24 janeiro 2018

Olga Berggolts

"Subestimaram a nossa fome voraz de vida"

Dentro de algumas horas um tribunal de apelação deverá confirmar a condenação do ex-presidente Lula, tendo como objetivo descartá-lo do processo eleitoral deste ano. A ação togada vem com um sabor de autoritarismo como há muito não se via neste país, vale dizer, a partir de um objetivo claro e delimitado ainda em 2016 - fazer terra-arrasada de Lula e das conquistas de seu governo - encontrar motivos plausíveis ou não para escorraçá-lo da história. Quem diz isso não sou eu ou alguma das inúmeras mídias independentes, mas o jornal NYT

Apoiando esse processo com ares kafkanianos, a tropa unida da mídia corporativa galopa em planícies verdejantes, comandada pelas organizações Globo, sendo secundada pelos pistoleiros de sempre, o empresariado politicamente medíocre; lideranças neo-pentecostais gananciosas; um congresso vergado pela inépcia; um judiciário envergonhado pela omissão e sem dúvida nenhuma, toda essa tropa amparada em esquema com forte orientação ideológica vinda de corporações estrangeiras. Digo isso porque esse exército Brancaleone, por si só, seria incapaz de proceder golpismo tão bem-sucedido. No final das contas, essa imensa engrenagem avança solene e irredutível rumo ao horizonte de seus interesses. E neste momento, nada irá detê-la, nem mesmo a grandiosa mobilização em Porto Alegre, que será importante como oposição ao processo histórico vergonhoso em andamento, porém sem o poder necessário para se impor.

Tudo isso porque o povo brasileiro não está organizado para uma forte e prolongada resistência. A ruptura primeva do caráter nacional, ocorrida a partir do golpe militar de 1964, demoliu seus ímpetos nacionalistas. O grande déficit, que não será discutido aqui, está na formação política. Na Argentina, em dezembro passado, houve uma reação fortíssima contra a sessão que promoveu reformas na previdência, em cenas dramáticas de embates diante do Congresso, e nenhuma comoção mundial se posicionou junto ao povo em luta. São tempos permissivos de hipocrisia e traição. São tempos em que os movimentos sociais estão na defensiva, ao contrário das forças invisíveis do mercado, que marcham alucinadas com base no poderoso caballero, el don dinero, impondo sua ideologia financeira, não importa o preço a pagar. 

A transformação na sociedade, alardeada pelos meios corporativos, jamais visou a ordenação moral via extinção das práticas de corrupção. Ao contrário, esta se instaura como moeda de troca para as tais transformações, que têm como objetivo jogar a nação ao solo, humilhada e ofendida, demolindo as conquistas sociais alcançadas e a estrutura econômica que se edificava. Se os negócios financeiros estão em alta, temos a brutal contrapartida que não aparece nas planilhas contábeis dos lucros: a febre amarela voltou, estamos com 15 milhões de desempregados, a educação superior gradativamente transformada em curso técnico de pouca qualidade, os direitos trabalhistas destroçados, a previdência pública condenada, transformando a aposentadoria em benefício de luxo para os trabalhadores. O esforço discursivo das hordas dominantes procura demonstrar a normalidade das coisas, como se o mundo real não fosse mais do que a atmosfera de um mundo secundário, e o mundo secundário das telinhas a verdadeira realidade, praticada nos longos deslocamentos do transporte público.

É por estarmos justamente investidos em um game sem fim, órfãos de informação e acovardados em nossa ignorância política, que vejo o julgamento desta manhã como um acontecimento impactante, ao mesmo tempo que condenado ao doloroso silêncio do day after, dominados por analises caricatas do "jornalismo" hegemônico. Toda essa carga de pessimismo, porém, não significa abandono ao quietismo. As mobilizações sociais em andamento são significativas, nas ruas e nas redes digitais, e embora careçam de densidade neste momento para alterar o resultado, sinalizam o otimismo de um futuro inquieto, de lutas. Lutas que serão travadas em sucessão, e se tivermos capacidade para acumularmos humildade e determinação, seremos capazes de colocar em xeque esse sistema econômico e político que nos entorpece.

