06 novembro 2019

Pour Jerusa




O texto a seguir foi apresentado na 3a. Feira de Literatura da PUCSP (Flipuc-2019), em homenagem a Jerusa Pires Ferreira. O livro digital, que reúne apresentações de outros participantes, está disponível no site da EDUC (https://www.pucsp.br/educ/ebooks).

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Quero agradecer à organização da FliPUC, ao querido Lucio Agra pela oportunidade de participar desta mesa, Cultura das Bordas, na companhia dos professores Bernadette Lira e Valdir Baptista, a quem cumprimento.

Obrigado a todos pela presença.

Perguntei-me durante dias o que poderia trazer aqui como fala, que pudesse de algum modo reverenciar a memória de nossa querida Jerusa, pois não tive a honra de ser seu aluno.

Também não fui seu orientando, ou antes, diria, fui um quase-orientando. Quando eu ainda dava os primeiros passos para a definição do objeto de minha pesquisa de doutorado, sob orientação da professora Maura Veras, das Ciências Sociais, solicitei à Jerusa um encontro com a esperança de que ela pudesse me sugerir ideias para minhas dúvidas sobre a oralidade da poesia das periferias urbanas.

Não fiz anotações, lamentavelmente recordo-me muito pouco de nossa conversa, que ocorreu em um pequeno e simpático café aqui das cercanias. Uma conversa abundante, rica em aportes e narrativas, e que ao final, já na saída, ela me olhou fixamente e disse, “você compreendeu, aqui está a sua pesquisa”.

Mais do que sugerir um caminho, Jerusa me forneceu uma rica e generosa planificação, calcada em referenciais teórico-metodológicos, um novo mundo, do qual me utilizei de uma pequena e inebriante parcela chamada Paul Zumthor. Não foi pouco, pois a partir da leitura de Introdução à poesia oral, pude compreender o rito performático da declamação de Navio Negreiro, realizada pelo poeta Helber, em meio ao caminhar por entre as mesas de expectadores em profundo silêncio extático, como se fosse um navio tumbeiro.

Mas perdemos por um tempo o contato e a chance de novas conversas. Passaram-se os anos, defendi minha tese sociológica e poucos meses mais tarde, tive a oportunidade de comparecer no lançamento do livro A Cultura das Bordas, e em meu exemplar Jerusa escreveu uma dedicatória, “esperando que as bordas nos aproxime mais”.

A partir de então de fato estivemos mais próximos, participando dos encontros promovidos pelo Centro de Oralidade, assistindo suas palestras, visitando-a na companhia da querida Mônica em sua deliciosa casa na rua Bahia.

Porém, ficou gravado em mim uma incompletude da qual a vida não se incumbirá de resolver: como teria sido se eu me desse conta de que minha pesquisa estava ali, ao sabor de sua orientação?

O que posso fazer é o que faço nestes anos, aqui a ali um breve esforço para imaginar como poderia completar o irremediavelmente faltante. Se encontrei a voz sociológica da poética periférica, como seria compreendê-la tendo a oralidade e a gestualidade como suporte maior da sua comunicação? Ou mais além, depreender algo da força xamânica que a inspirava, tal como Jerusa descreveu em sua experiência com os tchuvaches?

Ou como ela explica ao falar das populações siberianas, “o verbo xamanizar como dando conta do acesso a patamares inacessíveis aos não iniciados, falando-se em educação dos xamãs pelos espíritos e associando-se a ela poderes especiais”. O que é a performance dos saraus dos fundões de nossa metrópole senão um ritual xamânico dotado de força e encanto muito especiais?

Meus encontros com jovens poetas das periferias e a racionalidade antropológica muitas vezes nos deixavam em claros impasses comunicacionais, como pertencentes a mundos diferentes, onde a chave só poderia estar na entrega espiritual, ou ainda como profetiza Jerusa em Silêncio e Clamor, no “tempo/espaço sujeito a outras escalas, ao qual o xamanismo confiou a sua memória”. Como Jerusa me escreve em sua dedicatória, referindo-se a Guenádi Aigui, “este poeta do Volga fala por nós todos”.

