30 novembro 2014

Consolidação democrática

a parcialidade midiática já não é mais suficiente para decidir eleições


Em um primeiro momento, logo após as eleições, confesso que fui tomado pelo desgosto que ameaçava a compreensão serena dos fatos. A sucessão de acontecimentos não foi fácil, sobretudo para os que temos de enfrentar as notícias midiáticas ao longo de todos estes anos de governança, mas as semanas que se sucederam à reeleição de Dilma foram difíceis ao extremo. A absurda matéria de capa da Veja, nas vésperas das eleições, sem chances para o direito de resposta à altura, ameaçou a serenidade do processo eleitoral. Depois, talvez menos por este motivo, a vitória arrancada a fórceps, no derradeiro momento, sobrevindo ao longo dos dias seguintes a reação virulenta dos derrotados nas redes sociais, com a multiplicação assustadora das reações xenofóbicas que já havíamos presenciado em 2010. Para inflamar o delicado momento, os discursos inconformados de uma parte da mídia que acusava o golpe da derrota, investindo com força redobrada em argumentos pesados contra o PT, e confesso, não foi fácil ver e ouvir tantos Mervais atarantados. 

Ao mesmo tempo que fortes investidas brotavam das redações, elas expandiam-se naturalmente nas falas de líderes políticos derrotados, ou vice-versa, e não era difícil imaginar que desta feita a estratégia havia sido coordenada para reproduzir uma versão tropical do Tea Party estadunidense, ameaçando a impasse político e consequentemente, a ingovernabilidade. E sucederam-se os primeiros movimentos de parcela da sociedade civil, atendendo a convocatória da oposição, alimentada pelo rancor inercial da derrota, a avenida Paulista ocupada por cerca de 2000 pessoas clamando furiosamente uma mistura de impeachment de Dilma e a volta dos militares. No alto dos carros de som, personagens como Lobão, pobre Lobão, e Eduardo Bolsonaro, filho de Jair, modelos mais acabados de um fascismo inacabado que insiste em vicejar. 

Foi o correr do tempo mais o equilíbrio nos atos das pessoas serenas que permitiram com que as coisas retornassem à aparente sensatez. Ontem, não mais de 600 desses protofascistas sacudiram seus cartazes contra os mesmos alvos, Dilma, Cuba, o comunismo, além de loas renovadas aos militares. Pessoas que apenas demonstram a absoluta falta de noção histórica, ao não compreenderem que não só Cuba e o comunismo não estão mais aí para assustar seja quem for, como os próprios militares rechaçam qualquer apoio a um tresloucado regresso ao poder. Como se não bastasse, o próprio desejo pelo impeachment se vê cada vez mais abandonado pela força dos acontecimentos, já que não existe qualquer base legal que se possa utilizar para tocá-lo avante. Em suma, deste primeiro mês de turbilhão pós-eleitoral, prevalece a serenidade de quem soube respeitar o caminho da democracia e o desgaste dos desesperados, que não desistirão no anseio por atalhos.

O percurso da presidenta Dilma se consolida com o passar dos dias, nem tão maravilhoso como sonharia um militante petista tradicional, nem tão agourento como desejaria a mídia hegemônica. A equipe do novo governo surge aos poucos, e ao meu ver, com a sobriedade de quem sabe perfeitamente das dificuldades que haverão de surgir, principalmente no âmbito econômico. Mas sinto que a política que diferencia este governo de 12 anos, pautada nos avanços sociais, permanecerá inabalável. Isso é o que verdadeiramente conta, a transformação do Brasil pelas bases sociais, com mais acessos à cidadania. Ao assistir na semana passada a conferência de Thomas Piketty, ficou claro que não há no momento outro objetivo senão perseverar neste caminho, se possível aperfeiçoando-o com mais distribuição de renda, no caso, oriundas das grandes fortunas. Ao longo de todas as recentes tormentas que mobilizaram principalmente intolerantes emoções e tentaram macular o desdobramento natural da vida política da nação, saio convencido de que nossa democracia está fortemente arraigada e em contínuo desenvolvimento. Em outras palavras, não há como temer por um tenebroso retrocesso, desses que só as mentes mal informadas sobre nossa história persistem em alimentar.


