23 agosto 2018

Sobre os agentes do pensamento bancário

As tetas do neoliberalismo e seus filhotes famintos


Pela qualidade técnica e moral desse grupamento de insanos que tomou o poder, não se esperava outra coisa, destruição dos direitos civis, restrição dos direitos trabalhistas, eliminação de postos de trabalho, deterioração do tecido social, violência urbana, insegurança pautada em incertezas jurídicas, aprofundamento da desigualdade social, dentre outros pontos. Tudo para favorecer um punhado de interesses alocados no sistema financeiro. É de tal monta a concentração do poder dessa gente com representação nos diversos espaços institucionais do país, que a ordem constitucional foi fortemente abalada, espezinhada, desconstruída em seus artigos consagrados, sem que até agora a sociedade civil conseguisse se organizar vivamente para rechaçar tamanha vilania.

Esses representantes da ordem golpista, instalados nos altos escalões do poder judiciário, do ministério público, na mídia corporativa, no poder executivo e legislativo, no empresariado rural e industrial, no sistema financeiro, consagraram novas interpretações das leis, desconstruíram o sentido ético na compreensão política, reduziram a percepção do bem-estar social a uma mera contabilidade de ganhos do capital, instaurando verdades distorcidas (fake) que promovem privilégios e segregação social definidas pelo poder econômico. Em outras palavras, ocorreu e ocorre uma desembestada reorganização na sociedade, em que prevalece a força dos negócios, ainda que em sua profundidade ignóbil em relação à compreensão do processo histórico e social da sociedade, com tanto que tais negócios produzam lucros e mais privilégios.

Em breve, com a continuidade dessa ordem golpista tresloucada, privilégio será ter um posto de trabalho, ainda que com renda irrisória, um lugar onde morar, mesmo que nos confins urbanos, e acesso à portabilidade digital para se entreter com programação descartável. É certo que esses representantes da ordem golpista imaginavam, em suas vãs atitudes, compor um quadro irreversível, de rápida e brutal idiotização social, para permanecerem controlando o poder, mas o acordo deveria ter sido mais profundo, menos cínico. A devastação produzida por esses engenheiros do caos não teria como se manter em uma sociedade que preserva uma agenda minimamente democrática, de eleições políticas regulares. Alguns sinais da reversão silenciosa desse estado de coisas dão conta que, a se preservar os direitos eleitorais, muita coisa deve mudar a partir de 7 de outubro. No mínimo, um forte basta a esse descalabro golpista.

Bem, como disse, esse limite de ação deletéria deveria estar no horizonte da percepção dos representantes da ordem golpista. Aparentemente não estava. Eles, como bons articuladores do comportamento bancário e ignóbeis políticos, maravilharam-se com as delícias do poder concentrado sem se dar conta das consequências de seus atos. É bem possível que logo comecem a pagar a conta do despautério, e ela não será pequena.

Seguirei mais adiante nessa análise.
                   

02 agosto 2018

Sobre recordações e escapes



Por alguma razão me pus nesta manhã a rememorar passagens vividas em Ipuã e São Joaquim da Barra, há 35 anos. Comecei na verdade a imaginar a vida de meus pais na longínqua Cambé dos anos 1950, a precariedade que seria aquele lugar, com instalações urbanas mínimas encravadas em derrame basáltico, a conhecida terra rocha, que na seca expele uma poeira penetrante e nas chuvas transforma as ruas em um leito viscoso e quase intransitável. Lembro da descrição de uma tia e sua ginástica para sair de casa com sapatos distintos, para enfrentar essa lama grudenta. Eu tenho alguma recordação dessas condições, nos anos 1960, em que ficávamos reféns do mau tempo, isolados na casa de madeira de meus avós, uma casa pequena que chegava a acomodar duas dezenas de pessoas. No inverno, havia o frio inclemente, que nos recolhia ainda mais entre a sala e a cozinha. 

