![]() |
| Frevo, 1956 (Portinari) |
03 março 2023
De volta ao futuro
01 março 2023
Alfonsina Storni, uma poesia
| Alfonsina Storni (1892-1938) |
Alfonsina Storni tem sido muito presente nestes dias, em meus momentos de leitura, de reflexão, de descanso. Suas poesias exerciam um apelo mágico, grandioso, e depois de nossa viagem em janeiro a Buenos Aires, sua presença se acentuou em nosso entorno. Mônica trouxe suas prosas completas, e em meu aniversário ganhei Sou uma selva de raízes vivas, uma coletânea de suas poesias organizada por seu tradutor e estudioso, Wilson Bezerra. No volume, um posfácio magnífico que situa a autora em seu tempo, junto às tensões existenciais, de seus enfrentamentos silenciosos em uma sociedade conservadora até a medula, que resistia em reconhecer seu talento como escritora. E ao final, os suicídios de Horacio Quiroga e de Leopoldo Lugones abrem caminho para que também encontre sua maneira de deixar este mundo, já tomada por um câncer. Em nossas despedidas noturnas, declamo a Moniquinha suas poesias, e ontem foi o momento de Monotonía, do livro Languidez (1920).
MONOTONIA
Cono dizer este desejo de alma
Um desejo divino me devora,
pretendo falar, porém se rompe e chora
isto que levo dentro e não se acalma
Pretendo falar, porém se rompe e chora
o que morre ao nascer dentro da alma.
Como dizer o mal que me devora,
o mal que me devora e não se acalma?
E assim passam os dias pela alma,
e assim em seu dano obsessionada, chora:
Como dizer o mal que me devora,
o mal que me devora e não se acalma?
(traduzido do original em espanhol Antología Poética, Ediciones Mestas, Madrid, 2000)
15 fevereiro 2023
Um romance
![]() |
| Serenata, Candido Portinari, 1925 |
Recebo a informação da minha editora, Caminhos Literários, que Um longo dia na vida de Ângelo Domani ficará pronto entre 20 e 25 de fevereiro, na semana que vem. Trata-se de uma emoção que se exprime de modo especial, um misto de alegria desvairada e apreensão profunda. Foram vinte e cinco anos para vir a lume, o que revela praticamente o tempo maduro de minha vida como escritor. Logo que concluí A Paixão Inútil (1997), comecei a redigir o romance, que em seu primeiro esboço não passava de um conto longo, com o nome de Jornada em Cambeville. Pouco daquela primeira versão se manteve, as estruturas modificadas do começo e do fim, e o plano geral da caminhada de Ângelo pela cidadezinha. Mas a narrativa sofreu fortes modificações. Não é fácil lidar com isso e imaginar que logo muitas pessoas estarão em contato com o texto.
Serei franco em dizer que nunca imaginei que ele seria publicado como o será, selecionado por uma editora, editado com carinho, plenamente reconhecido por suas hipotéticas qualidades. Há muita dor e frustração acumulada ao longo do percurso, como se eu também tivesse contribuido para o retardamento de sua vinda a lume. De tempos em tempos, resolvia escrever o que faltava e reescrever o que já existia, e aconteceu o que jamais se esperava que acontecesse, uma editora desejar publicá-lo. Ao mesmo tempo, sobrevém a incerteza do que fazer, como proceder em relação à história pronta, longamente redigida, como se tivesse de proteger um filho recém-nascido e com ele, enfrentar as ganâncias do mundo. Nunca me senti tão feliz e estranhamente desconfortável diante do que está por vir.
14 fevereiro 2023
Circunstâncias
![]() |
| Manacá, de Tarsila do Amaral, 1927 |
Tive em mãos Contraponto,
de Aldous Huxley e não foi só. Também cheguei a retomar os contos de Hemingway
e Carver, mas sou sugado, essa a palavra, à literatura latino-americana, Juan
Rulfo, Borges, Cortázar, que voltam a me enredar, possivelmente animado pela minha viagem com Mônica a Buenos Aires, de onde trouxe alguns volumes de
contos e romances. Agora me fixo na biografia e nas poesias de Alfonsina Storni, tão pouco compreendida em seu tempo, não por sua exuberante poesia, mas por sua condição social de mãe solteira. Viajo mentalmente pelo tempo, frequento a cidade nos anos 1930, o
contexto político. Abro algum espaço em minhas leituras (e escrituras) para acompanhar o acerto de contas com a ignorância bolsonarista, do desenvolvimento das ações políticas ao enquadramento dos vândalos de 8 de janeiro. E logo regresso à atividade pedagógica da literatura. Visitamos o museu de Evita Perón, o que desencadeou o processo de análise crítica, regressando aos anos 1940 e confrontando todos os passos, todos os equívocos e acertos. Lula ascendeu e toma medidas sociais e políticas importantes, e isso
não passará incólume! Repentinamente tudo vindo de nossa Latinoamerica torna-se indispensável, as leituras no instagram de Eduardo Sacheri, as imagens de Pepe Mujica, trechos lidos de Zama, de Di Benedetto, o som de Caetano e Gil que nos embala... Pelas manhãs, declamo por whatsapp as poesias de Pablo
Neruda para Moniquinha, como de costume. Saboreio no sofá as letras
predominantemente portenhas, aqui incluindo Samanta Schwebling. Não tenho
pressa.
