10 abril 2015

As catacumbas do golpismo

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Afora as urdiduras do enfrentamento político presentes no Chile, que conformavam um processo opositor ao projeto socialista da Unidade Popular, ocorriam ações à margem da legalidade constitucional, o ovo da serpente gestado para, no tempo certo, disseminar o caos que envenenaria a democracia do país. No vídeo Im Zeichen der Spine (Con el signo de la Araña), produzido em 1973 por uma equipe de cineastas da RDA (uma interessante aventura, descrita com detalhes aqui), podemos acompanhar a tal da vanguarda anti-marxista que avança implacável, a tristemente conhecida frente nacionalista Pátria e Liberdade, que desfrutaria da plena liberdade de direito então vigente para sabotá-la, em favor do golpe cívico-militar. Vemos as sinistras lideranças, portadoras um discurso político mais robusto, ainda que equivocado, e jovens com a mais completa incapacidade de formular um discurso contra aquilo que lutam, o comunismo. Vicejam em catacumbas escuras e quando podem, emergem no espaço público, para dar plasticidade às representações fascistas, sob o signo da aranha.

Está claro que o conteúdo ideológico é um embuste estimulado por forças poderosas e ocultas, com o claro objetivo de minar e posteriormente romper com a ordem constitucional. A partir do décimo minuto, entra em cena uma figura patética, Ernesto Muller, meio-irmão de Roberto Thieme, o então prófugo secretário-geral de Pátria e Liberdade. Após uma mise-en-scène que ilustra o perfil autoritário do movimento, nos descreve o significado do símbolo da aranha. Chamo a atenção para essas duas personagens fatídicas, Muller e Thieme, que a partir de ideais e ações golpistas, promovem o surgimento de uma Frente nacionalista que servirá de ponta de lança para a deposição do governo Allende. Com o golpe, Pátria e Liberdade se dissolve e Muller e Thieme tornam-se nada mais do que peças secundárias na engrenagem pinochetista. Anos mais tarde, Roberto Thieme daria uma entrevista acusando Pinochet de traidor. 

Seja como for, o mesmo espírito sinistro que alimentou o golpismo dessa direita inconsequente ressurge na ribalta do cenário político brasileiro (Rogério Chequer), venezuelano (Leopoldo López), alimentados sabe-se lá por quais interesses.


30 março 2015

Palavras, silêncios



As coisas se ajeitam como possível, como num entreato sutil e imprudente. As aulas percorrem os trilhos dos semestres anteriores, sem qualquer transtorno na forma e no conteúdo, com pequenas, e diria gratas modificações, na recepção por parte dos alunos. Talvez seja meu desprendimento, minha atuação mais dedicada e apaixonada pelos temas, minha entrega na construção do imaginário, o certo é que eles se aproximam em uma atenção disponível e muitas vezes prazerosa para o que tenho a lhes dizer. São aulas as mais formais que pude produzir ao longo desses dezesseis anos de magistério, entro em sala, disponho o material tecnológico, respiro fundo e projeto ideias, com abordagens narrativas dos temas. Suspendo no intervalo e retomo a arguição na hora restante. Exposição pura do conteúdo, com a diferença de me empenhar performaticamente, em meio a uma densa relação descritiva dos fatos sociais. E parece funcionar. Não há reclamações e as salas, excetuando as de publicidade, costumam manter-se cheias, incluindo a de sexta-feira. A docência desse modo se desenvolve sem sobressaltos, serena e confiante ao longo das semanas. Restam dois meses cheios de aulas, e em junho, as avaliações finais. Não tenho mais a ansiedade em desejar o término dos semestres de modo prematuro, não existe mais o desconforto dos incômodos em sala de aula, com classes desatentas, insatisfeitas. Sinto-me gratificado em cumprir minha tarefa, e é tudo. Creio que seja um bom tempo para exercer a prática das teorias sociais, sem o temor da retórica esvaziada. Não espero recompensas, senão consolidar palavras no embate político, em meio à sua atual vertigem sinistra. Não alimento receios em ganhar o espaço das salas de aula, o debate com os educandos, apenas a educação praticada na real dimensão política dos fatos. A história se sobrepõe e com ela, a compreensão muitas vezes dolorosa da nossa formação social.
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Meus pais estão bem, permanecem em seu silêncio obsequioso. Jamais incomodam, e raramente nos últimos tempos me acionam por telefone. Normalmente era uma tarefa a cargo de minha mãe. Agora ela se volta integralmente à função de cuidar de meu pai, sem desespero. Seus gestos se estreitam ainda mais, tornam-se uma dedicada atenção. Resta-lhe uma consistente memória do que foram os tempos de paixão, de procriação, de consolidação. Agora, as circunstâncias oferecem uma experiência distinta, a da manutenção. E talvez por isso seu silêncio, porque ele requer uma intensa atividade que nada produz a não ser a satisfação do mesmo. É a minha vez de acioná-los, de visitá-los, de sorrir sobre as pequenas ações, de saber se está tudo bem. É o meu tempo de retribuir, do amor em forma de acolhimento, de palavras que expressam simples afeto e não se desperdiçam. A cada quinze dias eu os reencontro para uma jornada de poucas horas, cujo momento supremo é a mesa de refeição. Tudo muito rápido, sem a continuidade de outras épocas. Não há tempo para formular uma adesão que permaneça por outros quinze dias, e assim perco aos poucos o vínculo com os detalhes dos dias e das noites. Permanece o carinho atávico, esse não se esgota, condenado a tornar-se memória, e esta por sua vez condenada a desaparecer com o fenecimento físico. 



