15 fevereiro 2017

Sob o signo dos bancos

No setor onde prosperava obras econômicas e políticas, 
agora a miséria da autoajuda empresarial


Tive a oportunidade de consultar antigos arquivos de documentos de meu pai, do tempo em que era bancário. Deparei com alguns memorandos emitidos pelo setor de recursos humanos e rememorei a parte triste de minha infância, quando adentrava as agências em que ele trabalhava. Sobreveio o cheiro ocre de dinheiro, a profusão de mesas de fórmica branca e de empregados de camisa branca e gravata esbaforidos em meio a uma correria sem fim. Um verdadeiro espremedor de consciências, pois o que contava era a força de trabalho física, tudo sob o acompanhamento de contadores mesquinhos. 

Pois bem, os memorandos. Eram uns cinco ou seis, respostas a solicitações de férias de meu pai. O primeiro de 1960, o último de 1973, o mesmo estilo linguístico, a mesma resolução, provavelmente a mesma máquina de datilografia e o mesmo autômato a redigir. Em todos, a permissão para que meu pai gozasse de férias de tal a tal dia, desde que indicasse antecipadamente seu substituto e verificasse se o mesmo não possuía alguma pendência financeira no mercado! Controle e submissão. Como eram tristes aqueles textos, sem nenhuma inspiração, sem qualquer liberdade de expressão, cumpria-se a cartilha assim como nas agências, a correria era o produto da cartilha tayloriana. 

Na central do banco, em um bairro de Osasco denominado Cidade de Deus, na entrada do prédio administrativo havia um burrico de bronze, carregado de gravetos. A epígrafe embaixo, igualmente gravada em placa de bronze, dizia "Só o trabalho pode produzir riquezas". Esse burrico era para mim, uma criança e depois um adolescente, o sinônimo da perversidade bancária e, por consequência, da exploração do capital. Lembro do terror que ao final de cada ano abraçava a cada gerente de agência, e por extensão meu pai, pois era o tempo do acerto de contas, a conferência da produtividade ao longo do ano, e os que não atingiam as metas (estou falando dos anos 1960 e 1970!) eram "recolhidos", era essa a expressão. Ser um recolhido era a humilhação máxima que podia acontecer a um gerente, isso significava que o sujeito era chamado para trabalhar na central do banco, diretamente sob o controle do grande irmão, em uma mesinha de fórmica repleta de papéis, perdendo completamente a (mínima) autonomia de decisões.

Ser recolhido era o sinônimo do banco para o que se chamada de "reeducação" no estalinismo. Era o lado perverso do sistema. Ninguém saía impune dali, o melhor que podia acontecer era retornar a uma agência funcionalmente rebaixado, sem as "divisas", para um trabalho junto aos contínuos. A outra alternativa que podia acontecer era a demissão.  Meu pai sobreviveu nesse ambiente por longos 30 anos, e literalmente sobreviveu pois em três ocasiões escapou da morte certa, dentro das agências em que trabalhava. Enfim, não consigo imaginar como poderia desenvolver uma consciência crítica nesse trabalho esmagador, degenerativo da alma. Os memorandos mofados me fizeram relembrar como esse lugar de trabalho era vil e insalubre. 

Agora vejo os bancos saírem da administração e dos lucros de sua atividade financeira e expandir os tentáculos para outras áreas. Então surgem salas de espetáculo, salas de cinema, estações de rádio controladas por bancos, formatando suas estratégias mais ambiciosas. Eles voltam a se aproximar de mim com seus tentáculos infames. Também aquilo que um dia foi a maior livraria do Brasil, aqui na avenida Paulista, torna-se a passos largos em mero galpão de livros de autoajuda empresarial, depois de sua aquisição por um grande banco. Uma abundância de títulos descartáveis, como se o sistema quisesse nos "recolher". As tristes tumbas bancárias estão de volta, agora para agrilhoar as consciências de todos indistintamente. 


