28 janeiro 2016

Sobre estantes e escolhas



Agora um breve interregno, de alcance pessoal. Ganho uma televisão de presente e a partir daí me aplico dia a dia em profundas e inesperadas arrumações da casa. Tapetes, quadros, estantes, são removidos em função de uma nova pintura, que ao final das contas exige minha intervenção. Então além de desmontar, deslocar, despachar, também acabo pintando, em um esforço cansativo, estimulante na proporção em que o espaço é renovado e simplificado. Envelheço e precisarei dispor de um lugar fácil manejo não só para usufruir, como para manter em ordem. Assim, posso dizer que o desgaste se mostra uma ação gratificante.

De toda a transformação, que ainda me tomará uns bons pares de dias, recolho individualmente o material mais abundante, os livros. Como reduzo o espaço disponível a eles, é inevitável o descarte, obras que perpassaram minha vida acadêmica e mais além, obras que me serviram desde a adolescência e ajudaram a constituir meu imaginário do mundo. Por exemplo, textos de Hemingway, os livros em francês de Jules Verne, obras de geografia do curso de graduação... Há igualmente exemplares de literatura, como o Ulisses de Joyce, que mesmo não lido na íntegra, a consulta fragmentada ao longo dos anos me revelou a grandeza impossível de adentrar. 

Neste momento, revejo ao acaso os trabalhos de um autor que, no começo de minha docência universitária, em 1999, era muito debatido e cujas propostas nascidas em um momento de neo-liberalismo arraigado, era apreciado pelos alunos: Domenico de Masi. Curiosamente folheio um livro jamais utilizado, O Futuro do Trabalho, com seu discurso sobre os aspectos sociológicos do trabalho. É interessante notar o quanto suas propostas ganham substância de modo doloroso na sociedade pós-moderna de hoje:

"(...) A aposta principal no jogo dos conflitos não é mais a distribuição da riqueza: quem vence tem o direito de programar o futuro, seu e dos outros. Enquanto na sociedade industrial eram os pobres que moviam guerra aos ricos, hoje são os ricos que fazem guerra aos pobres, eliminando o welfare e outras formas de proteção social, ampliando a distância entre as remunerações do topo e as da base, desqualificando a formação, abandonando à própria sorte as vítimas do progresso e da concorrência. (...)”[i] 

Assim, bastante material se foi, obras escritas, sonoras, visuais que me proporcionaram formas distintas de aprendizado, resultado de um esforço desmesurado para saciar a sede de conhecimento. Uma parte vendida para um sebo, outra doada para uma casa de cultura. Não me entristeço, não foram perdas, creio que o valor de uma obra cultural se complementa com sua circulação, e que bom que elas alcancem outros olhares, mais ávidos, mais jovens. Neste momento, importa-me o desejo de um estudo mais paciente, mais restrito, em torno dos temas que permanecem. 

Venho organizando há meses uma estante que batizei de 'biblioteca latino-americana', e com todos os dilemas políticos atuais em nossa pátria grande, sinto um renovado alento em buscar nas leituras literárias - e aqui incluída a escritura marginal -, políticas, econômicas, culturais que contextualizam nosso continente, o prazer não só de uma compreensão mais consolidada de nossa realidade, como, e a partir disso, poder me manifestar textualmente na defesa de nossos valores, de nossa cultura. 

O que quero dizer com isso tudo? Primeiro, a satisfação em vivenciar um espaço renovado, mais adequado ao sentido de permanecer, sem a sofreguidão do movimento contínuo. E por fim, o desfrute de uma difícil escolha, a dedicação em um horizonte intelectual definido, sem mais pretensões desmesuradas, que costumam se diluir com o passar incessante dos anos. 


Reencontro-me então com a América Latina, torno-me uma vez mais parte ativa deste universo maravilhoso. Nada mais apropriado do que delinear um limite factível, em que se possa navegar com o mesmo espírito inquieto, mas com a possibilidade de mirar um destino. Os caminhos do imaginário latino-americano revelam os flancos de aproximação para a relação pessoal com o grande quebra-cabeças que perfaz as nossas idiossincrasias. 

Um desafio que, nesta altura dos acontecimentos, já está de muito bom tamanho.





