01 novembro 2023

Os espectros liberais e o peronismo



A situação política na Argentina, que se mostrava tensa e complexa há duas semanas, antes do primeiro turno das eleições, modificou-se completamente. O peronismo, ensanduichado entre duas candidaturas de direita e ameaçado não ir para o segundo turno, logrou afastar uma delas, e agora, habilitado à disputa do balotage, reune todas as chances para vencer a que sobrou. Como se deu o milagre?

O principal adversário, o sinistro Javier Milei, surfou na onda do discurso de mudança até onde pôde. Era o favorito, ganhou as primárias com quase dez pontos sobre Sergio Massa, e bem à frente de Patrícia Bullrich, a candidata do Juntos por el Cambio. Enquanto se mostrava uma surpresa, carreou grandes multidões de jovens, principalmente. Suas aparições na mídia eram dramaticamente engraçadas, mas isso enquanto conseguiu sustentar-se em seu blablabla radical. Bastou o tempo passar e ser testado por seus adversários, para sua verdadeira envergadura se mostrar, e desabou por si só, como um castelo de areia. 

Tenta nessa reta final alguma composição com Bullrich e o ardiloso Maurício Macri, que mesmo não tendo reunido cacife para disputar a presidência ou uma vaga no senado, tem seus aficcionados, principalmente na Cidade Autônoma de Buenos Aires, onde seu irmão, Jorge Macri, venceu as eleições. O problema todo é que essa composição, por todos os ataques mútuos anteriores, não se sustenta e não convence. Milei, um leão assustador no primeiro turno, agora não passa mais do que uma triste imagem de um gatinho confuso.

Bullrich não agrega, e nem seu discurso agressivo seria um ponto de contato com Milei. Macri, por fora, mais preocupado em agir por conta própria contra o peronismo, não está em seu melhor momento, seja junto ao eleitorado, seja entre os poderes midiáticos de Clarín e La Nacion. Nessa enorme brecha aberta na direita, Massa consegue reunir os cacos da coligação peronista e de modo hábil, restaura sua força junto sua base eleitoral. Como ministro da Economia, avança nas propostas sociais possíveis, o que tem projetado a imagem de um político sério e atento às dificuldades econômicas da população. 

O que poderia ser seu calcanhar de Aquiles, a alta da inflação, não parece ter força suficiente para promover um desgaste letal em sua campanha, e penso, muito em razão da inapetência opositora. Isso confirma uma suspeita minha, desde o golpe em Dilma, e depois com a aparição de Macri, Bolsonaro e agora, Milei: a direita é esse fragmento de falsas promessas com suas bobagens descartáveis, que sozinhas não representam nada como projetos transformadores, como novas ideias (como disse Pedro Aznar, promesas falsas, ideas a medio cocinar, falacias mal vestidas de tecnicismos...), a não ser o empenho aos interesses dos grupos dominantes dessa mesma nação. E quando há um curto-circuito nessas relações perigosas e vaidosas, ou seja, quando os canalhas não se entendem na partilha do botim, renasce a força dos projetos mais abrangentes, mais populares, como aconteceu ano passado com a vitória de Lula, e agora, com a possível vitória de Massa. 

Milei e sua trupe dá mostras de afundar na areia movediça que a própria frente política criou, sem forças para se erguer e restabelecer, nesses próximos 20 dias, certamente vítima de suas infindáveis diatribes, que surgem sob retóricas atraentes, culminam como fundamentos vazios e quase sempre produzem indigestão. Demonstra a cada dia o que não é. Ao contrário de seu movimento desequilibrado, aliado às declarações bombásticas e de pouca substância de Bullrich (Ojala que la economia explote antes del (día) 19...), e à futilidade política de Macri, remonta o peronismo kirchnerista, nem tanto de Massa, mas de Cristina, de Kicillof, e tal como diz a letra do começo da marcha, Los muchachos peronistas/ todos unidos triunfaremos/ Y como siempre daremos/ Un grito de corazón: Viva Perón, Viva Perón!     

