12 janeiro 2015

Formas e conteúdos da exaustão

Savignyplatz, 2010


Passados 75 dias do segundo turno das eleições presidenciais, o embate entre vencedores e perdedores promete prosseguir acirrado, com movimentos vigorosos da oposição trabalhando para o contínuo desgaste do governo, sem que os argumentos trazidos a lume proponham o esclarecimento da população. A mídia corporativa, que nos últimos anos tem se comportado como uma espécie de porta-voz da insatisfação oposicionista, não se cansa em lançar lenha na fogueira, estimulando uma pressão incansável e muitas vezes suicida não só contra representantes do governo federal, como contra instituições de grande significação simbólica e política, como é o presente caso da Petrobras. 

As primeiras semanas após os resultados oficiais, houve uma mobilização grosseira de parcelas da sociedade civil e de políticos oposicionistas, apostando em passeatas convocadas a toque de caixa, no afã de se aproveitar uma suposta insatisfação popular contra a continuidade do PT no poder. Também nas redes sociais, viu-se uma ação agressiva e inusitada de grupos assumidamente de direita, maculando a população nordestina - mais uma vez decisiva na vitória de Dilma - e em alguns casos, apoiando o retorno do regime militar para 'colocar ordem na casa'. 

A democracia brasileira mostrou-se forte o suficiente para resistir, em todas as linhas, a tantas imposturas, que em outras épocas poderiam ser fatais. Nunca duvidei da superação desse estágio primitivo de manifestação, que se pretendia inverter a continuidade natural do processo político. As vozes grosseiras que se insurgiram, nos corredores do Congresso ou nos carros de som, calaram-se momentaneamente, esgotadas pela inconsistência de seu discurso e pela pouca adesão popular.

Os aríetes dessas demandas atabalhoadas se ancoraram, ainda uma vez, nas manchetes midiáticas. A capa de VEJA, às vésperas do segundo turno, ultrapassou o limite do bom senso jornalístico e das normas eleitorais, constituindo-se no mínimo em uma peça golpista de mau gosto. Os demais meios corporativos de algum modo respaldaram as denúncias sem comprovação, e tudo não terminou tragicamente porque, repito, alcançamos a maioridade democrática, e hoje a população consegue distinguir o joio do trigo. 

Mas certamente ficaram sequelas, difíceis de serem superadas. É certo que em São Paulo, a derrota governista foi agravada por essa conjunção de ações negativas, onde o tema de uma capa de revista se transformou em camisetas e posteres da noite para o dia. E a postura antagônica dos barões da mídia contra o governo segue em alta, sem termos a menor ideia de como isso terminará. Ao que tudo indica, o PT conseguiu resistir ao assédio midiático, com Dilma alcançando índices mais positivos do que à época das eleições. 

A grande questão que retomo, passados estes primeiros meses de tensão e fúria - e que por certo estão a ponto morto pela desmobilização social, em razão do período de férias: se não há a preocupação, por parte da mídia corporativa, em informar a sociedade pela correta e responsável intermediação dos fatos, a que serve, qual sua função social? É óbvio que não basta apenas velar por seus interesses, é preciso compreender sua importância na construção do debate político. Lamentavelmente, porém, o passo dado foi substituir o poder da informação por formas anódinas de especulação. 

Resta dizer que a palavra não se acomoda em seu sentido tosco, constituído de desejos espúrios que não encontram representação social; ela é muito mais, e por certo mais atraente e sedutora quando utilizada com sabedoria. Em outras épocas, seus efeitos embrutecidos, partindo de uma elite econômica e política, conduziram à morte o estado democrático. Hoje, felizmente, somos uma nação que consegue debochar das ultrapassadas pretensões, incapazes de retroagir os verdadeiros processos sociais.


