25 junho 2014

A Praga de Josef Koudelka



Com a mais forte das luzes pode-se dissolver o mundo. Diante de olhos fracos, ele se torna sólido, de olhos mais fracos ele ganha punhos, de outros mais fracos ainda, ele fica envergonhado e esmaga quem ousa fitá-lo.
Franz Kafka, aforismos.




Recordo-me com alguma precisão destas imagens em uma revista, provavelmente publicadas na desaparecida Fatos & Fotos, cujo estilo se aproximava bastante da famosa revista Life estadunidense, o saboroso deleite para os olhos, a generosa fartura do foto-jornalismo em preto e branco. Para uma criança circunspecta como eu, aquilo era o êxtase, era possível alongar indefinidamente cada visita, avançando e recuando em cada leitura. Viajava nos detalhes das imagens, tentando compreender o clima dos acontecimentos e o que, afinal, se encontrava no campo semântico de cada reportagem. Construía o imaginário das fotos a partir de minhas prolongadas observações, explorando cada detalhe de cada fotografia. A invasão da Tchecoslováquia oferecia uma mistura de tanques e armas com expressões de gente comum nas ruas, o espaço urbano revolto a partir de uma presença indesejável, e o contexto forjava-se na dicotomia do bem (as pessoas indignadas) e do mal (os militares, ou, os indivíduos de capacetes e armas). 


Apenas muito mais tarde saberia das circunstâncias do registro iconográfico, tomado pelo fotógrafo Josef Koudelka, que captou a invasão das tropas do Pacto de Varsóvia sufocando o que se denominou A Primavera de Praga. Os entrechoques comandado pela revolta estudantil se manifestavam naquele mágico 1968, em maio nas barricadas de Paris, em outubro na trágica Noite de Tlatelolco, em agosto com a supressão da experiência socialista tcheca. Durante anos em minha juventude o nome Alexander Dubcek significou mais do que o senso libertário de um governo comunista com feições libertárias, ofereceu-me a primeira leitura de um desejo de uma inédita organização coletiva, finalizada com a reação esperada, a resistência coletiva. Nas capas de meus cadernos colegiais, fazia questão de registrar seu nome como uma forma de independência juvenil, contra toda forma de opressão social.

  
Ainda uma vez Praga, a mesma de Jan Kubis e Josef Gabcik que se levantou contra a ocupação nazista, a mesma de um certo Josef K., que certa manhã foi detido sem que tivesse feito mal algum. No sábado passado, pude reencontrar em uma exposição no MIS uma parte do acervo fotográfico de Koudelka sobre a invasão e naturalmente reencontrar com minha infância, mais uma vez aquelas personagens que me haviam absorvido longamente, agora em um contexto histórico completamente modificado. Como da primeira vez, observei as faces dos ocupantes, em sua maioria jovens, amontoados em seus tanques, assustados com uma mobilização popular inesperada que os rechaçava. Retomei as expressões gestuais, a grande marca dessas imagens, em um tempo em que o photo op não era uma prática disseminada, elas transcendem o registro de uma decisão política para nos desvelar o sentido puro de uma reação coletiva.

   
Recupero a indignação em movimento espasmódico, que busca apenas repelir o indesejável, sem uma organização eficaz. Por certo temos a construção simbólica de uma resistência impossível, mas que não deixa de se manifestar. Quem sabe aquele jovem chinês que deteve uma coluna de tanques na Praça da Paz em Beijing, em 1989, não tinha essas imagens como referência para seu ato. Quem sabe outras tantas atitudes de resistência impossível, ao longo dos últimos quarenta anos, não foram alimentadas por estas imagens! Quando não vemos os movimentos isolados de jovens, vemos a massa estática a se colocar como um signo de oposição. Toda a paisagem sonora silenciada pela gravidade das cenas, pelo desespero e pela tristeza de um fato que se acaba de se consumar.