          

18 novembro 2014

Reencontro com J.P.Sartre

foto: Juan Rulfo

Uma vez mais permaneço três semanas distante, sem uma única postagem. Não tem justificativa, não posso alegar sequer o cansaço emocional decorrente das eleições ou os compromissos acadêmicos. Os temas se sucederam de modo abundante, e por diversas vezes o desejo foi grande de registrar uma crônica. No meio de tantos fatos políticos, que por certo estarão presentes em intensa análise nas próximas postagens, acabei me envolvendo com uma pesquisa para a elaboração de um texto que me foi solicitado por uma revista eletrônica. A partir do tema 'Fronteiras', decidi fazer uma leitura sartriana sobre o intelectual moderno e sua responsabilidade social. Seria esta a fronteira a ser desbravada, aspectos como a necessidade de ruptura com a falsa universalidade de sua compreensão burguesa de mundo. A princípio, enveredei pela leitura do opúsculo Em Defesa dos Intelectuais, de 1965, e avancei na conferência Função do Intelectual. Busquei uma relação com a farsa dos analistas contemporâneos, ditos intelectuais, que forjam análises e métodos particularistas, em defesa de seus interesses corporativos, e que são apresentados como posturas universalistas. São os falsos intelectuais, como dirá Sartre, antes de tudo, uns vendidos.

Mas não me foi suficiente. Sabia que dispunha de arquivos das minhas pesquisas de mestrado e para eles me dirigi. Encontrei uma pasta verde, nomeada Projeto São Paulo S/A e em seu interior, revolvi um mundo! Súbito retomei contato com anotações densas, que realizei a partir de inúmeros textos de fenomenologia e existencialismo, como por exemplo os apontamentos de toda a primeira parte do livro de Paulo Perdigão, Existência e Liberdade, onde ele faz uma análise muito didática d'O Ser e o Nada. As anotações preenchiam um caderninho, e havia muito mais. Folheei um denso fichamento da obra mestra de Sartre, O Ser e o Nada, vinte e seis páginas de caderno universitário, condensando a leitura de mais de 150 páginas da obra. Registros valiosos cujos conceitos destacados certamente foram por mim incorporados na prática cotidiana dos últimos quinze anos, conceitos como a má-fé, transcendência, o homem sincero, temporalidade, reflexão - "Mas a reflexão pura continua a descobrir a temporalidade apenas em sua não-substancialidade originária; em sua negação de ser Em-si, descobre os possíveis enquanto possíveis, suavizados pela liberdade do Para-si, revela o presente como transcendente e, se o passado lhe aparece como Em-si, ainda é sobre o fundamento da presença"... - desdobrando as distinções do Para-si e do Em-si. Lembrei que as dificuldades iniciais não me impediram de seguir na leitura das complexas argumentações da dialética sartriana, nesta que ainda é tida como uma obra difícil. Na verdade, dispondo por opção de todo o tempo do mundo, procurava usufruí-lo dedicando-me longamente à leitura e anotações na biblioteca da PUC. Uma época em que podíamos enveredar por leituras e aprofundar conceitos, amparados pelo ritual acadêmico que estimulava a pesquisa, sem a pressão por resultados imediatos.

Também retomei no acervo da pasta verde as anotações de As Ideias de Sartre, de Arthur Danto, que se bem me recordo, me ajudaram bastante como guia para adentrar o pensamento da filosofia de Sartre. Juntamente com as definições de "vergonha", "o absurdo", "angústia", desenvolvi uma aproximação à personagem Carlos, de São Paulo S/A, então o centro do meu objeto de estudo, projetando um tour de force que se alongava indefinidamente, avançando por outras obras e estudiosos de Sartre, como Camila Salles Gonçalves, que com seu Desilusão e História na Psicanálise de Sartre, trabalhava mais os aspectos subjetivos de seu existencialismo. A partir desta leitura também formulei esboços para uma compreensão de Carlos, neste caso sob o viés da consciência irrefletida - "um fluxo que, por assim dizer, não se detém para conhecer o que está fazendo, apesar de jamais ser inconsciente"...

No mesmo caderno, mais ao final, as ricas anotações de A Náusea, onde aí sim, relacionei diretamente as personagens centrais do romance e do filme, Roquentin e Carlos. Destaquei, por exemplo, o conceito da temporalidade, no primeiro caso, "Revelava-se a verdadeira natureza do presente: era o que existe e tudo o que não era presente não existia. O passado não existia"... - e no segundo caso, "Carlos não encontra nada no passado e o futuro o assusta. O problema é que faz do presente uma transição entre essas temporalidades - passado e futuro - sem interferir, sem decidir-se por uma atitude que contemple o seu estado de espírito, seu desejo e a sua falta"...