(atualizado em 01.11.2023, às 10h).



22 outubro 2023

Argentina: os próximos passos

 

A esperança de que nosso Norte continue sendo o Sul

Uma inquietude nos atravessa a todos: o risco de colhermos uma amarga derrota amanhã, nas eleições argentinas. Como tem sido corriqueiro nos pleitos dos últimos anos, na América Latina, o espantalho assustador da direita ressurge de suas fundas trevas, mais ameaçadora, mais ignóbil, mais empolada, propondo suas soluções esdrúxulas, política e economicamente irrealizáveis, e que estão mais de acordo com as normas do pacto com a violência, sem qualquer apego ao diálogo, em que a sociedade, manipulada pela retórica grosseira, entrega seu destino às vozes que a desejam destruir. No contexto da crise política e da inflação galopante, as vagas promessas de solução, de uma nova era, sem corrupção, sem Estado, sem subsídios, consegue capturar corações e mentes, principalmente - e isso me impressiona - de jovens. 

Na quinta-feira, assisti a uma palestra da socióloga Verónica Gago, que nos mostrou de um lado o processo de mobilização feminista no enfrentamento da crise e de outro, o tamanho do buraco criado pela financeirização do capital, aprofundando o endividamento das famílias. O crédito sem a mediação salarial tornou-se uma alternativa desesperada para as famílias ao menos subsistirem, "envididarse para vivir". O quadro atual não indica uma solução a curto prazo para a inflação, hoje em torno de 120% ao ano. As perspectivas de estabilidade econômica, e o consequente apaziguamento social e político, serão mais satisfatórios quanto mais sério for o cronograma da governabilidade, abrangendo a grande parcela da população, menos favorecida, recompondo os programas sociais, a preservação do poder de compra dos trabalhadores e aposentados, os direitos trabalhistas, de moradia etc. 

Em outras palavras, a opção mais sensata no momento seria a vitória de Sergio Massa, da coalizão Unión por la Patria. Ainda que seja ministro da economia de um governo que falhou ou se omitiu em muitos aspectos, é o candidato que reúne mais serenidade, e talvez capacidade, para desenvolver um projeto de contemple algum tipo de pacificação nacional e que possa gerar desenvolvimento econômico sem graves rupturas. Torço muito para que a Argentina encontre o espírito de sua seleção de futebol, unida e determinada a jogar do modo mais eficiente para vencer. Como na poesia de Benedetti, cantamos porque llueve sobre el surco/ y somos militantes de la vida/ y porque no podemos ni queremos/ dejar que la canción se haga ceniza.



19 outubro 2023

As ternas memórias de Julio Escobar



Uma boa notícia em um mês conturbado: entrou em edição final meu livro de contos, As Ternas Memórias de Julio Escobar e outras rememorações, pela editora Mondru. Segundo o editor Jeferson Barbosa, o livro estará presente na Flip, em novembro, e outras feiras e eventos que a editora participará ainda neste ano. Em seguida, segue a divulgação pelos apoiadores da pré-venda a partir de dezembro, quando devo receber meus exemplares. 

Segundo o editor, há sobreposto à capa alguns padrões, que tentam ampliar a ideia de fragmentos da memória e até de caminhos e reconstrução da memória por meio da escrita. Trata-se do sombreamento losangular que recobre a capa. A escolha foi feita entre sete opções, e penso que é a imagem que melhor retrata o tema do conto-título. O tom azulado foi uma opção pessoal ao eleger as cores, os tipos gráficos, a estética das capas. 

O esforço agora é possibilitar o lançamento ainda neste ano. Houve algum atraso em relação ao cronograma original, que indicava que o livro estaria pronto por volta de agosto. Seja como for, ele seguirá seu curso, vamos aguardar a divulgação e a pré-venda, para então tomarmos uma decisão sobre um lançamento presencial. 