Tanto quando garoto, vejo o que me liga a esse momento histórico tão corajosamente apreendido por Koudelka, a profunda comoção social, manifesta por gestos e atitudes indignadas, de resistência, ainda que inútil. As condições políticas se me revelam em um plano distante; o que persiste em conduzir o meu olhar são os dois lados claramente definidos, um com face definida, que denota em vários matizes o estarrecimento que brota no instante, e outro com uma face invisível, que se consubstancia na presença implacável, premeditada. Tornam-se, juntos, a expressão de uma decisão inapelável, que rompe de modo definitivo com um estado de coisas e talvez por isso, aprofundada pelo tom sombrio das imagens, o cinza de um verão inesquecível. Mais do que as marcas de uma mudança histórica, imagens de uma primavera que se dissolve nos desvãos da intolerância burocrática.





12 junho 2014

O discurso impermanente



A poucas horas do início da Copa, se não há ainda um clima fervoroso como normalmente se vê neste evento, é porque o brasileiro está mais atento aos acontecimentos. Em outra palavra, ainda que de modo diverso, se posiciona de modo mais crítico, rejeitando aceitar o ludíbrio artificial, mercadológico, falsamente ufanista, orquestrado pelas grandes corporações que negociam o espetáculo. Não vejo desânimo, mas sim um olhar natural de espera, e que no devido momento, se envolverá com a devida intensidade.

Curiosamente não podemos contar com os grandes veículos de comunicação deste país para nos informarmos a respeito. Criou-se uma leitura deturpada dos gastos, um alardear insensível sobre meias verdades que se transformaram em pontas de lança para o questionamento do evento, visando o descrédito do governo. Um imenso desserviço, que não teve outro propósito senão alimentar interesses corporativos, em detrimento de uma análise justa e construtiva.

Foi um estranho período de notícias insufladas por efeitos bombásticos, que repetidas com regularidade, tornaram-se mantras dos desavisados. Os veículos hegemônicos mostraram a cara de sua insensatez ao revelarem, para o espírito crítico, o malogro de seu discurso. Pois o malogro do seu discurso ocorre por uma razão simples, não pretende adesão ao corpo social, mas inspirá-lo com desprezo. Em duas linhas, a divulgação da notícia se estrutura a partir da negação das virtudes e do realce dos problemas. Todo fato social tem seus pontos falhos e estes devem ser privilegiados, sem tréguas. Na pós-modernidade uma elaboração inventiva do fato não é mais questionada, mas relativizada, isso pela própria natureza do ritmo veloz de nosso cotidiano. 

Ou seja, não há tempo para se deter na análise das nuanças do discurso, logo outro mais ou menos elaborado se deriva do primeiro e ocupa o seu lugar, e temos a tecedura de outra verdade, menos relevante e mais apropriada. O propósito desse processo é aprofundar o mal-estar social, disseminando impressões incorretas que sensibilizam o imaginário da opinião pública, tornando-a suscetível ao sentimento que se pretende alcançar, o desprezo, a intolerância.

Trata-se de uma articulação meticulosa, que avança e envenena aos bocados, sem mostrar os rastros e sem evidenciar os objetivos. Ao final das contas, o importante é inocular o sentimento de rechaço ao evento, instaurando dúvidas que permitam a exploração seriada, criminalizando o agente empreendedor, o governo trabalhista.

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Observo, confiante, que se trata de um discurso que embora nos alcance, não mais nos convence. É capaz de, à la longue, forçar uma leitura equivocada, que em absoluto se acomoda como uma compreensão abrangente da realidade. A deturpação dos fatos não resiste ao contraponto sério e objetivo dos que estão, efetivamente, comprometidos com a verdade factual. E essa não me parece uma responsabilidade restrita apenas aos jornalistas e comunicadores sociais.

Seja como for, em tempos de acesso crescente às múltiplas plataformas digitais, encontramos modos de recuperarmos a capacidade da análise crítica sobre os fatos, descartando a desinformação frívola que distorce nossos legítimos anseios sociais para privilegiar os interesses corporativos.  