Não pude vagar pelo encanto de seus olhos a esse respeito e assim perder-me alguma de suas descrições contemplativas, introduzindo-me ao cerne deste texto cultural, das práticas do oral e do corpo, que me abririam novas portas a respeito das culturas periféricas/das bordas.

No que tange propriamente à literatura marginal, e Jerusa via as bordas como algo à margem, organizei minha pesquisa para conceituá-la sociologicamente de acordo com um sentido de resistência. Somente mais tarde desvelei o sentido de Geneviève Bollème, trazida por Jerusa, “a literatura popular como receita contra algo, discurso mágico para afastar a morte, o medo, a miséria, e que instaura um outro mundo (...) para domar e conquistar aquele em que se vive”.

Como teriam sido nossas conversas a esse propósito?

Também o sertão me marcou de modo indelével nos relatos e nas performances dos jovens poetas das periferias, como representação das vicissitudes urbanas. Por alguma razão, havia a magia do sentir atávico, da dor longeva, mas também do sonho e da esperança o sertão de Antonio Conselheiro, Gláuber Rocha e de Elomar. Ouvi-los em sua oralidade era sentir de alguma forma a origem das veias abertas de um Nordeste profundo, da injustiça, da violência e da miséria reproduzida no cangaço e em sua repressão.

Haveria aí uma relação direta com as paixões e as lutas do romance de cordel de Antonio Silvino, apresentados por Jerusa: “Peito a peito. Luta insana/ que cenas indescritíveis/ indignas da espécie humana!/ foram seis horas terríveis”. Eram 51 bandidos contra 120 soldados enfurecidos.

Imagem de luta e insubmissão que se sintoniza com as palavras de Graciliano, “o que nos consola é a ideia de que no interior existem bandidos como Lampião. Quando descobrirmos o Brasil, eles serão aproveitados”. Nada mais apropriado para nossos dias!

Mas retomo o fluxo de minhas imaginadas orientações com Jerusa e com os temas que não pude compartilhar. Deus e o Diabo que atravessa Bacurau e irrompe com a literatura de cordel. Sobre seus poetas, é interessante acompanhar a análise de Jerusa, “Pode-se falar da memória, da grande força de um discurso comum, uma espécie de reconhecimento de temas e até de uma certa unidade do imaginário que tem a ver com o Brasil profundo, se se puder considerá-lo como um todo. Pode-se dizer, também que ela consegue revelar anseios e compensações, expectativas de grupos não privilegiados ou subalternos e que termina sempre por expressar a condição de vida das classes populares, suas vicissitudes, suas formas de anúncio e de denúncia”.

Como não enxergar aí o poeta que declama nos saraus periféricos? A memória que processa nossa mestiçagem, o barroco que desponta como o instrumento ideal para forjarmos nossas lendas, sonhos, visões memoráveis, a expressar os signos de nosso destino.

E também como não considerar por nossa querida senhora barroca toda a dimensão e complexidade da cultura das bordas, ao narrar o insólito cotidiano comum de toda uma Latinoamérica, em diálogo com o real maravilhoso de Carpentier, imaginário que emerge dos signos de nossa história e de nossas culturas populares?

O maravilhoso insólito, encontrado cotidianamente no estado bruto, latente, em nosso continente, fundamentado na cosmogonia barroca, o barroquismo americano que se constitui com a miscigenação, a consciência de ser outra coisa, de ser uma coisa nova, de ser uma simbiose, eis o que somos, eis o que depreendemos das agruras e das belezas desgarradas do sertão jerusiano e projetadas por todo um continente barroco, imerso em sua pulsão telúrica.

Do diálogo entre a tradição oral do Livro de São Cipriano e as classes populares, é possível compreender o deslizar fabuloso que integra a visão de mundo das camadas populares, ao recriar seu mundo mágico de perene esperança. A utopia contida nos versos poéticos é a pura sabedoria popular, veiculada em uma poética oral, oriunda das experimentações míticas, e das negações vividas a cada dia.

Toda essa gama de leituras e discussões em suspenso seriam algumas das possibilidades de nossas conversas. No que me diz respeito, teria antecipado em anos a compreensão da cultura das bordas. O problema é que não conto mais com o diálogo apaixonado de Jerusa.

Desse modo, tanto quanto me foi possível imaginar o que seria minha aproximação com a generosidade confabular e genuinamente barroca de Jerusa, expresso à melhor maneira retrotópica e ucrônica minha apaixonada homenagem a esta inesquecível amiga e pesquisadora.