Aos poucos a casa se expandiu, ganhou novos espaços e mobiliário, tornando-se mais aconchegante. Mas de fato Cambé nos anos 1950 tinha muitas similitudes com Ipuã dos anos 1980, dentre o principal, o desconsolo. Vivi um ano e meio exatos no lugar, sem ter criado nenhum vínculo. Foram poucos os finais de semana que ali passei, e nesse sentido não se compara com meus pais na Cambé dos anos 1950, pois eu podia fugir com meu carro, acumulava dinheiro para isso. Meus pais eram muito pobres, não havia fuga de um lugar restrito, salvo os finais de semana nos bailes do clube, animados pela banda do Gorni, dos quais meu pai já nada se recorda. Por não haver possibilidades de fuga encontraram o equilíbrio entre os parcos momentos felizes e a infinitude das circunstâncias difíceis. Só não houve fome, e quando a perfídia mostrava sua face, aqui, ali, nas relações inescapáveis, engolia-se a seco e prosseguia a vida. 

Não havia escapatória, para o bem e para o mal, para o amor e para o ódio. Na Cambé dos anos 1950 reproduziam-se os atos e os fatos, e as consequências com seus poucos subterfúgios apenas reafirmavam as evidências. Não havia escape de dentro para fora e de fora para dentro, ou pelo menos não se alimentava ilusões por isso. Quase como uma condenação em vida, era um sistema fechado, em que as reações se davam localmente, com poucas trocas com o mundo exterior. Viver, pecar, sonhar, morrer, tudo se dava de modo simples e objetivo ao redor daquele promontório cortado por dez ou doze ruas na vertical e na horizontal, e todos irmanados pela exuberante matriz, que acolhia nos finais de semana suas ovelhas obedientes.

Como relatei neste blog, retornei a Ipuã vinte e tantos anos depois de minha estada por lá, já nos anos 2000 e constatei as profundas mudanças. A principal, desencadeada pelas comunicações. O que fora um sistema parcialmente fechado, tornara-se aberto. As fugas, conduzidas unicamente pela movimentação física, agora permitia fugas digitais, ampliando as possibilidades. Com um mínimo de investimento do poder público nas opções de lazer, como o surgimento de um grande lago artificial, a cidadezinha se transformou. Tanto como a Cambé dos dias atuais, Ipuã expulsou para o passado o barro, a poeira e o desconsolo. Eu não fui reconhecido em meu retorno, a não ser pelo velho barbeiro, que continuava sentado na mesma cadeirinha de vime, do lado de fora, apreciando o tempo escoar.

Tanto como meu pai em Cambé, minha presença em Ipuã se deu pelo banco. Quando não trabalhava, jogava bola, lia Beauvoir e lamentava meu exílio. Hoje penso que fiz o certo, se na época tivesse permanecido em São Paulo, a deriva me propiciaria um tanto mais de acessos de entretenimento. Mas não teria percebido a urgência das coisas, não teria a memória de um passado estranho e desconexo, que casualmente ressurge. Meu tempo ofereceu opções e escapei imune da experiência. Meus pais não tiveram opções além da que escolheram, sair juntos e viver uma nova vida, em outro lugar. Descobriram novas formas de dor, mas também de felicidade.


31 julho 2018

A voracidade competitiva e a razão dissipada

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Carybé e o concreto

No café Cristallo, próximo de casa, como em todas as manhãs. O frio se instalou, ainda que não se possa designá-lo como invernal. Pela noite caiu uma chuvarada consistente, o que não ocorria há meses, e aqui estamos em um inverno politicamente desesperançado, onde cabeças inábeis fazem o serviço sujo impondo um liberalismo de guerra, destruidor de empregos e comportamentos. Pelas ruas, a prova desse despautério, com dezenas de pessoas sem um teto, agora dormindo e que ao longo das jornadas perambulam sem noção, sem acolhimento, sem paz de espírito. 

O modelo econômico pregado por essas cabeças desafortunadas do liberalismo define o indivíduo como sendo uma microempresa, sendo reconhecido e valorizado por sua capacidade produtiva. Isso pretende nos igualar em um sentido globalizante aos centros produtivos desenvolvidos do norte, desconsiderando as peculiaridades de nosso processo histórico, forjado em uma profunda desigualdade histórica e social. Como se, num passe de mágica, fôssemos apresentados ao sucesso, bastando para isso o esforço e a dedicação pessoal. O bem-estar viria como consequência meritória do sucesso alcançado. 