Tudo muito intenso e o reencontro me enleva, relançando-me no turbilhão daquelas estimulantes descobertas. Uma das mais reveladoras foi a obra Ciência e Existência, de Álvaro Vieira Pinto, onde dediquei apontamentos para a maior parte dos 22 capítulos, em 28 densas páginas de caderno universitário. Este professor não fazia parte da bibliografia de estudos e sua descoberta au hasar foi uma saudável contribuição, a interação da ciência com o saber prático, uma ciência engajada, pulsante, mobilizada para fora das salas acadêmicas, promovendo análises de temas como alienação, o conhecimento científico, cultura, dialética... - "A lógica dialética alcança o objeto da pesquisa científica no plano de maior profundidade, no plano das contradições que lhe determinam a essência, no movimento dos fenômenos que têm lugar na natureza e que se tornam a causa da diversidade dos seres, contradições essas que aparecem entranhadas nos conceitos que refiram subjetivamente os dados da realidade"...
Recolhi ainda papéis avulsos sobre inúmeros temas voltados para o cinema, o estudo de Bazin, anotações sobre o filme São Paulo S/A, minha transcrição de uma longa entrevista de Person na TV Cultura, trechos fotocopiados do roteiro original do filme e minhas primeiras versões da dissertação...

Se por um lado não encontrei nesse amplo material as informações sobre o tema Fronteiras, que pretendia desenvolver para a revista digital, por outro me entretive com o vigor de tantas redescobertas, anotações cuidadosas, leituras prolongadas sobre temas fundantes, que no final das contas me permitiram constituir ao longo dos anos uma consciência de mundo e um olhar crítico à realidade social em que vivo. A essa altura talvez seja oportuno registrar o conceito de intelectual em Sartre, que hoje para mim se confunde com educador social, "A natureza da contradição do verdadeiro intelectual obriga-o a se engajar em todos os conflitos de nosso tempo porque são todos - conflitos de classes, de nações, de raças - efeitos particulares da opressão dos desfavorecidos pela classe dominante e porque em cada um deles ele está, ele, o oprimido consciente de sê-lo, do lado dos oprimidos".


26 outubro 2014

Coração Valente




Tomo meu café e vejo, a média distância, três atendentes conversando animadamente com o entregador de doces e salgados da empresa. Tentam convencê-lo sobre as vantagens de, na opinião delas, se votar em Aécio. Ele resiste, trazendo argumentos do desgoverno em Minas, da inapetência do partido dele, mas logo se vê acuado, contra a geladeira de bolos. Sua expressão animada se opõe aos trajes desgarrados e puídos que veste; tenho a representação da invisibilidade não apenas social, mas ali, física mesmo. Quando ele se posiciona do lado de fora do balcão, os passantes o ignoram. Atroz diferença com a realidade das sociedades socialmente mais equânimes, é inevitável a memória de uma cena semelhante que presenciei há tempos, em uma cidade alemã. Nela, o coletor de lixo entra na cafeteria para cumprir com seu trabalho e é recebido de modo respeitável pelos presentes. Portava um uniforme asseado e digno, fruto certamente do respeito com que seus empregadores proporcionavam não só à imagem da empresa, mas ao bem-estar de seus empregados, enquanto cumpriam suas tarefas. O homem foi convidado a tomar um café, e ao final saiu com os containers, sendo cumprimentado por todos.

Retomo a cena presente, o entregador prepara para se retirar com seu imenso carrinho no exato instante que um burguês de bermudas e mocassins marrons se aproxima, coberto de adesivos da campanha de Aécio. É efusivamente recebido pelas meninas, que ignorando o amigo entregador, se voltam saltitantes para o sujeito, que num gesto influente, se gaba dos signos que enuncia e pede o café. Um encontro que não dura quinze segundos, o suficiente para que o sentido de classe seja completamente anulado pela subserviência atávica, onde a distinção se faz prevalecer, os mais vulneráveis se entregam aos caprichos do mais poderoso, sem que isso ofereça mais do que a preservação do abismo social. De um lado, o olhar de admiração para quem supostamente é um vencedor respeitável, o espelho ideal de uma sociedade capitalista competitiva, cuja imagem é dia-a-dia cultuada. E de outro, o ideal corporificado, a representação do sucesso relativo que ainda se alimenta da distinção.