[i] Masi, Domenico. O Futuro do Trabalho. Brasília, Ed. UnB, 1999.

10 janeiro 2016

A palavra anônima e incandescente



"A criação poética faz resplandecer no horizonte das periferias o movimento pelos desejos subjetivos e coletivos de uma população cerceada pela ausência de cidadania (...) desejos estes que articulam uma saudável inquietação cultural em meio ao vazio imaginativo, o individualismo, a alienação e a efemeridade”

(trecho de As Redes de Escrituras nas Periferias de São Paulo – a palavra como manifestação de cidadania

-o-

(Ainda muito verdadeiro, muito atual com todos os avanços sociais nos últimos anos, a despeito de todas as rasas arguições que proliferam e se esforçam em nos reduzir à miserabilidade colonizada. Duas razões me levam a transcrever acima o pequeno trecho de minha tese (2009): a esperança pronunciada pela palavra, ou seja, a nomeação das coisas como real possibilidade de construção cidadã; e a satisfação em perscrutar um mundo de generosos saberes alimentados pelos poetas marginais, agora também digitais). 


26 dezembro 2015

Ainda Chico!



Esse grito insolente de uma direita que não faz a menor ideia de qual caminho tomar, que não tem a menor ideia da complexidade social de seu país. Em seu regurgito que já renasce condenado, não tem feito mais do que inflar o ódio e a intolerância, com ações truculentas, que se amparam no pior dos momentos de nossa história moderna. É preciso nomearmos cada um, os que vinculam a esperança de uma nação ao golpe constitucional, os que agridem sem disposição para uma pauta de diálogo, os que fazem de seu gesto nada mais do que o prolongamento de seu miserável individualismo.

Como disse Darcy Ribeiro, "o golpe militar de 1964 foi uma interrupção abrupta do fluxo histórico brasileiro e reverteu seu sentido natural, com efeitos indeléveis sobre a economia e a soberania nacional, e também sobre a cidadania, a sociedade e a cultura brasileiras". Será sempre tempo de debatermos verdadeiramente os desígnios de nossa nação, mas sob as normas constitucionais vigentes. Não cabem mais aventuras, ainda mais as patrocinadas por indivíduos que não medem as consequências de seus atos, alimentados por ilusões forâneas. 

Por isso não posso deixar de oferecer a música que me marcou profundamente naquele verdadeiro momento de retomada, arrebatando-nos para o que então se apresentava como as mais importantes tarefas, a luta pela justiça social e pelo restabelecimento pleno do estado de direito.





24 dezembro 2015

Chico e os ruídos da pós-modernidade

O muro, e ao fundo, a porta de Brandenburgo



Acabo de ler sobre um dos marmanjos justiceiros que interpelaram o nosso Chico Buarque no espaço público do Rio. No momento em que estava acompanhado por outros coatores, pareceu valente em criticar o músico pelo simples fato de ser simpatizante do PT, de novo a mesma fórmula, uma espécie de indignação cívica que perpassa esses tipos, como se o PT fosse a causa fulcral de todos os males da nação. A cena foi gravada, as agressões são audíveis, porque são palavras iradas, que se movem pela intolerância, que pretendem impregnar e jamais aceitar um contraditório. Já as respostas de Chico são esparsas, compreende-se uma ou outra frase. Agora o sujeito, um tal de Alvarinho, não se faz de rogado ao dizer que "xingar o senhor Chico foi um erro", e apresenta os sintomas naturais de covardia que demonstram todos os agressores proto-fascistas, tentando livrar a cara para não permanecer a marca pesada da ignorância. 

O episódio não difere em seu formato dos ataques verbais ocorridos anteriormente, no mesmo feitio, quando grupos de corajosos defensores da democracia lançam invectivas de péssima qualidade, contra personalidades do PT. Assim foi com Mantega, então ministro da Fazenda, em um restaurante, assim foi com Haddad, nosso prefeito de São Paulo, em pleno debate na livraria Cultura. Chegamos ao tempo da miséria do argumento, que não se envergonha em mostrar sua cretinice no espaço público. Isso me faz agora lembrar de uma sequência de O Gordo e o Magro, em que a esposa de Oliver Hardy lhe pede para não se esforçar em ser mais idiota do que ele já mostrava ser. Bem, isso era engraçado, as trapalhadas de Oliver Hardy com seu amigo Stan Laurel incorporavam inocência e diversão, e por isso saborosas.