O mais importante é que, por parte da editora, houve muito cuidado na edição, o que acreditava que ocorreria pela relação profissional mantida, sempre com muito respeito ao autor. No que diz respeito ao texto final da obra, também houve, de minha parte, uma atenção inédita, quando decidi submetê-lo a uma revisão profissional, que me pareceu bem feita. Isso, aliado ao conjunto de contos que compõe o livro, desenvolvido sob uma temática principal - a memória, a rememoração - me permite dizer que se trata de um trabalho maduro e criteriosamente bem-sucedido. 

Mesmo os contos mais antigos, e ali estão presentes dois - escritos há mais de trinta anos - não desafinam na montagem orgânica da obra. Alguns outros passaram por profundas reescrituras, visando dar mais consistência às narrativas e valorizar a relação com o tema principal. Foi o caso, por exemplo, de Formas de contemplar o espaçoCoriolano Salvatore, Rodolfo evoca. Ficará a cargo dos leitores se aprovam o resultado final.



08 outubro 2023

Por que não haverá solução



Creio que a parcela mais crítica e atenta dos cidadãos do mundo já desconfiam aonde este novo enfrentamento entre palestinos e israelenses vai levar: a lugar nenhum, ou, a nenhum aprendizado. O mundo com suas lideranças bochornosas de hoje, riscou da agenda a palavra negociação. O que deve prevalecer é a palavra ameaçadora e o ato belicoso, vindo por trás um orçamento bilionário de contratos com armamentos. É o que acontece na Ucrânia, onde a UE prefere torrar mais de 130 bilhões de euros ao longo de um ano e meio, em armas enviadas ao Zelenski, com resultados bastante incertos, do que procurar uma negociação direta com a Rússia e cessar com a sangria desatada. Para que o descalabro não seja tão assustador ao pobre cidadão comum, é necessária uma contínua cobertura acrítica das mídias sobre o que se passa por lá. 

No caso do Oriente Médio, o ataque do Hamas suscitou uma enérgica reação conjunta desses mesmos governos entorpecidos contra o ataque terrorista, desta feita executado em minúcias e em grande escala. Quando as mortes ocorrem aos borbotões pela ação policial lá no morro, trata-se da consequência de uma ação cirúrgica e necessária para conter a criminalidade. Para o bem dos bairros classe-média do entorno. Ninguém quer saber quantos morreram ou o nível da violência policial para aquietar as almas criminosas. Mas quando há uma ação oposta, uma invasão "do morro ao asfalto", o pânico exige que o Estado Policial reaja à altura, acabando com a violência dos marginais. É mais ou menos o que ocorre em Gaza. 

Enquanto os ataques cirúrgicos de Israel têm a função de eliminar bases terroristas, sem a contagem precisa de vítimas, isso pouco importa e conta com a absoluta complacência da comunidade internacional. Mas quando em 7 de outubro surge um ataque maciço palestino, que deveria provocar ao menos um questionamento incômodo sobre a tragédia palestina pós-Nakba, o mundo, esse mundo de lideranças frívolas, reage em uníssono, como se o que ocorre naquela parte do planeta fosse uma novidade. Não é. A violência conta-gotas da ocupação israelense é uma narrativa censurada.

O que vai ocorrer é que o ataque do Hamas será contido e a montanha de cadáveres resultante será varrida para baixo do tapete, com a conta apresentada unicamente para o grupo político palestino. Não haverá aprendizado, nem negociação. Não convém, afinal, para quê mexer nesse vespeiro e trabalhar diplomaticamente pelo estabelecimento de dois Estados soberanos e livres? O problema da solução armada é uma opção que a cada confronto foge ao controle. Os falcões do Pentágono, ou da Otan, têm dificuldades em aceitar que novos jogadores com muito cacife diplomático, como os Brics, por exemplo, sentem-se à mesa em condições de igualdade e mostrem como aprenderam a jogar o jogo da guerra. Esses insignes falcões estão politicamente falidos e mesmo assim querem impor que a banca vença o jogo, com a truculência do passado, mas produzindo a ignorância do futuro. 