Tal discurso aparentemente sedutor e que promoveria a autonomia e a liberdade do indivíduo elimina de saída os desequilíbrios estruturais, nivelando todos a uma competição desenfreada, onde o importante são os fins alcançados. Não considera que nem todos partem do mesmo ponto de partida, nem que possuem as mesmas ferramentas cognitivas para serem bem-sucedidos. Ou seja, um discurso promovido de cima, orientado desde os escritórios climatizados, demarcado por gráficos, números, tabelas, que expurgam o insuficiente, do ponto de vista produtivo, e enaltecem os bons resultados individuais, que acabam por compor a eficiência corporativa. 

Milton Santos há vinte anos já denunciava essa espécie de competitividade excludente, que não promove a felicidade social, mas os bons resultados corporativos. Vale dizer, o sucesso empresarial, e aqui seja do micro (indivíduo) ou do macro (empresa) está alinhado ao resultado produtivo, alcançado a partir da competitividade, não importa o que isso represente. E igualmente vale dizer que esse embate invisível promove a crescente destruição do caráter, tal como nos aponta Richard Sennett. Não existe nesse processo meio termos, e o método que resulta na autonomia e liberdade se assemelha por todo o campo produtivo, no final das contas é como se servíssemos a um mesmo senhor, instigados pela mesma determinação em alcançar os resultados definidos pelas planilhas.

Quando visito meus pais vejo o quanto o entretenimento integra essa ordem produtiva. A emissora hegemônica não questiona ou dialoga, impõe a alienação como um vício, onde o produto oferecido passa a ser indispensável na construção da realidade cotidiana. Assim, cada vez mais seu discurso é assimilado pelos milhões de teledependentes, que interagem na vida de acordo com os modelos disseminados pela programação, por exemplo, pelas novelas sucessivas, entremeadas pelos noticiários, e finalizadas por programas de costumes os mais variados. O questionamento, a tensão dialética, não é considerada, e serenamente é inseminada a orientação dos diretores de programação, por sua vez orientados pelos controladores acionários da emissora. O trabalho competitivo do dia é reproduzido em suas dimensões ideológicas, no entretenimento noturno. O trabalhador não escapa, torna-se um adendo dessa máquina de espetáculos, que a sustenta, lhe dá sentido, e o que é pior, incorpora seu sonambulismo.

Vejo meu pai assistindo calmamente a programação, dia e noite, sem outra ocupação. Para ele, trata-se de uma medicação indispensável, definida por belas imagens e falas incompreensíveis, mas que seduzem. É capaz de submeter-se a essa terapia alienante sem qualquer inconveniente. O mesmo ocorre com minha mãe, que mais ativa ao longo da jornada, submete-se à programação sorumbática em busca de seus efeitos entorpecentes, que distorcem a realidade social íngreme em que vive.

Mas a voracidade competitiva não se associa à compreensão afetiva da vida. Nem tampouco é justo destacá-la como parte integrante das referências saudosas da ordem produtiva. Um trabalhador sindicalizado que produziu, mas igualmente atuou politicamente junto a seus companheiros de trabalho por certo retém muitas recordações prazerosas de seu tempo de conquistas. Mas aqueles que se submeteram caninamente ao explorador modo de produção capitalista simplesmente sublimam as lembranças. Meu pai é capaz de recordar de muitas passagens de sua vida bucólica no interior, junto à família, aos amigos, mas não reteve qualquer memória do trabalho bancário. E a pergunta que faço, por que haveria de guardar alguma recordação de um período em que apenas contribuiu com as formas mecânicas de ser? 