Muito obrigado.


30 outubro 2019

As derrotas do malfadado neoliberalismo


foto: Susana Hidalgo


Estalou o que parecia impossível, uma imensa revolta popular no Chile, basicamente em decorrência das condições indignas de vida sob o sistema neoliberal implantado desde a derrubada de Allende. Ainda hoje se observam manifestações nas ruas, com barreiras, cacerolaços, monturos de chamas, fumaça e corpos de carabineros buscando reprimir com jatos d'água e bombas de gás lacrimogêneo. Os manifestantes - e o que se percebe pelos vídeos são na maioria jovens - circulam pelas avenidas sem se deixar encurralar;.se fazem presentes aqui e ali e evitam os choques frontais. As ruas estão com aquela aparência desolada, o comércio fechado, um tapete de pedras nas vias públicas e marcas de destruição por toda parte, referências típicas da agitação insurrecional. 

Fica evidente que o grau de repressão, embora forte, não se compara com os tempos brutais e assassinos de Pinochet, tempos em que havia uma cobertura completa do Departamento de Estado e da CIA para os piores atos de violência. Piñera e seu governo encontram-se numa sutil armadilha, que os aprisiona a cada movimento mais brusco. As ofertas de negociação bem como a demissão de todo o ministério parecem não ter arrefecido a indignação popular, consequência direta de um torniquete que não parou de apertar desde os tempos do governo militar. Assim, um doloroso impasse prossegue e se manifesta vivo nas ruas, sem que se tenha qualquer expectativa de um final que aponte para uma resolução superficial dos problemas. É sem dúvida um momento crucial para a governança neoliberal, um xeque ameaçador como nunca se viu antes.

A questão: como é possível retomar a normalidade da vida cotidiana? Quais lideranças dos movimentos callejeros serão aceitas como representantes da insurreição? Quais pautas serão discutidas? Não está claro que o movimento esteja próximo do esgotamento, há uma força orgânica que surpreende, por certo com forte participação de amplos segmentos da sociedade. Pelas imagens, é possível depreender que Piñera e seu governo terão de ceder muito para alcançar uma governabilidade sustentável. Dentro do processo democrático estabelecido desde 1990, Piñera está de mãos amarradas, não poderá agir com a truculência que vitimou mais de 3.000 mortes e desaparecimentos. Já são reconhecidas 20 na contagem oficial (mais de 40 na contagem dos manifestantes) e a tensão tende a aumentar com o passar dos dias.

Comento mais tarde a vitória peronista na Argentina.



10 outubro 2019

Nenhum sinal de vida

O punctum: os rostos bondosos do entourage de Allende 

Em um governo marcado por absoluta ausência de um projeto de nação e norteado pelas questões mais desprezíveis de preconceito, não causa estranheza sua passagem que, à parte sua volúpia destrutiva, consiste do ponto de vista propositivo, em um caminhar inodoro, insípido e incolor. Afora os primeiros meses, quando o esforço era deglutir o triste engodo de sua existência, aos poucos tomamos consciência de sua impossibilidade ontológica, o que significa no futuro, tal como ocorre hoje na Argentina, a reorganização popular sob completa fragilidade.

Como se trata de um governo sem cacoete para governar, mas apenas para cumprir ordens técnicas emanadas de uma hegemonia econômica instalada para controlar e espoliar riquezas, a inércia de seu prolongamento artificial será nosso grande drama. De minha parte e dos que me cercam, buscamos alternativas nas práticas culturais, no conhecimento do processo histórico, sempre com o objetivo de superar os momentos cinzentos e aprofundar a compreensão do mundo ao redor. Eu e Mônica vamos assim avançando em nosso texto sobre Allende e a Unidade Popular, um estudo imerso em descobertas fascinantes, que nos proporciona mais coragem e determinação para superar nossas próprias debilidades políticas.

