28 setembro 2021

Victor Serge

Victor Serge no México

No livro Memórias de um revolucionário, à página 362, há uma delicada descrição de Serge, prestes a ser transferido para algum lugar não definido pela GPU, como se designava então a polícia secreta soviética: "O velho Eltsin, tolhido pelo reumatismo, vivendo num quartinho gelado, numa casa sem banheiro, quando lhe perguntei, 'Devo fazer no exterior uma campanha de imprensa para exigir a sua saída?', disse: 'Não, meu lugar é aqui' ". 

Serge, favorecido por sua dupla cidadania, belga e soviética, e por uma campanha intensa dos intelectuais europeus, conseguia, depois de três anos como deportado nos confins do Casaquistão, ser banido da URSS. Sua descrição sobre esses espaços ignotos e sem-fim impressionam pela simplicidade do processo: após dias e mais dias de transporte ferroviário, o condenado era desembarcado e entregue à própria sorte, tendo que se apresentar regularmente à sede local da GPU. Temperaturas rigorosas no inverno e verão, subempregos e as transferências constantes para outros rincões faziam da luta pela vida uma tarefa íngreme. Sobreviveu, segundo suas palavras, por não ter capitulado nos interrogatórios que amargou por apoiar Trotski e outros velhos revolucionários que faziam parte da Oposição ao regime de Stalin. Caso tivesse admitido algum dos crimes que lhe eram falsamente imputados, certamente não teria recuperado a liberdade.

Eltsin, assim como outros companheiros de Serge, Bobrov, Guirchek, Bielienki, que lutaram pela construção do socialismo na URSS, sofriam o desterro que, pouco tempo mais tarde, culminaria em seus desaparecimentos. Tinham participado da tomada do palácio de inverno, da guerra civil e depois da economia de guerra, do "passo atrás" da NEP, dos debates acalorados no Comitê Central que propiciaram, já no final dos anos 1920, a implantação da coletivização forçada e da aceleração do processo de industrialização. 

As palavras de Eltsin conformam a aceitação do destino imposto a muitos revolucionários, de variadas tendências, deportados como valorosos bolcheviques, "meu lugar é aqui", palavras ditas sem quietismo, simplesmente se aceitava beber o cálice amargo até o final. Isso nos levaria, de imediato, às descrições vívidas de Serge dos rincões perdidos na Rússia, enfiados nas estepes esquecidas, sempre piolhentas e esfomeadas, relatos que, pela sua densidade, pela ignomínia, envolve um processo semelhante para cada um dos desterrados. Não o farei aqui.

Victor Serge acabou banido da URSS em 1936, no auge dos processos de Moscou, rumo à França, graças ao forte apoio de entidades políticas e intelectuais atuantes da Europa ocidental. Sua preocupação era escrever, produzir sua literatura sob vários gêneros, relatando as experiências do exílio, a poética, as perspectivas políticas. É sugestivo passar por suas páginas das Memórias..., para se conhecer a deturpação stalinista do que deveria ser o comunismo. Fica também claro, pelo menos para mim, que os desígnios do comunismo democrático não passariam exclusivamente pelos caminhos propostos por Trotski, Bukharin, Preobrazenski, ou mesmo Lênin, mas certamente por uma conjunção de todas essas tendências. Naqueles anos turbulentos seria difícil que as escolhas políticas e econômicas mais acertadas lograssem sucesso.

A morte de Lênin, prematura, em janeiro de 1924, acelerou disputas internas que imobilizariam, durante os cinco anos seguintes, a instalação de um comunismo ao menos funcional, com uma cara minimamente humanista, voltada para a elaboração de uma sociedade que abraçasse a realização dos novos ideais. A guerra civil, que tomou três anos da jovem república, retardou de modo decisivo o início de um programa socialista, distorcendo-se com a ascensão de Stálin, então o regente de uma burocratização que imobilizaria o partido e o conduziria ao poder absoluto.

A sociedade soviética igualmente se imobilizaria, tanto pelo cansaço como pelo terror que recrudesce e que paulatinamente elimina os mecanismos democráticos de decisão. Não é por acaso que surge uma oposição da qual Serge fez parte, não como uma ação sectária, mas como o desejo de resistir ao rolo compressor burocrático. A partir de 1934, com o assassinato de Kirov, o estado policial se instaura e com isso, extingue-se toda e qualquer oposição interna, com o fim físico dos velhos bolcheviques. 

Pode-se estar ou não de acordo com o relato de Victor Serge, mas é inquestionável a qualidade da narrativa, que nos leva a vivenciar a crueldade das deportações. Trotski primeiro, e mais tarde o próprio Serge, escaparam da humilhação ao serem banidos. E ser banido representou o apagamento de intensa participação nas heroicas jornadas revolucionárias. Seu texto surge de maneira crua ou poética, dependendo da circunstância. É curioso notar que o filho adolescente o acompanha em todos os momentos mais sombrios; sua esposa, doente, passou parte do tempo internada em um sanatório de Moscou. 