Destaco o argumento de David Harvey sobre a pós-modernidade, "a ação só pode ser concebida e decidida nos limites de algum determinismo local, de alguma comunidade interpretativa, e os seus sentidos tencionados e efeitos antecipados estão fadados a entrar em colapso quando retirados desses domínios isolados, mesmo quando coerentes com eles", o que nos parece claro o gesto fragmentado desde sua origem e pouco propício a ganhar consenso político nas massas. Assim, o relativismo idiota exercitado em praça pública torna-se o must dos garotões sarados dos Jardins, e para isso não é necessário nenhum recurso intelectual, basta um babaca para comandar o espetáculo de incontinência verbal e um iphone para registrar o fato. 

Nos anos 1960, os brucutus do CCC assumiam uma postura ideológica claramente de direita e se uniam a paramilitares para cometer suas agressões públicas, mas raramente eram identificados. O projeto da violência política alinhava-se com uma proposta vencedora, que formularia as leis de segurança nacional, em defesa dos ideais de um sistema de exceção. Hoje, o estado de direito predomina, não há o que temer neste sentido. Resta o vago discurso contra a corrupção, pautado pelas manchetes da mídia corporativa, que se expande pelas plataformas digitais em sua vertente agressiva. Quando mais os atores abjetos assumem a orientação desse discurso, mais o espetáculo se faz incivilizado, mais ele se torna uma farsa. 

Alvarinho, como os demais agressores, teve seus breves minutos de fama, e agora não sabe o que fazer com isso. Pior, mostra a mesma covardia desse proto-fascismo sem consistência, que na hora de se revelar com mais força, sucumbe e pede arrego. Eis as consequências: "Fui ao shopping comprar presentes de Natal e fui xingado. Também recebi uma ligação anônima com ameaças. Acho muito desagradável tudo isso bem na hora do Ano-Novo. Se meus pais decidirem, terei que voltar (a Londres)"[1]. 

Uma vez filhote de papai, sempre um. Diluído em seu próprio discurso, não consegue encontrar forças para sustentar uma posição que justifique minimamente sua agressão. Optará pelo mais fácil, retornar ao seu exílio luxuoso de Londres, onde por certo não ousará tomar atitude semelhante contra uma autoridade pública de lá. 

Torna-se difícil entender os objetivos dessas manifestações impulsivas e criminosas: não carreiam adesões e se perdem na própria covardia dos atores, que ao contrário de permanecerem ativos, escondem-se da forma mais conveniente. O gesto suicida não encontra a mínima sustentação epistemológica, como disse acima, é a continuidade indefinida de um arremedo de pequenas bravatas contra a corrupção do PT, mancomunadas com notícias de capa da revista Veja e alguma fala assimilada dos âncoras de telejornais. Mais nada. Não se dão ao esforço de aprofundar seu ódio em argumentos do conservadorismo pós-moderno, que encontra em T.Darlymple, R.Kirk ou T.Sowell alguns de seus representantes. 

De modo que fico com a imagem serena e contemplativa de Chico, com a história de seus engajamentos, ao som de sua obra exuberante, que nos contempla como cidadãos brasileiros. Ele nos tem a dizer muito mais coisas do que as razzias fúteis, frágeis, fenecidas, proporcionadas pelos mesmos sujeitos históricos a serviço de frívolos interesses.





[1] http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/210833/Alvarinho-diz-que-%E2%80%9Cxingar-o-sr-Chico-foi-um-erro%E2%80%9D.htm, acesso em 23/12/2015.



08 dezembro 2015

A nossa negritude



E tive uma experiência que mobilizou meu imaginário de tal forma, que por momentos acreditava estar diante de sucessivas etapas da memória coletiva e histórica de nosso país, algo sem um recorte específico, tudo no plano das emoções e de um apanhado mental que envolve os conhecimentos acumulados sobre a nossa cultura. 