(atualizado em 26.09.2020)


20 setembro 2019

Desconstruir muros



Símbolo poderoso da participação popular nos rumos políticos de uma nação, a queda do Muro de Berlim completa 30 anos em 2019 e inspira o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) a realizar o seminário "(Des)construir muros: processos democráticos desde 1989" no Rio de Janeiro, nos dias 29 e 30 de setembro, no Museu de Arte do Rio.
O marco histórico serve como ponto de partida para se refletir sobre a ideia de democracia na contemporaneidade, com destaque para o aprofundamento das polarizações no Brasil, na Alemanha e no mundo, e o papel da sociedade civil na desconstrução de muros e nos processos democráticos. Nessa perspectiva, o seminário se organiza em três eixos temáticos:
1- Polarizações e retrocesso democrático,
2 - As tecnologias de comunicação nos processos democráticos,
3 - O Muro e sua produção simbólica: pontos de atrito.

Veja aqui o programa do seminário.
Reuniremos ex-bolsistas do DAAD e pesquisadores brasileiros e alemães das Ciências Sociais, Ciências Políticas, Comunicação Social, História, Filosofia, Direito, Geografia, Artes e áreas afins para uma série de palestras e debates.
O primeiro dia (29/09) será aberto com uma contextualização histórica para criar uma base sólida para as discussões. No segundo dia, os participantes se dividirão em três grupos de trabalho para aprofundar as questões de cada eixo temático e o resultado será apresentado como encerramento do seminário.
Inscrições abertas


Importante: as vagas são limitadas. Ex-bolsistas do DAAD receberam um convite para a inscrição por e-mail. Se você não recebeu o convite ou não é ex-bolsista, faça seu cadastro para solicitar inscrição neste link (informando nome completo e e-mail)


O evento, destinado a ex-bolsistas do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), também receberá estudantes e pesquisadores brasileiros interessados na temática proposta. No entanto, essas vagas são limitadas. Por isso, se você não é ex-bolsista, pedimos a gentileza de que, após a inscrição, aguarde a confirmação de sua participação.
Também no caso de ex-bolsistas, caso o número máximo de participantes seja atingido, o(a) interessado(a) entrará numa lista de espera, sendo chamado(a) mediante desistência.
A inscrição pressupõe que a participação esteja confirmada. Em caso de desistência, pedimos a gentileza de nos comunicar até 19/09 por meio do e-mail eventos@daadbrasil.com.br. Assim, poderemos destinar a vaga a alguém da fila de espera e garantir o bom aproveitamento dos nossos recursos.
Entre os palestrantes, estão pesquisadores do Brasil e da Alemanha:
  • Profa. Dra. Andrea Ribeiro Hoffmann (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro)
  • Prof. Dr. Fábio Vasconcellos (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
  • Profa. Dra. Jeanette Hofmann (Universidade Livre de Berlim e Weizenbaum-Institut für die vernetzte Gesellschaft / Instituto Weizenbaum para a Sociedade Conectada)
  • Prof. Dr. Lucio Rennó (Universidade de Brasília)
  • Prof. Dr. Luís Edmundo de Souza Moraes (Coordenador do Núcleo de Estudos da Política - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro)
  • Prof. Dr. Marco Antonio Bin (Pontifícia Universidade Católica São Paulo)
  • Prof. Dr. Sebastian Thies (Universidade Eberhard Karls Tübingen)
  • Profa. Dra. Thamy Pogrebinschi (Wissenschaftszentrum Berlin für Sozialforschung / Centro de Pesquisa de Ciências Sociais Berlim e Professora Colaboradora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ)
Serviço:
Data: 29 e 30 de setembro de 2019
Local: Museu de Arte do Rio (MAR)
Praça Mauá, 5 - Centro, Rio de Janeiro
Programação: www.daad.org.br/desconstruirmuros



11 setembro 2019

Conversa para boi dormir

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A conversa mole, o sonambulismo aconchegante

Em meio ao incêndio que toma conta da civilização brasileira, que passa pela brutal restrição das verbas de financiamento na educação, passa pela censura artística e alcança o fogo literal na floresta amazônica, nada mais anacrônico do que topar com os infindáveis debates esportivos na televisão. 

A loucura destruidora do atual (des)governo desmonta o substrato da nossa vida cotidiana, mas a velha discussão futebolística com os mesmos ingredientes de sempre, as jogadas polêmicas e a eloquência dos palpites não perdem o espaço midiático e segue confinando o pobre povo brasileiro à sucessão infindável de argumentos sobre temas absolutamente descartáveis, que ao fim e ao cabo nada acrescentam à razão crítica para a compreensão da realidade em que vivemos.