Serge ainda escaparia das garras do nazismo, na última badalada, para o exílio final no México. Lá passaria a última etapa da vida, falecendo aos 57 anos incompletos.



22 setembro 2021

Juan Gelman, uma poesia (2)

 



Pedro o pedreiro


Aqui amarão, aqui odiarão, dizia Pedro, pedreiro,

cantando, levantando as paredes

suas mãos haviam se endurecido no ofício

mas nas palmas, ainda se elevavam doçuras e tristezas

que iam de encontro ao muro, ao teto

e depois, com o tempo, ardiam surdamente

ou entravam nos olhos das mulheres doces nas habitações

e elas entristeciam como quem se descobre uma nova solidão.


Pedro, desde o andaime

costumava cantar o Quinto Regimento,

falava aos companheiros sobre Guadalajara, Irún,

e de repente se fechava silente com sua Espanha.


De noite colocava suas mãos para dormir

e se via de volta à frente, envolto em seus balaços,

arrematava seus mortos para que não se esquecesse

a colher de novo se enchia de raiva.


E na manhã que se foi do andaime parecia

que uma pergunta, no fundo, ainda o iluminava

os companheiros o rodeavam esperando em silêncio

até que alguém veio e disse, "Levantem o defunto".


(Do original em espanhol, Pedro el albañil, extraído da obra Gotán, Seix Barral, 2008) 



15 setembro 2021

Paulo Freire, 100

 

Era assim o começo de cada semestre

Um dos reconhecidos prazeres de liberdade de cátedra é o educador ter a autonomia de montar seu curso e criar em sala de aula. E criar um ambiente de participação efetiva com o que se debate. Este foi o meu caso, nos últimos anos de minha atuação como professor, junto a alunos oriundos majoritariamente das áreas mais precárias da metrópole. Foi um tempo em que foi possível lançar luzes em autores indispensáveis para a nossa formação social, tais como Caio Prado Jr., Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Darcy Ribeiro, Antonio Cândido, dentre outros. Não havia a chateação que deve ocorrer agora, de professor ter de seguir um conteúdo programático previamente definido, engessado, vigiado, e ao romper com isso, ser chamado de ideólogo, ou doutrinador, ou alguma bobagem desse tipo.

Tempos de realização profissional, de passar por diversas disciplinas das Ciências Sociais Aplicadas, de Filosofia a Antropologia, de Teorias Sociais a Teoria Política e encontrar uma estimulante receptividade. Lembro que era comum nos divertir, eu e os alunos. Com a ajuda de imagens, o que amenizava as dificuldades do aprendizado para muitos alunos que deparavam pela primeira vez com temas tão complexos, era possível ilustrar os acontecimentos históricos, sociais, culturais, dar carne aos autores que estudávamos, criar sentido para as narrativas, e deixar que eles analisassem e julgassem livremente. Quando digo que nos divertíamos, era comum o final da aula chegar e muitos alunos, ao redor da mesa, seguir nos comentários sobre os conhecimentos apreendidos.

Certamente nesse processo o aprendizado foi mútuo. Logo compreendi que um tema que parecesse árido, absolutamente desconhecido, podia se transformar numa agradável surpresa, e nesse sentido, valia muito o esforço coletivo para chegar a uma didática que revelasse o sentido de cidadania, de percepção do processo histórico. Sobrevinham os assuntos, Canudos, escravidão, casa grande e senzala, sociedade colonial, golpe militar, o homem cordial, dentre outros tantos, e imbricados nesses grandes painéis, os aspectos presentes da vida cotidiana, como a desigualdade social, o negro como subalterno, a mulher cerceada em seus direitos, a força e o abandono das periferias urbanas e por aí afora.

Começávamos o semestre com uma aula mestra, que iria orientar o caminho a ser percorrido, a pedagogia de Paulo Freire. Eram aulas que resultavam em intervenções performáticas, pois a partir de um determinado momento tamanho era meu envolvimento me transfigurava, incorporando a beleza do significado de podermos constituir ferramentas  para melhor compreendermos o mundo ao redor e, ao final das contas, interagir como atores sociais. Sentia-me conduzido pela naturalidade da pedagogia freireana, e muito animado em observar que tudo fazia sentido para os educandos, que absorviam os desígnios da prática libertadora como ação cultural do ser humano. 

Era difícil esgotar o tema, era difícil chegar a um resultado final, e ficava bem assim, o horizonte aberto para novas revelações, que viriam ao longo do curso. Paulo Freire foi vital para que pudéssemos, educador e educandos, conceber utopias a partir de nossa realidade. Nunca naqueles cinco anos surgiu um aluno que invectivasse as etapas de seu método, ao contrário, não foram poucas as vezes que se produziram calorosos olhares e impressionados comentários, como fruto de uma necessidade orgânica, visceral, que precisasse ser exalada e redimensionada.  