Sobre a decomposição moral


O que mais me chama a atenção nesse processo golpista é o sentimento de esperança que muitos alimentam em relação às instituições que apoiaram o golpe, vale dizer, a mídia corporativa, o judiciário, o empresariado e uma penca de parlamentares. Salvo pequenos entreveros aqui e ali, elas apoiarão o poder executivo em sua canalhice moral e em sua incompetência administrativa pelo menos até 2018.

Já não se trata de resistir, mas de enfrentar! Concordo com a análise do professor Peter Pal Pelbart, “a revolução é da ordem da cólera e da alegria, não da angústia e do tédio”. E para começar, temos a consciência dos fatos e os muros cinzentos para rabiscarmos nossas palavras.

Só não podemos esquecer, como diz o professor Pelbart, que "é preciso destituir a corja de bandidos que sequestrou o Estado (e) quebrar o monopólio das corporações que os sustentam". A pior coisa será aceitar pacificamente a paz cemiterial que nos impõem, sem o menor escrúpulo.

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Leio outro texto revelador, de Aldo Fornazieri, sobre o que chama de 'decomposição moral das instituições'. Há uma corrosão completa começando pelo interior das instituições - mídia, judiciário, legislativo, empresariado, que se espraia para o restante da população, de maneira sórdida e irrefreável, verdadeira terra-arrasada que nos conduz a um Estado com funções vegetativas e a uma população bestializada. Em suma, mera sombra da nação que fomos.

O que sobrevive desse caos metodológico é sem dúvida o poder financeiro, que parece alimentar de maneira frívola o que se denomina como oportunidades de negócios. Parece ser o fim da estratégia de convencimento, do argumento sedutor, o objetivo torna-se uma ação de guerra, negociar com artimanhas canhestras e disseminar os exemplos antiéticos. 

Como se os bancos, via patéticos agentes de terno e gravata, deliberadamente promovessem um vírus degenerativo que, uma vez absorvido pelo cérebro, entorpecesse a capacidade crítica, tornando-nos dóceis ao mundo paralelo de paz e esperança, construído pelo discurso midiático.

Perdemos nossa representação política - talvez resultante de outro vírus inoculado pelo poder financeiro - e a percepção política dos fatos. O movimento golpista, desde seu início, insinuou seu propósito de nos transformar em outra Síria, talvez seja o desígnio do poder financeiro, parodiar Che e criar uma, duas, três, muitas Sírias pelo mundo, em nome do instinto de exploração do capital.


12 fevereiro 2017

Memorabilia



Na foto acima há um conjunto de informações formais que nos permite aprofundar um pouco mais em sua composição. A acreditar na data colocada à mão, no canto inferior esquerdo, ela completa 80 anos, e o que temos é um grupo de crianças, oito ao todo, enfileirado em um quintal de terra batida, alguns mais bem trajados que os outros, com um casarão pobre de tijolos e telhado de barro cozido ao fundo, em um lugar impreciso. 

Nem todos estampam um sorriso nas faces, o que não significa que os mais sérios estejam descontentes, e a considerar a sombra que imprimem no solo, estão no meio do dia. O que aparenta ser o mais velho da turma segura uma bola e expressa um gestual dinâmico, como se estivesse prestes a caminhar em direção ao fotógrafo. O outro que quebra o imobilismo formal da pose é o primeiro à esquerda, como se brincasse com o momento. Como última observação objetiva, a informação extra-diegética do ano anotado à mão, o mais jovem da turma ultrapassa 80 anos de idade.

Agora as informações que transcendem o registro formal. São crianças de classe média baixa; os jovens mais bem vestidos são da mesma família, os três da esquerda, mais o menino com a bola. O pequeno no centro e a única menina, a quarta da esquerda para a direita também. Estariam mais informais pois, suponho, a foto é um acontecimento forjado para celebrar os descendentes homens da casa, e o pequeno mesmo sendo menino, não dispunha de roupas apropriadas para o evento solene.