09 janeiro 2015

O Chile em seu labirinto


La Moneda, 1989


Terminei há poucos dias este denso ensaio sobre a ascensão e a queda da Unidade Popular no Chile. São mais de 600 páginas que esmiúçam os acontecimentos de modo cronológico, desde o processo da eleição de Allende, em setembro de 1970, a movimentação golpista que procura interditar sua posse, a comoção nacional com o assassinato do general constitucionalista René Schneider; os primeiros meses relativamente bem-sucedidos, com a rápida nacionalização da economia e a distribuição de terras a pequenos proprietários; os problemas do segundo ano, em parte pelos desencontros entre os partidos de esquerda, muitas vezes em relação ao processo de tomada de terras, acelerado pelo MIR e pela ala mais à esquerda do PS, comandado pelo senador Carlos Altamirano, em parte pela ação cada vez mais vigorosa de movimentos de direita, como o Patria y Libertad, financiados pela CIA, que intensificou as covert actions, minando os avanços sociais.

Paralelamente a essas dificuldades, a Unidade Popular possui uma representação minoritária nas duas casas parlamentares, onde os projetos governistas são um a um derrotados, impedindo a aplicação das propostas da UP, determinando a progressiva paralisação do país. O empresariado e a burguesia se unem em suas ações de desestabilização econômica, como em outubro de 1972, com a gigantesca greve nos transportes, promovida pelos empresários de transportes. A asfixia como fórmula do caos se prolonga, ao longo do ano de 1973, e mesmo as tentativas de Allende em atrair os militares para formarem o gabinete de governo, redundam em fracasso. Após as eleições de abril de 1973, onde o impasse legislativo permanece (as oposições esperavam vencer para apresentarem um pedido de impeachment), a Democracia Cristã, as elites, a CIA e uma parcela crescente de militares de alto posto, decidem pelo golpe militar. 

De 29 de junho, quando ocorre o Tanquetazo, um ensaio de golpe encenado por uma divisão de Santiago, até 11 de setembro, o país estará virtualmente em clima de guerra civil, e Allende apenas adia o que parece inevitável. O texto ganha contornos dramáticos, descrevendo cada movimento, tanto por parte do governo, quando por parte das oposições e dos grupos de direita. Os atentados recrudescem, as mulheres dos generais saem para o panelaço nas ruas, assim como os partidos de esquerda, em suas multitudinárias passeatas. Ocorrerá uma com 800.000 pessoas em 4 de setembro, em apoio a Allende, cujas cenas noturnas podem ser vistas no ótimo documentário A Batalha do Chile, de Patricio Gusmán. Pinochet foi empossado no Ministério da Defesa e no Comando do Exército, no lugar do general constitucionalista Carlos Prats, e bastaram 20 dias para o violento ataque ao Palácio de La Moneda e a derrubada da Unidade Popular.


-0-

Foi uma leitura educativa, para muito além do lugar comum dos ensaios e biografias bem-comportados, pois além do caudaloso texto embasado em farta documentação, hoje em dia é possível encontrar inúmeros vídeos sobre o período nas redes sociais. Assisti a documentários produzidos ao longo do governo Allende e após o golpe por equipes estrangeiras. No primeiro caso, encontramos a apresentação de uma experiência inédita na América Latina, um governo socialista eleito nas urnas; e no segundo caso, um esforço da ditadura em apresentar o país em calma, onde se é possível circular e registrar as cenas urbanas e entrevistar naturalmente as autoridades. No livro, sobressaem os tentáculos amaldiçoados do Departamento de Estado, que atuam com habilidade e desfaçatez. Nas imagens, temos os fatos que nem sempre são corroborados pelos relatos. Assim, no vídeo Pinochet y sus tres generales, os líderes golpistas se esforçam por passar uma imagem cálida, de um cotidiano caseiro quase idílico, enquanto a edição intercala depoimentos de populares, que falam dos desaparecimentos políticos.

A leitura de Fórmula para o Caos, de Luiz Alberto Moniz Bandeira, significou para mim o ápice, e de algum modo, o complemento definitivo desse estudo que realizo ao longo dos últimos 30 anos. Esta obra, imensa, saborosamente pretensiosa, consegue alcançar seus objetivos, ainda que recheada de pequenos problemas semânticos (equívocos como por exemplo, a data do golpe na Guatemala, indicada como 1964 em vez de 1954 (p.124); ou a recorrência no texto das palavras de ordem da esquerda, como 'Crear, Crear, Poder Popular'), mas que, em absoluto, retiram o brilho da seriedade da pesquisa e da qualidade do texto, fluente e que nos transmite a densidade do clima social e político daqueles anos. Além do que a narrativa histórica se estrutura no contexto do Cone Sul, ou seja, acompanhamos também capítulos onde vemos os desdobramentos do cenário político no Uruguai de Jorge Pacheco Areco e dos Tupamaros, e na Bolívia do presidente Juan José Torres - em ambos os casos, a dolorosa escalada do fim dos direitos humanos e políticos, patrocinada pela CIA, rumo a brutais regimes de exceção.         