Minha condição de educador ficou muito facilitada ao incorporar às aulas aquele manancial de ação cultural, que com a sequência do curso se transformava em caudaloso rio, cuja força e beleza nos tornava um pouco mais sujeitos cognoscentes, um pouco mais cidadãos inquietos, absortos na problematização dos temas cotidianos, a refletir de maneira crítica os fatos. Seria a mais pura falácia observar nesse processo de aprendizado algum grau de doutrinamento, pois é justamente isso que Paulo Freire condena - o indivíduo automatizado, imerso em uma empobrecida memorização alienante. 

Era por demais livre e autônomo para dar chances a um grilhão desse tipo. Foi saudável incorporar, como propunha Paulo Freire, "a esperança utópica na busca da transformação social", começando pela transformação de cada um de nós.

(atualizado em 16.09.2021)



01 setembro 2021

Antonio Machado - provérbios

Antonio Machado

 

PROVÉRBIOS E CANTARES (CXXXVI)

 

XXIX

Caminhante, são tuas marcas

o caminho, e nada mais;

caminhante, não há caminho,

se faz o caminho ao andar.

Ao andar se faz caminho,

e ao olhar para trás

se vê a trilha que nunca

se há de voltar a pisar.

Caminhante, não há caminho,

senão estrelas no mar.


XLI

Bom é saber que os vasos

nos servem para beber;

o mal é que não sabemos

para que serve a sede.


XLIV

Tudo passa e tudo fica,

porém o nosso é passar,

passar realizando caminhos,

caminhos sobre o mar.


XLVI

À noite sonhei que ouvia

a Deus, gritando-me: Alerta!

Logo era deus quem dormia,

e eu gritava: Desperta!


PROVÉRBIOS E CANTARES (CLXI)


I

O olho que vê não é

olho porque tu o vês;

é olho porque te vê.


XVII

Em minha solidão

vi coisas muito claras

que não são verdade.


XXXI

Após o viver e o sonhar,

está o que mais importa:

despertar.


LXVI

Prestais atenção:

um coração solitário

não é um coração.


(Traduzido do original em espanhol Poesías Completas, Editorial Espasa Calpe, 1975)



18 agosto 2021

Esperanças e desilusões

 

A mudança que traria dignidade


Participo como expositor do próximo Comunicon, em outubro, promovido pelo PPGCOM da ESPM, depois de três anos da ocorrência do último. O texto que apresento estava pronto para aquele evento, e tive que atualizá-lo um pouco às pressas. Essa necessidade se deu em razão do artigo desenvolver sua estrutura teórico-metodológica embasada nos acontecimentos políticos que surgem com o golpe cívico-militar de 1964 e, passando pelo "golpe suave" de 2016, alcança os nossos dias. Como pano de fundo, o desenvolvimento social, ou de maneira mais direta, o descaso das políticas públicas produzido de maneira acintosa pela maioria dos atores políticos responsáveis, ao longo desse período de quase 60 anos, com a grata exceção dos governos de Lula e Dilma.

Como exemplo, tomo a cidade de Remígio, no interior da Paraíba, um caso de pobreza endêmica nos anos 1990, que em vinte anos se transforma radicalmente graças principalmente ao Bolsa Família, tão vilipendiado pelos governos posteriores. Lamentavelmente não tive tempo de atualizar as bibliografias referentes aos dados públicos utilizados no artigo escrito em 2018 - suas referências estão "vencidas", ou, não foram localizadas nos acessos presentes. O que não desvaloriza os dados ali lançados, bem como a certeza de que, com um mínimo de cuidado e respeito com o bem-estar social, as desgraças seculares podem ser superadas com dignidade. 

Abaixo, destaco partes do texto, que deverá fazer parte dos anais do congresso em novembro.

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UTOPIAS, UCRONIAS E DESILUSÃO: a tragédia das políticas de desenvolvimento social, 1964-2021 


I – Estratos analíticos do golpismo, 1964

Um pensamento contrafatual ou ucrônico que sempre está presente quando analisamos um acontecimento marcante do passado, seja pessoal ou ligado à história social, nasce da pergunta “que teria acontecido se...?”. Por vezes, ao debruçarmos em um fato histórico, sofremos a tentação de imaginar o que teria acontecido se determinadas situações não tivessem ocorrido da maneira como ocorreu. No transcurso do golpe cívico-militar de 1964, foram muitos os “ses” que, entre o dia 31 de março e o dia 2 de abril, nos permite exercitar possibilidades contrafáticas que por certo teriam mudado o curso da história. O pior dos cenários se estabeleceu: o que passou a ser chamado de Revolução, na verdade incorporou a demolição das utopias populares que se criavam, englobadas nas propostas das reformas – agrária, política, tributária. 