Colocar em xeque significa retomar a iniciativa, pela sociedade como um todo. As hostes vinculadas ao mercado não conseguirão sustentar a vitória com base na profunda desigualdade social. O engodo midiático tem data marcada para ser desmascarado, se no íntimo das pessoas já não o foi, e a ideologia do trabalho ignóbil, como se demonstrou no passado, será fortemente combatida. Será novamente pela cultura que anteciparemos os signos dos novos tempos. A essa altura, parece-me sugestivo lembrar de uma poetisa soviética, Olga Berggolts, que descrevendo seu desprezo pelo invasor nazista, manteve acesa a chama da esperança, anunciando a cada verso o modo de enfrentar o inimigo. E foi o momento de maior desconsolo que inspirou a luz da vitória:

"Naquele inverno, a morte olhou-nos diretamente nos olhos e fixou-nos longamente, sem vacilar. Queria hipnotizar-nos, tal como uma cobra constritora hipnotiza a sua vítima, privando-a de vontade e dominando-a. Mas aqueles que nos mandaram tanta morte calcularam mal. Subestimaram a nossa fome voraz de vida".

Que ao menos nos valha o valente sentido simbólico dessas palavras.


18 janeiro 2018

O desprezível mundo bancário

A Síria, na verdade, é um lugar que não existe.

Os homens, na visão bancária, já são seres passivos, cabe à educação apassivá-los mais ainda e adaptá-los ao mundo. (Paulo Freire)

Estamos passando por uma lenta e ao mesmo tempo turbulenta transição, ao cabo dela, não nos reconheceremos em nossas memórias, porque estaremos mergulhados nos desafios da prática competitiva. Ela nos conduzirá a um novo portal, onde a realidade vivida será um exercício constante e sem fim de disputas, com as atenções voltadas para o presente. O passado, descartado pelos conceitos de inutilidade produtiva por sacerdotes do capital, será abandonado. O futuro, depurando utopias tidas como regressivas, se resumirá à trilha do sucesso individualista a qualquer preço. Em outras palavras, estaremos refugiados no abrigo cômodo e enganoso do presente. O mundo será o palco iluminado das fantasias permitidas, de cumes inebriantes e precipícios resgatáveis, mas isso não fará diferença: seguiremos fadados a reproduzir, determinados, sem brilho, sem interesse.


17 janeiro 2018

Poesia 14




trânsfugas no circo

 

 

a trama que atribulou o trapezista

         trapaceou

                     trepidou

                             tripudiou

                        trociscou

                trucidou

 

 

                                        trogloditas

 

 

                                                                  (fev/87)



13 janeiro 2018

Los pasos todavía perdidos


Chegará o dia em que os oportunistas de hoje, vinculados à exploração pelo capital, serão devidamente levados às barras da justiça e julgados por uma justiça que de fato mereça o benefício do respeito. Por todos os lados pipocam os aventureiros, pequenos, médios, grandes, que no afã de cobiçarem tudo, ou oferecerem o caminho da cobiça, desregulamentam, fraudam, subornam, vendem a alma ao mais decrépito demônio, como se fosse apenas o desdobramento de bons negócios. Definitivamente não há salvação para o capitalismo dentro do capitalismo.

À luz dos fatos, os escândalos se desvelam a cada dia, como se a luz do sol atingisse os cantos úmidos, e os ratos se vissem surpreendidos em seu obscuro banquete. Não passa um dia sem uma notícia que em circunstâncias normais seria motivo de indignação; é como se, de modo premeditado, se combinasse entre esses ratos humanos a importância de romper com as normas civilizatórias, e pela abundância de canalhices, naturalizá-las como parte indigesta do admirável mundo moderno. E como se não bastasse, o que sabemos desses golpes – financeiros, políticos, jurídicos – são devidamente acobertados por uma mídia que já não se incomoda em não cumprir com seus desígnios de investigar e reportar.

A imagem acima tem bastante a ver com essa discussão. À parte referir-se ao cartaz de uma exposição fotográfica de 2013 em Santiago, ela em si evidencia a simplicidade reunida em torno de uma causa, em clara oposição ao tempo presente de nossa América Latina, em que os arautos do capital financeiro anunciam sedentos a retomada da rapinagem material de nossas riquezas. Simultânea à destruição de nossa singeleza cultural, saborosamente mesclada como sugere Carpentier, a foto retrata a serenidade de um tempo de transformações. Nada prometido de modo fácil, como requer o interesse fútil consumista em sintonia com o pensamento mercantilizado de nosso tempo, mas transformações sofridas, inseridas em um processo histórico de conquistas, para o qual se exigia paciência e determinação.