31 dezembro 2014

Transitórias ponderações


!no estamos conformes!


O último dia do ano segue como um barco em alto mar, flutuando ao sabor do acaso, onde o céu imenso se confunde com o mar, outrora inquieto e que por ora refulge a luz coroada de pequenas inconstâncias e que se esparge pelo caminho. O brilho que nos aquece e nos dá conta da mansidão da água, do silêncio de fundo à sonoridade marítima, do balouçar a deslizar nas ondulações, o sol a pino, a brisa que aporta os rumores abafados, as acrobacias dos atobás, navega-se com as certezas dos dias anteriores e de acordo com as possibilidades do presente. 

As ausências estimulam a rememoração, assim como a consciência de mundo nos solicita a ação. As conquistas não são feitas do sucesso, mas do equilíbrio, o que nos salvaguarda da autossuficiência, tão dourada quanto inconsequente. Este ano foi de conquistas duras, obtidas ao longo de muita entrega, mas o discernimento das dificuldades não encobriu a importância de se pensar na continuidade, na reflexão do que está por vir.

Compreender que os esforços não se encerram na caminhada individual, mas se prolongam e ganham sentido no bem-estar coletivo. A farsa da ilusão ou da mentira, muito presente nesse tempo de interesses mesquinhos, não se sustentam perante a consciência política. O encanto da realidade da vida cotidiana não se esgota na reprodução do espetáculo.

        

21 dezembro 2014

César Vallejo




A primeira vez foi na segunda metade dos anos 1990, quando cumpria meu mestrado na PUC, que ouvi seu nome na fala do querido professor Amálio Pinheiro. Não saberei dizer se foi em uma aula, em uma conferência ou em uma conversa informal entre pesquisadores. Mas guardo a emoção de suas palavras, ao citar a poesia de Vallejo. Para mim, na época, a configuração da poesia latino-americana e o conceito de Pátria Grande faziam pouco sentido, ainda que me calasse fundo sua arguição sobre a força de nossa mestiçagem. Em minha banca de qualificação, não compreendi o alcance de sua sugestão ao tentar me fazer ver que a leitura do universo simbólico, espacial e psicológico do filme São Paulo Sociedade Anônima, meu objeto de pesquisa, seria mais natural partindo de uma interpretação latino-americana, Lezama Lima, Carpentier, César Vallejo, em vez de Sartre. Sua inquieta explanação não conseguiu me persuadir. Já naquele momento teria sido fascinante envolver-me com as teias da magia poética que recobre um continente. Talvez eu pudesse deixar um pouco de lado a rispidez da fenomenologia europeia e me deliciar com o realismo maravilhoso. Amálio, curtido pelos imaginários que designam "o lar, a mãe, as paisagens andinas, a fome, a injustiça essencial da vida humana",  por certo anteciparia o meu caminho. Como sempre, uma questão de perdas e ganhos. 

Para escrever esta postagem, me inspiro nesta breve antologia poética de César Vallejo, publicada pela Alianza Editorial, com um detalhado prólogo de José Miguel Oviedo, com a qual vou e volto no universo da poética vallejiana, a construção marcada por três momentos distintos, Trujillo, Lima e Paris, uma obra que sofreu por parte de críticos, compiladores e pesquisadores "a mais intensa manipulação (...) de que se tenha memória em nossa literatura". Mas Miguel Oviedo também destaca duas importantes virtudes da sua poética, "uma nova e outra bem conhecida: sua agônica e profunda compreensão da complexa natureza dos fenômenos históricos que envolvem o homem, e sua inesgotável capacidade de invenção verbal para registrá-los tal como passavam diante de si, mas ao mesmo tempo como se passassem ante nós mesmos". Essa 'experiência universal' o leva a militar pela causa republicana na guerra civil espanhola, porém sua opção ideológica não o cega diante da condição humana, "a ação é a consequência imediata do sentimento de solidariedade". 