A ladainha é repetida, não negociamos com terroristas, como se uma fração de terrorismo também não estivesse entranhada em suas ações. Sentimentos se misturam, hipocrisia, arrogância, prepotência, desprezo... O inimigo pagará um preço como nunca conheceu antes... Nesse quadro, o Hamas é o menor dos problemas. A imposição de subserviência se estabelece, não haverá negociação, não existe espaço para o diálogo, para as narrativas com análises distintas de uma mesma história, e o mundo morboso permanecerá com a sua Verdade e replicará em suas redes digitais a vitória, descaracterizando qualquer oposição como "apoio ao terrorismo". Lamentáveis serão os desfechos. Não fazem ideia do que semeiam, mas parece que não se preocupam com isso, nem com a fome, como o ódio, com a destruição, com absolutamente nada.


05 outubro 2023

15 anos!


Há quinze anos, no embalo da febre dos blogs, lancei o Chá nas Montanhas, sem muita pretensão, a não ser dispor de um canal em que pudesse publicar minhas impressões políticas e culturais, além, claro, de divulgar meus textos literários - crônicas e pequenos contos. Um pouco antes, havia passado por uma primeira experiência que durou um ano e meio, o Caminhos da Liberdade. Por alguma razão, considerei aquele blog insuficiente, e ao encerrá-lo, fiquei seis meses preparando o lançamento deste Chá nas Montanhas.
 
Com o passar dos anos, ao contrário do desgaste que costuma pressionar os blogueiros, sinto-me estimulado a publicar meus textos aqui, com uma regularidade que se mantém desde o início. Nunca o blog ficou três semanas sem uma postagem. Postagens sempre criadas, textos produzidos e não copiados, e em grande parte delas, ilustradas com imagens de meu acervo pessoal. Desse modo, o leitor de visitas indica mais de 91 mil visualizações, 788 postagens em 5.475 dias, que propiciaram um livro de crônicas publicado, O que aparentemente nos resta, e outro inédito, para vir a lume em breve, Pétalo nauseabundo. 

Creio que, por meu entusiasmo e quase necessidade de escrever aqui, o blog deverá continuar por um longo tempo, quem sabe por mais 15 anos! Logo, serão 100 mil visualizações e 800 postagens, o que me dá grande satisfação. A comemoração da data inclui todo esse imenso número de leitores silenciosos, os quais agradeço de coração.

Viva o Chá nas Montanhas!

 

29 setembro 2023

No pasó


Salvador Allende não existiu


O texto abaixo foi publicado pouco antes de se completar 50 anos do golpe cívico-militar no Chile, na revista digital chilena, Anfibia. Foi escrito por Alvaro Bisama e divulgado por um querido amigo chileno em sua rede social. Trata-se de um relato que retoma o universo paralelo criado pelo negacionismo, que rechaça, dentre outros absurdos, que houve golpe contra as instituições e contra os cidadãos chilenos. A sucessão de negações, longe de nos convencer da existência de uma outra realidade, apenas confirma os fatos históricos e, consequentemente, evidencia a tragédia que se abateu no Chile. 

O espírito negacionista dessa gente, antes calada, viceja animadamente pelo espaço público, arrogando verdades e exigindo desculpas. Por certo não irá se abalar com esse discurso comunista. Mas uma coisa ficará colada em suas testas, o ridículo de assumirem o que assumem, e de proclamarem a burrice como um estilo de vida e um modo de pensar. E não resta outra alternativa senão prosseguirmos na denúncia desse ridículo e dessa burrice, que como sabemos, são as marca do caráter abjeto.

O texto original é por demais longo, tem duas laudas e meia em espaço simples. Tomei a liberdade de traduzir uma parcela importante, o início, parte do miolo e o fim, retirando trechos específicos sobre a realidade chilena. Desse modo, consigo publicar a versão em português ainda no mês de setembro, mas depois do aniversário da morte de Neruda, referência do meu propósito inicial para concluir a tradução, que ocorreu em 23 de setembro. Ao final, transcrevo o endereço da revista para quem quiser conhecer o artigo completo. 