12 julho 2018

Distorções e completudes




Há precisos 75 anos as forças soviéticas começavam a rechaçar de maneira irreversível o invasor nazista (Kursk), no longo começo do fim dessa ideologia nefasta. Torna-se importante retomar esse tema em razão das práticas políticas de fundo fascista que se disseminam pelo mundo, associadas às práticas econômicas neoliberais, o liberalismo levado às últimas consequências, em detrimento do ser humano. No vácuo desse procedimento que varre a liberdade impondo suspeições e limites ao intelecto, viceja a mediocridade, a farsa, o temor pelo futuro. Os imigrantes são violentamente reprimidos, com a chancela da discriminação estampada na testa, sem direitos nos lugares em que aportam. Isso em razão do pensamento tosco de que ocupam os postos de trabalho cada vez mais escassos, sendo por essa razão responsáveis pelo desemprego da população local. O território, mais do que a nação, passa a ter um conjunto de donos exclusivos, “por direito”, ainda que não tenham a posse legal, nem possam alegar que sejam proprietários morais. Esgrimem com canções xenófobas, numa espécie de nacionalismo racial, onde sua cultura e seus costumes devem prevalecer. O advento Trump foi a chave que abriu as portas do inferno, permitindo que fantasmas de corpos fenecidos ressurgissem, promovendo a intolerância e o preconceito que se supunham sepultados em definitivo.

Os palpites ganham contornos de opiniões avalizadas, e parece que quanto mais rancor, mais aderência ganham, como se a reminiscência de um ódio atávico ganhasse o direito de ressurgir, com a virulência que fosse adequada. Contribuiu para esse estado de coisas os exageros radicalizados disseminados em massa e prolongadamente pelas mídias corporativas. A dimensão cuidadosa do jornalismo, o limite ético da notícia, desapareceram à medida que os bons negócios da especulação sensacionalista ofereceram o caminho da sobrevivência. Ledo engano, a histórica revista Veja, que nos seus últimos anos incorporou uma lamentável aura de exemplo do anti-jornalismo, começa a fechar suas portas. Igualmente Folha de SP, O Estado de SP, Globo, sobrevivem à custa de verbas de publicidade de um governo golpista, já que suas tiragens desabaram irreversivelmente. Trata-se de uma dentre tantas instituições que perderam a relação com a população. O sistema de um capitalismo crescentemente totalitário subverte os valores éticos, tornando as instituições públicas suas instituições, funcionais não pela prática da justa competitividade, mas pelos privilégios auferidos, em grande parte pela corrupção moral, quando não financeira. Assim, sucumbem a classe política, a classe jurídica, as empresas de comunicação, em nome de algo vago que impõe os valores objetivos da produtividade, da concorrência, da rentabilidade financeira.

Alguns personagens surgem como arautos desse sistema obtuso, como João Dória. À parte seu exercício autonomeado como empreendedor de sucesso, sem abandonar a prática empresarial, adentra a prática política redefinindo as funções da administração pública, praticamente subordinando-a aos sabores do mercado. Em suma, não é mais a demanda social que define a política pública, mas os interesses do capital, e por essa razão, não há mais motivos para a relação popular, bastam as relações corporativas. No mesmo sentido surge o juiz-promotor de Curitiba, de primeira instância, que igualmente impõe uma prática jurídica de subversão às leis e à hierarquia, em favor de interesses ainda a serem esclarecidos.

Paralelamente a tudo isso, visito meus pais, após um interregno de três semanas. Vejo-os muito bem, minha mãe saudável e mais animada, meu pai forte e bastante bem para seus recém-completados 87 anos. A memória se esvai lentamente, principalmente aquela que não se liga diretamente com os acontecimentos de sua juventude, como a família, o futebol, a casa onde vivia, coisas simples e singelas, que lhe significavam muito. Em contrapartida, as relações com a vida bancária de quase 40 anos desapareceram, ficando marcas indeléveis apenas em suas passageiras imagens alucinatórias, que por certo perdurarão até o fim. Com firmeza e atenção aos detalhes da casa e da vida, minha mãe segue no comando da nau e rege o ritmo da casa, como sempre fez.  



10 julho 2018

Formas indissolúveis de poder


Cabeza de la Montaña, Guayasamín


Atravessamos um tempo em que, por mais que se resista, por mais que se denuncie, os poderes consolidados em nossa América Latina permanecem inabaláveis. Em Buenos Aires, uma multitudinária manifestación contra o acordo do governo Macri com o FMI não é capaz de criar qualquer mal-estar junto ao oficialismo. Aqui no Brasil, um juiz de primeira instância no gozo de suas férias é capaz de impedir de maneira imperial a decisão de um desembargador, ainda que esta fosse posteriormente questionada nas instâncias jurídicas superiores. O que quero dizer é que esse juiz não se mostra nem um pouco incomodado com as normas jurídicas, ou com os crescentes questionamentos de suas decisões, prosseguindo inabalável.

