21 abril 2014

Zeit Café



A estação que me acompanhava em cada instante, antes da partida. Escolhi a mesa mais afastada, na entrada do café e pus-me a refletir, atravessaram-me os momentos de cada dia, o redescobrimento dos gestos, dos tempos duradouros de cada palavra, a sucessão perdida dos olhares em torno do desejo, os impulsos de cada caminhada noturna, os sabores em cada mesa, o alimento que nos entretinha em pensamentos e miragens... os longos beijos apaixonados, livres, cediços, a música incidental, os temas forjados e esquecidos... A estação já não me causa estranhamento, agora é uma questão de aguardar a hora da partida, observando a gente que se movimenta em seu interior, indo e vindo, pessoas agrupadas em conversas ou solitárias nos bancos, envoltas em pensamentos como eu, sem pressa, sonolentas na virada da noite.

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Acordo pela madrugada, após sonhos sem sentido, em que seres humanos iam morrendo e tornando-se zumbis sob minha complacência narrativa. E cantava um foxtrot animado em meio ao público, batendo as mãos sob o ritmo da canção. É provável que esteja um pouco impressionado pela carga de trabalho, pela semana que promete intensa, compromissos com prazos que não podem falhar. Com a exceção de duas magníficas classes, ou talvez três, as aulas perdem sua força, parte dos alunos se desgarram da concentração mágica e se dispersam, logo terei de elaborar temas que não sei de seus resultados. Como se não bastasse, as palestras, os seminários, pequenos rituais que não cessam, os deslocamentos das estações para os hotéis, cafés da manhã, recepções acadêmicas, gentilezas, as falas e os debates, mais aplausos, o silêncio inquieto dos vagões... Ainda assim, malgrado o sacrifício de escritos e pesquisas, tem sido o melhor semestre letivo nestes trinta anos de docência.  

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Considero esta viagem concluída, não há o que fazer e também não sei se estaria disposto a fazer mais alguma coisa. Começo a retomar vivamente o meu lugar, meu convívio, minha amada, minhas aulas, a continuidade da vida. Talvez ainda surjam neste tempo vago algumas reflexões, nada de significativo, sobre temas que não tive condições de me dedicar. Considero que a ficção poderá ser desenvolvida à parte, mas a esta altura, o que é ficção e realidade? Há situações em que uma se funde à outra, ou uma prepara o terreno para a outra. Talvez seja melhor retomar as anotações à mão, o frescor do improviso neste caso é insuperável. A elaboração prévia sempre acaba se rendendo ao improviso, a narrativa ganha densidade, volúpia, ameaça escapar, para ao final se amansar como bom alazão selvagem. Mas coloco-me em sinuosa espera, hoje sem inspiração para novas ideias, quem sabe o cansaço acumulado, sabe-se lá.  

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Olhares sofridos, de coragem, de dor e de afeto, e de uma longa trajetória de vida, onde sem dúvida prevaleceu a reprodução de um cotidiano muitas vezes sem graça, repetitivo, mas que retiro relatos pungentes, como se me fizesse personagem de uma outra narrativa mítica, forjada em disputas, amor, conquistas, em grande medida, por desesperança superada pela persistência. Novos e velhos personagens relidos por novas interpretações, em alguns casos pelas descrições mais serenas e prolongadas, em outros, pela memória que, sem ser a mesma, não confirma as mesmas lembranças de outras narrações. Aproveitei, assim, o tempo bondoso junto ao meu pai. A ceia trouxe, para mim, essas superposições da vida, passado que projetou o futuro e nos oferece o presente, todos ali, com as certezas que podemos ter, com as ausências que não podemos evitar. Como se cumpríssemos uma nova etapa de renovação, preparando-nos para mais um ciclo de vida, com todas suas boas e desagradáveis surpresas. Nosso tempo cronológico sempre 'zerado' com as festas, a partir do congraçamento de fim de cada ano, das reflexões inevitáveis. Somos fortes e imaginosos, competentes o suficiente para, nos momentos de mudança, saber improvisar e descobrir novos 'caminhos epistêmicos' para a vida. Tenho sentido já há algum tempo nas falas de meu pai uma concordância com a verdade suprema e penso que por isso sua leitura da vida surge tão límpida e tranquila. 

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Na manhã opaca que deslizava em minha janela do trem, pensei na história imaginada aos pedaços, primeiro a ideia de alguém que desembarca em um lugar desconhecido - e o que aprofunda esta sensação é o estranhamento com as pessoas, com as ruas cobertas de neve, com as tardes mais frias do que as noites. Como uma referência mágica que impede o absoluto distanciamento, o Zeit Café na entrada da estação, com seus poucos clientes, e o atendente prestativo, sempre com uma taça de café cremoso. O frio das tardes amenizado pela serenidade de um lugar acolhedor. A cidade cinzenta como o palco de seus desencontros, enquanto aguarda o próximo embarque, que tarda a ocorrer. Pelas condições climáticas, não pode se comunicar com o mundo exterior e suas curtas caminhadas têm como companhia seus pensamentos incertos, e dessa maneira espera, e enquanto espera, conhece melhor ao atendente, que lhe apresenta os mesmos clientes de cada dia, pacientemente acomodados diante das mesmas mesinhas.   


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