Gostaria de destacar, no original, trechos de dois poemas representativos da obra de César Vallejo, primeiro Trilce e depois, España, aparta de mí este cáliz. Para sentir o pulsar inclemente de suas palavras, "o não haver sido senão mortos sempre"


LXXV

"Estáis muertos.

Que extraña manera de estarse muertos. Quienquiera diría no lo estáis. Pero, en verdad, estáis muertos.

Flotáis nadamente detrás de aquesa membrana que, péndula del zenit al nadir, viene y va de crepúsculo a crepúsculo, vibrando ante la sonora caja de una herida que a vosotros no os duele. Os digo, pues, que la vida está en el espejo, y que vosotros sois el original, la muerte.

Mientras la onda va, mientras la onda viene, cuán impunemente se está uno muerto. Sólo cuando las aguas se quebrantan en los bordes enfrentados y se doblan y doblan, entonces os transfiguráis y creyendo morir, percibís la sexta cuerda que ya no es vuestra.

Estáis muertos, no habiendo antes vivido jamás. Quienquiera diría que, no siendo ahora, en otro tiempo fuisteis. Pero, en verdad, vosotros sois los cadáveres de una vida que nunca fue. Triste destino. El no haber sido sino muertos siempre. El ser hoja seca sin haber sido verde jamás. Orfandad de orfandades.

Y sinembargo, los muertos no son, no pueden ser cadáveres de una vida que todavía no han vivido. Ellos murieron siempre de vida.

Estáis muertos".


Batallas
(IV)

"Los mendigos pelean por España,
mendigando en París, en Roma, en Praga
y mendigando así, con mano gótica, rogante,
los pies de los Apóstoles, en Londres, en New York, en Méjico,
Los pordioseros luchan suplicando infernalmente
a Dios Santander,
la lid en que ya nadie es derrotado.
Al sufrimiento antiguo
danse, encarnízanse en llorar plomo social
al pie del individuo,
y atacan a gemidos, los mendigos,
matando con tan solo ser mendigos.

Ruegos de infantería,
en que el arma ruega del metal para arriba,
y ruega la ira, más acá de la pólvora iracunda.
Tácitos escuadrones que disparan,
con cadencia mortal, su mansedumbre,
desde un umbral, desde sí mismos, !ay! desde sí mismos.
Potenciales guerreros
sin calcetines al calzar el trueno,
satánicos, numéricos,
arrastrando sus títulos de fuerza,
migaja al cinto,
fusil doble calibre: sangre y sangre.
!El poeta saluda al sufrimiento armado!"

     

30 novembro 2014

Consolidação democrática

a parcialidade midiática já não é mais suficiente para decidir eleições


Em um primeiro momento, logo após as eleições, confesso que fui tomado pelo desgosto que ameaçava a compreensão serena dos fatos. A sucessão de acontecimentos não foi fácil, sobretudo para os que temos de enfrentar as notícias midiáticas ao longo de todos estes anos de governança, mas as semanas que se sucederam à reeleição de Dilma foram difíceis ao extremo. A absurda matéria de capa da Veja, nas vésperas das eleições, sem chances para o direito de resposta à altura, ameaçou a serenidade do processo eleitoral. Depois, talvez menos por este motivo, a vitória arrancada a fórceps, no derradeiro momento, sobrevindo ao longo dos dias seguintes a reação virulenta dos derrotados nas redes sociais, com a multiplicação assustadora das reações xenofóbicas que já havíamos presenciado em 2010. Para inflamar o delicado momento, os discursos inconformados de uma parte da mídia que acusava o golpe da derrota, investindo com força redobrada em argumentos pesados contra o PT, e confesso, não foi fácil ver e ouvir tantos Mervais atarantados. 

Ao mesmo tempo que fortes investidas brotavam das redações, elas expandiam-se naturalmente nas falas de líderes políticos derrotados, ou vice-versa, e não era difícil imaginar que desta feita a estratégia havia sido coordenada para reproduzir uma versão tropical do Tea Party estadunidense, ameaçando a impasse político e consequentemente, a ingovernabilidade. E sucederam-se os primeiros movimentos de parcela da sociedade civil, atendendo a convocatória da oposição, alimentada pelo rancor inercial da derrota, a avenida Paulista ocupada por cerca de 2000 pessoas clamando furiosamente uma mistura de impeachment de Dilma e a volta dos militares. No alto dos carros de som, personagens como Lobão, pobre Lobão, e Eduardo Bolsonaro, filho de Jair, modelos mais acabados de um fascismo inacabado que insiste em vicejar. 