Essa espécie de sociopatia do poder parece uma condição indispensável para o poder aliado aos interesses financeiros galopar sereno em meio aos seus atos, por mais questionados que sejam. É como se a mão invisível do capital especulativo provesse de garantias absolutas o suave desfazer constitucional, impondo a ferro e fogo seus caminhos para a rapina desavergonhada e, ao que parece, decisiva, para o sucesso corporativo. É como se o capitalismo estivesse fatigado da competição, e no melhor modelo flibusteiro do século XVI, tomasse de assalto as fontes provedoras de riquezas para seu usufruto. Assim, vale o ataque ambiental, vale a eliminação massiva de postos de trabalho, vale a repressão ao debate de gênero, vale o assalto ao patrimônio do Estado, vale a mentira noticiosa na mídia corporativa como elemento discursivo, vale a indiferença absoluta à miséria escancarada nas ruas, porque os agentes dessa sofisticada espoliação têm seus interesses silenciosamente resguardados.

Por mais que os indicadores de confiança na economia tenham queda generalizada, por mais que a prevaricação esteja na ordem do dia, por mais que esses men in black ao redor alimentem a ignorância bolsonárica, nada parece impedir o avanço dessa miserabilidade sistêmica. Como argumenta o professor Fábio Comparato, a característica do totalitarismo na contemporaneidade é a destruição pelo poder público das estruturas mentais e institucionais de um povo, e a reconstrução de mentalidades e instituições inteiramente novas. Esse poder público passa a ser incorporado por agentes ideológicos que assomam ao poder de uma forma ou de outra, e acobertados pelo capital financeiro, dissolvem os critérios tradicionais de moralidade e as virtudes costumeiras de um povo, para implementar a razão de suas práticas corporativas. Poderia prosseguir no desenvolvimento deste argumento em seus objetivos mais específicos, mas aqui não é o lugar apropriado, ficaremos apenas na indicação do objetivo geral.

O certo é que não se retoma uma proposta totalitária nos moldes nazifascistas já derrotados, mas uma nova ação deletéria, silenciosa, atraente, quase invisível, que conquiste de maneira eficiente os corações e mentes, desestimulando o mais débil questionamento de seu poderoso processo de expropriação.   



23 junho 2018

A primeira onda neoliberal

Inhotim, 2018

Estamos em 1995, meses após a vitória de FHC e do então projeto neoliberal, que começava a se expandir pelas Américas sob o tacão estadunidense. Retomo as anotações de então, um diário não muito denso, mas razoavelmente didático e marcado por minhas apreensões, com minhas impressões sobre o vendaval que se acercava, em meio a recessão, desemprego, privatizações em andamento ou anunciadas. Foi a primeira onda do que hoje sofremos de modo mais incisivo e brutal. 

Hoje, os atores sociais são outros, porém embebidos pela mesma voracidade de vinte e tantos anos atrás. FHC, o presidente de antanho, agora nos bastidores, segue coordenando o assalto aos direitos dos trabalhadores e à entrega do país, juntamente com seus discípulos José Serra, Aluízio Nunes, Geraldo Alckmin et caterva. 

As perspectivas seguem agourentas, sob a retomada dessa política insustentável. Mas não percamos o foco, segue abaixo a reprodução de trechos do diário de 1995, para compreendermos um pouco mais a filiação de nossa atual desgraça.

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"Sob o antigo sistema colonial não era tarefa fácil escapar às cadeias do crescimento econômico permitido pelas pressões metropolitanas. O neocolonialismo de um lado, e o subdesenvolvimento de outro, produzem a mesma alienação".