15 março 2015

A intolerância de nosso tempo


As vozes, valendo qualquer coisa, qualquer fala que mova uma onda fragorosa e ao mesmo tempo fenecida, curioso isso. As vozes que me esvaziam, tão próximas e distantes, tão tonitruantes e desconexas. Uma fala, "Sou fiel ao Brasil, não a Fidel"... A classe média branca em verde e amarelo, assumindo-se como povo vilipendiado, abocanhando a desigualdade que desde sempre impôs. Sente-se ofendida por um governo que odeia, e vocifera palavras de ordem, "Fora Dilma, Fora PT"... As vozes que me esvaziam, esforço-me para discernir as demandas sociais, os reclamos que as mobilizam... e me fazem ouvir o arrastar dos grilhões, e com eles, o passar doloroso das horas... Tivemos uma longa jornada sem consolidar a cumplicidade generosa de quem constrói uma nação, mas tão somente o fluir de um sentimento odioso, que ainda ecoa nas ruas. O espetáculo construído por dentro e por fora, a canalhice cientificamente aplicada. Tudo sob a regência discursiva da velha mídia corporativa, que refestela-se na leitura dos fatos e se vê, legitimada como nunca, a desinformar em favor de seus interesses.


10 março 2015

Sergei Eisenstein




Quando menos esperava, eis-me de volta a trabalhar com as teorias cinematográficas. Até a uma altura da vida, acreditava que esse seria o caminho a trilhar, na academia. Acima de tudo havia o prazer de explorar os conceitos de cada escola, e relacioná-los com a cinematografia paulistana dos anos 1960, quando fazia sentido compreender os filmes em função das influências estéticas. Acumulei uma substanciosa coleção de obras referentes aos vários períodos do cinema, e cheguei a praticar alguma discussão em sala de aula, com alunos que apreendiam e indagavam as novidades. 

Agora, passados quinze anos, o retorno aos mesmos livros, às mesmas experiências estéticas que fundamentaram a forma e o conteúdo das imagens em movimento. Retomo o sabor de organizar um curso inspirado por autores revolucionários, a começar por este que ilustra a postagem, Sergei Eisenstein. Muita coisa a dizer e a refletir, pautado pelo brilhantismo de suas ideias.