Foi o correr do tempo mais o equilíbrio nos atos das pessoas serenas que permitiram com que as coisas retornassem à aparente sensatez. Ontem, não mais de 600 desses protofascistas sacudiram seus cartazes contra os mesmos alvos, Dilma, Cuba, o comunismo, além de loas renovadas aos militares. Pessoas que apenas demonstram a absoluta falta de noção histórica, ao não compreenderem que não só Cuba e o comunismo não estão mais aí para assustar seja quem for, como os próprios militares rechaçam qualquer apoio a um tresloucado regresso ao poder. Como se não bastasse, o próprio desejo pelo impeachment se vê cada vez mais abandonado pela força dos acontecimentos, já que não existe qualquer base legal que se possa utilizar para tocá-lo avante. Em suma, deste primeiro mês de turbilhão pós-eleitoral, prevalece a serenidade de quem soube respeitar o caminho da democracia e o desgaste dos desesperados, que não desistirão no anseio por atalhos.

O percurso da presidenta Dilma se consolida com o passar dos dias, nem tão maravilhoso como sonharia um militante petista tradicional, nem tão agourento como desejaria a mídia hegemônica. A equipe do novo governo surge aos poucos, e ao meu ver, com a sobriedade de quem sabe perfeitamente das dificuldades que haverão de surgir, principalmente no âmbito econômico. Mas sinto que a política que diferencia este governo de 12 anos, pautada nos avanços sociais, permanecerá inabalável. Isso é o que verdadeiramente conta, a transformação do Brasil pelas bases sociais, com mais acessos à cidadania. Ao assistir na semana passada a conferência de Thomas Piketty, ficou claro que não há no momento outro objetivo senão perseverar neste caminho, se possível aperfeiçoando-o com mais distribuição de renda, no caso, oriundas das grandes fortunas. Ao longo de todas as recentes tormentas que mobilizaram principalmente intolerantes emoções e tentaram macular o desdobramento natural da vida política da nação, saio convencido de que nossa democracia está fortemente arraigada e em contínuo desenvolvimento. Em outras palavras, não há como temer por um tenebroso retrocesso, desses que só as mentes mal informadas sobre nossa história persistem em alimentar.


          

18 novembro 2014

Reencontro com J.P.Sartre

foto: Juan Rulfo

Uma vez mais permaneço três semanas distante, sem uma única postagem. Não tem justificativa, não posso alegar sequer o cansaço emocional decorrente das eleições ou os compromissos acadêmicos. Os temas se sucederam de modo abundante, e por diversas vezes o desejo foi grande de registrar uma crônica. No meio de tantos fatos políticos, que por certo estarão presentes em intensa análise nas próximas postagens, acabei me envolvendo com uma pesquisa para a elaboração de um texto que me foi solicitado por uma revista eletrônica. A partir do tema 'Fronteiras', decidi fazer uma leitura sartriana sobre o intelectual moderno e sua responsabilidade social. Seria esta a fronteira a ser desbravada, aspectos como a necessidade de ruptura com a falsa universalidade de sua compreensão burguesa de mundo. A princípio, enveredei pela leitura do opúsculo Em Defesa dos Intelectuais, de 1965, e avancei na conferência Função do Intelectual. Busquei uma relação com a farsa dos analistas contemporâneos, ditos intelectuais, que forjam análises e métodos particularistas, em defesa de seus interesses corporativos, e que são apresentados como posturas universalistas. São os falsos intelectuais, como dirá Sartre, antes de tudo, uns vendidos.