Outros caminhos, diante do contexto histórico, possuíam maior chance de terem sido trilhados, não foram. E se a divisão enviada do Rio pelo I Exército, então sob o comando legalista, tivesse enfrentado a tropa rebelde de Mourão, vinda de Juiz de Fora? E se o Palácio da Guanabara, sob o governador golpista Carlos Lacerda, tivesse sido isolado em suas comunicações com o mundo externo? E se o II Exército, sob o comando do então legalista Amaury Kruel, não tivesse se bandeado para o lado golpista no segundo dia da intentona? E se Goulart tivesse aceito a sugestão de Brizola para enfrentar o golpe, resistindo desde Porto Alegre, junto ao poderoso III Exército? Todas essas questões possibilitam imaginar desdobramentos alternativos ao golpe institucional que, por longos 21 anos, mudaria completamente a face política do país. (...)

Triste observar a evolução dos acontecimentos, sem deixar de alimentar o desejo íntimo de uma ruptura alternativa; desprender-se de alguma forma da realidade e pela ficção poética, alcançar a utopia imaginada. Novamente o exercício de considerar a alternativa ucrônica, a derrota do golpe cívico-militar, nada mais sugere do que a possibilidade da continuidade utópica sonhada em um contexto social mais solidário, reafirmando sua beleza imaginária na realização de certas propostas sociais de justiça e distribuição da riqueza. Entretanto, o desdobramento, por mais absurdo e abusivo, deságua na brusca mudança do Brasil, o fim de um processo e o início de outro, trágico, embasado em outros projetos políticos que excluiriam o bem-estar social. 

Para que isso ocorresse, sem dúvida foi decisiva a participação de diversos atores sociais que permitiram com que o golpe fosse bem-sucedido, não só nas fileiras militares, como na sociedade civil. De Kruel no II Exército aos governadores Magalhães, Lacerda e Ademar de Barros, passando por institutos como Ipês-Ibad e instituições femininas como a CAMDE carioca, a UCF (União Cívica Feminina) e MAF (Movimento de Arregimentação Feminina) paulistas, sem contar a interferência direta da CIA e do Departamento de Estado. 

(...)

II - Remígio, Paraíba

(...)

Uma percepção intuitiva e outra concreta sobressaem na dolorosa releitura deste caderno, publicado há mais de 20 anos. No primeiro caso, com base nas relações cotidianas do mundo ao redor e nas informações colhidas em diversas fontes, sem uma análise científica profunda e abrangente para este trabalho, a apreensão de que houve uma saudável mudança, ainda que não completa, nas condições de acesso e cidadania das populações dos municípios menos favorecidos de nosso país, e aqui destacando em especial a região Nordeste, que deu um salto consistente de qualidade, não considerando seus centros urbanos mais avançados, mas as regiões mais isoladas, em pleno agreste. A realidade descrita por Graciliano Ramos, filmada por Gláuber e pintada por Portinari, hoje, definitivamente, não é mais a mesma.

A percepção concreta se escora em trabalhos sérios como o produzido por Walquíria Rego e Alessandro Pinzani, no livro Vozes do Bolsa Família - autonomia, dinheiro e cidadania. Destaco da obra um trecho sugestivo, "(...) As pessoas não precisam mais passar seu tempo pensando exclusivamente em procurar comida suficiente e podem dedicar-se a atividades (inclusive econômicas) diversificadas. (...) (e também) ganham mais autonomia ao se tornarem responsáveis pela maneira como o dinheiro da bolsa é usado". (REGO e PINZANI, 2014, p.205-206).

(...)

IV - As sequelas escravocratas

O capítulo As Raças e os Mitos do livro de Dante Moreira Leite, O Caráter Nacional Brasileiro, contribui para compreendermos mais a formação social e política de nosso país. Em especial, são abordados dois pensadores conservadores do início do século XX, Nina Rodrigues e Oliveira Viana, fortemente influenciados pelo que se denominava então de evolucionismo social, com um olhar pessimista para a nossa miscigenação.

O olhar racista de Nina Rodrigues para nossa sociedade analisava o negro como raça inferior, e dessa forma, a herança de nosso mestiçamento marcada pelo equilíbrio mental instável que acarreta, inferindo-se, conforme Moreira Leite, que o brasileiro seria um desequilibrado. De Oliveira Viana, a descrição social pouco ou nada tem de científico, onde enaltece os sentimentos de uma aristocracia rural do início de nossa colonização, "não são eles somente homens de cabedais, com hábitos de sociabilidade e luxo; são também espíritos do melhor quilate intelectual e da melhor cultura" (LEITE, 2002, p.294).

Moreira Leite desmonta passo a passo a construção dessa hipotética visão idílica de nossa sociedade; a esse respeito, vale a pena consultar as páginas de Tinhorão Ramos sobre o cotidiano tedioso e modorrento no período do Brasil Colônia, mais animado nos espaços onde a festa e o batuque de negros escravos, quando permitidos, se faziam presente. A aristocracia rural, para Oliveira Viana, constituía o "centro de polarização dos elementos arianos da nacionalidade" (LEITE, 2002, p.297), por certo aqui influenciado pelos ventos do fascismo europeu que sopravam vigorosos nos anos 1930.