Dotados de um padrão que promove o rodízio de emoções calcadas na exploração dos acontecimentos que se repete a cada rodada - o enaltecimento dos bem-sucedidos e a crucificação dos fracassados - a roda da fortuna não cessa de girar em torno dos debates espetaculosos, que se apresentam como um imenso floco de algodão doce, tão atraentes quanto dissipáveis à primeira degustação. 


O mais interessante é que por duas horas ou mais os atores conseguem produzir da bolha futebolística um complexo universo paralelo, carregado de especulações, para ao final sobrar o vazio do resto da noite. Nada se define ou se explica porque assim deve ser, a bolha deve permanecer como o fundamento da vida, no afã de torná-lo um produto indispensável.

Esses atores são capacitados para isolar as discussões futebolísticas do futebol, sem integrá-las ao contexto social, econômico e político, como se o esporte mais apaixonante do país pudesse permanecer segregado aos quatro lados do campo. O fake da natureza dos debates alimenta a bolha das especulações fugidias das análises e nenhum deles, sejam jornalistas, ex-jogadores ou convidados outros, ousam atravessar a sinfonia de análises fragmentadas, trazendo algum elemento mais crítico que remeta à realidade social. 


Nenhuma referência mínima que seja às boas referências literárias do esporte que contemple o negro, o homossexualismo, a violência, a pobreza, dentre outras. Nada. Apenas o chafurdar na mesma lama de sempre, onde o mais audaz dos comentários é descartado no momento seguinte ao final de cada programa.

-o-

Ontem eu e Mônica tivemos uma demonstração da bestial percepção de mundo do eleitorado desse sujeito que nos desgoverna. Refiro-me ao eleitorado que votou nele e persiste em adorá-lo como mito. Trata-se de uma ignorância abismal e cansativa. No fundo, carregam uma profunda e confusa amargura e não fazem ideia o que seja sofrer com isso, pois a transformam em ódio ao outro, ao outro diferente, e se satisfazem com isso. Para esse tipo de gente, não existe a dinâmica do processo histórico, não existe a construção social com base no conhecimento científico.

Em suma, teremos de retomar a democracia na marra, contornando essas pessoas que persistem na intolerância. As representações sociais democráticas devem assumir o enfrentamento político. Assistir politicamente o desmonte do país é que não dá.


(atualização do texto, 07.10.2019)



21 agosto 2019

600a. postagem



E o blog Chá nas Montanhas alcança sua seiscentésima postagem, um pouco antes de comemorar onze anos ininterruptos de publicações. Jamais imaginei lá no início que chegaria tão longe. As dificuldades de se postar regularmente são superadas pelo prazer e quase necessidade de publicar as impressões pessoais a respeito do mundo que nos cerca, dos acontecimentos sociais e dos eventos pessoais, das lembranças recuperadas, do futuro como perspectiva imediata. A vivência cotidiana não cessa de alimentar a alma e o fígado, quase que solicitando algum tipo de análise. 

Descrever os fatos a partir de minha compreensão de mundo tem sido um exercício indispensável, por muitas vezes este espaço foi o canal solitário de minha voz, de como absorvia os golpes políticos, de como exultava as conquistas pessoais ou coletivas. Também foi aqui que pude comemorar a memória de pessoas e circunstâncias muito especiais, que dizem respeito a minha maneira de ser no mundo. 

Esses anos foram de transformação pessoal, de aprendizado social, de paixão e de desprezo, e o que poderia se tornar uma prática paralela ao desenvolvimento formal e acadêmico, muitas vezes mostrou-se um canal exposições exaltadas em nome de um princípio, de formas inacabadas de insurgência política. 

Lembro que bem no comecinho constava no subtítulo do blog um convite para me acompanhar no desfrute do chá nas montanhas e um visitante casual indagou, de modo polido, como seria possível algum degustar um chá numa mesa diante de exposições tão pouco amistosas? Foi o sinal para buscar uma elaboração mais propositiva, ainda que preservando o argumento contundente. 