Uma cena que é a moderna transcrição da sociedade escravocrata que ainda não superamos. A presença social dominante em seu silêncio, capaz de quebrantar o espírito de classe e estabelecendo seus valores às camadas menos favorecidas. Um poder que não pretende compartilhar, mas subordinar e desse modo se perpetuar. Não à toa esta discussão surge aqui, em um dia de eleições presidenciais, onde dois projetos claros e distintos se apresentam. Um que deseja promover avanços sociais, a partir de programas de afirmação e de distribuição de renda, com vistas a uma sociedade menos desigual, que possa usufruir as benesses do consumo material e intelectual. De outro, o prolongamento de um liberalismo pautado pelos ganhos financeiros e pelos interesses corporativos, onde o ser humano raramente aparece como a razão dos investimentos. 

Por tudo isso, a imagem que ilustra esta postagem, outra cena, desta feita diante do TUCA, aqui na PUC de São Paulo. Uma noite festiva, onde o manifesto de apoio à candidatura Dilma ultrapassou o espaço físico do teatro e se esparramou deliciosamente pela rua Monte Alegre, embandeirada e avermelhada. Pessoas mais adultas, com a experiência de longas e tormentosas lutas políticas ao longo da vida, confraternizando com jovens que vão tomando o gostinho da vivência política como base para as transformações sociais. Por horas, esse convívio no espaço público, em um momento da campanha que havia incertezas sobre o resultado do pleito. Hoje, todos os índices de pesquisa apontam, tomara, vitória de Dilma e de um projeto político de governo fundamental para a construção de uma cidadania para todos.

                                                                                                                                 para M.R.



13 outubro 2014

Desdobramentos



Após uma semana do primeiro turno, a sensação eleitoral me parece outra diante daquela que se verificou no domingo e mesmo nos primeiros dias subsequentes. Havia um clima de debilidade, impalpável, sem qualquer explicação racional, apenas a impressão dispersa nas ruas e canalizada nas mídias corporativas de que Aécio não só havia conseguido uma estrondosa recuperação, como já se posicionava em vantagem. Pesquisa de um instituto desconhecido do Paraná apontava vantagem de Aécio de oito pontos (49 a 41 por cento), o que depois se verificou infundado. 

A mídia eletrônica mais a impressa entrou rápido em ação e expôs em detalhes o depoimento de um ex-diretor da Petrobrás, que para amenizar sua prisão concordou com a delação premiada. Sem se provar nada, ou dar tempo para a defesa dos partidos acusados, o rolo compressor mídia + oposição trombeteou o fato de modo irresponsável, numa clara tentativa de interferir no processo eleitoral. Nestes últimos dias o caso refluiu das manchetes, não só pela reação do governo, como pela forte mobilização nas redes sociais.

Aliás é aqui, nas múltiplas plataformas digitais, que se deve decidir as eleições deste ano! Ambas as campanhas se organizam para ocupar esse espaço, com vídeos e mensagens que alcançam o cidadão comum com grande eficiência. Da parte do candidato oposicionista, vejo uma tentativa de aproximação corpo a corpo, com mensagens diretas produzidas por ele próprio e endereçadas aos milhões pelo what's aap, além de jogos eletrônicos em que o personagem não é Mario Bros mas o próprio Aécio, a vencer uma série de etapas. Se o processo dialoga diretamente com o eleitor, sobretudo com o mais jovem, ele não esclarece as plataformas políticas nem suas propostas mais genéricas. 

Ao contrário, a campanha de Dilma ao menos no facebook é rica em informações e densa em dados, que comparam o que foi o último governo tucano no Brasil e os anos de Lula e Dilma. Começam a surgir pequenos vídeos, não só com apoios, mas que discorrem sobre projetos de governo, o que me parece acertado, pois cria um diferencial de valor nas propostas de um e de outro candidato.

Hoje surgiu a primeira pesquisa Vox Populi, que coloca Dilma com 51% dos votos válidos, pouco ainda, mas que pode indicar uma tendência, e oxalá ela se confirme. Ainda é cedo, faltam 13 longos dias, e todo cuidado é pouco, pois o cerco midiático-empresarial está feito. Hoje mesmo um jornalista (Xico Sá) se demitiu da Folha por desejar expressar seu apoio a Dilma em sua coluna. O jornal argumenta que essa prática é interdita nas colunas, mas permitida na página adequada (de debates). O problema é que existem outros colunistas, como Azevedo, Constantino ou o tal do Pondé, aos quais tudo é permitido, sem qualquer cerimônia.