07 junho 2014

Camus




A foto acima foi a primeira que vi de Albert Camus, há mais de 40 anos, impressa no livro O Estrangeiro, na quarta capa de uma editora portuguesa, Edição Livros do Brasil, de Lisboa. Foi a última leitura solicitada pela professora Marlene, no final do curso ginasial, que a cada bimestre ao longo de três anos, nos pediu a leitura de um livro, normalmente do romantismo brasileiro, mas também de outros períodos. Assim, de cabeça, me recordo de Visconde de Taunay (Inocência), Bernardo Guimarães (O Garimpeiro), José de Alencar (O Tronco do Ipê), Machado de Assis (Iaiá Garcia), como também Orígenes Lessa (O Feijão e o Sonho), Aluísio de Azevedo (O Cortiço), Maria J. Dupré (Éramos Seis), e uns poucos autores estrangeiros, como Julio Verne (20.000 mil Léguas Submarinas), contos de Oscar Wilde e O Estrangeiro, de Camus. 

Pois bem, foi a última leitura de um último bimestre com a incansável professora Marlene, que eu e mais uns tantos colegas de classe combinávamos ao longo dos anos alguma possibilidade de detonar seu fusquinha 1961, claro, com ela dentro. Incansável porque determinada, e em um momento difícil de nossa história, suas aulas se encaixaram integralmente no período Médici. Hoje sei o quanto foi importante aquela sua determinação de nos abrir os horizontes por intermédio da literatura, mas na época, como aluno ingênuo e incipiente, o mundo se limitava ao pátio externo para as partidas de futebol com gol caixote. Víamos os seus caprichos como exigências que estavam acima de nós. Em suas aulas estudamos um pouco de tudo, análises sintáticas, acentuação, ortografia, verbos, ditados, além das análises literárias, enquanto a olhávamos com um misto de desejo, por sua beleza, e repulsa. 


Era jovem, conhecida no Ginásio Estadual Prof. Linneu Prestes como 'a bonequinha' em razão de seu jeito delicado, a franjinha cobrindo a testa, a voz fina exprimindo-se de modo articulado em meio a abordagens sempre esclarecedoras. Não sobreviviam dúvidas nem tampouco paixão, assim ela encontrava uma forma de lidar com mais de quarenta meninos na flor da adolescência, no auge da inquietude. Ainda sou capaz de visualizá-la em seu otimismo diante da tarefa singular e determinada, um inequívoco traço camusiano de ser.  

Foi nesse contexto que soube pela primeira vez de Camus, e naturalmente passou despercebido. Fiz algum esforço em avançar pelas primeiras páginas, mas desisti. A nota bimestral da professora Marlene somava um conjunto de pequenas avaliações, compreendi que sacrificar a leitura de O Estrangeiro não seria um problema. Passei de ano, e o tempo correu. O livro permaneceu de início numa estante da casa de meus pais e mais tarde o confisquei para as minhas prateleiras, apenas por seu valor sentimental. 

Por vezes, ao longo da vida, retomei o exemplar e sem enfrentá-lo, terminava por apreciar a imagem que ilustra esta postagem, um Camus reflexivo, exalando o absurdo da vida em uma expressão. Já bem crescido, resolvi aventurar-me na narrativa e desvelei uma obra magnífica, escrita com primor. A esse tempo, já me identificava como um existencialista sartriano, o que postergou minha atenção para com a obra camusiana, não em razão de uma postura filosófica que me opusesse a essa aproximação, mas pela própria necessidade de conhecer melhor a obra de Sartre. Parecia-me complicado dedicar-me por igual a dois pensadores grandiosos e com divergências entre si. De todo modo, posso dizer que nunca abandonei Camus e quando pude realizei pequenas incursões, como em A QuedaO Equívoco, ou O Mito de Sísifo, trechos de O Homem Revoltado, obra esta que acelerou a ruptura com o então amigo Sartre

Nestes dias, assisti ao belíssimo documentário Viver com Camus de Joel Calmettes e uma onda de imenso prazer se formou estimulada por minha recôndita simpatia pelo autor, esparramando-se nas areias quentes do universo camusiano feito de ousadia, determinação e singeleza. O indivíduo em situação, diante do mundo controverso, necessitando se posicionar e para isso, fazendo sua opção independente das tensões, sabendo de algum modo lidar com as dificuldades. 