Com o passar do tempo foi possível desenvolver um estilo e dessa maneira, espero ter despertado o desejo pela reflexão, sem omitir a indignação. Por vezes precisei retomar o texto para equilibrar a força assertiva da narrativa, que parecia perder a mão sensível, mas de modo geral foi possível manter o vigor original das palavras. 

Escrever "ao vivo", ao sabor dos fatos, sempre me pareceu o mais desafiador dos exercícios desta escritura. E assim, na expectativa de construir modos de ver e de pensar, pude avançar tanto e seguir com o compromisso de pautar minhas percepções, dando vazão a sentimentos tão distintos quanto genuínos. 

Que possamos seguir por aqui, juntos, por muito mais tempo, caro leitor.


19 agosto 2019

O rumo civilizatório

Ainda não estamos aptos a realizá-lo 


A Argentina começa a desgarrar-se, quatro anos depois, do flagelo que lhe foi imposto ao eleger o governo Macri. Na semana passada a vantagem nas PASO da oposição peronista parece ter sido decisiva para que, em outubro, seja sacramentado seu retorno ao poder. Mas a que preço isso ocorrerá? A desgovernada gestão macrista, cuja política econômica foi subsidiada por pesados empréstimos do FMI e do Banco Mundial, trará sérios problemas para a o saneamento do Estado e para a retomada do crescimento sustentável. As minas de efeito retardado foram semeadas e quem pagará será a sociedade argentina como um todo, conforme se viu com a disparada do dólar logo no dia seguinte às eleições primárias. 

Por aqui, o ex-capitão celerado dispara contra a oposição peronista, divulgando o terror, sem medir as consequências, de que a Argentina se tornará a nova Venezuela. Assim, estamos com a democracia no continente emparedada por lawfare jurídico e por bravatas de falsos profetas, cerceada desde sempre pelo poder dos conglomerados e instituições financeiras. Ainda pagaremos o pedágio de três anos até que uma nova onda democrática varra o país e condene o desgoverno que começa a nos flagelar. Serão muitas perdas, muitos atos insidiosos, muita verborragia política até que possamos reencontrar o rumo civilizatório, sin pena ni olvido.   



01 agosto 2019

Alcovas memoriais


Um novo mês, o lento avanço do tempo sob esse governo inescrupuloso, que não tem pejo em se declarar em sua ignorância. Embora eu navegue sem alimentar esperanças de retomar a terra livre do ensino, gosto de pensar que posso prosseguir na organização de meus textos para publicação, ainda que tardia, e me envolver nas tantas leituras que disponho em minha saborosa biblioteca. 

São trabalhos que me tomarão o tempo que tenho, de modo que não há lamento ou desconsolo. Paralelamente a isso, manter a saúde em dia e, nesse próximo ano, resolver minha questão trabalhista, retomando meus direitos vilipendiados no último emprego e obtendo os recursos merecidos de uma aposentadoria minimamente razoável.

De golpe, vejo como os quartos desempenham um papel marcante em minhas memórias. A começar pelo quarto de minha avó, a noite de setembro de 1998 quando lá dormi pela última vez. Ela havia falecido no dia anterior, o ambiente rescendia sua presença e, sobre o criado-mudo, uma primeira versão de A Paixão Inútil que ela estava pela metade. Muitas e desencontradas lembranças, que emergem ainda hoje e me trazem conforto. 

Antes disso, por volta de 1984, um texto que publiquei recentemente em A Paixão Inútil chamado Duas irmãs e que se inicia com a descrição de um quarto em que uma delas desperta para uma longa jornada. Os infindáveis quartos de minhas inúmeras viagens pelo mundo, a imagem da narrativa de meu avô ao descrever sua última noite junto aos irmãos que ainda dormiam quando saiu para não mais regressar! 

Recentemente, quando convalescia de minha cirurgia, o quarto da casa de meus pais que me alimentou tantas deliciosas impressões! Ouvir a chuva caindo sobre o jardim em seu monocórdio tamborilar ao longo da noite é uma das recordações que guardo. Mas não só, a delícia de se estar em um lugar em que o tempo está destituído de obrigações produtivas. Sentia-me protegido. 

Ainda hoje é possível desfrutar a cama, o silêncio matinal cortado pelo canto dos pássaros, tudo sem a menor urgência.

(corrigido em 29.12.2019)