Mas não me foi suficiente. Sabia que dispunha de arquivos das minhas pesquisas de mestrado e para eles me dirigi. Encontrei uma pasta verde, nomeada Projeto São Paulo S/A e em seu interior, revolvi um mundo! Súbito retomei contato com anotações densas, que realizei a partir de inúmeros textos de fenomenologia e existencialismo, como por exemplo os apontamentos de toda a primeira parte do livro de Paulo Perdigão, Existência e Liberdade, onde ele faz uma análise muito didática d'O Ser e o Nada. As anotações preenchiam um caderninho, e havia muito mais. Folheei um denso fichamento da obra mestra de Sartre, O Ser e o Nada, vinte e seis páginas de caderno universitário, condensando a leitura de mais de 150 páginas da obra. Registros valiosos cujos conceitos destacados certamente foram por mim incorporados na prática cotidiana dos últimos quinze anos, conceitos como a má-fé, transcendência, o homem sincero, temporalidade, reflexão - "Mas a reflexão pura continua a descobrir a temporalidade apenas em sua não-substancialidade originária; em sua negação de ser Em-si, descobre os possíveis enquanto possíveis, suavizados pela liberdade do Para-si, revela o presente como transcendente e, se o passado lhe aparece como Em-si, ainda é sobre o fundamento da presença"... - desdobrando as distinções do Para-si e do Em-si. Lembrei que as dificuldades iniciais não me impediram de seguir na leitura das complexas argumentações da dialética sartriana, nesta que ainda é tida como uma obra difícil. Na verdade, dispondo por opção de todo o tempo do mundo, procurava usufruí-lo dedicando-me longamente à leitura e anotações na biblioteca da PUC. Uma época em que podíamos enveredar por leituras e aprofundar conceitos, amparados pelo ritual acadêmico que estimulava a pesquisa, sem a pressão por resultados imediatos.

Também retomei no acervo da pasta verde as anotações de As Ideias de Sartre, de Arthur Danto, que se bem me recordo, me ajudaram bastante como guia para adentrar o pensamento da filosofia de Sartre. Juntamente com as definições de "vergonha", "o absurdo", "angústia", desenvolvi uma aproximação à personagem Carlos, de São Paulo S/A, então o centro do meu objeto de estudo, projetando um tour de force que se alongava indefinidamente, avançando por outras obras e estudiosos de Sartre, como Camila Salles Gonçalves, que com seu Desilusão e História na Psicanálise de Sartre, trabalhava mais os aspectos subjetivos de seu existencialismo. A partir desta leitura também formulei esboços para uma compreensão de Carlos, neste caso sob o viés da consciência irrefletida - "um fluxo que, por assim dizer, não se detém para conhecer o que está fazendo, apesar de jamais ser inconsciente"...

No mesmo caderno, mais ao final, as ricas anotações de A Náusea, onde aí sim, relacionei diretamente as personagens centrais do romance e do filme, Roquentin e Carlos. Destaquei, por exemplo, o conceito da temporalidade, no primeiro caso, "Revelava-se a verdadeira natureza do presente: era o que existe e tudo o que não era presente não existia. O passado não existia"... - e no segundo caso, "Carlos não encontra nada no passado e o futuro o assusta. O problema é que faz do presente uma transição entre essas temporalidades - passado e futuro - sem interferir, sem decidir-se por uma atitude que contemple o seu estado de espírito, seu desejo e a sua falta"...

Tudo muito intenso e o reencontro me enleva, relançando-me no turbilhão daquelas estimulantes descobertas. Uma das mais reveladoras foi a obra Ciência e Existência, de Álvaro Vieira Pinto, onde dediquei apontamentos para a maior parte dos 22 capítulos, em 28 densas páginas de caderno universitário. Este professor não fazia parte da bibliografia de estudos e sua descoberta au hasar foi uma saudável contribuição, a interação da ciência com o saber prático, uma ciência engajada, pulsante, mobilizada para fora das salas acadêmicas, promovendo análises de temas como alienação, o conhecimento científico, cultura, dialética... - "A lógica dialética alcança o objeto da pesquisa científica no plano de maior profundidade, no plano das contradições que lhe determinam a essência, no movimento dos fenômenos que têm lugar na natureza e que se tornam a causa da diversidade dos seres, contradições essas que aparecem entranhadas nos conceitos que refiram subjetivamente os dados da realidade"...
Recolhi ainda papéis avulsos sobre inúmeros temas voltados para o cinema, o estudo de Bazin, anotações sobre o filme São Paulo S/A, minha transcrição de uma longa entrevista de Person na TV Cultura, trechos fotocopiados do roteiro original do filme e minhas primeiras versões da dissertação...