A foto foi tirada na cidade de Birigui, noroeste de São Paulo, em um bairro denominado Patrimônio Silvares, que na época ficava afastado do centro. Creio que não a vi mais de duas ou três vezes ao longo da vida, o que me permitiu fazer o reconhecimento dos personagens sem precisão concludente. A dar fé à minha lembrança, pelo menos dois estão mortos, a menina, Mafalda, que chegou aos oitenta anos, e o menino da bola, Irineu, que não chegou aos sessenta. E pelo menos quatro estão vivos e saudáveis, os dois primeiros à esquerda, Alcir e Edson, que na foto tinham quatro e seis anos, e o pequerrucho, Ourival, com dois anos. Estes e mais aqueles, todos irmãos. 

E completa a escala dos jovens vivos o terceiro à esquerda, de olhar mais compenetrado, Lairo, como seu primo Edson, tinha seis anos. Na verdade Lairo é um cognome familiar, o qual ninguém, nem o próprio, nunca soube definir a origem. Passou a infância e a adolescência no convívio cotidiano com seus primos, nessa mesma casa, em razão da ausência do pai e da morte prematura da mãe. Fora do círculo familiar foi conhecido pelo sobrenome, Bin, um bom jogador de futebol, advogado trabalhista, um homem justo e generoso, meu pai.


09 fevereiro 2017

Sobre o ganido do ouriço


'Las manos de la protesta', Oswaldo Guayasamin


Quando assaltaram o poder, cheguei a comentar aos mais próximos que fariam tudo o que lhes aprouvesse para impor suas míseras vontades. Não me surpreende, portanto, a calhordice dessa gente, mas lamento profundamente o tempo que nossa sociedade levará para recompor minimamente o estrago político e social. 

Incorporam a mediocridade imediata, disponível nos lugares-comuns que justificam a cordialidade brasileira e repudiam um projeto de nação, porque seu objetivo é justamente demolir o estado responsável pelas políticas econômicas e pela proteção social. Assumem um neoliberalismo esdrúxulo, já rejeitado nas principais economias industriais e se esforçam para preencher com arengas assépticas, enxutas e arcaicas o dístico positivista "ordem e progresso". 

Por muitas razões, penso que governam para ninguém, assim como a mídia corporativa se faz sem leitores e espectadores, as forças produtivas descartam as leis trabalhistas e as instâncias da justiça distorcem a letra da lei. 

Exalam palavras para serem esquecidas e novos padrões para serem assimilados, de onde se pode depreender que a farsa produzida e alimentada por esse governo golpista se desenvolve em um proscênio mambembe, a oferecer esquetes sombrios com a pretensa dimensão das feiticeiras de Macbeth em suas loas, "dobrem e redobrem a lida e o trabalho; o fogo cante e o caldeirão borbulhe". 


Entre informar e distorcer


Mais do mesmo: destaco aqui a cobertura jornalística de uma emissora argentina sobre a morte de Marisa Letícia, esposa de Lula. A diversidade informativa contida na rápida matéria produzida pela C5N, um canal voltado para notícias, só é possível na Argentina graças ao espírito da Ley de Medios, que embora bastante mutilada atualmente, ampliou a participação de agentes sociais nas comunicações no espectro magnético.

No Brasil, lamentavelmente as castas midiáticas controladas por algumas famílias e hoje, poderosamente castradoras dos fatos sociais, persistem em distorcer a notícia em favor do status quo golpista. Significa dizer que as contradições na montagem do discurso transformam os meios corporativos em meras agências de publicidade do poder usurpador.  

Retorno ao tema da concentração midiática, quando já imaginava farto em analisar o assunto. As surpresas desse jornalismo serviçal parecem não se esgotar e a Argentina, que passa pela mesma distopia do processo neoliberal, é capaz de mostrar vozes autônomas na construção do relato jornalístico. Estamos longe de dispor desse contraponto de ideias em nossa mídia; estamos longe de acompanhar a reflexão de jornalistas da estirpe de um Victor Hugo Morales, ou de um Pedro Brieger, no horário nobre.


