| Nossa arcaica desigualdade estrutural |
02 setembro 2020
O horror naturalizado
29 agosto 2020
Poesia 04

PERCEPÇÃO
OUTONAL
A bela caminhando
os olhares arredios
balouçando a cintura
esboçando um sorriso
louvando o céu escuro
(as nuvens plúmbeas)
A
bela caminhando
feliz
os
pelos do corpo eretos
toda
a emoção
evidenciada pelos largos
tornozelos
O chão úmido
as árvores docilmente inclinadas, indiferentes
as paredes frias espreitam
o vento fino abstrai a alma
e
desperta a consciência
Os
homens silenciosos, evadidos
os
carros imóveis, também mortos
o
sol distante que não se espraia
mas
o gato no telhado atento acompanha
a
bela caminhando.
(abr/83)
15 agosto 2020
Outras palavras
![]() |
| Bruges, 2010 |
Papéis avulsos
![]() |
| Dresden, 2002 |
01 agosto 2020
Algumas considerações tardias
![]() |
| Cracóvia, 1994 |
As notícias falsas que inundaram o
mundo, e em especial o Brasil no tempo das últimas eleições, seguem lentamente
seu destino ominoso, a acossar de modo implacável as pessoas, demolidas em seu
cotidiano pelo temor, pela torpeza fútil que não se detém. Quando se espera que
a justiça aja como deve ser, subitamente o silêncio inadequado prevalece, a dar
tempo e espaço para as ondas de crescente intolerância alcance suas praias e
promova sua destruição.
O mais grave desse nosso tempo talvez seja
isso, a omissão de quem poderia agir, de quem poderia reconduzir a razão.
Vivemos um presente que renega o processo histórico e desaprende com o futuro.
Mergulhamos nos desvãos do ódio, convidados por Caim e sua legião de
imprestáveis servidores, prestes a realizar a travessia com Caronte, e
desembarcar nos primeiros círculos do inferno. As notícias falsas circulam,
pois, em um ambiente propício, a verter cuidadosa destruição.
Aproximamo-nos do quinto mês de um
confinamento que se dissipa gradualmente. Sem um plano para conter o contágio e
as mortes, o desgoverno e seus cúmplices tripudiam fornecendo cloroquina e
atendendo os pleitos do poder econômico e financeiro. Promovem uma precipitada
abertura dos serviços, sem qualquer interesse em regulamentar as aglomerações
públicas, enquanto a contagem tétrica nos aproxima dos cem mil óbitos.
Isso não causa qualquer estranheza ou
desolação. Apatetados, entorpecidos, sem uma consciência crítica a nortear
ações consistentes, é mais cômodo deixar-nos seduzir por uma modorrenta flauta
de Hamelin a caminho do precipício. Imobilizados e entorpecidos pelas
contradições do sistema de mentiras, tornamo-nos presa fácil das garras de um
capitalismo agressivo, cujos ditames engendram sua ordem autoritária.
Não há desemprego, não há contágio, não
há farsa que rebente o sorriso do cão e faça interromper o cortejo fúnebre.
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Em
tempo:
Retomo
nas mãos o livro de Sérgio Ricardo (1932-2020) que girava entre o sala de estar e a mesa
de trabalho, na espera de alguma atenção de minha parte. Retirei da estante dos
livros abandonados quando voltei a assistir o documentário Pássaro do
Morro, de Hilton Lacerda e Joaquim Castro, sobre sua vida.
Nunca
dediquei atenção especial a este mestre brasileiro das artes. Foi ator e
diretor de cinema nos tempos do Cinema Novo, compositor de mão cheia, poeta,
dramaturgo. Foi paulatinamente apagado da memória de nossa cultura pela ação
premeditada de governos e veículos midiáticos. De uma atuação intensa nos anos
1960 e 1970, sua consciência política foi suficiente para ser deixado de lado.
O
livro, sua autobiografia Quem quebrou meu violão, revela não
apenas algo de sua rica passagem pela cultura brasileira, como revela a
qualidade de sua escritura e a força de suas palavras. Fiquei extasiado com seu
relato intransigente, que retoma a lembrança das amizades, os percalços com a
censura, sua criatividade poética ao descrever as letras de diversas
composições. Um livro poderosamente belo e inquietante.
Termino
esta postagem com uma delas, que me parece muito sugestiva, triste e ao mesmo
tempo desafiadora.