NÃO ACONTECEU
por Alvaro Bisama

Não aconteceu. Não ocorreu. Foi uma invenção. Não houve golpe de estado. A Armada não se sublevou. O Exército não foi golpista ou traidor. Menos Carabineiros. Não houve Dina, nem CNI. Não teve presos políticos, nem ataques, nem militares posicionados na esquina. Não mataram a Victor Jara. Não o torturaram. O que se passou com ele foi uma mentira a mais, os inimigos do Chile nunca se detêm. Ninguém bombardeou La Moneda. Caiu sozinha. Os aviões apenas faziam acrobacias sobre Santiago. Os tanques não rodearam nenhum edifício. Ninguém disparou nem encheu de balaços os muros do centro. Não mataram a Orlando Letelier, nem a Carlos Prats. Um invento. (...) Ninguém morreu na tortura. Ninguém agonizou nos calabouços. Ninguém usou corvos. Nenhum corpo foi quebrado, mutilado, cortado. São contos, farsas, inventos. Ninguém proscreveu os partidos políticos. Ninguém perseguiu aos socialistas, aos comunistas, o MIR e o MAPU. Não houve exilados. (...) Ninguém revisou e censurou os textos escolares e as bibliotecas. Não se queimaram livros. Os militares não disseram que faziam fogo com eles para aquecer as mãos. Ninguém inundou os colégios e escolas com álbuns de figurinhas da Guerra do Pacífico, com ilustrações de sangue da batalha de Concepción, das façanhas de nossos valentes soldados. Não houve civis que colaboraram. Não houve sapos ou delatores. Ninguém ficou feliz ao denunciar o vizinho ou ao colega. (...) Ninguém teve que ver como o acento sibilino de Pinochet era celebrado como uma épica nacional, nem aguentar seu tom que encobria o desprezo, toda essa brutalidade disfarçada. Ninguém identificou esse acento com o terror. (...)

Nada aconteceu. No Chile coisa alguma ocorre. A história muda por puro desejo ou vontade. O passado não é um feito senão uma ficção criada por capricho, uma calúnia que se repete até que se torne verdade, um pensamento mágico que reescreve a realidade. Aí, o golpe de 1973 foi uma mentira, não existiu, é algo que impede que o pobre povo chileno se una. Recordar o golpe é uma baixeza, uma podridão, um ato de violência e uma celebração do falso, uma demonstração do ódio antes que da justiça ou da memória. No calendário esse dia deve ser apagado. Os chilenos não foram exterminados como ratos. As vítimas deveriam pedir perdão aos algozes. Os torturados, a seus torturadores. Os fantasmas dos corpos insepultos, a seus assassinos. Toda a história do Chile não é mais que uma lenda urbana. Não houve ditadura. Não foi uma ditadura. Não durou 17 anos. Nunca aconteceu nada.

Artigo publicado originalmente em espanhol, pela revista digital Anfíbia, e encontrado no endereço: https://www.revistaanfibia.cl/no- 



21 setembro 2023

As ameaças lodacentas


Vale a pena conferir

A característica que identifico nessa direita política, que renasce por aqui e em todas as partes, é, além de sua miséria argumentativa, a sua ousadia canalha. Faço meu o desabafo recente do cantor e compositor Lenine, tudo aconteceu "como se cada pessoa que carregasse um sentimento muito profundo de fracasso, viu a possibilidade de expor seu monstro sem nenhum escrúpulo (...)". Aí existem duas ideias emblemáticas, a do profundo 'fracasso', que alimenta toda aquela franja de cidadãos incompetentes que se acomodam nas delícias da ignorância, onde qualquer esforço do intelecto para superar pelo conhecimento o desconhecido torna-se uma tarefa ingrata, e com o tempo, desnecessária. O outro ponto, o 'monstro sem nenhum escrúpulo', que naturalmente nasce como um manifesto perturbador dessa ignorância, como uma resposta pronta para os desafios que não foram superados. Logo, um direitista dessa lavra não apenas é um deslocado de seu tempo, como um covarde moral.

