25 junho 2014
A Praga de Josef Koudelka
12 junho 2014
O discurso impermanente
Ou seja, não há tempo para se deter na análise das nuanças do discurso, logo outro mais ou menos elaborado se deriva do primeiro e ocupa o seu lugar, e temos a tecedura de outra verdade, menos relevante e mais apropriada. O propósito desse processo é aprofundar o mal-estar social, disseminando impressões incorretas que sensibilizam o imaginário da opinião pública, tornando-a suscetível ao sentimento que se pretende alcançar, o desprezo, a intolerância.
07 junho 2014
Camus
Pois bem, foi a última leitura de um último bimestre com a incansável professora Marlene, que eu e mais uns tantos colegas de classe combinávamos ao longo dos anos alguma possibilidade de detonar seu fusquinha 1961, claro, com ela dentro. Incansável porque determinada, e em um momento difícil de nossa história, suas aulas se encaixaram integralmente no período Médici. Hoje sei o quanto foi importante aquela sua determinação de nos abrir os horizontes por intermédio da literatura, mas na época, como aluno ingênuo e incipiente, o mundo se limitava ao pátio externo para as partidas de futebol com gol caixote. Víamos os seus caprichos como exigências que estavam acima de nós. Em suas aulas estudamos um pouco de tudo, análises sintáticas, acentuação, ortografia, verbos, ditados, além das análises literárias, enquanto a olhávamos com um misto de desejo, por sua beleza, e repulsa.
Era jovem, conhecida no Ginásio Estadual Prof. Linneu Prestes como 'a bonequinha' em razão de seu jeito delicado, a franjinha cobrindo a testa, a voz fina exprimindo-se de modo articulado em meio a abordagens sempre esclarecedoras. Não sobreviviam dúvidas nem tampouco paixão, assim ela encontrava uma forma de lidar com mais de quarenta meninos na flor da adolescência, no auge da inquietude. Ainda sou capaz de visualizá-la em seu otimismo diante da tarefa singular e determinada, um inequívoco traço camusiano de ser.
Por vezes, ao longo da vida, retomei o exemplar e sem enfrentá-lo, terminava por apreciar a imagem que ilustra esta postagem, um Camus reflexivo, exalando o absurdo da vida em uma expressão. Já bem crescido, resolvi aventurar-me na narrativa e desvelei uma obra magnífica, escrita com primor. A esse tempo, já me identificava como um existencialista sartriano, o que postergou minha atenção para com a obra camusiana, não em razão de uma postura filosófica que me opusesse a essa aproximação, mas pela própria necessidade de conhecer melhor a obra de Sartre. Parecia-me complicado dedicar-me por igual a dois pensadores grandiosos e com divergências entre si. De todo modo, posso dizer que nunca abandonei Camus e quando pude realizei pequenas incursões, como em A Queda, O Equívoco, ou O Mito de Sísifo, trechos de O Homem Revoltado, obra esta que acelerou a ruptura com o então amigo Sartre.
Camus nos mostra que é possível movimentar-se com destreza, ainda que seu silêncio equivocadamente o transforme em um alvo fácil. Tanto quanto a professora Marlene, bem vejo agora, uma camusiana par excellence! Destaco um trecho de Camus inscrito no belíssimo livro de Morvan Lebesque, Camus par lui même: 'Exalto a minha lucidez no meio daquilo que a nega. Exalto o homem perante aquilo que o esmaga, e a minha liberdade, a minha revolta e a minha paixão juntam-se nesta tensão, nesta clarividência e nesta repetição desmedida (...)'. As palavras do homem absurdo a recusar o desespero ou a tentação do suicídio, vivendo a vida e dando forma ao seu destino.
Gosto de recordar os depoimentos das pessoas comuns no filme de Calmettes, tão plenos de lucidez, de bem-estar com o mundo ao redor, e de imaginar como as dúvidas, as convicções, os acertos, os equívocos de uma obra são capazes de proporcionar sentimentos como a do homem que sem ter conhecido Camus, o considera un copain, un ami, un compagnon de route.
22 maio 2014
Degenerescência
A isenção se perdeu nos descaminhos do negócio e já não se encontra com facilidade, contaminada que foi pela leviandade despropositada do discurso. Tal leviandade muitas vezes observada e criticada nas análises atentas que repercutem nas redes sociais, seja por meio do jornalismo independente, seja por meio dos novos sujeitos protagonistas, também interessados em analisar e opinar. Vejo nesse protagonismo participativo o saudável contraponto ao espírito desvairado e paulatinamente superado da velha mídia, ou em outras palavras, a renovação do espírito crítico disseminado em rede pelas múltiplas plataformas tecnológicas no lugar da leitura passiva, muitas vezes editada pelos interesses oligopólicos.