Camus nos mostra que é possível movimentar-se com destreza, ainda que seu silêncio equivocadamente o transforme em um alvo fácil. Tanto quanto a professora Marlene, bem vejo agora, uma camusiana par excellence! Destaco um trecho de Camus inscrito no belíssimo livro de Morvan Lebesque, Camus par lui même: 'Exalto a minha lucidez no meio daquilo que a nega. Exalto o homem perante aquilo que o esmaga, e a minha liberdade, a minha revolta e a minha paixão juntam-se nesta tensão, nesta clarividência e nesta repetição desmedida (...)'. As palavras do homem absurdo a recusar o desespero ou a tentação do suicídio, vivendo a vida e dando forma ao seu destino. 


Gosto de recordar os depoimentos das pessoas comuns no filme de Calmettes, tão plenos de lucidez, de bem-estar com o mundo ao redor, e de imaginar como as dúvidas, as convicções, os acertos, os equívocos de uma obra são capazes de proporcionar sentimentos como a do homem que sem ter conhecido Camus, o considera un copain, un ami, un compagnon de route.



22 maio 2014

Degenerescência

o patético esforço para criar em cima dos fatos


Com a aproximação das eleições de 2014, a mídia corporativa brasileira retoma uma característica que lhe é peculiar desde o final das eleições de 2002, ou seja, o de desbocar sobre os fatos a ponto de oferecer uma versão, e não a leitura isenta. Com a versão, assume criteriosamente um posicionamento, que distorce a análise imparcial. É o caso em que a interpretação substitui o acontecimento em si, desdobrando-se em hipóteses surpreendentes, dentro do espírito do espetáculo em que se transformou a notícia tratada pela mídia corporativa. 

A isenção se perdeu nos descaminhos do negócio e já não se encontra com facilidade, contaminada que foi pela leviandade despropositada do discurso. Tal leviandade muitas vezes observada e criticada nas análises atentas que repercutem nas redes sociais, seja por meio do jornalismo independente, seja por meio dos novos sujeitos protagonistas, também interessados em analisar e opinar. Vejo nesse protagonismo participativo o saudável contraponto ao espírito desvairado e paulatinamente superado da velha mídia, ou em outras palavras, a renovação do espírito crítico disseminado em rede pelas múltiplas plataformas tecnológicas no lugar da leitura passiva, muitas vezes editada pelos interesses oligopólicos. 

Há um sentimento de fluidez, de liberdade, onde por diversos caminhos é possível recompor uma verdade razoável dos acontecimentos, ainda que para isso seja necessário 'driblar' armadilhas levianas que também despontam na rede. Preferível a livre abundância de análises do que o controle pela escassez! Não pretendo neste momento aprofundar meu ponto de vista, deixarei esta tarefa para mais tarde. Apenas dou vazão a uma impressão pessoal que me leva a refletir. A decadência pode parecer mais amarga do que parece e no caso da velha mídia corporativa, a interpretação que se distancia da realidade se alimenta de um ódio que não convence como argumento.  



01 maio 2014

Primeiro de Maio

Passeata do Partido Obrero, BsAs 2009


(em uma bela noite lá estavam, avançavam pela avenida de Mayo saídos das mais diversas villas aqueles homens, mulheres, crianças desejosos por representar a si mesmos em suas mazelas do cotidiano, em um manifesto que os tornava mais sonhadores que renegados. 
Um primeiro de maio fora de época, como deve ser, a avenida marcada pela performance dos trabalhadores. O fluxo avermelhado demarca os pequenos gestos da invisibilidade e ressalta a portentosa procissão. 
Meus sentimentos da cena, hoje, se aproximam mais do poema de Cesar Vallejo, que transcrevo abaixo, do que da epifania trotskista proposta naquele instante)

    
Traspié entre dos estrellas

!Hay gentes tan desgraciadas, que ni siquiera
tienen cuerpo (...)
parecen salir del aire, sumar suspiros mentalmente, oír
claros azotes en sus paladares!