31 janeiro 2017

Entre serviçais e indômitos

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O Levante, Diego Rivera


Pouco antes do segundo turno das eleições presidenciais em 1989, creio que na segunda semana de dezembro, Lula avançava nas pesquisas sobre o "candidato dos marajás" Collor. Passávamos por momentos de incertezas, e ao mesmo tempo de forte engajamento, de um lado uma esquerda que descendia do velho PTB, bancada por homens e mulheres de meia idade, testemunhas de um tempo de utopias e de um trágico golpe, que se juntavam com jovens de uma nova esquerda, não mais marxista em razão da queda do muro um mês antes, mas de espírito combativo e inspirada nas greves operárias do início da década, incorporadas pelo partido que ganhava espaço, o PT.

Mas de outro lado, o velho e o novo conservadorismo, enrustidos na retórica de um jovem político alagoano, sem história política, mas a taboa de salvação para a manutenção do poder pelas elites. Uma luta sem quartel, nas ruas, nos ambientes de trabalho, nos debates televisivos, um Brasil rachado em torno de duas propostas claras de governança e absolutamente incompatíveis, esse era o cenário. No primeiro turno, Collor colhera em torno de 27% dos votos, enquanto Lula ganhava por uma cabeça de Brizola, com pouco mais de 15%. Esperava-se, como de fato ocorreu, a aliança entre as duas candidaturas, o que definitivamente equilibrava o pleito. 


Restava saber para onde correriam os demais 40%, e no nosso cálculo, bastava que candidatos como Covas, do PSDB, Roberto Freire, ainda um confiável comunista do velho PCB, convocassem seus eleitores para, juntamente com um punhado de votantes mais ao centro, decretassem a vitória eleitoral das esquerdas, fato inédito no Brasil. 


Pois bem, em algum momento ao longo dessa refrega, saio para almoçar na Paulista e, solitário, sigo para um café que já não mais existe no Center 3. No balcão, encontro para minha alegria a atriz Lélia Abramo, uma das fortes referências das esquerdas, me aproximo de modo decisivo e pergunto se ela acreditava que Collor poderia vencer. Ela olhou e me viu como um jovem provocador revelando fina ironia e reagiu vigorosamente, dizendo apenas "não se atreva a brincar comigo", afastando-se após terminar rapidamente seu café.


Confesso que foi uma das grandes frustrações políticas que guardei por muitos anos. Não aceitava ter sido confundido pela velha dama do teatro como um "collorido", e muito menos ter ouvido palavras tão duras. Foram muitos anos de incompreensão por aquele gesto e jamais pude reencontrá-la para esclarecer o mal entendido.


Os anos se passaram e, bem, envelheci, vi Lula ganhar e ganhar, e depois Dilma ganhar e ganhar, mas também vi todo o edifício de um governo popular, já não tão de esquerda, perder para um novo golpe. E desse golpe surgiram os movimentos provocadores de uma direita que estava no armário e assumir um discurso de violência institucional. Vi e ouvi a ignorância dos argumentos estilhaçarem o bom senso, e das sobras calcinadas do debate civilizatório, caminharmos para a intolerância política. E chegamos a este governo que não vale um tostão furado, corrupto até a medula, sem qualquer projeto além de destroçar conquistas sociais.


Tornamo-nos a passos largos uma nação de segunda categoria, fortemente dependente do capitalismo central, acumulando alto índice de desemprego, perdas trabalhistas, cortes na produção científica, privatização de nossos recursos naturais e por aí afora. O torpor às vezes me alcança e confesso, em todas as vezes que vou a um café, na hora do almoço, torço para que um desavisado qualquer não se aproxime com algum comentário político enaltecendo esse governo golpista, ou denegrindo o governo caído, pois não saberia conter minha vigorosa reação, antes de terminar meu café.         


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Persisto na crença de que é necessário denunciar as profundas incongruências desse governo golpista,  que hoje completa seu quinto mês de governança, mas que podemos agregar mais cinco pela ocupação não efetiva. Não há vislumbre de resistência organizada, creio que as últimas passeatas consistentes, com dez ou vinte mil pessoas nas ruas, se deram no inverno passado. A passividade é mais pelo desgaste dos dois últimos anos, mais o fato de que o fracasso institucional do golpe não atingiu de jeito as classes trabalhadoras, ou a média burguesia. Penso que só haverá alguma retomada de mobilização quando o caldo entornado for compreendido como perda irreversível. 