A discussão em aula torna-se muito oportuna pois assim identificamos de algum modo a linhagem do pensamento conservador, machista e ainda com fortes elementos escravocratas de nossa elite econômica, que promoveu o golpe institucional para assumir as rédeas políticas, ao modelo da Velha República, para não dizer do Segundo Império. Nina Rodrigues e Oliveira Viana são apenas alguns dos representantes desse pensamento arcaico, que como Euclides da Cunha, Silvio Romeiro e tantos outros intelectuais formadores de opinião, escoravam-se nas teses do embranquecimento como o caminho para a virtude moral e o desenvolvimento da nação.

As marcas desse pensamento derivadas da superioridade biológica persistem nos dias presentes, em manifestações regulares pelas redes sociais, reproduzidas por quem apenas se inspira em reproduzir e causar impactos, sem mensurar os efeitos.

V - Tempo de retrocessos e incertezas

Houve um recuo histórico, em que a memória da República Velha restabeleceu-se com os retrocessos trabalhistas que nos reduziriam às formas organizacionais dos anos 1910, onde a luta e os embates trabalhistas simplesmente inexistiam, com a exceção das mobilizações anarquistas. Excluídas do poder, parcelas organizadas da sociedade forçosamente são levadas  a condensar significantes, mobilizando-se em torno das mais urgentes prioridades. Não é difícil imaginar uma renovada onda de experimentações, a consolidar experiências políticas que possam restabelecer verdadeiramente o Estado de direito em sua plenitude, longe dos aventureirismos conduzidos pelos interesses de uma envelhecida e corrupta oligarquia.

Para Marx, a linha de produção tem a função precípua de alienar o trabalhador em relação ao produto final do seu trabalho e, consequentemente, do valor agregado como resultado de seu esforço. Em outras palavras, torna-se dono apenas de sua força de trabalho, gerando a plus valia ao patrão ou dono dos meios de produção. Contrapõe, então, que o objetivo deve ser exatamente o oposto, o trabalho como um processo de humanização do trabalhador, na medida em que se conscientiza do seu valor. A consciência política o difere da materialidade produtiva da máquina, e sua organização social consolida o processo histórico que culmina na luta de classes. Conforme descrito no final do Manifesto, torna-se indispensável (nos operários) "uma consciência nítida do antagonismo hostil entre a burguesia e o proletariado". Não há como negar esse precipício de diferenças, não há como fugir do embate que se coloca.

(...)

Conclusão

(...)

Fortemente entrelaçados, essas instâncias da vida civil abafaram o descontentamento das classes trabalhadoras, ignorando qualquer movimento que surgisse desses setores. A virulência e principalmente a determinação contra a normalidade institucional do país, vindos do executivo, legislativo e judiciário, demonstra que seus atos foram pensados e desenvolvidos por forças ideologicamente muito bem estruturadas, internas e externas. Grupos de estudos e reflexão pautados por um liberalismo virulento, com forte ascendência e circulação nas classes dominantes deste país, decerto deixaram um contributo decisivo, eliminando os cuidados que sempre pautaram a política congressual.

Alguns desses agentes reverberam de maneira agressiva, e acrescidas à verborragia do capitão que ocupa a cadeira da presidência, tratam de fazer terra-arrasada com o sentido da política como ciência dirigida ao bem público, tal como a conhecemos desde o surgimento da das teorias modernas, com Maquiavel, Bodin, Hobbes, dentre outros.



06 agosto 2021

Luis Buñuel

 

Buñuel por Dalí

Minha leitura de Meu último suspiro, autobiografia de Luis Buñuel, escrita no crepúsculo de sua vida, foi feita sem qualquer linearidade, bastante próxima à irreverência surrealista, com idas e vindas, sem qualquer formalidade. Comecei pelo fim, depois saltei para o começo e detive-me a maior parte do tempo no miolo, nos anos intermediários, a partir da realização de Un chien andalou. Se o seu cinema me seduz de maneira incondicional pela originalidade, pela ousadia, seu texto me surpreendeu, revelando um Buñuel sem inspiração, muitas vezes desagradável e sem graça. A narrativa é desequilibrada, alternando passagens marcantes, como o período da guerra civil espanhola, com momentos descartáveis, quando descreve determinadas lembranças, que a seu ver, são engraçadas ou curiosas.   

Talvez seja essa sua proposta, não ser um livro sério, buscando constantemente aquilo que diz faltar no mundo moderno, provocação. Nesse sentido, o niilismo presente em determinadas atitudes soa obtuso, quando, por exemplo, diz que "(...) a ciência não me interessa. Parece-me pretensiosa, analítica e superficial (...)", argumento que, hoje em dia, soaria perigosamente frívolo, simpático à onda negacionista que varre o mundo. Alimenta a narrativa com fofocas de bastidores, como quando descreve sua amizade com Dalí, trazendo detalhes íntimos, "Sua vida sexual foi praticamente inexistente. Era um imaginativo, com tendências ligeiramente sádicas", ou revelando as diferenças (não tão bem assimiladas) que terminaram por distanciá-los por décadas. 