Vanse de su piel, rascándose el sarcófago en que nacen
y suben por su muerte de hora en hora
y caen, a lo largo de su alfabeto gélido, hasta el suelo.

(...)

!Amado sea aquel que tiene chinches,
el que lleva zapato roto bajo la lluvia,
el que vela el cadáver de un pan con dos cerillas,
el que se coge un dedo en una puerta,
el que no tiene cumpleaños,
el que perdió su sombra en un incendio,
el animal, el que parece un loro,
el que parece un hombre, el pobre rico,
el puro miserable, el pobre pobre!

!Amado sea
el que tiene hambre o sed, pero no tiene
hambre con qué saciar toda su sed,
ni sed con qué saciar todas sus hambres!

!Amado sea el que trabaja al día, al mes, a la hora,
el que suda de pena o de vergüenza,
aquel que va, por orden de sus manos, al cinema,
el que paga con lo que le falta,
el que duerme de espaldas,
el que ya no recuerda su niñez; amado sea
el calvo sin sombrero,
el justo sin espinas,
el ladrón sin rosas,
el que lleva reloj y ha visto a Dios,
el que tiene un honor y no fallece!

!Amado sea el niño, que cae y aún llora
y el hombre que ha caído y ya no llora!

Ay de tánto! !Ay de tan poco! !Ay de ellos!


(Trechos do poema Traspié entre dos estrellas, de César Vallejo, Alianza Editorial, 2013)



21 abril 2014

Zeit Café


Colônia, 2010


A estação que me acompanhava em cada instante, antes da partida. Escolhi a mesa mais afastada, na entrada do café e pus-me a pensar um pouco sobre as circunstâncias. Atravessaram-me os momentos de nossas jornadas, o redescobrimento dos gestos, dos tempos duradouros de cada palavra, a sucessão perdida dos olhares em torno do desejo, os impulsos de cada caminhada noturna, os longos beijos apaixonados no leito de amor, os sabores das mesas, o alimento que nos entretinha em pensamentos e miragens... a música incidental, os temas forjados e esquecidos... Atenuo minha inquietação, a estação já não me causa estranhamento, agora é uma questão de aguardar a hora da partida, a observar de maneira despreocupada as pessoas prosseguirem céleres em seu destino, agrupadas em conversas triviais ou solitárias capturadas pelas brumas dos pensamentos contínuos, movidas por suas pequenas tragédias.

(...)

Acordo pela madrugada, após me debater com sonhos sem sentido, em que seres humanos morrem e tornam-se zumbis sob minha complacência. Um saxofone que exalava notas rápidas em legato, sob o acompanhamento atravessado do público com as mãos. É provável que esteja impressionado pela carga de trabalho, pela semana que promete novos compromissos com prazos que não se postergam. Com a exceção de dois magníficos grupos de alunos, ou talvez três, as aulas perdem sua força. É notória a percepção de alunos se desgarrarem da concentração mágica e se dispersarem. Acompanham atentos, e então uma pergunta, outra mais, o debate travado se multiplica em falas disseminadas, não se retoma a concentração de antes. As aulas, os seminários, os pequenos rituais acadêmicos que não cessam, os deslocamentos das estações para os hotéis, cafés da manhã, recepções acadêmicas, gentilezas, as falas e os debates, mais aplausos, o silêncio inquieto dos vagões... Ainda assim, malgrado o sacrifício dos textos poéticos, tem sido o melhor semestre letivo nestes anos todos. 

(...)