16 fevereiro 2015

Jean-Luc Godard


"Godard. Levei 36 anos para me deter um pouco mais na obra deste diretor franco-suiço. Tinha, confesso, uma aversão gratuita por ele, achava que preservava um ranço intelectual em seus filmes, mas, eis-me aqui, descobrindo obras interessantes. Hoje vi Numero Deux, de 1976, cheio de experimentalismos estéticos e narrativos. Em Duas ou três coisas que sei dela, de 1968, ele ataca a bestialidade norte-americana no Vietnã, ironizando o way of life alienante. É corajoso. Em Número Dois, já sem o Vietnã, golpeia a passividade feminina, a moral machista, parâmetros da vida familiar burguesa ocidental, e com toda a originalidade. Embora com momentos panfletários, sua linguagem me incomoda e é isso o que procuro neste momento. Sua sintaxe inovadora quebra a monotonia, propondo um rompimento que nos alcança em nossa ordem moral. Estimulante poder ficar à deriva em suas palavras e imagens aparentemente desconexas e soltas. Tudo se encaixa de alguma forma, lá no final, deixando-nos prontos para alguma mobilização".

(in Diários, Montreal, maio de 1995)



10 fevereiro 2015

Coriolano Salvatore


Colonia do Sacramento, 2008

Teve uma vez mais a sensação de consolo a iluminar a alma. Quando a porta da sala se fechou e o último filho partiu, longe de um lamento saudoso, as festividades de Ano Novo de pronto encerravam-se, abrindo lugar para a retomada dos trabalhos. Com a bengala, dirigiu-se em seu caminhar titubeante ao pequeno quarto, lugar da sua mesa de trabalho, e concentrou-se na escritura. Albertina o visitaria na manhã seguinte, de modo que não perdeu tempo, abriu a tela do computador e retomou a narrativa interrompida às vésperas do Natal. 

Coriolano Salvatore estava na altura em que Esteban, seu personagem central, pressionado pelas circunstâncias políticas, tratava com os amigos próximos uma forma de dar prosseguimento à reflexão política, como aprofundar a vida social e cultural, criando novos paradigmas de soberania no processo educativo, sob a tensão da ameaça institucional. Então avaliou a construção dos versos, a designar sentimentos como amor, infortúnio... 'O deserto incomensurável, aberto e misterioso a seus pés se estende; triste o semblante, solitário e taciturno como o mar quando, um instante, o crepúsculo noturno põe rédea à sua altivez'...

No dia seguinte, retornou à mesa de todas as tardes no Café Facundo, na esquina onde convergiam os homens dos gabinetes, e se pôs em sua tarefa diária, capturar e desvendar o mistério por trás daquelas gravatas. Dependendo do humor, avaliava os indivíduos como sacrossantos representantes do capital, salvaguardados pelo espírito de seu tempo, ou como sujeitos que não retiravam nunca seus uniformes impecáveis, nem quando se alimentavam da brisa marinha, em suas minguadas retiradas de descanso. Quando podia ouvir as peripécias que narravam do descanso à beira mar, conseguia compreender, indiferentemente se estava um pouco mais feliz ou deprimido, que se tratava de uma tragédia esses homens dos gabinetes desfrutarem o poder. 

Descrevia em seguida as emoções imediatas, em meio a esferas sintéticas, desenhadas com palavras que designavam pensamentos concisos, prestes a levar para a mesa de trabalho, coisas assim, aparentemente sem ordem ou nexo, mas que ao final da tarde proporcionava um quadro bem definido de suas apreensões. Isso não parecia ter nexo com Esteban e com a poesia épica que engendrava. Mas gostava de pensar que tudo contribuía, em uma paródia da formação política, o processo histórico da civilização e da barbárie, um passado glorioso de lutas, um presente amorfo desembocando na morte em vida, não só a partir dos homens engravatados, mas de sua própria perspectiva, o ânimo de um fim, o dilema do indivíduo moderno... 

É bem provável que projetasse o fim do indivíduo enquanto sujeito dos interesses corporativos, desvinculado dos compromissos inerentes ao sujeito coletivo, marcado pela organização e demandas populares. Esteban surgia como o personagem simbólico, inserido como parte dos elementos mitológicos da formação e capaz de antever a decomposição civilizatória... 'Logo um profundo silêncio faz aos lamentos trégua, interrompido por clamores de moribundos, ou queixas, risos, grunhir sufocado da embriagada torpeza; ao espantoso ronquido dos que dormindo sonham, os gemidos infantis do ñacurutú se mesclam, chiados, uivos tristes do lobo que anda à busca de cadáveres'... 

