelas ruas, tomando seus cafés,
sempre em pequenos grupos, chefetes ou nem isso metidos em seus rigorosos
ternos escuros, as falas contidas às resoluções de mercado. Não fazem a menor
ideia. Chega de dizer que cumprem ordens, essa compreensão caiu quando os
comandantes de campos de extermínio foram julgados e quando Hanna Arendt expôs
o mais insidioso deles, Adolf Eichman. São os representantes diuturnos do
horror neoliberal, prestativos em suas mesas de compra e venda.