Em
noite de luar no céu
Maria
do Grotão, ai, se deu
um
cão latindo ao longe
e
Zé Tulão derrubou sua fulô
os
gemidos de Maria
só
quem pôde ouvir
foi
mandacaru
Dorme
que só é bom sonhar
Sonha
que o mundo vai se acabar
que
a gente foi pra longe
onde
ninguém tem carência de levar
o
que a gente fez nascer
com
trabalho e dor.
morte
e amor.
22 julho 2020
Poesia 01
03 julho 2020
Quase nada a acrescentar
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| Strasburgo, 2000 |
Chegamos ao final de mais uma semana,
sem grandes modificações no panorama geral. As crises política e econômica,
esta agravada pela ocorrência da pandemia, seguem a pleno vapor. Não seria
exagero dizer que o ano de 2020 está perdido, no que diz respeito a uma vida
social saudável. Talvez ainda demore o contato com as pessoas queridas, meus
pais, minha irmã, minha amada Moniquinha e demais amigos. O convívio livre,
aberto, despreocupado, como conhecíamos até o princípio deste ano, dá mostras
que irá custar a voltar. Tenho prometido à Mônica que delimitei um prazo, que
na pior das hipóteses em dezembro nos encontramos para a passagem de ano. Falei
isso sem qualquer comprovação científica. Na Nova Zelândia já faz algumas
semanas que a vida retornou ao normal, mas lá as providências foram fortes
desde o início. Havia um governo decidido a tomar iniciativas, e favoráveis ao
bem-estar da população, e o ônus tornou-se dividendo.
Por aqui, não há ônus nem dividendo,
pois a proposta principal desse desgoverno parece ser bem-sucedida em meio ao
caos, ou seja, a destruição das instituições, a destruição da cultura, a
destruição da educação. O punhado de irresponsáveis inconsequentes – sem que
sejam imbecis, pois sabem cumprir suas fúteis tarefas políticas – destroçam o tecido social e
junto, o discernimento do que é importante para a sociedade. Principalmente
esse capitão desregulado que atua aos trancos e barrancos, entre demissões de
ministros, disputas com a mídia corporativa e decisões personalistas,
escondendo com isso os avanços de uma política neoliberal de privatizações, ou
de destruição das empresas públicas, patrocinada por seu ministro Paulo Guedes.
Assim, estamos assentados à beira de um
barranco, e a cada sacudida, rolamos um pouco mais ribanceira abaixo. O mais
doloroso de tudo é a destruição de nossa imagem no exterior, de nossa
diplomacia, que nada faz senão desfazer relações e acordos. Há nisso uma
subordinação canalha, obviamente conduzida por esse testa de ferro de nome
Ernesto Araújo, que como boa parte do ministério, se satisfaz em seguir um
ordenamento sem profundidade, imerso em sua opacidade subalterna, onde seu
principal esforço parece se comprazer em sorrisos tolos e falas abjetas. Não
representa uma nova linha no Itamarati, mas ao contrário, é a nulificação de
tudo o que ele representou no cenário internacional. Essa gente não tem brilho
nos olhos, um detalhe subjetivo, mas que parece decisivo para investigarmos a
patetice paralisante que tomou conta do país, e que deve permanecer por mais
dois anos. Já não tenho mais confiança no que pode acontecer vindo das urnas.
Uma parte do país se acomoda em torno desse estado vegetativo, quero dizer,
parcelas de todos os estratos sociais, e que parecem não se dar conta do
vexame, da catástrofe civilizatória.
É o que disse no começo, perdemos nossa
capacidade de discernimento do certo e do errado, do joio e do trigo. As falas
atravessadas, oriundas dos procedimentos criminosos dos gabinetes do ódio e
embasadas em falsas informações, infectam os canais digitais de comunicação
pessoal, desencadeando uma estranha normalidade do mal, algo tão grave e similar
ao controle da segurança do Estado por milícias organizadas. Ou pior, o
conhecimento científico acumulado ao sabor dos sábios piratas neopentecostais,
que destroçam Darwin em nome do criacionismo, que condenam a diversidade humana
em nome de uma interpretação obtusa da palavra sagrada. Nesse quesito, o
fundamentalismo que se impõe é tão ou mais trágico que o preconizado pelos Bins
Ladens do islamismo, posto que é edificado para beneficiar um punhado de
fariseus milionários.
