22 março 2014

Sobre os fatos, ontem e hoje


Retorno da aula noturna – mais uma vez um momento sublime de pura devoção, minha e dos alunos – e reencontro o Kush Crew na esquina da Paulista com Augusta. Após acompanhar algumas batalhas de MCs e o movimento dos grupos de jovens que ocupam o lugar, penso em utilizar o gravador, entrevistar algum dos participantes, eles se movimentam de um lado para o outro, bebem, fumam, conversam em pequenos grupos, difícil a aproximação. Após um tempo, colo em um deles, Kagibre, 19 anos, que se diz produtor dos meninos. Olha-os com carinho, um ou outro se aproxima, percebo o respeito mútuo, logo ele me abre dizendo sobre o mercado, migrou do HC (Hard Core) para o rap, que em sua opinião virou um mercado, “antes era aquela coisa contra o sistema e contra o governo, e ainda é, como aconteceu com a MPB na ditadura, ela falava entrelinhas para conseguir vender, o rap está fazendo isso, falando entrelinhas para conseguir vender para a mídia”. Comenta que ocupam a Paulista porque “é um espaço vago”. Causa-me surpresa quando diz sem titubear, "qualquer um desses movimentos, (com jovens) de 15 a 20 anos, que está no 'underground', quem é da periferia ou até mesmo os jovens burgueses vindo para estas culturas, é só para poder se encaixar (...), com o rap está acontecendo muito isso, você está vendo MCs que vieram de berço de ouro, você está vendo o público, principalmente o público que tem dinheiro e que vem pra dentro (...). Pergunto o por que disso, ele me diz "por que (o rap) está em alta (...) o que está acontecendo nas mídias sociais influencia muito e é (no momento) o que está vendendo na bilheteria, é isso". Vejo uma versão simpática do rap, uma contradição aqui, ali, mas não deixando de reforçar uma visão do rap como mais um produto de mercado. Nesse meio tempo nos aborda um dos rappers, já alterado pela bebida, falando como se estivesse em uma batalha de MCs, e Kagibre acrescenta o óbvio, "ele não consegue falar sem rimar"... Antes de me despedir, pergunto sobre os circuitos públicos de jovens, skatistas, rappers, mesmo cosplays, ele me fala das máscaras, "cada movimento solicita uma representação" e quando indago se com o rap ocorre o mesmo, nova contradição, "com o rap é diferente, é a manifestação verdadeira, sem máscara".

Aproximamo-nos do fatídico aniversário do golpe de 1964, entre minhas atividades, ali estão espalhados os livros sobre o tema e os recolho para breves leituras nos intervalos de minhas atividades. O livro de Jorge Ferreira, o de Flávio Tavares – este sobre o golpe falhado em 1961 – o de Moniz Bandeira. Os relatos são tensos, refletindo o que era aquele momento, e sempre do ponto de vista do governo Jango. É triste ver a evolução dos acontecimentos, eu particularmente gosto de retomar a história com um desejo secreto de ruptura dos fatos consumados. Não é possível, o desdobramento, por mais absurdo e abusivo, deságua na brusca mudança do Brasil, o fim de um processo e o início de outro, trágico, profundamente lamentável. Penso na quantidade de traidores que permitiram com que o golpe fosse bem-sucedido, não só nas fileiras militares, como na sociedade civil. De Kruel no II Exército aos governadores Magalhães, Lacerda e Ademar de Barros, passando por institutos como Ipês-Ibad e instituições femininas como a CAMDE carioca, a UCF (União Cívica Feminina) e MAF (Movimento de Arregimentação Feminina) paulistas, sem contar a interferência direta da CIA e do Departamento de Estado. Não houve tempo para o decantado dispositivo militar ser acionado, ao que se percebe era um castelo de areia. Segundo Jorge Ferreira, a resistência é confusa, "Em São Paulo, as esquerdas se desarticulam diante do golpe. O Fórum Sindical de Debates e o Comando Estadual dos Trabalhadores, diante da repressão, não encontram meios para reagir. A greve geral deflagrada pelo CGT não obteve repercussão. A sociedade estava cansada". As imagens públicas daquele início de outono são sombrias, não se verifica uma articulação concatenada que pudesse impedir a derrubada de Jango, ao contrário, sobrevivem as panorâmicas e os primeiros planos das passeatas da Família com Deus pela Liberdade, ou já durante o golpe, os pasmados semblantes observando a movimentação de tropas. O mais dramático é observar, na análise retrospectiva ricamente documentada, o esforço altivo de João Goulart em se equilibrar na corda bamba, buscando por todos os canais a negociação que lhe foi negada.


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