(Florestan Fernandes, Folha SP, março de 1995)


"Reformas. A luta continua. O que poderíamos denominar como Governo insiste em empurrá-la goela abaixo da população, sem sequer propor uma discussão. O que poderíamos denominar Oposição – cerca de um quinto da bancada do Congresso e mais algumas entidades não-governamentais por este Brasil – tenta obstaculizar heroicamente o que parece ser o rumo irreversível dos acontecimentos. A mídia joga o seu peso descarado no que acredita serem ‘as mudanças saudáveis e necessárias’ e uma nuvem cinzenta de deputados conservadores atuam numa política pendular no meio dessa barafunda sem fim, ora apoiando o governo, ora rejeitando as mudanças, principalmente quando estas vêm no sentido de acabar com o fisiologismo. Ninguém se entende, o governo vai e vem e nada engrena. A Previdência e os monopólios estatais (Petrobrás e telecomunicações) são o alvo preferido nesta tal de reforma constitucional. FHC acabou de retornar de uma viagem à terra de tio Sam onde certamente foi pedir a benção e recebeu um pito por não estar desenvolvendo como deveria a política estabelecida pelo Consenso de Washington. ‘Que merda de servilismo inoperante é esse?’, devem ter guinchado os líderes da Metrópole! Enfim, o certo é que a marcha irreversível dos acontecimentos deve ganhar fôlego novo e impor as mudanças, passando por cima da oposição desgastada e desfigurada. Com que armas poder-se-ia resistir à fome capitalista, à urgência de reestruturação da nova ordem mundial?"

(abril de 1995)


"quem sabe sejamos idiotas o suficiente para nos humilharmos diante de sua impostura, diante de seu magnetismo torpe, e aprendamos a viver sob seu tacão, sob uma nova ordem mundial estabelecida

e sobre excrementos, não distinguiremos mais merda de caráter. Cagareis vosso caráter, dareis como palavra vossa merda... 
      Escrotice.
      Exortar a Exalar Exegese Exequível.
      Exício.
      E as Exéquias".

(Junho de 1995) 


(...) A estratégia em questão nos pretende botar contra a parede: ou a modernização com globalização, nos termos dados, ou a morte ignominiosa no atoleiro do atraso. Literalmente ou dá ou desce. Ou segue a receita americana ou recebe atestado de esquerda burra. (...)

(Nelson Werneck Sodré, JB, 08.07.1995)


"Direto ao assunto: a realidade neoliberal se compraz em infundir as maravilhas do mercado cada vez mais em relação/detrimento ao Estado e sua inescapável incompetência. Há que se alavancar um ideal em relação/detrimento a outro, mesmo que seja aquele não passe de um cadáver jogado numa ribanceira malcheirosa. Assim, divulga-se que é muito melhor ter conta em banco privado, estudar em colégio pago, em utilizar serviços da iniciativa privada...  Num primeiro momento, quem divulga as maravilhas do mercado esquece ou ignora que o banco, a educação ou o serviço público foi a partir de um determinado momento sucateado, e por indivíduos incapazes ligados à elite do poder. Nomeações são a norma de governos burgueses recém-instalados e assim os escalões intermediários do poder são preenchidos por apaniguados sem qualquer afeição às funções que passam a ocupar na máquina. Resultado: uma constante depauperação do bem público.

Em sintonia com essa ação depilatória intramuros, os barões do capital têm os meios para desencadear seguidos golpes na administração pública, no sentido de desacreditá-la junto à opinião pública. Não quero aqui me mostrar um defensor corporativista do Estado, mas não posso aceitar a falácia neoliberal por entender que esta ação difamatória visa destruir o bem público, a estrutura pública, e não os falcões que a dirigem. Estes, ao seu belo tempo, depois de extorquirem muita grana com obras suspeitas, caem fora e passam mais tarde a fazer coro com seus pares burgueses, Abaixo a administração do Estado!"

(23.08.1995)


"O processo de globalização prossegue por este mundo afora, como forma de assegurar a reprodução do sistema capitalista e afastar contratempos ideológicos impeditivos para o estabelecimento de uma pax moderna. Seus conceitos variam um pouco de acordo com a localização geográfica. É óbvio que ela não pode ser a mesma no Canadá e no Mali, há que se preservar diferenças substanciosas, o que nos faz crer que os ideólogos deste novo mundo integrado certamente pensaram em espaços diferenciados e indo mais além, em utilização diferenciada dos espaços diferenciados.