Claro que estava sugestionado pela ótima leitura do texto do Alberto da Costa e Silva, mais um sobre a formação do Brasil, População e Sociedade. Enquanto avançava no texto, via o Brasil metonímico diante de mim, pequenos grupos de jovens reunidos em torno de seus murmúrios, discutindo as questões sobre Euclides da Cunha, Paulo Freire, Caio Prado Jr...

Por momentos, não era apenas o bulício das falas e as reflexões sobre as hipóteses sociais, políticas e culturais que construíam, mas a naturalidade das consultas entre os grupos, movidos por dúvidas, não interferi, optei por observar e imaginar os matizes variados, os jogos das cores e das origens, a miscelânea das ocupações profissionais, as esperanças por voos imprecisos, os anseios por consolidar novas realizações.

Ali estava o corre das ruas no Rio colonial, as vozes dos mercados e das casas, escravos de pé no chão, ex-escravos na viração, calça comprida e camisa de algodão rústico, carregadores, pedreiros, sapateiros (havia muitos), bem como amas de leite, vendedoras ambulantes, as falas de variadas origens africanas, mas que no final prevalecia o português "para o entendimento entre si - uma África já crioulizada, abrasileirada", as mulheres brancas já não mais escondidas no quarto, mas com confiança para frequentar as confeitarias e casas de chá, e as cores dos panos e xales de Cabo Verde, os vestidos pregueados à moda europeia, quizomba divertida e incontrolável, marca de um país que ao contrário da difundida perdição, por suas elites, sempre se reinventa na beleza e dureza de sua diversidade.

Eu vi tudo isso naqueles corpos performáticos, à minha frente, e encerro porque é preciso encerrar, com uma breve descrição do último grupo que deixou a sala, quase à última hora: três jovens negros muito falantes, que perdiam o tempo da prova para inserir lembranças e falas da casa, da mãe e da avó sempre às voltas com os afazeres domésticos, e logo as sonoras risadas, que podiam ser do entretenimento da rua do Brasil Colônia, em alguma casinhola de sopapo, taipa de mão, no breu da noite, à espera do novo dia de labuta intensa... mas logo recobravam a discussão do texto Procissões, Hip Hop e Cosplay, representações da negritude em teatralidades públicas, escrito por mim e Mônica Nunes, no afã de descrever o protagonismo do negro em nossa cultura. 

O que significava aquilo tudo? Sabiam que havia uma sutil continuidade, um deles levanta a mão e se dirige de forma assertiva para mim, "seria legal retomarmos aquele assunto novamente, professor"... E por fim terminam um tanto extasiados pela discussão do tema, entregam a prova ainda conversando entre si, e o mesmo rapaz acrescenta, "professor, quanta coisa importante para pensar...".



30 novembro 2015

Volver a Montevideo


El Tango, de Pedro Figari


Tenho a oportunidade de regressar a Montevidéu, para cotejar mais uma vez a ambiência convidativa de sua espacialidade, de sua gente. O lugar que recebeu Darcy Ribeiro, antropólogo, e onde desempenhou parte importante de sua obra. A cidade de Mario Benedetti, Eduardo Galeano, José Enrique Rodó, Mario Arregui, Ángel Rama, Idea Vilariño, Felisberto Hernandez, do cantante engajado Alfredo Zitarrosa, do cineasta Pablo Stoll, que dirigiu o tristemente belo Whisky

Retorno para uma atividade intensa no congresso RAM, Reunión de Antropología del Mercosur, para a exposição de mais um trabalho, Espaço Urbano e Teatralidades Revivalistas na Cultura Jovem, onde se discutirá a presença de coletivos revivalistas - vitorianos, medievalistas e steamers, e suas representações no espaço urbano. Particularmente minha exposição se tratará do imaginário medievo em coletivos medievais, influenciados pelos games de RPG, pelas histórias midiatizadas da Távola Redonda, e de modo mais distante, pela narrativa de autores como Tolkien, C.S.Lewis, George Martin; assim como as representações criativas dos coletivos steampunks, com base em etnometodologias realizadas nos eventos de Paranapiacaba e Belo Horizonte.