Há um sentimento de fluidez, de liberdade, onde por diversos caminhos é possível recompor uma verdade razoável dos acontecimentos, ainda que para isso seja necessário 'driblar' armadilhas levianas que também despontam na rede. Preferível a livre abundância de análises do que o controle pela escassez! Não pretendo neste momento aprofundar meu ponto de vista, deixarei esta tarefa para mais tarde. Apenas dou vazão a uma impressão pessoal que me leva a refletir. A decadência pode parecer mais amarga do que parece e no caso da velha mídia corporativa, a interpretação que se distancia da realidade se alimenta de um ódio que não convence como argumento.
01 maio 2014
Primeiro de Maio
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| Passeata do Partido Obrero, BsAs 2009 |
Um primeiro de maio fora de época, como deve ser, a avenida marcada pela performance dos trabalhadores. O fluxo avermelhado demarca os pequenos gestos da invisibilidade e ressalta a portentosa procissão.
!Hay gentes tan desgraciadas, que ni siquiera
21 abril 2014
Zeit Café
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| Colônia, 2010 |
A estação que me acompanhava em cada
instante, antes da partida. Escolhi a mesa mais afastada, na entrada do café e
pus-me a pensar um pouco sobre as circunstâncias. Atravessaram-me os momentos
de nossas jornadas, o redescobrimento dos gestos, dos tempos duradouros de cada
palavra, a sucessão perdida dos olhares em torno do desejo, os impulsos de cada
caminhada noturna, os longos beijos apaixonados no leito de amor, os sabores
das mesas, o alimento que nos entretinha em pensamentos e miragens... a música
incidental, os temas forjados e esquecidos... Atenuo minha inquietação, a
estação já não me causa estranhamento, agora é uma questão de aguardar a hora
da partida, a observar de maneira despreocupada as pessoas prosseguirem céleres
em seu destino, agrupadas em conversas triviais ou solitárias capturadas pelas
brumas dos pensamentos contínuos, movidas por suas pequenas tragédias.
(...)
Acordo pela madrugada, após me
debater com sonhos sem sentido, em que seres humanos morrem e tornam-se zumbis
sob minha complacência. Um saxofone que exalava notas rápidas em legato, sob o acompanhamento atravessado
do público com as mãos. É provável que esteja impressionado pela carga de
trabalho, pela semana que promete novos compromissos com prazos que não se postergam.
Com a exceção de dois magníficos grupos de alunos, ou talvez três, as aulas
perdem sua força. É notória a percepção de alunos se desgarrarem da
concentração mágica e se dispersarem. Acompanham atentos, e então uma pergunta,
outra mais, o debate travado se multiplica em falas disseminadas, não se retoma
a concentração de antes. As aulas, os seminários, os pequenos rituais
acadêmicos que não cessam, os deslocamentos das estações para os hotéis, cafés
da manhã, recepções acadêmicas, gentilezas, as falas e os debates, mais
aplausos, o silêncio inquieto dos vagões... Ainda assim, malgrado o sacrifício
dos textos poéticos, tem sido o melhor semestre letivo nestes anos todos.
(...)
A viagem está concluída, não há o
que fazer e também não sei se estaria disposto a acrescentar algo mais. Talvez
ainda surja neste tempo vago algumas reflexões pessoais que me perseguem, sobre
temas que não tive condições de me dedicar. É quando posso retomar os rascunhos
da ficção, mas a esta altura o que é ficção e realidade? Há situações em que
uma se funde à outra, ou uma prepara o terreno para a outra. As folhas do meu
caderno quadriculado ganham linhas e páginas de anotações que se mesclam, as
urgentes do cotidiano nas bordas, enquanto visualizo a jovem em sua bicicleta,
a mão não é tão hábil para reter o fluxo de impressões, por isso não é raro me
deter no meio de uma imagem em construção. A narrativa ganha densidade,
volúpia, ameaça escapar, para ao final se amansar como bom alazão selvagem. Coloco-me
em sinuosa espera, hoje sem inspiração para novas ideias, é bem possível que
seja o cansaço acumulado, sabe-se lá.
(...)