Penso nesse jornalismo arcaico, que parece provir das páginas amarelecidas da Primeira República, onde as elites não perdiam a voz e tampouco seus plenos direitos de expressão. E mais além, é como se os cronistas de hoje, reproduzindo os padrões burgueses de antão, impusessem à sociedade seus pontos de vista e esperando vassalagem moral. Como se os argumentos da aristocracia devessem mais uma vez prevalecer como referências para o bom devir dos valores sociais e culturais da nação. 

Há cem anos, era o ideário da Casa Grande, hoje, nada além do que um fortuito interesse de gabinete refrigerado, em conluio com os mercados corporativos. É como posso sintetizar a manutenção tresloucada de um jornalismo classista, aliado a qualquer coisa que lhe mantenha as vantagens, em um mundo hipoteticamente capitalista e competitivo.


28 setembro 2014

Um mundo de diferenças


A noite se faz mais escura que de costume, pois a vejo diante de mim, absoluta, quebrada por um punhado de luzinhas tremeluzentes ao longe. O silêncio da cidade desconhecida não me assusta, não estou cansado ou mesmo deslocado. Não me sinto no meu lugar, e não me esforço em torná-lo, após a superação do estranhamento, simpático. Na verdade, não sei o que faço aqui. Nas inúmeras viagens que realizei por tantas partes, o momento mais ingrato sempre foi a chegada, e o mais triste, a partida, e assim foi em todos os lugares, pequenos, grandes, confusos, atraentes, feios, bonitos. Era difícil superar o inesperado na chegada e a amargura da partida. Desta feita, o estranhamento não se desfaz e prolonga-se já como amargura. Sentimentos muito sutis, que vão e veem, sem se incomodar comigo. Permaneço em compasso de espera, os textos e livros se espalham pelo quarto, deveria estar mergulhado em estudo, por certo preservo alguma sensatez, farei alguma leitura daqui a pouco, e desvanecerei em sono. Me aguardam amanhã para oferecer uma chance, nada dirão de agradável, o que de fato não é um problema, nada prometerão e em três ou quatro dias jamais saberão que encontraram a mim e a todos os que estiverem ali, em busca da mesma chance. Amenizo a espera incerta ouvindo um misto de Rolling Stones, Chico, B.B.King, em um quarto iluminado por uma claridade vaga que provém da marquise do oitavo andar. Distante de minha querida, vou me esforçar para realizar esforços minimamente competentes. Vou já descer para recolher as cópias dos documentos que submeterei aos homens sem rosto e tão desnecessários. Mas não vim até aqui para pensar coisas chatas, nem tampouco para elucubrar. Afasto-me por uma semana de meus alunos, mas até isso me soa artificial agora. Há uma brisa que ensaia delicadeza, esgueirando pelo quarto, deixando-me com meus pensamentos. Retomar as leituras que me fazem um pouco mais vivo e completo, por aí espalhados estão Cesar Sandino, Prebisch, Cárdenas, Carpentier, eles me dão um bom motivo para estar aqui. E minha querida amada, que me entusiasma nos projetos, que me faz falta. Por nossas conversas, pela musicalidade, pelas boas e divertidas verdades... Foi muito fácil chegar até aqui, mas será muito complicado sair, haverá um tempo de espera que parecerá eterno, sem ser ameaçador ou ingrato, como um passeio em torno de uma ratoeira de mentira, que anuncia despreocupada o fim de qualquer ilusão, o que também pode ser uma mentira. É isso, estar aqui não me confirma a realidade nem a ficção, não é possível fazer mais do que esperar, para saber se o que vai acontecer será bom ou meramente desnecessário...