Sofridas porque se moviam rumo ao horizonte utópico, deixando suas marcas de conquistas perenes ao longo do caminho, e que só não deram mais frutos porque suas árvores foram brutalmente arrancadas em nome de um punhado de dólares. Os gorilas diziam da necessidade de se negar sonhos rubros e perigosos, outros menos fardados pregavam as facilidades do interesse fútil consumista, e assim fomos perdendo nosso sorriso generoso, nos deixamos levar pelo nada vezes nada dos outros.  

Os olhares e os rostos mapuches revelam a marca de suas origens. Trabalhadores que forjavam sua cidadania. Tinham uma esperança de redenção, foram traídos por una cuadrilla de nuevos ricos com escudo, com policia y com prisiones, como diz Neruda. Por mais que a imagem anuncie um presente sem futuro, ela nos remete à mesma construção utópica de seus dias, talvez ensinando-nos mais claramente o caminho de las grandes alamedas por donde pase el hombre libre para construir uma sociedad mejor. 


23 dezembro 2017

Descrições natalinas


Oswaldo Guayasamin - Sin Título 2

Ouço lá fora, do outro lado da Augusta, o que me parece uma guitarra espanhola. Os acordes melodiosos, quase hipnóticos, é que me prendem aqui, e por isso escolho escrever. Ao meu lado, dois autores do século de ouro da literatura espanhola, livros que adquiri nestes dias: El Criticón, de Baltasar Gracián, e Antologia Poética, de Francisco Quevedo. Há algumas semanas, adquiri Don Quijote, do mais afamado e referendado Miguel de Cervantes. Ainda me falta Calderón de La Barca, que devo buscar na próxima semana.

Presentes que me concedo, em edições belíssimas, com farta edición (introdução sobre os autores e a obra). Um mais surpreendente que o outro no estilo narrativo, e assim encontrarei, tenho de encontrar, o tempo necessário para deliciar-me nessas páginas de sonhos e reflexão. Esse barroco espanhol, que por certo torna-se o caudal das letras dos escritores hispano-americanos que sobrevêm, mormente os da literatura maravilhosa, Alejo Carpentier, Manuel Scorza, Juan Carlos Onetti, Lezama Lima, Carlos Fuentes e tantos outros.

São as conexões de meu tempo presente, as harpas que ambientam minhas origens, meu passado que se faz futuro. A guitarra silenciou, remeto-me a um trecho de Garcián que já havia observado antes, Mirá, los sábios son pocos, no hay cuatro em uma ciudad, !que digo cuatro!, ni dos em todo um reino. Los ignorantes son los muchos, los necios, son los infinitos; y assí, el que los tuviere a ellos de su parte, esse será señor de um mundo enterro. Está lá, em Crisi Quinta, tão lindo quanto insofismável! E um trecho do famoso Letrilla satírica, de Quevedo, Madre, yo al oro me humillo/ él es mi amante y mi amado/pues, de puro enamorado/de contino ando andarillo/ que pues, doblón o sensillo/hace todo cuanto quiero/ poderoso caballero es don Dinero. (...)

Alegro-me imenso em dispor dessas obras, quero sondá-las, sem uma sequência lógica, apenas submetido ao apreço e à delicadeza das palavras, sem pressa para nada. A guitarra silenciou, sim, e parece de modo definitivo, porém me propiciou algo da inspiração e do esforço para firmar essas serenas impressões de Natal. 

Mas a notícia grosseira da semana, medíocre, estapafúrdia, foi o final do semestre no campo da educação. Não pelos alunos ou pelas minhas obrigações, mas pelo que se passou com alguns de meus colegas, demitidos de modo vil, por razões insensatas, que se prendem à necessidade do lucro. E teremos de conviver com esse espetáculo dantesco, proporcionado por meros líderes contábeis, que nada conhecem da alma humana, e talvez pouco da razão financeira. 

Vejo-os todos os dias aqui ao redor, circulando pelas ruas, tomando seus cafés, sempre em pequenos grupos, chefetes ou nem isso metidos em seus rigorosos ternos escuros, as falas contidas às resoluções de mercado. Não fazem a menor ideia. Chega de dizer que cumprem ordens, essa compreensão caiu quando os comandantes de campos de extermínio foram julgados e quando Hanna Arendt expôs o mais insidioso deles, Adolf Eichman. São os representantes diuturnos do horror neoliberal, prestativos em suas mesas de compra e venda.  