Suspendo abruptamente o assunto para referir-me ao mestre Florestan Fernandes, morto no início deste mês de agosto, uma perda bastante sentida por mim. De sua brilhante trajetória como sociólogo e homem público, apenas acompanhei mais atentamente seus últimos dez anos de vida, lendo seus artigos na Folha e admirando seu sólido posicionamento ideológico. Tive o prazer de votar duas vezes em seu nome para o Congresso, meus votos mais profícuos em quase vinte anos. Li pouco, pouquíssimo de sua ampla obra, mas o acompanhei sempre muito de perto em suas manifestações, inclusive a última, em dezembro de 94, no programa Roda Viva da Cultura, reprisado poucos dias após a sua morte. É um desses homens que passam pela vida da gente e deixa indelével a marca de sua magnificência, de sua dignidade, de sua personalidade. Nunca o encontrei pessoalmente, o que hoje lamento muito. Com certeza devo ter tido inúmeras oportunidades nestes dez anos para apertar-lhe a mão, simplesmente, sem necessariamente ter de expressar algo que não fosse a profunda satisfação de poder cumprimentá-lo.

Vivo cautelosamente nestes novos tempos neoliberais. Traço minhas perspectivas futuras dentro de um contexto duro e bastante instável. Diante da propalada estabilidade monetária, a nação se contorce em espasmos sofridos em busca de alternativas dentro de um quadro socioeconômico desolador. Sempre tomo como ponto de referência a indústria automobilística para ter uma ideia, mesmo que instantânea, da evolução econômica. Há três semanas temos pátios inundados de automóveis, promoções em cima de promoções das revendedoras, exasperadas pelo marasmo do mercado, e demissões ocorrendo em várias montadoras. Aparece um economista e diz que são as evidências de recessão econômica; surge outro e diz que não, que as empresas que se prepararam nestes dois últimos anos estão aptas a colher frutos. Estes sujeitos dentro de suas idiossincrasias sem resultados pensam que somos todos uns tolos. (...) Contenção de gastos, enxugamento da máquina visando torná-la mais ágil, eficiente, moderna... bah, quanta bobagem"

(24.08.1995)



22 junho 2018

Entreter antes de devorar


Cena do filme Viramundo (1965), de Geraldo Sarno


Em meio a comemorações esvaziadas, em mais uma copa do mundo, a pergunta que hoje não quer calar: o que significa torcer para uma seleção de jogadores que, hipoteticamente, representam uma nação chamada Brasil?

A cada dia esse exercício de identificação não passa de uma prática vazia, sem qualquer significado relevante. Em tempos de ditadura do capital financeiro, em conjunção com a ganância das grandes corporações, o que sobrou da identidade nacional transforma-se em mera subordinação aos vultosos investimentos, onde 22 jogadores vestidos de verde e amarelo não representam mais do que suas esquálidas ambições profissionais, habilitados a mobilizar uma imensa rede publicitária que exprime a razão de ser do torneio. 

São tempos em que o futebol, como esporte popular, é segregado de seu contexto social e, higienizado, passa a representar os mais segmentados desejos de consumo, que vão dos utensílios materiais utilizados pelos jogadores, à imagem bem-acabada deles mesmos, como signos vencedores do sistema. Já não faz mais diferença se é isso ou aquilo, se esses jogadores são modelos da razão neoliberal no lugar de representantes de ideologias ou sistemas sócio-político-econômicos distintos. Se se perdeu alguma coisa pelo caminho, isso escapa à percepção cada vez mais estandardizadas dos indivíduos à deriva. 

O ideário da brutalização cotidiana penetra no tecido social visando a naturalização das desgraças, essa a viabilidade do neoliberalismo que se robustece pela espoliação e pela especulação. Como subproduto do capitalismo, promove a concentração de capital como uma alternativa "moderna e eficiente" para o bem-estar, e por esse caminho avança com a retirada de direitos trabalhistas, a privatização dos recursos naturais, a segregação social privilegiando "os mais capazes", a criminalização dos sans papiers, os indocumentados, em outras palavras, os imigrantes.  