Nesses dias em que se completou 50 anos do fatídico golpe cívico-militar no Chile, revi muitos pequenos vídeos da época, vídeos chilenos ou produzidos por televisões estrangeiras. De modo reiterado, os representantes do setor conservador da sociedade chilena se referiam a Salvador Allende e aos partidos da Unidade Popular como representantes de ideias políticas e projetos ideológicos distintos dos seus. Sem angústia ou desprezo na palavra. Por vezes, surgia uma análise mais dura, mas que exalava algum respeito à figura do governo opositor. Eram tempos de fratura democrática, e seus substratos ainda estavam muito arraigados na sociedade chilena. O trabalho voraz da construção do inimigo social levaria décadas, cuja linha básica tornou-se na arguição grosseira, esvaziada, xenófoba, essa frequência discursiva chula e rotineira que cansamos de assistir hoje em dia, reprodutora de lugares-comuns, de medos arcaicos que espreitam ao redor e que precisam ser combatidos. De heróis formidáveis que por conta dos medos, são clamados para retornar à ribalta. 

Causa-me surpresa, e que por muito tempo foi vergonha, essa espécie de enaltecimento do individualismo, como um fim a ser alcançado para que o mundo funcione e seja competitivo, e onde o sentido cristão de bem-estar não exclui andar armado. Causa-me surpresa, para não dizer desprezo, ao deparar com uma alma cambaleante em sua autossuficiência metodológica, assimilada em prestações pelos cantos obscuros da vida. Sempre para justificar sua virtude e sua penúria. As certezas impudicas dessa grande casta de subalternos fazem com que estejam mais próximos do infortúnio crônico, do que do sucesso a qualquer preço que lhes é prometido. Têm consciência disso, mas como diria o nosso Lenine, não há o que se lamentar: trata-se de canalhice, de dissimulação que precisa ser combatida.


 

11 setembro 2023

O fim da experiência chilena

Salvador Allende

Já se passaram 50 anos. Não tenho lembranças de quando ocorreu, nem do fim, nem do começo. Sim, porque foi em um mês de setembro que ocorreu a vitória eleitoral, e em um setembro triste o golpe insidioso. Fui aos poucos, ao longo dos anos, montando o quebra-cabeças dessa experiência fragmentada por balaços, traições e desaparecimentos. Aos 14 anos tinha nenhuma referência sobre o que tinha acontecido, o que significava o socialismo com empanadas e vinho tinto. Aos poucos fui tomando conhecimento, viagens a Santiago, recuperação de arquivos sonoros, os filmes de Costa-Gavras, o interesse por leituras que começaram a surgir com regularidade. 

Há poucos anos, publiquei com Mônica um artigo que me revolveu as entranhas, Socialismo con olor a empanadas y vino tinto: memórias radiofônicas da derrubada de Salvador Allende (Revista ALAIC). Me emocionei na primeira leitura, em um pequeno congresso na Universidade de São Caetano, quando apresentamos o texto. Hoje, "as feridas" estão cicatrizadas, não me abalo com a narrativa cruel, desoladora; a própria derrota já não me parece um fracasso, e se não vejo com confiança a retomada de uma experiência de governo parecida (por diversas razões), ao menos sua marca se perpetua de modo inconteste, se faz heroica, e mesmo na derrota, se mostra inspiradora. 

Foram muitas hipóteses formuladas, em que considerei as linhas ucrônicas de desdobramento: o que teria acontecido se... Hoje, apenas ouço o metal tranquilo da voz de Allende propagar o discurso final com lucidez e coragem, e o importante acaba sendo isso, a lembrança dos acontecimentos, e compreender, com o passar dos anos, que os fracassos são parte intrínseca da audácia, o que nos faz debruçar, sempre com outros olhos, sobre os detalhes dessa notável experiência social e política.