21 setembro 2014

Sobre proximidades e estranhamentos




Passaram três semanas sem qualquer registro neste espaço de crônicas, o que costuma ser uma raridade. Já aconteceu por falta de inspiração para a escritura, ou por alguma longa viagem, desta vez foi pela sobreposição de tarefas acadêmicas. Uma delas, um trabalho que me estimulou a cumprir, sobre os corridos revolucionários mexicanos, apresentado nesta semana no MusiMid. Concentrei-me na mítica figura de Pancho Villa e sus dorados, como eram chamados seus soldados, a lenda ganhando forma nos campos de batalha e sendo contada e cantada pela gente humilde, até alcançar as páginas de Juan Rulfo, Mariano Azuela e John Reed. Foi um trabalho que me conquistou por seus surpreendentes desdobramentos, revelando inúmeros aspectos desconhecidos da revolução e produzindo tanto lendas espetaculares como los aigoplanos de Villa atacando os soldados estadunidenses, como fatos impressionantes como las soldaderas, ou valentinas, histórias de mulheres que lutaram na revolução. Abaixo destaco um trecho do texto apresentado no evento, e que considero inacabado:

(...)
"Essa intensidade vívida e latente, não tão precisa ou exata, mas com boa dose de zombaria verifica-se, por exemplo, no corrido La Persecución de Villa, leitura popular sobre a expedição punitiva que o exército dos Estados Unidos realizou em território mexicano, como represália à invasão das tropas de Francisco Villa a Columbus, em março de 1916. Conheço três versões cantadas, Los Hermanos Záizar, Los Alegres de Téran e a de Antonio Aguilar, porém considero a versão de Ignácio López Tarso a mais bela e contundente por sua declamação à maneira de poema épico. Como todo registro oral, o texto possui inúmeras versões, introduzidas ao sabor do tempo e do lugar. Abaixo, a versão narrada por López Tarso,

Patria México, febrero veintitrés,
dejó Carranza pasar americanos,
dos mil soldados, doscientos aeroplanos,
buscando a Villa, queriéndolo matar.

Después Carranza les dijo afanoso:
si son valientes y lo quieren combatir,
concedido, les doy el permiso,
para que así se enseñen a morir.

Comenzaron a echar expediciones,
los aeroplanos comenzaron a volar,
por distintas y varias direcciones,
buscando a Villa, queriéndolo matar.

Los soldados que vinieron desde Texas
a Pancho Villa no podían encontrar,
muy fastidiados de ocho horas de camino,
los pobrecitos se querían regresar.
(...)

Comenzaron a lanzar sus aeroplanos,
entonces Villa, un buen plan les estudió:
se vistió de soldado americano
y a sus tropas también las transformó.

Mas cuando vieron los gringos las banderas
con muchas barras que Villa les pintó,
se bajaron con todo y aeroplanos
y Pancho Villa prisioneros los tomó.
(...)

Todos los gringos pensaban en su alteza
que combatir era un baile de carquís,
y con su cara llena de vergüenza
se regresaron en bolón a su país.

Neste corrido há passagens infladas pela lenda popular enaltecendo o mito Pancho Villa. A primeira, os registros históricos não confirmam a presença de “doscientos aeroplanos” na busca de Villa. Conforme Silva Herzog, “[O governo dos EUA] ordenou que o general John Pershing cruzasse a fronteira comandando poderosa coluna e penetrasse o Estado de Chihuahua em perseguição a Francisco Villa” (Herzog, 1995, p.223). Foi denominada “expedição punitiva” e que redundou em duas escaramuças entre tropas estadunidenses e grupos villistas, com baixas em ambos os lados. Não há referência a nenhum avanço aéreo, o que não impede que o corrido descreva com graça que o próprio Pancho Villa sobrevoe as tropas invasoras (entonces Villa les pasa en su aeroplano/y desde arriba les dijo, Gud Bay), escarnecendo com o fracasso da missão.

A seguir o ardil é mais sofisticado, Villa se veste de soldado americano e expõe bandeiras do país (con muchas barras les pintó) fazendo com que os aviões pousem e os inimigos, aprisionados. O curioso foi que a história dos aviões villistas ultrapassou fronteiras e ganhou uma versão cinematográfica pela Paramount Pictures, em 1968, com o filme Villa Rides, com Yul Brinner no papel de Francisco Villa". (...)

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Também por esses dias estive envolvido na preparação de um projeto dramatúrgico que concorre a uma bolsa da Secretaria do Estado. Não foi fácil, ele se encontra muito cru e nem mesmo título definitivo possui, mas organizei as ideias disponíveis indicando a sinopse, a estrutura visualizada para a peça em seus dois atos, alguns elementos cenográficos como iluminação, figurinos, personagens. Refere-se grosso modo ao drama que afeta um personagem, sua família e sua comunidade, submetidos a uma guerra sem fim. Trata-se de uma ideia que estava há muito tempo adormecida, com poucas chances de voltar ao proscênio, mas com o concurso, surge a chance de escrevê-la e mais, publicá-la e narrá-la para jovens estudantes, com a possibilidade de montá-la. Seria uma realização pessoal, uma conquista de uma proposta ao melhor estilo do engagement político sartreano, algo que não abandona a cena da minha vida. 