O livro traz as relações com intelectuais do universo surrealista e fora dele, demonstrando muitas vezes uma contradição insuperável, como ao reforçar conscientemente uma postura irreverente em inúmeras atitudes, e ao mesmo tempo se deixar levar por "prazeres burgueses", como por exemplo, o gosto em tomar drinques com Chaplin à beira da piscina, em Beverly Hills. Tem uma satisfação irresistível em descrever situações vivenciadas com personalidades do cinema, como as que teve com o próprio Chaplin, ou intelectuais de um modo geral, como com Lacan, onde tem a oportunidade de destacar passagens com pouca relevância.

Com tudo isso, seu livro me parece indispensável, prendeu longamente minha atenção. No meio dos pequenos pecadilhos, há momentos fortes, muito interessantes, como normalmente ocorre com a descrição das produções de seus filmes, ou o capítulo em que circula entre a Espanha convulsionada pelos enfrentamentos políticos e a França, que o acolhe em suas necessidades cinematográficas e intelectuais, nos anos 1930. Para mim foi uma notável descoberta seu documentário de 1933 (e que posteriormente assisti no Youtube), Les Hurdes, tierra sin pan. Não só pelo registro de um lugar miserável nas montanhas da Extremadura, mas pela coragem da denúncia social. 

A parte final descreve, com admirável autenticidade, a solidão e a decrepitude do corpo, sem dúvida aprofundados por seu sistema de crenças, pautado no ateísmo e na irreverência surrealista, que o acompanham até o último de seus dias. E termina com uma confissão, "apesar de meu ódio pela informação, gostaria de poder erguer-me entre os mortos, a cada dez anos, caminhar até uma banca de jornais e comprar alguns. (...) com os jornais debaixo do braço, lívido, esbarrando nos muros, retornaria ao cemitério e leria os desastres do mundo, antes de tornar a dormir, satisfeito na proteção tranquilizadora da sepultura".


  

24 julho 2021

Clio encontra Conselheiro

 

Uma Clio sertaneja vai ao encontro de Conselheiro

Clio, musa feita de sangue sertanejo, cujo santuário não está em Helicon, mas nas barrancas do rio Vaza Barris, faz de seu encontro com Antonio Conselheiro a redenção da nossa memória social, o elemento ucrônico que pelas derivas heterotópicas, alimenta o futuro utópico de nosso povo. Para que esses tentáculos temporais se harmonizem em suas dimensões históricas e míticas, o que deixou de ser no início se realiza nas ações políticas do movimento dos trabalhadores rurais sem terra, MST. 

A Clio, tal como descrita por Iuri Lotman é “uma peregrina que vai de encruzilhada em encruzilhada e escolhe um caminho”, e nesse sentido, sacramenta em idas e vindas, em erros e acertos, a consumação do ideal buscado desde o princípio, e que pela imposição de conjunturas desfavoráveis, apenas deixou indicado o caminho pelo qual Conselheiro desejava trilhar com seu povo. 

Passamos então pela tragédia de Canudos descrita por Euclides, pelas derrotas populares que deixaram de contemplar os projetos sociais de Celso Furtado e emolduraram o sentido épico da obra de Glauber Rocha, para só então, se realizar pela mobilização inventiva e pela ação imaginativa de grupos populares como o MST. A memória alimentada por Clio anulando o medo construído por nossas elites ao longo do tempo e assim, rompendo com a visão tradicionalista das narrativas que nos corrompem o conhecimento da história.

Esta é uma breve síntese do artigo "Clio e a memória do futuro: ucronias, utopias e heterotopias nos assentamentos do MST", que tive a imensa alegria de realizar em coautoria com minha querida Mônica Nunes, e que ao final, teremos o orgulho de ver publicado em uma importante referência acadêmica, a revista Lumina, da UFJF. 

Abaixo, dois ou três momentos do ensaio. 

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Clio e a memória do futuro: ucronias, utopias e heterotopias nos assentamentos do MST 

Mônica Rebecca F. Nunes
Marco Antonio Bin

(...) 

Lotman explica que o texto pode ter muitos extratos e ser semioticamente heterogêneo, a exemplo dos textos artísticos. Entrando em contato com o contexto circundante, como seu público, deixa de ser uma mensagem dirigida de um destinador a um destinatário. Mostrando capacidade de condensar informação, adquire memória. Pode crescer por si mesmo e, dessa forma, funcionar como dispositivo intelectual: não só transmite informação depositada nele a partir de fora, mas também transforma mensagens e produz novas. Esta capacidade geradora dos textos enfatiza também uma memória-gênese na cultura necessária para produzi-los, pois como afirma: “a memória não é para a cultura um depósito passivo, mas constitui uma parte de seu mecanismo formador de textos”. Para que isso aconteça, entendemos a memória da cultura e dos textos também construída por meio de códigos que operam e organizam sua orientação.