A viagem está concluída, não há o que fazer e também não sei se estaria disposto a acrescentar algo mais. Talvez ainda surja neste tempo vago algumas reflexões pessoais que me perseguem, sobre temas que não tive condições de me dedicar. É quando posso retomar os rascunhos da ficção, mas a esta altura o que é ficção e realidade? Há situações em que uma se funde à outra, ou uma prepara o terreno para a outra. As folhas do meu caderno quadriculado ganham linhas e páginas de anotações que se mesclam, as urgentes do cotidiano nas bordas, enquanto visualizo a jovem em sua bicicleta, a mão não é tão hábil para reter o fluxo de impressões, por isso não é raro me deter no meio de uma imagem em construção. A narrativa ganha densidade, volúpia, ameaça escapar, para ao final se amansar como bom alazão selvagem. Coloco-me em sinuosa espera, hoje sem inspiração para novas ideias, é bem possível que seja o cansaço acumulado, sabe-se lá. 

(...)

Olhares sofridos, de coragem, de dor e de afeto, e de uma longa trajetória de vida, onde sem dúvida prevaleceu a reprodução de um cotidiano muitas vezes sem graça, repetitivo, mas que retiro relatos pungentes, como se me fizesse personagem de uma outra narrativa mítica, forjada em disputas, amor, conquistas, em grande medida, por desesperança superada pela persistência. Novos e velhos personagens relidos por novas interpretações, em alguns casos pelas descrições mais serenas e prolongadas, em outros, pela memória que, sem ser a mesma, não confirma as mesmas lembranças de outras narrações. Aproveitei, assim, o tempo bondoso junto ao meu pai. A ceia trouxe, para mim, essas superposições da vida, passado que projetou o futuro e anuncia o presente, todos em simultaneidade, com as certezas que podemos ter, com as ausências que não podemos evitar. Como se cumpríssemos uma nova etapa de renovação, preparando-nos para mais um ciclo de vida, com todas suas boas e desagradáveis surpresas. Nosso tempo cronológico sempre reiniciado com as festas, a partir do congraçamento de fim de cada ano, das reflexões inevitáveis. Somos fortes e imaginosos, competentes o suficiente para, nos momentos de mudança, saber improvisar e descobrir novos 'caminhos epistêmicos' para a vida. Tenho sentido há algum tempo nas falas de meu pai uma concordância com a verdade suprema e penso que por isso sua leitura da vida surge tão límpida e tranquila.

(...)

Permanecem as gotículas da neve fundida, que se esparramam pela vidraça em alta velocidade. Logo estarei em Colônia, esta é a primeira vez. O trem flui desprovido de receios, avança em meio a uma paisagem lúgubre, branca e sem vida. Mais ao longe, vejo passar com menos pressa as habitações escuras e solitárias, aqui e ali obstruídas por suaves colinas cobertas de neve que as oculta por momentos. Pequenas estações passam velozes, modificando o ruído produzido no atrito com os trilhos. Mais parecem signos abandonados da civilização, assim como as casas, verdadeiras tumbas mortuárias à distância, inertes, silenciosas. Mesmo dentro do vagão, sou o passageiro que se inquieta pela imobilidade enganosa, pelo calor artificial, pela ausência de rostos, de tal modo que as gotículas apressadas no vidro, a paisagem branca, se alinham em um fundo generoso, que estimula o imaginário, os vagos registros da memória que me libertam de um mal-estar inusitado.

(...)

Nessa manhã opaca que avança por minha janela, penso um pouco em uma história imaginada aos pedaços, primeiro a ideia de alguém que desembarca em um lugar desconhecido - e o que aprofunda esta sensação é o estranhamento com as pessoas, com as ruas cobertas de neve, com as tardes mais frias do que as noites. Como uma referência mágica que impede o absoluto distanciamento, o Zeit Café na entrada da estação, com seus poucos clientes e o atendente prestativo, sempre com uma taça de café cremoso. O frio das manhãs amenizado pela serenidade de um lugar acolhedor. A cidade cinzenta como o palco de seus desencontros, enquanto Rutger, o cidadão viajante, aguarda o próximo embarque que tarda a ocorrer. Pelas condições climáticas, não pode se comunicar com o mundo exterior e suas curtas caminhadas pelas bordas da estação têm como companhia os pensamentos incertos, vez ou outra com uma boa taça de café. Enquanto aguarda que algo distinto aconteça, sente que mergulha na mesma dimensão opressora, conhece melhor ao atendente, que lhe apresenta os mesmos clientes de cada dia, pacientemente acomodados diante das mesmas mesinhas. 