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Novas eleições presidenciais se aproximam e como é natural o envolvimento ocorre, embora de modo diferente de quatro anos atrás. Agora atuo com menos ansiedade, bastante próximo de pessoas afinadas com a proposta política da reeleição de Dilma, mais preparado para a desinformação midiática e muito disposto em assumir o debate político nos espaços sociais em que atuo, argumentando e divulgando os benefícios deste governo. Ainda que seja uma luta áspera assumir-se governista em uma realidade que vibra com a denúncia fabricada nas oficinas dos veículos corporativos, vale a pena a briga desta vez pelos resultados alcançados ao longo de 12 anos. Ainda que as capas das revistas e as manchetes dos jornais continuem insuflando "escândalos", o trabalho de contra-informação nas redes sociais tem sido mais articulado, de modo que as respostas construtivas se mostram inspiradas para ao menos questionar farsas e oportunismos de ocasião.

Incomoda-me mais hoje as pessoas que, muitas vezes isoladas no rancor pelo senso comum, se deixam levar pelo discurso pessimista. Como as mulheres que cortaram a minha frente em certa livraria e instilavam o desprezo a tudo que fosse PT... Ou aqueles professores que encontrei no elevador certa noite, animados a alimentar a dúvida sobre as vítimas das torturas no regime militar... Ou ainda como o dono do café que, no improviso, lança impropérios exaltados a um atônito cliente, que ousou elogiar a atuação do prefeito Haddad... Manifestações que têm em comum a virulência desmedida, formuladas pelo senso comum que, repito, as isola em um ódio paralisante. Nada é capaz de vicejar a partir dessa postura, a não ser a presunção que corrói os valores e as identificações comunais, enquanto abre os braços para imprecisas aventuras.



31 agosto 2014

Erroll Garner


Não conhecia o trabalho de Erroll Garner até a semana passada, quando tarde da noite, ao chegar das aulas, pude acompanhar au hasar a parte final de uma apresentação de seu grupo, gravada na Suécia, 1964. O tempo todo sorrindo, movendo o rosto para o lado da câmera principal, que inicia a gravação em um plano geral e lentamente se aproxima de Garner até enquadrá-lo em primeiro plano. Além dela, mais duas câmeras, uma atrás e outra à frente, que registram o fundo do cenário e seus dois companheiros, Eddie Calhoun no baixo e Kelly Martin na bateria. Demonstram um renovado prazer a cada frase musical, fazendo de seus instrumentos a aproximação com o público. É uma delícia acompanhar Erroll Garner em sua habilidade no teclado, destacando-se ao mesmo tempo como músico e protagonista da narrativa imagética. Para mim é um deleite assistir a essas apresentações de jazz dos anos 1950/60, marcadas por características muito específicas e que lhes confere uma aura mágica, a começar pelo jogo de luzes ambientes, que imprimem o inconfundível chiaroscuro desenhando o cenário. Cada diretor estabelece o seu estilo, valorizando a mise-en-scène do artista com uma densa e elaborada sequência de imagens. As gravações sempre em preto e branco costumavam ocorrer na presença de um pequeno público, normalmente com as três câmeras que a movimentar-se não mais que o suficiente para definir novos enquadramentos, com longas tomadas em primeiro plano. É comum a captura da entrega do músico, com o close das expressões faciais pontilhadas de suor. Na apresentação de Erroll Garner, por duas vezes percebemos o músico se ajeitando sobre listas telefônicas, cujo improviso aparentemente solucionou um problema de acomodação. Simplicidade aliada a alta técnica e ao mero prazer. Uma canção após outra, a performance que não se enquadra na rigidez convencional da época, os olhares atentos de uma pequena plateia bem-comportada. Ao final, identifico uma linda interpretação do Samba de uma nota só, do nosso Tom Jobim. 


18 agosto 2014

Imagens de Lima


Basílica Catedral de Lima y Primada del Perú



Panorama Plaza Mayor



Av. Jose Larco



Pontificia Universidad Catolica - PUCP (parcial)



Abertura - Congreso ALAIC 2014



Huaca Puclliana (visión nocturna)



Miraflores (parcial) y el mar