A memória-gênese, projetiva, que enxergamos na semiótica de Lotman, ajuda a pensá-la não apenas como “memória do passado”, como traz Paul Ricoeur ao explicar a conceituação de memória em Aristóteles, mas também como memória do futuro. Futuro não necessariamente como o que se coloca adiante, mas paralelo ao presente, tal qual entendido na teoria retrofuturista, explicada abaixo – ou ainda, como já dito sobre a figuração de Clio, no que está contido no caminho não percorrido. 

(...)

Há muito tempo a pergunta o que teria se passado se...? inquieta cientistas e alguns trabalhos deram início a estas respostas em investigações mais sistemáticas sobre o que tem sido chamado de pensamento contrafactual.  O interesse acadêmico por estas reflexões, explica o professor da Universidade de Zaragoza e estudioso do tema, Pelegrin Campo (2010), teve início nos anos de 1940 no âmbito da psicologia, mas alcança agora áreas tão diversas quanto a economia, a astronomia, a geografia, os estudos de marketing, a história. O pesquisador ensina que as colocações contrafactuais relativas a episódios e processos históricos específicos do passado se propõem a estudar até que ponto uma mudança na sucessão dos acontecimentos conhecidos poderia ter modificado o futuro histórico em uma direção diferente.

(...)

Pelegrin Campo identifica que nos anos de 1980, com os trabalhos do historiador britânico, Hugh Trevor-Roper, destacam-se a importância do acidental e da decisão individual na história e a necessidade de considerar as possibilidades alternativas. “A história não é meramente o que sucedeu: é o que ocorreu no contexto do que poderia ter ocorrido. Consequentemente, deve incorporar, como elemento necessário, as alternativas, o que poderia-ter-sido”. Diante do exposto, faremos, a seguir, uma abordagem da importância do episódio de Canudos no contexto político e social brasileiro.

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No último capítulo de seu livro Em busca de novo modelo, Celso Furtado faz uma justa reverência a Euclides da Cunha e sua obra magna, Os Sertões. Retoma o olhar visionário do escritor, quando descreve o sertanejo de Canudos, essa "gente indomável" que diante de toda sorte de privações e infortúnios, teima em lutar por sua causa. A resistência sem trégua necessitou de quatro expedições para ser derrotada, e o foi de maneira completa, brutal, impiedosa. Segundo Furtado, o engenheiro e naquela ocasião cronista a serviço do Estado de São Paulo, Euclides da Cunha, "percebeu com lucidez a gravidade das contradições inerentes à nossa formação histórica, as quais se manifestam nas profundas desigualdades sociais que tanto demoramos a reconhecer". 

Para além das equivocadas doutrinas raciais que moldavam a antropologia da época, Furtado destaca a percepção intuitiva que Euclides demonstrava com os sertanejos, aludindo à importância de incorporá-los à nossa vida política. Essa intuição considerava o processo de formação de nossa cultura, e a indispensável inclusão daquela gente rústica e combativa, para a garantia de nossa evolução social. Furtado nos mostra que o episódio de Canudos, salvo do esquecimento pela narrativa de Euclides da Cunha, se inscreve como um acontecimento simbólico para compreendermos um país em construção, onde emergem problemas estruturais como a fome, o analfabetismo, o latifundismo. Ao final de seu belo ensaio, destaca que "o mitológico sertanejo euclidiano deve ser visto como a prefiguração do cidadão consciente que hoje se afirma".

Quando teve a oportunidade de atuar como ministro do planejamento do governo João Goulart, Furtado procurou sanar os problemas crônicos e seculares da região nordeste. Procurando articular planejamento e política de longo prazo juntamente com os governadores da região, considerava inadiável a ênfase em obras de infraestrutura (estradas e eletrificação) para a industrialização. A história comprova que, com o golpe cívico-militar de 1964, todas essas propostas seriam descartadas, eliminando a possibilidade do pequeno agricultor fixar-se à terra, levando-o a migrar massivamente para as regiões mais industrializadas do centro-sul. Mais adiante veremos o quanto esse amalgama urbano-rural irá influenciar na formação e estruturação do MST, e desse movimento, a possibilidade da escolha utópica como realização de um sonho sempre postergado.

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A força do processo histórico recupera os referentes simbólicos do passado e dessa maneira, Glauber em seu Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) incorpora Conselheiro na figura de Sebastião, que percorre o sertão arrebanhando almas a partir de suas promessas idílicas, e retrata a violência sertaneja compondo personagens como Antonio das Mortes, o matador de aluguel a serviço da igreja e dos latifundiários, e Corisco, como representante do cangaço. Naquele momento, o cinema brasileiro renovado, que prenunciava um futuro em suas formas estéticas e temáticas, passa necessariamente pela recuperação da história social, recriando o espaço-tempo de uma região simbólica onde as narrativas se inserem em uma interpretação crítica do passado, e nada mais pedagógico do que a construção de personagens alegóricos a representar o poder e a pobreza crônica. Uma vez mais Canudos surge como referencial para a ruptura de nosso arcaísmo social, marcado por profunda desigualdade estrutural, e subjaz como memória de um futuro de novas esperanças. 