31 janeiro 2023
Beauvoir
| Simone Beauvoir e Sylvie Le Bon |
"Meu destino, durante esse período (anos 1930), assemelhava-se ao da maioria das pessoas: também trabalhava para reproduzir minha vida. Minha existência, como a delas, era repetitiva, coisa que às vezes me pesava. Mas eu era privilegiada. A maioria não espera escapar a essa rotina até o momento desejado, e temido, da aposentadoria. A única novidade para elas é a que proporcionam o nascimento e o desenvolvimento de seus filhos: ela se perde no dia a dia, na monotonia do cotidiano. Eu tinha muita disponibilidade: lia, fazia amizades, viajava, continuava a fazer descobertas. Minha atenção para com o mundo permanecia desperta. Minha relação com Sartre continuava viva; não estava escravizada a um lar; não me sentia acorrentada a meu passado. E tinha os olhos fixos num futuro promissor: tornar-me escritora. Era na aprendizagem de escrever que essencialmente minha liberdade estava engajada. (...)"
Simone de Beauvoir, Balanço Final (1972)
20 janeiro 2023
Sobre a caravana e os cães
![]() |
Sabem, tenho a impressão de que iremos conviver com fantasmas por um longo tempo, enquanto colocamos a casa em ordem. Não sei se a democracia veio para ficar em definitivo, mas enquanto ela estiver por aqui, teremos de nos desdobrar para a sua manutenção eficiente, enquanto convivemos com pesadelos golpistas. Ao que tudo indica, o remédio para essa primeira onda, que veio em 8 de janeiro, está na medida certa: investigações e ações judiciais que identificam os transgressores, fichamento, abertura de inquérito, detenção preventiva. É um trabalho meticuloso levado a cabo pela polícia federal, que vai aos poucos capturando os mandantes, patrocinadores e os arruaceiros. Em suma, vivemos a reinstalação do convívio em um estado democrático de direito, com responsabilidades e obrigações claramente definidas, onde qualquer ruptura é sancionada pelas leis vigentes.
Sinto-me seguro nesse estado de coisas, sabedor de que a ordem jurídica foi plenamente restabelecida, sem suspeições autoritárias, e consciente de que os valores culturais recuperam os cuidados indispensáveis para sua continuidade. Há um conforto ruidoso, se é que podemos falar assim, onde acompanhamos a caravana passar com cães ladrando, cada vez com menos força e propriedade. Aos poucos se evidencia a canalhice moral de quem se prestou a bagunçar o coreto. Nada mais saudável do que contribuirmos para que os músicos retornem e voltem ao coreto, a tocar as inúmeras variações da sinfonia da democracia. É o que temos por enquanto.
19 janeiro 2023
Buenos Aires, 2023
![]() |
| Celta Bar |
10 janeiro 2023
A força das coisas
![]() |
| Chegaram, foram escorraçados e agora detidos |
Quando o ex-capitão assumiu a presidência do país, há quatro anos, em meio a suas bravatas e grosserias políticas, lembro que considerei neste blog a dificuldade que seria extirpar esse cancro que penetrou a epiderme de nossa sociedade, e sua derrota só poderia ocorrer como algo proporcional a uma destruição completa, semelhante ao que ocorreu aos governos fascistas em 1945. Descartei uma guerra mundial, por sua absoluta inconveniência, nos dias de hoje. Restava imaginar algo de grandioso, que estava completamente fora de qualquer vislumbre nas análises políticas da esquerda. Acreditava que Bolsonaro podia ser derrotado, mas a um custo imenso, a ser considerado. Como se não bastasse a sistemática destruição das instituições e do sistema político do país, levada a cabo ao longo de quatro anos, havia uma abjeta construção destrutiva que prometia um futuro distópico, pautado na mentira, na violência, no preconceito, na prevaricação. O ser consolidado pela má-fé por excelência.
Com a vitória de Lula nos dois turnos, em outubro, sobreveio uma tensa expectativa, em que os novos tempos democráticos que se anunciavam não viriam sem algum tipo de cobrança. Sabemos o que foram os 60 dias de transição, por um lado os esforços insanos para se garantir um orçamento mínimo para a continuidade dos programas sociais, o teto de gastos com um bonus aprovado pelo Congresso, de 145 bilhões. Isso por um lado. Por outro, o silêncio abissal do derrotado, que não se manifestava a não ser para algumas nomeações políticas. Por fim, fugiu para Miami, o que parecia ser coisa boa, tendo em vista a linda cerimônia de posse de Lula, no primeiro dia do ano. E bastou uma semana para que os piores pesadelos se abatessem sobre Brasília, sob a marca de uma invasão de gafanhotos verde-amarelos, que destroçaram o Planalto, o Congresso e o STF. Foi essa destruição simbólica que me remeteu ao custo que teríamos de pagar para esconjurar, de modo completo, esse mal que nos acometeu.
A invasão anunciada há tempos se confirmou, nos moldes da invasão do Capitólio, dois anos antes. O rastro do arrasamento foi o canto do cisne desse radicalismo desprezível, sem pautas reivindicatórias, sem projeto de nação a não ser o brado de intervenção militar. Demoliram os símbolos de três edifícios, e colheram uma dura derrota quando cantavam vitória, na ação enérgica e imediata dos atores das instituições atacadas, Lula, os congressistas e os juízes do STF, com medidas punitivas que deverão prosseguir por um bom tempo, com a captura de todos os golpistas, dos arruaceiros aos financiadores. Não sem razão, sinto-me mais confiante em nossa democracia e no governo Lula agora, depois da tempestade. Com a retirada forçada dos acampamentos golpistas, não sobra pedra sobre pedra das intensões desses grupos desvairados, alinhados ao que há de pior do bolsonarismo.


















