Pois bem, foi a última leitura de um último bimestre com a incansável professora Marlene, que eu e mais uns tantos colegas de classe combinávamos ao longo dos anos alguma possibilidade de detonar seu fusquinha 1961, claro, com ela dentro. Incansável porque determinada, e em um momento difícil de nossa história, suas aulas se encaixaram integralmente no período Médici. Hoje sei o quanto foi importante aquela sua determinação de nos abrir os horizontes por intermédio da literatura, mas na época, como aluno ingênuo e incipiente, o mundo se limitava ao pátio externo para as partidas de futebol com gol caixote. Víamos os seus caprichos como exigências que estavam acima de nós. Em suas aulas estudamos um pouco de tudo, análises sintáticas, acentuação, ortografia, verbos, ditados, além das análises literárias, enquanto a olhávamos com um misto de desejo, por sua beleza, e repulsa.
Era jovem, conhecida no Ginásio Estadual Prof. Linneu Prestes como 'a bonequinha' em razão de seu jeito delicado, a franjinha cobrindo a testa, a voz fina exprimindo-se de modo articulado em meio a abordagens sempre esclarecedoras. Não sobreviviam dúvidas nem tampouco paixão, assim ela encontrava uma forma de lidar com mais de quarenta meninos na flor da adolescência, no auge da inquietude. Ainda sou capaz de visualizá-la em seu otimismo diante da tarefa singular e determinada, um inequívoco traço camusiano de ser.
Por vezes, ao longo da vida, retomei o exemplar e sem enfrentá-lo, terminava por apreciar a imagem que ilustra esta postagem, um Camus reflexivo, exalando o absurdo da vida em uma expressão. Já bem crescido, resolvi aventurar-me na narrativa e desvelei uma obra magnífica, escrita com primor. A esse tempo, já me identificava como um existencialista sartriano, o que postergou minha atenção para com a obra camusiana, não em razão de uma postura filosófica que me opusesse a essa aproximação, mas pela própria necessidade de conhecer melhor a obra de Sartre. Parecia-me complicado dedicar-me por igual a dois pensadores grandiosos e com divergências entre si. De todo modo, posso dizer que nunca abandonei Camus e quando pude realizei pequenas incursões, como em A Queda, O Equívoco, ou O Mito de Sísifo, trechos de O Homem Revoltado, obra esta que acelerou a ruptura com o então amigo Sartre.
Camus nos mostra que é possível movimentar-se com destreza, ainda que seu silêncio equivocadamente o transforme em um alvo fácil. Tanto quanto a professora Marlene, bem vejo agora, uma camusiana par excellence! Destaco um trecho de Camus inscrito no belíssimo livro de Morvan Lebesque, Camus par lui même: 'Exalto a minha lucidez no meio daquilo que a nega. Exalto o homem perante aquilo que o esmaga, e a minha liberdade, a minha revolta e a minha paixão juntam-se nesta tensão, nesta clarividência e nesta repetição desmedida (...)'. As palavras do homem absurdo a recusar o desespero ou a tentação do suicídio, vivendo a vida e dando forma ao seu destino.
Gosto de recordar os depoimentos das pessoas comuns no filme de Calmettes, tão plenos de lucidez, de bem-estar com o mundo ao redor, e de imaginar como as dúvidas, as convicções, os acertos, os equívocos de uma obra são capazes de proporcionar sentimentos como a do homem que sem ter conhecido Camus, o considera un copain, un ami, un compagnon de route.













