17 dezembro 2016

As dimensões do inusitado




Acabo de concluir um texto que me trouxe muito prazer em escrever, que exigiu pelo menos três meses de pesquisas e escrituras, As dimensões do inusitado - do maravilhoso barroco ao maravilhoso encantado*, e que deverá fazer parte do livro a ser publicado pelo grupo de pesquisa Mnemon, sobre cosplay e outras teatralidades juvenis, organizado pela Mônica Nunes.

O artigo divide-se em duas partes, a primeira discute a narrativa latino-americana como elemento indispensável para a compreensão da história de Nuestra Pátria e do presente como projeto para o futuro, tomando por base a cosmogonia barroca do realismo maravilhoso de Carpentier.

Na segunda parte, destaco o maravilhoso encantado proporcionado pela leitura e representação de Tolkien, a partir das etnografias que o grupo fez junto a eventos revivalistas (vitorianos), medievalistas e retro-futuristas (steamers). Se na primeira parte temos a magia mobilizada para a transformação política, na segunda temos a magia como entretenimento.

No final, a despeito do grande esforço em construir esse painel fragmentado, senti especial prazer em destacar um pensamento tão envolvente que começa em nossa literatura latino-americana e se projeta nos jovens secundaristas, como herdeiros dessa pulsão telúrica fomentada pelo nosso barroco, além de retomar as falas dos jovens que se deliciam com a recriação estética e comportamental na prática das culturas midiatizadas, como os steampunks e os medievalistas.

Abaixo, apresento um pequeno trecho do trabalho. 

(...)
A eleição criativa, plena de simbiose e mestiçagem, fende os entraves impostos pela submissão do sujeito colonizado e possibilita a inserção no tempo mítico, “o prazer do gozo intenso, diferenciado, que rompe com o tempo cronológico e previsível de cada dia, e pelo encontro com outros ‘encantados’ que também fogem da solidão” (PAZ, 2006: p. 190). O relato da cosmogonia latino-americana que se reconfigura desde os primórdios da conquista ibérica ganha seu ritmo, suas cores, seus pontos de vista e se fundem na narrativa do real maravilhoso, tão conectada com o insólito do cotidiano. A cosmogonia barroca apresenta-se menos como um corpo de doutrinas do que a própria condição para o relato maravilhoso, não se conter na mera apreensão dos códigos da memória, mas a partir da pulsão criadora, inventar os códigos do fantástico.

Nesse sentido, para Carpentier, a magia vivenciada em cada canto e em cada momento de sua passagem no Haiti representavam a metonímia do continente americano, consubstanciando um projeto literário onde o gesto político promove uma qualidade essencialista que engloba todo o continente, definida pela fé e pelo milagre. No prefácio de sua novela “O Reino deste Mundo”, Carpentier faz uma breve definição do real maravilhoso enquanto narrativa necessariamente ungida “por toda uma mitologia, acompanhada de hinos mágicos, conservados por todo um povo (...)” e dessa forma, nada mais natural que toda a intensidade do real maravilhoso se manifestasse em sua visita ao Haiti. Em outras palavras, “o artista que não tem a mesma fé que alimenta os habitantes da América Latina, que não crê no milagre e na magia, não poderá captar a complexa realidade do continente, nem seu inesgotável caudal de mitologias” (SOLDÁN, 2008: p. 34).

Essa fé, essa magia perpassam as fecundas mestiçagens que dão a cor, a beleza, a intensidade do relato maravilhoso, que perpassam por exemplo as crônicas testemunhais da opressão colonial de Huamán Poma[1], ou o diário sobre o massacre dos jagunços de Canudos descrito por Euclides da Cunha, cujo relato da resistência sertaneja mobiliza o respeito do autor, “Sejamos justos – há alguma coisa de grande e solene nessa coragem estoica e incoercível, no heroísmo soberano e forte dos nossos rudes patrícios transviados e cada vez mais acredito que a mais bela vitória, a conquista real consistirá no incorporá-los, amanhã, em breve, definitivamente, à nossa existência política” (CUNHA, 2013, p.108).
(...)



[1] Conforme Carlos Araníbar, Huamán Poma foi um contestador e andarilho filho dos Andes, que viveu no século XVI e expressava os males da invasão espanhola em imagens e palavras, “emparelha texto-figura e como cara e coroa de uma velha medalha, nos oferece duas versões paralelas: desenhos para o analfabeto, letras para quem sabe ler” (ARANÍBAR, 2015, p. 9).
* N.A. - O texto foi renomeado na revisão gráfica e ficou De Carpentier a Tolkien: do maravilhoso barroco ao maravilhoso encantado.


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Também ontem, em minha página do facebook, republiquei um trecho de Pedro Páramo, depois de quatro anos. Tinha acabado de fazer a leitura, quando, ainda tomado pela beleza do texto, destaquei um pequeno trecho que reproduzo abaixo.