13 abril 2014

Pablo Neruda - uma poesia




Manhã - VII

“Virás comigo”, disse, sem que ninguém soubesse
onde e como pulsava meu estado doloroso,
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada senão uma ferida pelo amor aberta.

Repeti: vem comigo, como se morresse,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh amor, agora esqueçamos a estrela com pontas!

Por isso quando ouvi que tua voz repetia
“Virás comigo”, foi como se desatasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado

que de sua cantina submergida soubesse
e outra vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor 
(trad. Carlos Nejar)



02 abril 2014

Um golpe espúrio

O presidente deposto João Goulart


A aula indicava apenas que eu cumpriria o programa do bimestre, apresentando uma discussão sobre o governo João Goulart para uma classe muito interessada com os temas das Teorias Sociais. Desde o início, o acompanhamento dos educandos gerou um processo estimulante, de atenção e participação. Pudemos avançar decididos em temas desde o Brasil Colônia, com Caio Prado Jr., até a Cultura Caipira, com Antonio Candido. Sempre um prazer pode-los encontrar dispostos a desvendar os caminhos complexos de nossa história, de nossa formação. Ao longo de dois meses avançamos, educador e educandos, até chegarmos ao cenário do golpe de 1964. 

Para minha surpresa, a melhor aula com esta turma. Ocupamos a manhã em torno das imagens, das primeiras páginas dos jornais e revistas da época, dos atores, das nuanças das histórias que se completaram com o triste desfecho, o fim do Brasil voltado para as Reformas Sociais. Por mais que desconhecessem os detalhes, foram incorporando a discussão com um desprendimento comovedor. Sabiam que compartilhávamos os sinuosos percursos de um momento-chave de nosso país, momento que por sua dimensão e força por certo interferiu na realidade familiar de cada um deles. Essa recuperação silenciosa da história social e familiar por certo os conduziu em densa expectativa até o final da aula.

...
   
Especificamente sobre o tema, não há nada mais doloroso do que a consciência de um Brasil que foi bruscamente interrompido nesse golpe indecente, que cassou a inteligência brasileira, rompeu o que Darcy Ribeiro chama de 'nosso processo de auto edificação', nos dobrou aos interesses forâneos e arrancou o direito de sonharmos com nossos desígnios, a partir de nossas escolhas soberanas. O livro de Jorge Ferreira, João Goulart, dentre outras publicações sobre o período que chegam a lume, nos oferece um excelente olhar retrospectivo para esse momento decisivo de nossa história. 

Abaixo transcrevo um trecho, na manhã do dia 2 de abril de 1964, que oferece boa resposta a uma das indagações feitas por um dos alunos, 'por que Jango abandonou o governo?'

"(...) A tentativa de resistência, disseram os militares (legalistas), seria sufocada em poucos dias. Goulart avaliou a situação militar, percebeu o risco praticamente certo de guerra civil e já possuía informações sobre as articulações norte-americanas no golpe. Não se tratava apenas de um movimento militar, mas, sim, de uma ampla coalizão civil-militar brasileira com o apoio de forças estrangeiras. O presidente, depois de pesar a disposição de forças, não aceitou a proposta de resistir. A resistência jogaria o país em uma guerra civil de consequências imprevisíveis, foi a sua avaliação. (...) Jango, naquele momento, sabia da amplitude do golpe que o estava depondo. Apoiando as forças armadas estavam os presidentes dos poderes Legislativo e Judiciário, bem como os governadores dos estados mais importantes do país, Guanabara, São Paulo, Minas Gerais (...). A imprensa e os meios de comunicação não apenas apoiavam, mas também incentivavam o golpe. Não se tratava só do apoio de empresários e latifundiários, mas de amplas parcelas das classes médias. (...)"