Retomo as leituras marxistas, os pensadores da teoria da dependência, movimentos históricos de luta, não consigo captar neste momento a energia necessária na sociedade para abraçarmos um enfrentamento político, que recomponha o estado do bem-estar social minimamente. Fica-se na expectativa, na fria expectativa, de que alguma novidade na malfadada operação lava-jato desconstrua o que sobrou desse governo ilegítimo, uma bobagem, pois os acertos permanecem estruturalmente intactos. Ainda que um ou outro político golpista tenha sido detido, isso não passa do pequeno preço previsto para a consolidação do processo. 

Não creio no discurso de que a direita tenha se estabelecido e, a cada dia, aumentado sua influência social. Ela sempre existiu, e se hoje dispõe de um bolsonaro da vida para catalizar suas fobias,  não me parece que proporcionalmente seja mais numerosos que, por exemplo, em 1937 ou 1964. Acredito mais na aceitação passiva de um transe advindo do profundo desgaste que as mídias corporativas, com o jornalismo de guerra, promoveram ao longo de 13 longos anos! Agora que as bestas feras tomaram o poder, que o policiamento ostensivo arreganha seus dentes e pisoteia a torto e direito, que a justiça não se manifesta, que os empresários exploram enfaticamente a ideia do empreendedorismo, tudo sob o silêncio permissivo midiático, fica difícil uma resposta contundente da sociedade.

Mas não se pense que o jogo está decidido. Pelo menos não acredito nisso, e ainda que se passe um punhado de anos, haverá um conjunto de respostas que fará inicialmente sangrar e depois detonar a iniciativa desses podres poderes. O movimento golpista não passa de uma jornada de lutas de UFC, onde a única e pobre atração é a violência desmedida. Em outras palavras, a narrativa procura enaltecer técnicas da brutalidade que ferem não só o corpo, mas o que resta do derrotado. Não se conquista audiência com a estética da violência; não se cria ordem e progresso com desemprego e repressão policial. Da mesma forma não se faz políticas públicas sob o signo do muro, que vemos emergir com potência para dividir e separar.

Assim, a desigualdade social aprofunda-se em nosso país, sob os tons cinzentos da gestão neoliberal que, na busca por seu caminho, desconstrói todos os até aqui edificados, muitos dos quais a um pesado custo histórico. Não se eliminam conquistas sociais de uma hora para outra, anunciando o mundo postiço do self made man.  Não há narrativa midiática que possa abrandar ou iludir o infortúnio da falta de cidadania, em algum momento isso se revelará tão fútil, que fará despontar uma força oposta ao torpor, e aí, bem, eu quero estar vivo para participar da rebelião.



17 janeiro 2017

A continuidade dos dias




O mais dramático é constatar que os poucos do lado direito promovem as mais sedutoras narrativas para os muitos do lado esquerdo, convencendo-os da divisão e fazendo-os crer que um dia poderão merecer o outro lado.
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A propósito do tema sugerido pela ilustração, segue abaixo meu texto "O Espaço Segregado e as Culturas das margens em São Paulo", que é parte de minha tese de doutorado, 2009, e foi apresentado nas X Jornadas de Sociologia da UBA, Buenos Aires, 2013 (conforme postagem de 04.07.2013). 

Com modificações, o texto será publicado em coletânea titulada Desigualdade Urbana, organizada pela Profa. Dra. Maura Veras, pela editora EDUC.