Mas haverá um tempo para sentir a cidade, nas caminhadas que por certo realizaremos pela graciosa Cidade Velha, por cafés, parques, boulevares, saboreando o tempo perdido impresso nas fachadas, nas rodas de mate nas calçadas, nas sombras generosas de copas centenárias. Ainda há o som do rio-mar a espreitar, sossegadamente, à beira da rambla. Serão momentos apreciados de passagem, marcados pelo romantismo das palavras e dos olhares furtivos, sob as bênçãos de Vênus e Adônis.



21 novembro 2015

Sobre a incompletude midiática



Já não se trata mais de apresentar o desequilíbrio do discurso midiático e sua ação desinformativa, esta etapa ficou para trás. Pelo menos desde pouco antes das eleições de 2010 já era possível perceber uma movimentação do tipo ‘ordem unida’ dos grandes veículos, trabalhando de modo acintoso na construção de seus pontos de vista. Segundo Jessé Souza, sociólogo, houve o sequestro da opinião de uma parte da classe média, e simultaneamente a isso, já que não foi possível a vitória nas urnas, forçar uma crise institucional via judiciário, com toda a repercussão garantida pelos jornalões, revistas e redes de TV.

Em julho de 2011, em um artigo escrito por mim e Mônica Nunes, Xenofobia e Participação Política nas Mídias Digitais, apresentado no Congresso Internacional Ibero-americano de Comunicação – Confibercom[1], já esboçávamos uma preocupação com o movimento tendencioso das matérias de capa dos jornais, um mês antes das eleições (setembro de 2010). Pouco antes, em março do mesmo ano, Gilberto Maringoni na Carta Maior relatava um encontro do malfadado Instituto Millenium[2], e destacava o que seria o comportamento midiático naquele ano, “Quem assistiu aos debates não deixou de ficar preocupado. Aos arranques, os pitbulls da grande mídia atacaram toda e qualquer tentativa de se jogar luz no comportamento dos meios de comunicação”.

As consequências estão aí; agora, se trata de ultrapassar os limites razoáveis do bom senso, e de modo corporativo, muitas vezes as manchetes dos principais jornais coincidem palavra por palavra, transformar suspeitas em verdades, calúnias em argumentos, distorções em práticas usuais. Em uma postura que encontra no cinismo a expressão mais adequada para este momento de transição (estertor?), os meios tradicionais promovem uma escalada na manipulação das notícias. Este ano não foi fácil para a sustentabilidade constitucional, os ataques fugiram do controle, com os editoriais midiáticos difundidos de modo feroz por arautos do fim do mundo, que modelaram setores da sociedade civil, culminando com as marchas de 15 de março pelo país. O horror dos movimentos conservadores pré-golpe de 1964 regurgitaram com fúria, ganhando repercussão em parcelas da sociedade.

Um partido em especial torna-se deliberadamente o alvo das mazelas reais ou imaginárias, e de modo mais perverso, personagens como os filhos do principal líder desse partido, sofrem com denúncias infundadas ou não provadas. Felizmente toda essa mobilização pautada pelo rancor foi lentamente perdendo legitimidade, e a aprovação pelo Congresso Nacional da instituição do direito de resposta às falsas denúncias (calúnia e difamação) ameniza o furor do ódio e, se não me iludo, recompõe alguma serenidade ao debate político. Os ataques retomam o tom de oposição republicana, o que é o mínimo que se pode esperar. Todavia, o uso do cachimbo faz a boca torta, tanto as informações jornalísticas quanto as delações jurídicas prosseguem seletivas, atendendo a interesses corporativos, ou a grupos privilegiados da sociedade. Seja como for, o discurso midiático alcança seu mais abusivo momento de irresponsabilidade. 

Sem qualquer esforço para transmitir mais do que um registro calculado dos acontecimentos, a recente catástrofe provocada pela mineradora Samarco apareceu na mídia tradicional como uma tragédia a se lamentar. Foi impressionante se ver, nas redes sociais, o registro do cenário, por moradores de Resplendor, de toda a dor e a devastação ocorrida no rio Doce. Em sua mobilização a partir das plataformas sociais, conseguiram o que a Globo com sua fartura tecnológica não conseguiu. Ao contrário quando, dias mais tarde, a força emotiva ganhou todo o espaço na grade com os atentados em Paris. Jornalistas foram deslocados para sentirem in loco mais uma fermentação de pânico pelo terror a tomar conta da cidade. Mais uma vez foi patético acompanhar as expressões e as falas dos plantonistas, empurrados pela especulação e alimentados por uma incipiente audiência.