 

07 dezembro 2017

Tonterías e grosserias



O que podemos fazer nesses tempos obtusos senão denunciar a vilania que atenta à liberdade e às garantias jurídicas? Se aqui invadem e levam em prisão coercitiva a reitores de universidades públicas, na Argentina se pede o fim da imunidade parlamentar e a detenção de Cristina Kirchner e outros políticos.

São os movimentos sincronizados e espetaculosos de judiciários que se deixam levar por atos impulsivos, içados ao proscênio político em substituição aos militares golpistas, com o claro objetivo de nadificar a existência da oposição organizada e assim colocar em xeque o estado democrático de direito.

O jogo de cena, ainda que desmedido em suas proporções, acoberta as decisões de governos sem face e sem voz, a serviço de reformas que contemplem o Capital e viabilizem uma economia toscamente liberal. Seja como for, não são ações suficientes para esmorecer a luta cívica que se anuncia. 


29 novembro 2017

Sinais que vêm de Honduras



Honduras possui uma TV que rompe com o mainstream dominante local, com uma pauta atuante nestas eleições majoritárias do país.

Ou seja, um pequeno país de nossa América, com poucos recursos econômicos, controlado politicamente por uma elite cínica e autoritária, mas que consegue constituir uma emissora combativa, corajosa, que apresenta um jornalismo digno de elogios.

Juntamente com a rádio Globo de lá - que felizmente não guarda nenhuma relação com o nefasto conglomerado daqui e que foi minha fonte informativa dos eventos que sucederam a ação golpista de junho de 2009 - os méritos de se posicionarem contra a vilania do poder  político e econômico.

Vale a pena destacar o caráter antecipatório dos acontecimentos políticos de Honduras: em 2009 a ação dos grupos dominantes - mídia, judiciário, empresariado e partidos conservadores - contra o governo legal de José Manuel Zelaya. Foi a primeira vez que tomamos contato com o que se denomina hoje de "golpe prolongado ou suave". Anos depois seria a vez do Paraguai, e depois, de modo aperfeiçoado, o Brasil.  


Agora as eleições onde sacramentam a eventual vitória do oposicionista Salvador Nasralla, não reconhecida pelo principal partido da situação, o Partido Nacional. Simultaneamente, em uma ação aparentemente premeditada para se ganhar tempo, os dados consolidados são atualizados em conta-gotas pelo Tribunal Supremo Eleitoral. 


Um banho-maria que nos remete aos lamentáveis atos dilatórios da Proconsult e Rede Globo em 1982, quando na ocasião Leonel Brizola vencia no Rio de Janeiro, e que podem perfeitamente repetir-se de modo mais insidioso em 2018. 


Como o povo hondurenho, estejamos atentos, até lá não teremos muito mais o que perder, e o limite será nossa dignidade. 


(unetv.hn)
(http://www.radioglobohonduras.com/)


18 novembro 2017

Os descaminhos do velho jornalismo

Victor Hugo Morales e Roberto Navarro 

São os tempos obtusos de um 'neo-jornalismo', que destroça o que resta do bom jornalismo. Aqui no Brasil, as mudanças se deram de maneira lenta, gradual e segura, consolidando o descarte de experientes jornalistas por um punhado de pistoleiros sem qualquer brilho narrativo, contratados pela oligarquia midiática que apoiou o golpe político de 2016..

Na Argentina, ocorre a mesma articulação patronal de censura às vozes dissonantes. Há poucas semanas descartaram Roberto Navarro, que conduzia o programa Economia Política; e nestes dias, Victor Hugo Morales, que conduzia o programa El Diário, ambos no C5N, resultado de evidentes pressões políticas do atual governo

O macrismo assim estimula o relato jornalístico cínico e dissimulado. Para seus porta-vozes, os veículos de comunicação corporativos, jornalismo se faz com denuncismo vago e abjeto, comprado por trinta moedas. Nada resulta dessa caricatura sem pauta, que repercute seu sensacionalismo barato com a finalidade de propagar o silêncio dos cemitérios.

Por fim, é doloroso perceber a transfiguração dos meios de comunicação tradicionais, transformados em correia de transmissão dos interesses do Capital. Neste blog, é possível acompanhar as postagens desde o início e observar uma mídia que paulatinamente se asselvaja, fazendo a opção jornalística ao pior estilo murdochiano. 

Será com muito esforço que o verdadeiro jornalismo, sinônimo de liberdade de expressão, conseguirá recuperar sua credibilidade junto ao público, que não está indiferente à informação com qualidade.