Olhares sofridos, de coragem, de dor
e de afeto, e de uma longa trajetória de vida, onde sem dúvida prevaleceu a
reprodução de um cotidiano muitas vezes sem graça, repetitivo, mas que retiro
relatos pungentes, como se me fizesse personagem de uma outra narrativa mítica,
forjada em disputas, amor, conquistas, em grande medida, por desesperança
superada pela persistência. Novos e velhos personagens relidos por novas
interpretações, em alguns casos pelas descrições mais serenas e prolongadas, em
outros, pela memória que, sem ser a mesma, não confirma as mesmas lembranças de
outras narrações. Aproveitei, assim, o tempo bondoso junto ao meu pai. A ceia
trouxe, para mim, essas superposições da vida, passado que projetou o futuro e
anuncia o presente, todos em simultaneidade, com as certezas que podemos ter,
com as ausências que não podemos evitar. Como se cumpríssemos uma nova etapa de
renovação, preparando-nos para mais um ciclo de vida, com todas suas boas e
desagradáveis surpresas. Nosso tempo cronológico sempre reiniciado com as
festas, a partir do congraçamento de fim de cada ano, das reflexões
inevitáveis. Somos fortes e imaginosos, competentes o suficiente para, nos
momentos de mudança, saber improvisar e descobrir novos 'caminhos epistêmicos'
para a vida. Tenho sentido há algum tempo nas falas de meu pai uma concordância
com a verdade suprema e penso que por isso sua leitura da vida surge tão
límpida e tranquila.
(...)
Permanecem
as gotículas da neve fundida, que se esparramam pela vidraça em alta
velocidade. Logo estarei em Colônia, esta é a primeira vez. O trem flui
desprovido de receios, avança em meio a uma paisagem lúgubre, branca e sem
vida. Mais ao longe, vejo passar com menos pressa as habitações escuras e
solitárias, aqui e ali obstruídas por suaves colinas cobertas de neve que as
oculta por momentos. Pequenas estações passam velozes, modificando o ruído
produzido no atrito com os trilhos. Mais parecem signos abandonados da
civilização, assim como as casas, verdadeiras tumbas mortuárias à distância,
inertes, silenciosas. Mesmo dentro do vagão, sou o passageiro que se inquieta
pela imobilidade enganosa, pelo calor artificial, pela ausência de rostos, de
tal modo que as gotículas apressadas no vidro, a paisagem branca, se alinham em
um fundo generoso, que estimula o imaginário, os vagos registros da memória que
me libertam de um mal-estar inusitado.
(...)
Nessa manhã opaca que avança por minha janela, penso um pouco em uma história imaginada aos pedaços, primeiro a ideia de alguém que desembarca em um lugar desconhecido - e o que aprofunda esta sensação é o estranhamento com as pessoas, com as ruas cobertas de neve, com as tardes mais frias do que as noites. Como uma referência mágica que impede o absoluto distanciamento, o Zeit Café na entrada da estação, com seus poucos clientes e o atendente prestativo, sempre com uma taça de café cremoso. O frio das manhãs amenizado pela serenidade de um lugar acolhedor. A cidade cinzenta como o palco de seus desencontros, enquanto Rutger, o cidadão viajante, aguarda o próximo embarque que tarda a ocorrer. Pelas condições climáticas, não pode se comunicar com o mundo exterior e suas curtas caminhadas pelas bordas da estação têm como companhia os pensamentos incertos, vez ou outra com uma boa taça de café. Enquanto aguarda que algo distinto aconteça, sente que mergulha na mesma dimensão opressora, conhece melhor ao atendente, que lhe apresenta os mesmos clientes de cada dia, pacientemente acomodados diante das mesmas mesinhas.
13 abril 2014
Pablo Neruda - uma poesia
Manhã - VII
(trad. Carlos Nejar)
02 abril 2014
Um golpe espúrio
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| O presidente deposto João Goulart |
Para minha surpresa, a melhor aula com esta turma. Ocupamos a manhã em torno das imagens, das primeiras páginas dos jornais e revistas da época, dos atores, das nuanças das histórias que se completaram com o triste desfecho, o fim do Brasil voltado para as Reformas Sociais. Por mais que desconhecessem os detalhes, foram incorporando a discussão com um desprendimento comovedor. Sabiam que compartilhávamos os sinuosos percursos de um momento-chave de nosso país, momento que por sua dimensão e força por certo interferiu na realidade familiar de cada um deles. Essa recuperação silenciosa da história social e familiar por certo os conduziu em densa expectativa até o final da aula.
...
Especificamente sobre o tema, não há nada mais doloroso do que a consciência de um Brasil que foi bruscamente interrompido nesse golpe indecente, que cassou a inteligência brasileira, rompeu o que Darcy Ribeiro chama de 'nosso processo de auto edificação', nos dobrou aos interesses forâneos e arrancou o direito de sonharmos com nossos desígnios, a partir de nossas escolhas soberanas. O livro de Jorge Ferreira, João Goulart, dentre outras publicações sobre o período que chegam a lume, nos oferece um excelente olhar retrospectivo para esse momento decisivo de nossa história.
Abaixo transcrevo um trecho, na manhã do dia 2 de abril de 1964, que oferece boa resposta a uma das indagações feitas por um dos alunos, 'por que Jango abandonou o governo?'