O ódio não surge do movimento súbito e articulado de proto fascistas enrustidos em cada sociedade, mas de todo um conjunto institucional que facilita a voz dessa gente. O ódio é parido como uma forma de desarticulação, como a desvelar uma espécie de totalitarismo que propõe a reconstrução total da sociedade, com nova mentalidade, com novas instituições. O ódio das ruas de Berlim no início dos anos 1930 ressurge com outras roupagens, legitimado pelos mesmos descompassos sociais. E a omissão parece ser o catalizador desse movimento destrutivo, por isso não consigo mais compreender os sentimentos de uma copa do mundo a partir dos referenciais que a geraram no final dos anos 1920, e que de algum modo permaneceram até a última copa dos anos 1980.

A falácia golpista de nossa recente história se junta aos descaminhos autoritários do mercado neoliberal, e a copa do mundo não se faz mais do que um espetáculo cientificamente reestruturado para entreter as ovelhas antes que sejam devoradas.



03 junho 2018

A condição bancária

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Realizei há algum tempo uma triagem dos arquivos e documentos guardados por meu pai, papéis que um dia representaram comprovantes de operações contábeis, que se acumulavam sem qualquer serventia. Os estratos e memorandos bancários eram de uma monotonia a toda prova, reproduzindo o olor amaldiçoado desses espaços recheados de dinheiro e ambição, as agências bancárias em que trabalhou. Hoje em dia meu pobre pai ainda se vê refém das imposições administrativas dessa ambiência que tomou 35 anos de sua vida, ao se preparar para compromissos com clientes imaginários, ao reviver as tensões das demandas cotidianas, expressas em números, metas, saldos bancários. Um horror de poder e controle contábil, que como um vírus, desorganiza a lucidez de seu pensamento.

De seu trabalho não sobrou reconhecimento ou presteza. Cumpriu as tarefas impostas com abnegação, pois sabia que se não o fizesse, outro faria. Tal abnegação significou abjurar da diversão, do lazer, da política, da reflexão. Em seu raciocínio, valeria a pena construir uma carreira que lhe daria respeito e um bom pé-de-meia, ainda que rodeado por gente medíocre, que o rodeou sem qualquer imaginação. Valeria a pena enfurnar-se 10, às vezes 12 horas por dia em seu trabalho, apenas para mostrar que era confiável aos seus patrões, e que seu trabalho resultava da entrega incondicional reiterada a cada dia, como uma oração suicida, ou como os termos de uma nefasta mensagem a Garcia, alardeada institucionalmente em forma de folheto panfletário, que sugeria o respeito hierárquico, a plena submissão no cumprimento das tarefas. 

Em poucas palavras, eis o significado de uma existência bancária. Ainda existem muitos papéis arquivados nas estantes, que não expressam mais nada a não ser tédio - e a vigarice de quem os criou. Meu pai foi um mero executor, de reconhecida competência. Aprendeu a cumprir as ordens comparecendo todas as manhãs no local de trabalho, bem barbeado, terno e gravata, exarando disposição que verdadeira ou falsa, seria sugada no correr da jornada. A ele foi vedado contribuir para a solidariedade do mundo, até porque os empréstimos que aprovou foram em grande parte sorvidos por uma burguesia voraz, que cresceu, se multiplicou e hoje se arrasta à deriva. A acumulação de capital para a instituição privada à qual vendeu sua força de trabalho foi proporcional ao seu comportamento de cabresto, e todos os números aí envolvidos traduziram nada além de um redundante desperdício. 

Em outras palavras, nenhum valor que se forjasse na chama das próprias entranhas como um brado altivo escapou à sanha da hierarquia canina. Jamais a mais primária indignação floresceu, por mínima que fosse. Pleno foi a conivência de se esvaziar, em nome de um propósito tão opaco como sedutor. E hoje, mesmo os fartos rendimentos auferidos ao longo de tantos anos, dissipou-se como água na água. Assim a narrativa da história pessoal fundiu-se com a avidez do projeto de uma sociedade anônima, a reproduzir o olor diáfano de dinheiro e ambição. De toda essa leitura fatídica que inesperadamente retomo, emerge por similaridade a ideologia do governo que nos desgoverna, em nome do renovado poder invisível do capital financeiro, insuperável abstração do modo bancário de ser.