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14 julho 2021

O senhor Bonilla e seus irmãos

 

Mazatlán, 1997

Meus pais estão velhos. Faço esta constatação com duro pesar na alma, depois deste fim de semana, quando estive na casa deles, a dois dias de cavalgada, para comemorar o aniversário de meu pai, 95 anos. Estão firmes, porém frágeis. A grande casa aprofundou-me a impressão da delicadeza da vida, do fim que não está distante, e mais forte que isso, as impressões da vida que vivemos, em seus belos e dolorosos quadros, não mais vinculada ao presente. É como se tudo o que vivemos no passado, em família, fosse a visão de um simulacro, a enunciação confusa do que poderia ter sido e não foi. 

Desvelo com mais clareza – nas minhas reflexões e nas conversas com meus irmãos – o percurso em que as peças se juntaram poucas vezes para definir algo coletiva e sentimentalmente poderoso: estivemos em grande parte dessa caminhada muito à deriva, em uma sintonia abstrata, o que propiciou tanto distanciamento, tanto “não sei bem o que dizer”. Essa experiência não foi suficiente para produzir animosidade entre nós, mas certamente os anos forjaram um vazio que não pôde ser preenchido ao longo do convívio. 

O amor que subsiste não é artificial, mas extravasa de maneira complexa o improviso da edificação de nossa proximidade. Em certas ocasiões, ele emergiu copiado dos códigos de etiqueta ao estilo segundo império. Em outras, brotou com a força de uma coisa esquisita, marcada pelo não-vivido. Sempre soubemos tratá-lo de acordo com as circunstâncias, e isso, de um modo ou de outro, resultou no vazio, na carne de nossa precariedade relacional.

E assim é, o que vejo a cada vez que entro naquela grande casa é falta. Perdemos as melhores chances de criarmos uma felicidade conjunta. Cada um tratou de compor a sua felicidade coletiva com base na sobrevivência individual. Sobrevivemos assim, de alguma forma juntos, preservando o respeito, o carinho, as datas festivas – tudo dentro daquele almanaque conservador. O amor aí decorrente só poderia surgir como um exercício vago, estranho, com poucas brechas para sua significação mais genuína. 

Talvez quem tenha vivido com mais autenticidade os sentimentos coletivos de amor e carinho tenha sido Cordélia, minha irmã. Ela de algum modo ajudou a preservar o que nem mesmo ela sabia a fundo. Hoje, conversamos com muito carinho sobre todas essas faltas que visualizamos ao retomar as lembranças e encontramos uma forma de amor que nos apazigua. É verdade que com Ramón, meu irmão, a léguas de distância, essa prática é menos corriqueira, mas não temos dificuldades em “tê-lo” conosco. 

Quando esvaziamos o escritório de meu pai, há poucos anos, permanecemos lá, juntos, permeados por um intenso sentimento que nos parecia improvável. Enquanto revolvíamos o vazio daquelas caixas de documentos, aprendíamos a preencher com um sentimento acolhedor, muito próximo ao amor que desconhecemos ao longo da vida. 

É possível dizer que o mesmo ocorre quando nós, os filhos, nos juntamos a nossos pais. As faltas sentidas nos ajudam a conectar com as representações cultivadas por eles, e retomamos as pontes fragmentadas de suas ausências a partir de brincadeiras, de interpretações de fatos reais, mas sobretudo, penso eu, de nossos sonhos. Então fica assim, nós filhos os encontramos fragilizados, ainda com boa saúde, e reconstruímos o significado da família. Do presente para o passado e daí para o que resta do futuro. Já não se trata de alimentar a beleza do que foi, porque não foi, mas de exercitar o amor com as peças à mão. 

Uma empreitada aparentemente difícil, mas que no fundo é tão suave quanto a brisa noturna de verão. Quando retomo com minha irmã, diante de uma boa garrafa de vinho ao final da noite, as histórias compartilhadas, é como se as vivêssemos pela primeira vez de modo autêntico. A dureza dos fatos e as peripécias do imaginário nos redime e realiza a conexão com o que está por vir, com menos ruído. 

Ao final das contas, quando tudo estiver prestes a terminar, uma dor lancinante nos atravessará e desabaremos em um choro curto, intenso, vívido, profundo, como jamais se pronunciou. Não haverá dinheiro nem posses que amenizará o vazio sentido, deslocado como fardo do presente para o passado consolidado. E colocaremos em dia o amor faltante de tantos anos.

(atualizado em 14.07.2021)