Ainda em relação ao texto que escrevi com Mônica em 2011, confirma-se a amplitude cada vez mais consistente das mídias digitais, sepultando aos poucos o que sobrou dos meios tradicionais, de cunho patriarcal. Eles fenecem por não saber se adaptar a um mundo mais versátil, disperso – e não direi aqui fragmentado – que propicia mais acessos, mais possibilidades de mobilidade. Se há quinze anos me incomodava pelas previsões do fim da mídia analógica, afinal me constituí sob os auspícios de seus grandes cronistas, hoje não nego minha satisfação em vê-la quase como um entulho a ser varrido. 

Não penso mais no embate contra os arautos do catastrofismo. Esses, de pretensa inspiração liberal, promovem o ódio e a desinformação. Fico à espera de que desapareçam naturalmente, pois quando deixarem a bancada, fenecerão mais depressa do que os veículos que os contrataram. Preocupo-me com o que vale a pena, com meus educandos, com a construção de um processo educativo no caminho da ação e da liberdade, inspirado por Paulo Freire. E assim é. Ao meu lado, um bom companheiro de consultas, o grosso volume do livro de Pascual Serrano, Desinformación – como los médios ocultan el mundo, que me informou nestes anos sobre a insustentabilidade de tanto sectarismo midiático.

02 novembro 2015

A conduta e as circunstâncias

Escada para o sótão, Bruxelas, 2010

O panorama político em nosso pais prossegue turvo, com pressões de diversos lados contribuindo para a paralisia econômica. Os políticos de Brasília não se entendem e a oposição tem um papel nefasto, pois além de não contribuir para um debate construtivo, não se incomoda em jogar contra o país. Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, sujeito leviano e muito habilidoso no trabalho de bastidores, constrói uma agenda conservadora que ameaça a modernidade do pensamento brasileiro, construída a duras penas por pensadores de nossa terra, de Sérgio Buarque a Milton Santos. Ele faz o seu esforço para que a nação regrida em suas conquistas sociais, aliando-se ao que há de pior da bancada evangélica e com o baixo clero da casa. E o que me parece mais grave, o governo – considerando a presidência e a bancada de deputados e senadores da situação – parece imobilizada, sem um projeto que nos retire do impasse desde as eleições.

De seu lado, a mídia aprofunda seu movimento insensato contra o PT, e nestas semanas, contra Lula. Em um texto intitulado “Operação: Zelotes. Alvo: Lula”, escrito por Jeferson Miola e publicado na Carta Maior, há um trecho que define bem o momento atual: “O condomínio policial-jurídico-midiático mirou no filho de Lula para acertar no próprio Lula, coincidentemente na véspera do aniversário de 70 anos deste que, com sua obra, já é um dos maiores personagens da história do Brasil moderno. Este método é parte de um plano estratégico de desconstrução, no imaginário popular, da imagem e do patrimônio simbólico que o Lula representa”.

Tenho esta mesma impressão, está em andamento um plano estratégico de desconstrução da imagem não só de Lula, como do PT, insuflado por parcelas do sistema jurídico, basta ver como se encaminha a operação Lava Jato; por parte do empresariado, basta ver como funciona as ações do tipo Millenium; e pela grande maioria da mídia corporativa, basta ver o argumento agressivo, sem qualquer propósito construtivo, que estampa nas manchetes de jornais, revistas, rádio e televisão.

O resultado disso não parece claro; a marcha para o impeachment parece estancada, porém, as dificuldades para se viabilizar uma política econômica vitoriosa permanecem. Em outras palavras, há muito de artificialismo nesta crise, e pouca vontade em resolvê-la. A sociedade organizada se mobiliza em suas demandas pontuais, e o governo se mostra impotente para orientar-se por algum caminho promissor.