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(...)
Perdendo paulatinamente as condições para a autoconstrução (menos renda, terrenos mais valorizados), a população mais pobre é expulsa para os extremos da cidade (ou para a região metropolitana), sendo levada a morar em favelas ou cortiços. Ainda que haja um deslocamento das classes de alta renda para o que Villaça denomina de quadrante sudoeste, seus enclaves fortificados muitas vezes se estabelecem em áreas cujo entorno é ocupado por população de baixa renda. Dessa forma, as áreas que integram o quadrante sudoeste apenas confirmam que a segregação contenha maior concentração de ricos em relação a outras partes da cidade, ainda que não constituam a maioria. Um exemplo é a favela de Paraisópolis, um enclave de renda baixa no valorizado bairro do Morumbi. Sua localização “propicia uma oferta maior de emprego para os seus habitantes, (sendo possível notar) antes do sol amanhecer, um contingente considerável de pessoas dirigindo-se aos condomínios de luxo. São babás, empregadas domésticas, motoristas e zeladores” (...)[1].
Para Villaça, a estruturação interna do espaço urbano “se processa sob o domínio de forças que representam os interesses de consumo (condições de vida) das camadas de mais alta renda”, sendo que “tal estruturação se dá sob a ação do conflito de classes em torno das vantagens e desvantagens do espaço urbano” (VILLAÇA, 2001, p. 328). Todas as vantagens da mobilidade intraurbana são garantidos por uma rede de vias de acesso apropriadas ao automóvel (vide, por exemplo, o túnel sob o Ibirapuera e a ponte estaiada, sobre o rio Pinheiros) além da grande disponibilidade de bens e serviços (restaurantes, hospitais, escolas etc. Villaça relata em seu livro a concentração de dentistas no bairro do Itaim, proporcionalmente maior que a média da cidade). Ou seja, a classe dominante dispõe das condições privilegiadas de deslocamento, permitindo que ela mantenha “perto de si seu comércio, seus serviços e o centro que reúne os equipamentos de comando da sociedade” (op.cit., p. 329). 
Temos um cenário constituído, em que as contradições e os paradoxos sociais se superpõem. As distâncias entre o centro classe-média e as periferias pobres, separação espacial que “tornava seus encontros pouco frequentes” (CALDEIRA, 2000, p. 231), lá pelos anos 1960 e princípios dos 70, intensificou os contatos, aprofundando as tramas sociais, fazendo com que “as histórias se cruzem e se entrecruzem na dinâmica dos espaços e territórios” (TELLES e CABANNES, 2006, p. 79). Em outras palavras, as periferias – e torna-se necessário chamá-la assim no plural, em decorrência de sua presença pulverizada no espaço urbano – não se encontram mais contidas nas definições binárias dos anos 70, sendo necessário analisarmos suas mazelas em uma realidade pautada pela dinâmica dos circuitos sociais da pós-modernidade, pela velocidade da vida cotidiana reproduzida constantemente nos veículos de comunicação, projetando novos desejos, criando novos referenciais simbólicos, construindo novos padrões estéticos. A cidade ilegal não deixa de crescer, e seus atores envolvem-se nas práticas da vivência cotidiana com outros atores sociais, dentro de um jogo tenso e intrincado, que passa pelo legal e ilegal, pelo formal e informal, pelo lícito e ilícito, numa constante disputa pelo espaço urbano (ibid., p. 80).
No documentário “100% Favela”, acompanhamos o processo de organização de um evento de hip-hop, do ponto de vista de um grupo de rap – o Negredo – que toma para si a árdua negociação em seus mínimos detalhes, como escolha da área, a data mais oportuna, a logística para deslocar equipamentos de luz e som, além dos grupos de rap, o diálogo com os diversos atores sociais envolvidos, da licença junto ao poder público à permissão com o tráfico local, passando pela segurança (feita previamente pela polícia militar e no dia do show pelos próprios organizadores) e pela conversa com os moradores da rua, tudo em um delicado movimento de uma dedicada ação de ocupação do espaço público, abrindo possibilidades para a confraternização social aberta a todos, mas envolvendo diretamente os moradores da favela Godoy, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. A trama dessa construção de cidadania é registrada do início ao fim, com depoimentos dos rappers participantes, satisfeitos por realizarem um ato 100% na favela, ou, nos territórios da precariedade social. Diz Ylsão, do Negredo: “(...) A minha origem é a favela, não adianta, não tem como eu mudar, não tem como eu fugir (...) Quando eu vou pro lado de lá, que eu vejo aquele silêncio à noite, eu quero vir embora”. Ylsão reproduz quase com as mesmas palavras o que pensa Mano Brown, e o que certamente pensa Ferréz, Sérgio Vaz, Allan da Rosa, Cocão, Binho e tantos outros poetas das periferias: a realidade marginal das periferias é o seu lugar.  
(...) 