Ouço John Zorn pelo Youtube, Nove Cantici Per Francesco D’Assisi, antes de preparar meu saboroso jantar, arroz integral, feijão preto, pimentão assado com queijo, ovos mexidos e água. O que tem me animado é ler e escrever. Ler teses e dissertações de alunos para bancas e escrever meus textos, publicando-os na medida do possível. Tive dois contos recém-publicados em revistas de literatura eletrônicas, e ontem enviei um texto acadêmico do qual gosto e que será publicado em uma coletânea de artigos, em Porto Alegre. E tenho a reorganização de meus textos do doutorado e do mestrado, e já os enviei para uma editora digital argentina. Também reorganizo meus contos, meu romance, minha peça sobre a Palestina. Esse tempo de imobilidade me permite dormir, falar com meu amor, ler, escrever e fazer minha comida. Tomara que possamos superar esse estágio, para um novo e estimulante salto adiante.
02 julho 2020
Eduardo Galeano, uma poesia
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| Eduardo Galeano |
Quando adquiri meu primeiro livro de Galeano, As Veias Abertas da América Latina - não saberei dizer se adquiri ou se expropriei de uma livraria de um centro comercial - confesso que não sabia praticamente nada deste maravilhoso autor, que nas décadas seguintes, lentamente, ganharia minha profunda admiração. Ainda não havia conhecido o Uruguai, mal relacionava os problemas políticos que, então, açodavam o Cone Sul com a distinção mais cruel dos regimes ditatoriais, a tortura e a remoção de pessoas para não mais serem encontradas. Estávamos no último ano da década de 1970 e muita coisa ainda haveria de ocorrer até tomar consciência do drama de nuestra América Latina.
Em um certo sentido o texto de As Veias Abertas... foi a porta de entrada para um primeiro contato. Passei a estudar o período, em seguida viriam minhas primeiras viagens ao Uruguai e Argentina, e então estava maduro para autores como Benedetti, Cortázar, Márquez. Só mesmo na primeira década deste século foi que mergulhei de maneira profunda e arrebatada nas aventuras do realismo maravilhoso latino-americano, pois ele pressupõe todos os elementos contraditórios que compõem nossa realidade. E não demorou para que agregasse a minha pequena biblioteca, novos autores de nosso continente espoliado, Onetti, Roa Bastos, Fuentes, Dario, Storni, Rulfo, e não só os literatos, como os sociólogos, historiadores, políticos, Rama, Mariátegui, Romero, além daqueles que representam a síntese de nossa tragédia barroca, Carpentier, Lezama Lima.
Fiz muito pouco com tantos autores maravilhosos, que de algum modo ajudam a compreender minhas raízes, minha relação com este continente antropofágico e mestiço. Foram leituras limitadas até aqui, e míseras linhas escritas sobre o que somos, como começamos e para onde enveredamos. Mas certamente Eduardo Galeano tem sido um bom companheiro de meus pensamentos nestes dez últimos anos. Nestes dias de confinamento pelo vírus, agrupo seus livros que disponho para declamar seus escritos para minha tão amada Moniquinha, em nossa rádio Balmaceda, em nosso programa diário La Noche con Poesia. Declamá-lo, assim como outros autores e autores em na língua espanhola nos acalenta, além de adormecer lindamente meu amor.
Abaixo, uma de suas pequenas peças em
prosa, dedicada a outro admirado autor, que conheci em minhas andanças por
Buenos Aires, o poeta Juan Gelman.
GELMAN
O poeta Juan Gelman escreve
elevando-se sobre suas próprias ruínas, sobre sua poeira e seu lixo.
Os militares argentinos, cujas
atrocidades teriam provocado em Hitler um incurável complexo de inferioridade,
o pegaram onde mais dói. Em 1976, sequestraram aos seus filhos. Levaram-nos em
lugar dele. Torturaram a sua filha Nora e a soltaram. Ao filho, Marcelo, e a
sua companheira que estava grávida, assassinaram e os fizeram desaparecer.
No lugar dele, levaram seus filhos porque ele não estava. Como se faz para sobreviver a uma tragédia assim? Digo: para sobreviver sem que se apague sua alma. Muitas vezes me fiz essa pergunta, nestes anos. Muitas vezes imaginei essa horrível sensação de vida usurpada, esse pesadelo do pai que sente que está roubando ao filho o ar que respira, o pai que no meio da noite desperta banhado em suor: Eu não te matei, eu não te matei. E tenho me perguntado: se Deus existe, por que passa despercebido? Não será ateu, Deus?
(Extraído do texto original, El libro de los Abrazos, Catálogos Editorial, BsAs., 2007).





