20 janeiro 2015

O mundo ao redor



Os signos da fragilidade se estabelecem, e a cada encontro, as transformações removem uma nova porção da saúde outrora inabalável. Hoje não apenas seus passos tateiam o chão, como também a memória começa a pregar das suas peças, e sua continuidade fluida e imediata é parcialmente substituída por nuvens de esquecimento, que antes de mais nada, confundem o raciocínio. E como se cada instante de incerteza representasse uma ameaça, a fala a se coordenar de modo tímido e mais próximo a um balbucio. Já não é mais possível rememorarmos juntos algumas passagens, pequenas e tão esparsas, que convivemos ao longo da vida, e o que parece mais doloroso, talvez não seja mais possível compartilhar meus temores, como em tantas vezes, à espera de sua proteção incondicional. De algum modo, ele sempre esteve 'nos bastidores', amparando-me das armadilhas do mundo. A serenidade acentua-se em um olhar que se acomoda no silêncio, e quando desvanece o interesse, repousa. Agora satisfaço-me com esta presença suave, terna, quase infantil, como uma companhia tranquila, em uma caminhada que aos poucos se abstém do calor da mão protetora.

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A característica principal que move os seres humanos nesta contemporaneidade inconsistente é a fartura de respostas. Há respostas para tudo, para a tristeza, para o verão de altas temperaturas, para a falta de água ou para as chuvas que não vêm, para a ausência de ética, para a economia estagnada, para a violência endêmica... Só não há resposta para a pretensão desafortunada. O ser humano em sua ânsia galopante por se mostrar autossuficiente e assim, competitivo, elimina os parâmetros de uma formação consolidada, amparada por metodologias que estimulem a análise do objeto e a melhor hipótese para a ação. O improviso parece mais excitante ao mover-se na penumbra, e em meio ao destempero, às visões atribuladas de mundo. E assim, o estatuto do conhecimento se confunde com a próxima medalha ao mérito, ainda que o mérito não seja meritório. Castelos na areia, que parecem avançar no vácuo da destruição criativa liberal. A sanha presuntiva nunca esteve tão em alta, e como consequência, nunca houve tamanha gama de respostas. Há os neocons que avacalham com o mundo, há os odiojornalistas que implodem com a mediação, há os fundamentalismos que acabam com o fundamento. O mundo fica mais agitado e barulhento, uma infinidade de neomercadores, que no afã de mostrarem suas precárias competências, transformam-se em pura ambição.


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