[1] D´Andrea, Pablo Tiarajú, A favela de Paraisópolis, in Divercidade, Revista Eletrônica do Centro de Estudos da Metrópole, junho/2005.


31 dezembro 2016

Terapia de choque e lawfare




O que a "oposição moderada" síria, financiada por interesses externos, produziu em Alepo nestes cinco anos de guerra. Algo se desprende nas dolorosas imagens que nos chega, a impossibilidade de acreditar em "rebeldes" preocupados com os destinos da nação síria. Tamanha destruição só poderia ser concebida em uma ação voltada para a destruição, por grupos mercenários muito bem armados.

É como se a tal "primavera" devesse se estabelecer a todo custo, guiado por um conjunto difuso de milicianos a serviço de diversas crenças e senhores, orientados por uma narrativa que propunha a democracia tal como idealizam as potências centrais do capitalismo. E uma vez diante de insuperável resistência, a única oferta disponível fosse a ruína como castigo merecido.

Em outras palavras: é imprescindível questionar o que se convenciona chamar de 'primavera árabe', esse influxo de destruição continuada onde nações como Síria, Líbia e atualmente o Iêmen, são deliberadamente devastadas em sua estrutura sócio-política-econômica, com terríveis efeitos no longo processo histórico e cultural. Tudo para que sejam reconfiguradas segundos a terapia de choque do capitalismo.

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O sentido ideológico dessa destruição física da Síria, cuja resistência ao terrorismo armado aprofunda o cenário de desconsolo, encontra similaridade nas transformações que ocorrem no último ano tanto no Brasil como na Argentina. Tomo em especial o caso do Brasil, onde a conspirata iniciada com o rito do golpe institucional se prolonga com efeitos em diversos setores de nossa sociedade.

Os interesses geopolíticos estadunidenses encontram guarida em instituições internas, como o ministério público, a imprensa corporativa, a Fiesp e os bancos, e no Congresso, ou seja, respectivamente, o poder jurídico, comunicacional, econômico-financeiro e político. Em fina articulação, colocaram um governo eleito democraticamente abandonado na sarjeta e agora procedem as mudanças estruturais.

Operam segundo o lawfare onde, atacando os adversários do sistema, se promove o desmonte do Estado social, submetido a uma onda de fortes privatizações. Em um primeiro momento e também posteriormente, se tem a impressão de que atores públicos assumem o papel de agentes da destruição, formulando propostas - não projetos - de descaracterização da carta magna, eliminando direitos sociais e instaurando privilégios cartoriais.

As expectativas são nebulosas, o que não elimina a disposição para o enfrentamento político. Ou seja, à sociedade civil não bastará apenas estar atenta aos acontecimentos, mas agir de modo decisivo contra esse golpismo disseminado, que inserindo-se nas frestas da ignorância política, promete nos fazer recuar em nosso Estado democrático de direito décadas a fio.

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Esta é a quingentésima postagem deste blog, uma saborosa conquista! Não tinha o propósito de que viesse a lume justamente no último dia de 2016, sabia que seria em algum momento de dezembro, não hoje. Seja como for, considero importante lembrar alguns temas que, desde o início, estiveram presentes neste espaço de reflexão: bem-estar social, luta política, ação cultural, mídia democrática, mídia golpista, indignação.

O desenrolar dos acontecimentos deste ano, em especial os do segundo semestre, fizeram com que retomasse mais regularmente este espaço, ainda que para registrar umas poucas linhas de inquietação. Termino o ano estimulado em prosseguir por aqui, escrevendo da maneira que for sobre essas inquietações, que cada vez mais ganham ares de indignação combativa e menos de fria reflexão.

Um ótimo Ano 2017 a todos!