"E sua alma? Onde você acha que ela foi?
Deve estar vagando pela terra como tantas outras, procurando viventes que rezem por ela. Talvez me odeie pelos maus tratos que lhe dei, mas isso não me preocupa mais. Descansei do vício dos seus remorsos. Ela me amargurava até o pouco que eu comia e tornava as minhas noites insuportáveis; enchendo-as de pensamentos inquietos, com figuras de condenados e outras coisas assim. Quando me sentei para morrer, ela implorou que eu me levantasse e continuasse arrastando a vida, como se ainda esperasse um milagre que me limpasse das culpas. Não fiz nem sequer uma tentativa: 'Aqui termina o caminho', disse ela. 'Já não tenho forças para mais'. E abri a boca para que fosse embora. E ela foi. Senti quando caiu nas minhas mãos o filete de sangue com que estava amarrada ao meu coração".

(Pedro Páramo, de Juan Rulfo)



28 novembro 2016

Fidel encontra Asturias

Triunfo da Revolução, Diego Rivera 


"A impressão dos bairros pobres àquela hora da noite era de infinita solidão, de uma miséria suja com restos de abandono oriental, selada pelo fatalismo religioso que fazia dela o que era por vontade de Deus. As saídas de água arrastavam a lua ao rés do chão, e a água de beber corria pelos encanamentos contando as horas sem fim de um povo que se acreditava condenado à escravidão e ao vício".

(O Senhor Presidente, por Miguel Ángel Asturias)


Tenho a felicidade de encontrar uma nova edição em português deste autor maravilhoso, que nos abraça com os matizes do barroco latino-americano. Como grande escritor, participou do primeiro governo democrático popular de nossa América, de Jacobo Árbenz, deposto brutalmente pela United Fruit e pela CIA, em 1954. As mesmas insipientes acusações utilizadas mais tarde contra João Goulart, Juan Bosch, Juan José Torres, Salvador Allende: reforma agrária, nacionalização dos meios de produção e prejuízo dos interesses econômicos estadunidenses.

As coisas se juntam em um mosaico febril e lacerado, como a narrativa de O Senhor Presidente: pois anteontem foi a morte de Fidel Castro, chamado por aqui de ditador. Vejo o que a Revolução Cubana fez e o que a Revolução Guatemalteca foi impedida de fazer; a dignidade e a altivez presente em um povo, a mesma dignidade e altivez arrancadas aos desígnios do outro.


15 novembro 2016

Despovoar pela miséria



Houve um tempo em que me empenhei na luta pela denúncia do jornalismo esgoto, ou, mais conhecido na Argentina, jornalismo de guerra. Como disse aqui há algumas semanas, este blog praticamente começou com postagens questionando a grande mídia patronal. 

Mas também como disse, já não insisto na proposta desse debate, porque não faz mais sentido. Não há razão para lamentar esse 'jornalismo' nascido dos golpes baixos murdoquianos, aqui se aprofundou em sua função desinformativa, está ferido de morte. Não informa, não é criativo, não inspira confiança, tem medo do debate, é parcial no jogo dos interesses corporativos.

Quanto aos sabujos que o alimentam, o fim os apanhará em meio à fina ironia de Lima Barreto, "para fazer o país feliz, precisamos despovoá-lo pela miséria".


14 novembro 2016

O Almirante Negro


Resultado de imagem para a revolta da chibata


Tão bonito e intrigante conhecer mais uma das histórias negadas em nossa escola "comunista", sobre este marujo indômito, João Cândido, o "Almirante Negro", e sua liderança contra os maus-tratos na marinha.

O jornalista Edmar Morel lançou Revolta da Chibata em 1959, sob o governo democrático de Juscelino Kubitschek, e para ele João Cândido foi o "herói da ralé", termo que descreve um estrato social retomado em importante obra contemporânea pelo sociólogo Jessé Souza (Ralé Brasileira).

Sobre João Cândido, vale uma descrição de Morel que soa muito atual: "O Congresso Nacional e o governo, incapazes de uma reação ante o poderio de fogo do Minas Gerais, que comandava a esquadra sublevada, em troca da magnitude do negro admirável que deixou de arrasar a Capital Federal, anistiou o herói para, em seguida, num ato de felonia, tentar assassiná-lo no fundo de uma masmorra da era medieval".

Num momento de indigência política patrocinada por uma canalha golpista, vale a pena retomarmos o valor da luta política de nossas autênticas referências históricas.  



03 novembro 2016

Não conseguirão!



Os ataques aos direitos constitucionais, sob a batuta do poder executivo, respaldados por um poder judiciário anódino, com o apoio ruidoso dos órgãos de segurança e silencioso da mídia corporativa, expõem o esquema brutal de demolição do estado democrático de direito aqui, na Argentina, no México, as três maiores economias do continente.

Terra arrasada para que sejamos transformados em sucursais dos interesses do grande capital e danem-se as consequências. Já não se fala mais em recuperação econômica; já não chama mais atenção a desfaçatez das ações e dos argumentos desses governantes sem expressão, pois já não prestam mais contas para a população, mas para outros agentes. Tudo não passa do vazio habitado pela ausência.

