31 janeiro 2017

Entre serviçais e indômitos

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O Levante, Diego Rivera

Pouco antes do segundo turno das eleições presidenciais em 1989, creio que na segunda semana de dezembro, Lula avançava nas pesquisas sobre o "candidato dos marajás" Collor. Passávamos por momentos de incertezas, e ao mesmo tempo de forte engajamento, de um lado uma esquerda que descendia do velho PTB, bancada por homens e mulheres de meia idade, testemunhas de um tempo de utopias e de um trágico golpe, que se juntavam com jovens de uma nova esquerda, não mais marxista em razão da queda do muro um mês antes, mas de espírito combativo e inspirada nas greves operárias do início da década, incorporadas pelo partido que ganhava espaço, o PT.

Mas de outro lado, o velho e o novo conservadorismo, enrustidos na retórica de um jovem político alagoano, sem história política, mas a taboa de salvação para a manutenção do poder pelas elites. Uma luta sem quartel, nas ruas, nos ambientes de trabalho, nos debates televisivos, um Brasil rachado em torno de duas propostas claras de governança e absolutamente incompatíveis, esse era o cenário. No primeiro turno, Collor colhera em torno de 27% dos votos, enquanto Lula ganhava por uma cabeça de Brizola, com pouco mais de 15%. Esperava-se, como de fato ocorreu, a aliança entre as duas candidaturas, o que definitivamente equilibrava o pleito. 


Restava saber para onde correriam os demais 40%, e no nosso cálculo, bastava que candidatos como Covas, do PSDB, Roberto Freire, ainda um confiável comunista do velho PCB, convocassem seus eleitores para, juntamente com um punhado de votantes mais ao centro, decretassem a vitória eleitoral das esquerdas, fato inédito no Brasil. 


Pois bem, em algum momento ao longo dessa refrega, saio para almoçar na Paulista e, solitário, sigo para um café que já não mais existe no Center 3. No balcão, encontro para minha alegria a atriz Lélia Abramo, uma das fortes referências das esquerdas, me aproximo de modo decisivo e pergunto se ela acreditava que Collor poderia vencer. Ela olhou e me viu como um jovem provocador revelando fina ironia e reagiu vigorosamente, dizendo apenas "não se atreva a brincar comigo", afastando-se após terminar rapidamente seu café.


Confesso que foi uma das grandes frustrações políticas que guardei por muitos anos. Não aceitava ter sido confundido pela velha dama do teatro como um "collorido", e muito menos ter ouvido palavras tão duras. Foram muitos anos de incompreensão por aquele gesto e jamais pude reencontrá-la para esclarecer o mal entendido.


Os anos se passaram e, bem, envelheci, vi Lula ganhar e ganhar, e depois Dilma ganhar e ganhar, mas também vi todo o edifício de um governo popular, já não tão de esquerda, perder para um novo golpe. E desse golpe surgiram os movimentos provocadores de uma direita que estava no armário e assumir um discurso de violência institucional. Vi e ouvi a ignorância dos argumentos estilhaçarem o bom senso, e das sobras calcinadas do debate civilizatório, caminharmos para a intolerância política. E chegamos a este governo que não vale um tostão furado, corrupto até a medula, sem qualquer projeto além de destroçar conquistas sociais.


Tornamo-nos a passos largos uma nação de segunda categoria, fortemente dependente do capitalismo central, acumulando alto índice de desemprego, perdas trabalhistas, cortes na produção científica, privatização de nossos recursos naturais e por aí afora. O torpor às vezes me alcança e confesso, em todas as vezes que vou a um café, na hora do almoço, torço para que um desavisado qualquer não se aproxime com algum comentário político enaltecendo esse governo golpista, ou denegrindo o governo caído, pois não saberia conter minha vigorosa reação, antes de terminar meu café.         



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Persisto na crença de que é necessário denunciar as profundas incongruências desse governo golpista,  que hoje completa seu quinto mês de governança, mas que podemos agregar mais cinco pela ocupação não efetiva. Não há vislumbre de resistência organizada, creio que as últimas passeatas consistentes, com dez ou vinte mil pessoas nas ruas, se deram no inverno passado. A passividade é mais pelo desgaste dos dois últimos anos, mais o fato de que o fracasso institucional do golpe não atingiu de jeito as classes trabalhadoras, ou a média burguesia. Penso que só haverá alguma retomada de mobilização quando o caldo entornado for compreendido como perda irreversível. 

Retomo as leituras marxistas, os pensadores da teoria da dependência, movimentos históricos de luta, não consigo captar neste momento a energia necessária na sociedade para abraçarmos um enfrentamento político, que recomponha o estado do bem-estar social minimamente. Fica-se na expectativa, na fria expectativa, de que alguma novidade na malfadada operação lava-jato desconstrua o que sobrou desse governo ilegítimo, uma bobagem, pois os acertos permanecem estruturalmente intactos. Ainda que um ou outro político golpista tenha sido detido, isso não passa do pequeno preço previsto para a consolidação do processo. 

Não creio no discurso de que a direita tenha se estabelecido e, a cada dia, aumentado sua influência social. Ela sempre existiu, e se hoje dispõe de um bolsonaro da vida para catalizar suas fobias,  não me parece que proporcionalmente seja mais numerosos que, por exemplo, em 1937 ou 1964. Acredito mais na aceitação passiva de um transe advindo do profundo desgaste que as mídias corporativas, com o jornalismo de guerra, promoveram ao longo de 13 longos anos! Agora que as bestas feras tomaram o poder, que o policiamento ostensivo arreganha seus dentes e pisoteia a torto e direito, que a justiça não se manifesta, que os empresários exploram enfaticamente a ideia do empreendedorismo, tudo sob o silêncio permissivo midiático, fica difícil uma resposta contundente da sociedade.

Mas não se pense que o jogo está decidido. Pelo menos não acredito nisso, e ainda que se passe um punhado de anos, haverá um conjunto de respostas que fará inicialmente sangrar e depois detonar a iniciativa desses podres poderes. O movimento golpista não passa de uma jornada de lutas de UFC, onde a única e pobre atração é a violência desmedida. Em outras palavras, a narrativa procura enaltecer técnicas da brutalidade que ferem não só o corpo, mas o que resta do derrotado. Não se conquista audiência com a estética da violência; não se cria ordem e progresso com desemprego e repressão policial. Da mesma forma não se faz políticas públicas sob o signo do muro, que vemos emergir com potência para dividir e separar.

Assim, a desigualdade social aprofunda-se em nosso país, sob os tons cinzentos da gestão neoliberal que, na busca por seu caminho, desconstrói todos os até aqui edificados, muitos dos quais a um pesado custo histórico. Não se eliminam conquistas sociais de uma hora para outra, anunciando o mundo postiço do self made man.  Não há narrativa midiática que possa abrandar ou iludir o infortúnio da falta de cidadania, em algum momento isso se revelará tão fútil, que fará despontar uma força oposta ao torpor, e aí, bem, eu quero estar vivo para participar da rebelião.


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