Coriolano Salvatore se entregava às minúcias de seu projeto, percorrendo caminhos para desvelar a contradição contemporânea, a infrutífera realidade dos engravatados do Café Facundo, a desafortunada ascensão de Esteban como representação do povo, o martírio final em aberto, uma teleologia do populismo em sua vertente mais sóbria, a assumir os contornos e os riscos da escritura como um desafio extasiante, delicadamente impreciso.  



20 janeiro 2015

O mundo ao redor

Amsterdam, 2010


Os signos da fragilidade se estabelecem, e a cada encontro, as transformações removem uma nova porção da saúde outrora inabalável. Hoje não apenas seus passos tateiam o chão, como também a memória começa a pregar das suas peças, e sua continuidade fluida e imediata é parcialmente substituída por nuvens de esquecimento, que antes de mais nada, confundem o raciocínio. E como se cada instante de incerteza representasse uma ameaça, a fala a se coordenar de modo tímido e mais próximo a um balbucio. Já não é mais possível rememorarmos juntos algumas passagens, pequenas e tão esparsas, que convivemos ao longo da vida, e o que parece mais doloroso, talvez não seja mais possível compartilhar meus temores, como em tantas vezes, à espera de sua proteção incondicional. De algum modo, ele sempre esteve 'nos bastidores', amparando-me das armadilhas do mundo. A serenidade acentua-se em um olhar que se acomoda no silêncio, e quando desvanece o interesse, repousa. Agora satisfaço-me com esta presença suave, terna, quase infantil, como uma companhia tranquila, em uma caminhada que aos poucos me abstém do calor da mão protetora.

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A característica principal que move os seres humanos nesta contemporaneidade inconsistente é a fartura de respostas. Há respostas para tudo, para a tristeza, para o verão de altas temperaturas, para a falta de água ou para as chuvas que abundam, para a ausência de ética, para a economia estagnada, para a violência endêmica... Só não há resposta para a pretensão desafortunada. O ser humano em sua ânsia galopante por se mostrar autossuficiente e assim, competitivo, elimina os parâmetros de uma formação consolidada, amparada por metodologias que estimulem a análise do objeto e a melhor hipótese para a ação. O improviso parece mais excitante ao mover-se na penumbra, e em meio ao destempero, às visões atribuladas de mundo. E assim, o estatuto do conhecimento se confunde com a próxima medalha ao mérito, ainda que o mérito não seja meritório. Castelos na areia, que parecem avançar no vácuo da destruição criativa liberal. A sanha presuntiva nunca esteve tão em alta, e como consequência, nunca houve tamanha gama de respostas. Há os neocons que avacalham com o mundo, há os odiojornalistas que implodem com a mediação, há os fundamentalismos que acabam com o fundamento. O mundo fica mais agitado e barulhento, uma infinidade de neomercadores, que no afã de mostrarem suas precárias competências, transformam-se em pura ambição.


17 janeiro 2015

O encanto carioca


Antonio Carlos Jobim, capa do disco lançado pela Elenco, 1964


Estar no Rio de Janeiro para mim, ainda que por uma breve jornada, é retomar os elementos que incorporam o ser brasileiro, em sua múltipla e diversa interação com a vida cotidiana. A beleza dos casarões arborizados de Botafogo, o espírito das mobilizações na Cinelândia, a delicadeza dos arcos da Lapa, o Cristo que nos acompanha a cada canto, a conversa solta em qualquer esquina. É ouvir Antônio Carlos Jobim, mas também Nelson Cavaquinho, saber do sol em suas cores, do mar em sua poesia. É revisitar as peculiaridades da literatura brasileira, de João do Rio a Vinícius, as paisagens do Cinema Novo, a bossa nova no Leblon ou o charme em Madureira, e aproximar das narrativas de nossa diversidade social. 

É também recuperar o vínculo incondicional com os signos de Nuestra America, tão presente no imaginário popular, para sentir sua história e sua cultura pulsando nas veias. Como é bom estar no Rio de Janeiro.