Persistirão em quebrantar o espírito de luta da nossa gente, em desestabilizar e colonizar nossa subjetividade.

Não conseguirão.


02 novembro 2016

Os dados estão jogados



A investida político-jurídico-midiática contra as lideranças populares, tanto lá na Argentina como cá no Brasil, não ocorre por acaso.

Para essa elite que não aprendeu nada com a história, o poder a qualquer preço respalda a violência para se impor. 

Neste momento, não há argumentos, não existe negociação política. Prisioneira do tempo cronométrico, ela se esvazia na ambição e perde-se no labirinto da sua solidão.

Mas há os que persistem na luta pelo tempo que engendra, o tempo do mito, da utopia, com o desejo de transformá-lo em presente puro.

É quando, nas palavras de Octavio Paz, "o ser humano rompe a solidão e volta a ser um com a criação".

Não está longe o tempo em que compreenderemos o vazio que Macri e Temer representam.


12 outubro 2016

A luta nas escolas




As falas da luta e da ocupação dos secundaristas. Mais um livrinho, A Poética dos Direitos Humanos - Perifatividade nas Escolas, vol. III, produzido pelo coletivo Perifatividade, lá do fundão do Ipiranga, que inclui textos de jovens poetas e registros das ocupações de duas escolas públicas, E.E.Diadema e E.E.Raul Fonseca, com direito a um pequeno documentário em DVD. 

Estes jovens fazem história, ao mesmo tempo que vivem o momento encarando as adversidades coletivamente. Se atrevem a resistir por suas forças, a enfrentar um governo que não dialoga e, covardemente, envia seu aparato policial para aplacar com violência o ato de cidadania.

A escola pública em São Paulo nunca esteve tão ameaçada de desaparecer!
 
Também enfrentam com dignidade o silêncio de uma mídia patronal moralmente falida que não esclarece os fatos, que os ignora como se não existissem e dessa forma, cumpre seu mórbido papel em um golpe que não parece ter fim, preocupada com sua sobrevivência.

Mas voltemos aos jovens secundaristas, isolados em suas utopias maravilhosas, contagiantes. Já não é mais tempo de histórias de contos de fadas, mas de luta pelas utopias em plena realidade. E elas se forjam e se recriam no realismo maravilhoso ao qual descendemos desde o princípio, na construção de nosso futuro.

Tudo em concordância com a luta, a ousadia, a poesia criativa sob as ocupações. E ficam as palavras de um desses jovens inquietos, Jhon, da EE Raul Fonseca:

VIVER COMO ESTUDANTE

Viver como estudante,
Ser tratado como desinformado,
Mas a briga é de cachorro grande
E não queremos ser ditados.
Na luta nós entramos,
Garanto, não somos covardes
Todos juntos lutaremos
Pois já cansamos de ficar no aguarde!
Cada vez mais nós aumentamos
Estamos para todos os lados
Somos todos secundaristas
Mas não aceitamos ser secundários.
Não finja não nos ver,
Isso não é utopia
queremos educação de qualidade
nesta classista democracia!


05 outubro 2016

Sobre o avanço dos retrocessos


E assim, por obra de um governo golpista ilegítimo - é bom que lembremos sempre isso - pautado por um ministério de serras, mendoncinhas e padilhas, corruptos até a medula e no mínimo inaptos para as funções a que foram designados, somos levados pelos meios corporativos a acreditar que teremos um horizonte promissor com a retomada da política econômica cíclica, onde prevalecem privatizações, arrocho salarial, cortes sociais, eliminação de serviços públicos, congelamento de investimentos etc etc, o mesmo remédio que se aplica sem nenhum êxito na crise europeia, para ficar neste exemplo contemporâneo.

Os interesses estão explícitos, em nosso caso trata-se de uma transição descarada, porque não legitimada nas urnas, e que beneficiará um punhado, dos barões das mídias corporativas, ao multiplicar as pagas com a publicidade pública, aos coronéis da Fiesp, surfando nas falácias da redução de impostos. Esse governo, autoritário, sem perfil e sem projeto, nos conduzirá ao ocaso em poucos meses, financiando com recursos públicos a entrega das nossas riquezas e nossos meios produtivos à sanha especulativa do mercado. E como no governo do acadêmico impoluto FHC, retornaremos ao mísero destino de nossa dependência econômica.

-o-

O blog completa hoje oito anos de contínua produção, alguns momentos mais inspirados, outros nem tanto, mas sempre com o desejo de oferecer uma discussão sincera sobre temas que estimulam a reflexão. Assim tem sido principalmente com os caminhos e descaminhos da mídia patronal, cujo discurso disseminado por seus múltiplos veículos já não mais esconde a função de incorporar os interesses corporativos, seja qual for o custo. Com esses lamentáveis desdobramentos, o blog que desde seu início se bate de maneira incisiva pela democracia nas comunicações, prosseguirá neste que se transformou no seu inesperado tema principal. 

Triste ver o retrocesso a que chegamos, aqui na América Latina, mas quem disse que as favas estão contadas?