Se por um lado não encontrei nesse amplo material as informações sobre o tema Fronteiras, que pretendia desenvolver para a revista digital, por outro me entretive com o vigor de tantas redescobertas, anotações cuidadosas, leituras prolongadas sobre temas fundantes, que no final das contas me permitiram constituir ao longo dos anos uma consciência de mundo e um olhar crítico à realidade social em que vivo. A essa altura talvez seja oportuno registrar o conceito de intelectual em Sartre, que hoje para mim se confunde com educador social, "A natureza da contradição do verdadeiro intelectual obriga-o a se engajar em todos os conflitos de nosso tempo porque são todos - conflitos de classes, de nações, de raças - efeitos particulares da opressão dos desfavorecidos pela classe dominante e porque em cada um deles ele está, ele, o oprimido consciente de sê-lo, do lado dos oprimidos".


26 outubro 2014

Coração Valente




Tomo meu café e vejo, a média distância, três atendentes conversando animadamente com o entregador de doces e salgados da empresa. Tentam convencê-lo sobre as vantagens de, na opinião delas, se votar em Aécio. Ele resiste, trazendo argumentos do desgoverno em Minas, da inapetência do partido dele, mas logo se vê acuado, contra a geladeira de bolos. Sua expressão animada se opõe aos trajes desgarrados e puídos que veste; tenho a representação da invisibilidade não apenas social, mas ali, física mesmo. Quando ele se posiciona do lado de fora do balcão, os passantes o ignoram. Atroz diferença com a realidade das sociedades socialmente mais equânimes, é inevitável a memória de uma cena semelhante que presenciei há tempos, em uma cidade alemã. Nela, o coletor de lixo entra na cafeteria para cumprir com seu trabalho e é recebido de modo respeitável pelos presentes. Portava um uniforme asseado e digno, fruto certamente do respeito com que seus empregadores proporcionavam não só à imagem da empresa, mas ao bem-estar de seus empregados, enquanto cumpriam suas tarefas. O homem foi convidado a tomar um café, e ao final saiu com os containers, sendo cumprimentado por todos.

Retomo a cena presente, o entregador prepara para se retirar com seu imenso carrinho no exato instante que um burguês de bermudas e mocassins marrons se aproxima, coberto de adesivos da campanha de Aécio. É efusivamente recebido pelas meninas, que ignorando o amigo entregador, se voltam saltitantes para o sujeito, que num gesto influente, se gaba dos signos que enuncia e pede o café. Um encontro que não dura quinze segundos, o suficiente para que o sentido de classe seja completamente anulado pela subserviência atávica, onde a distinção se faz prevalecer, os mais vulneráveis se entregam aos caprichos do mais poderoso, sem que isso ofereça mais do que a preservação do abismo social. De um lado, o olhar de admiração para quem supostamente é um vencedor respeitável, o espelho ideal de uma sociedade capitalista competitiva, cuja imagem é dia-a-dia cultuada. E de outro, o ideal corporificado, a representação do sucesso relativo que ainda se alimenta da distinção.

Uma cena que é a moderna transcrição da sociedade escravocrata que ainda não superamos. A presença social dominante em seu silêncio, capaz de quebrantar o espírito de classe e estabelecendo seus valores às camadas menos favorecidas. Um poder que não pretende compartilhar, mas subordinar e desse modo se perpetuar. Não à toa esta discussão surge aqui, em um dia de eleições presidenciais, onde dois projetos claros e distintos se apresentam. Um que deseja promover avanços sociais, a partir de programas de afirmação e de distribuição de renda, com vistas a uma sociedade menos desigual, que possa usufruir as benesses do consumo material e intelectual. De outro, o prolongamento de um liberalismo pautado pelos ganhos financeiros e pelos interesses corporativos, onde o ser humano raramente aparece como a razão dos investimentos. 

Por tudo isso, a imagem que ilustra esta postagem, outra cena, desta feita diante do TUCA, aqui na PUC de São Paulo. Uma noite festiva, onde o manifesto de apoio à candidatura Dilma ultrapassou o espaço físico do teatro e se esparramou deliciosamente pela rua Monte Alegre, embandeirada e avermelhada. Pessoas mais adultas, com a experiência de longas e tormentosas lutas políticas ao longo da vida, confraternizando com jovens que vão tomando o gostinho da vivência política como base para as transformações sociais. Por horas, esse convívio no espaço público, em um momento da campanha que havia incertezas sobre o resultado do pleito. Hoje, todos os índices de pesquisa apontam, tomara, vitória de Dilma e de um projeto político de governo fundamental para a construção de uma cidadania para todos.

                                                                                                                                 para M.R.



13 outubro 2014

Desdobramentos



Após uma semana do primeiro turno, a sensação eleitoral me parece outra diante daquela que se verificou no domingo e mesmo nos primeiros dias subsequentes. Havia um clima de debilidade, impalpável, sem qualquer explicação racional, apenas a impressão dispersa nas ruas e canalizada nas mídias corporativas de que Aécio não só havia conseguido uma estrondosa recuperação, como já se posicionava em vantagem. Pesquisa de um instituto desconhecido do Paraná apontava vantagem de Aécio de oito pontos (49 a 41 por cento), o que depois se verificou infundado. 

A mídia eletrônica mais a impressa entrou rápido em ação e expôs em detalhes o depoimento de um ex-diretor da Petrobrás, que para amenizar sua prisão concordou com a delação premiada. Sem se provar nada, ou dar tempo para a defesa dos partidos acusados, o rolo compressor mídia + oposição trombeteou o fato de modo irresponsável, numa clara tentativa de interferir no processo eleitoral. Nestes últimos dias o caso refluiu das manchetes, não só pela reação do governo, como pela forte mobilização nas redes sociais.

Aliás é aqui, nas múltiplas plataformas digitais, que se deve decidir as eleições deste ano! Ambas as campanhas se organizam para ocupar esse espaço, com vídeos e mensagens que alcançam o cidadão comum com grande eficiência. Da parte do candidato oposicionista, vejo uma tentativa de aproximação corpo a corpo, com mensagens diretas produzidas por ele próprio e endereçadas aos milhões pelo what's aap, além de jogos eletrônicos em que o personagem não é Mario Bros mas o próprio Aécio, a vencer uma série de etapas. Se o processo dialoga diretamente com o eleitor, sobretudo com o mais jovem, ele não esclarece as plataformas políticas nem suas propostas mais genéricas. 

Ao contrário, a campanha de Dilma ao menos no facebook é rica em informações e densa em dados, que comparam o que foi o último governo tucano no Brasil e os anos de Lula e Dilma. Começam a surgir pequenos vídeos, não só com apoios, mas que discorrem sobre projetos de governo, o que me parece acertado, pois cria um diferencial de valor nas propostas de um e de outro candidato.

Hoje surgiu a primeira pesquisa Vox Populi, que coloca Dilma com 51% dos votos válidos, pouco ainda, mas que pode indicar uma tendência, e oxalá ela se confirme. Ainda é cedo, faltam 13 longos dias, e todo cuidado é pouco, pois o cerco midiático-empresarial está feito. Hoje mesmo um jornalista (Xico Sá) se demitiu da Folha por desejar expressar seu apoio a Dilma em sua coluna. O jornal argumenta que essa prática é interdita nas colunas, mas permitida na página adequada (de debates). O problema é que existem outros colunistas, como Azevedo, Constantino ou o tal do Pondé, aos quais tudo é permitido, sem qualquer cerimônia.

Penso nesse jornalismo arcaico, que parece provir das páginas amarelecidas da Primeira República, onde as elites não perdiam a voz e tampouco seus plenos direitos de expressão. E mais além, é como se os cronistas de hoje, reproduzindo os padrões burgueses de antão, impusessem à sociedade seus pontos de vista e esperando vassalagem moral. Como se os argumentos da aristocracia devessem mais uma vez prevalecer como referências para o bom devir dos valores sociais e culturais da nação. 

Há cem anos, era o ideário da Casa Grande, hoje, nada além do que um fortuito interesse de gabinete refrigerado, em conluio com os mercados corporativos. É como posso sintetizar a manutenção tresloucada de um jornalismo classista, aliado a qualquer coisa que lhe mantenha as vantagens, em um mundo hipoteticamente capitalista e competitivo.