Acabei por me envolver na tarefa de traduzir o conto que nomeia o volume, Los Siete Mensajeros. Para realizá-la, utilizei-me de uma versão
intermediária, em espanhol. Na medida do possível,
realizei o cotejamento com o texto original, em italiano, principalmente nas partes onde
permaneciam dúvidas sobre 'as faixas semânticas' mais adequadas, e o resultado me
pareceu satisfatório. Seja como for, trata-se de um trabalho que
contou com o cuidado em preservar o estilo do autor, o qual prioriza uma descrição
objetiva dos fatos, com um desenvolvimento linear, sem um fraseado rebuscado. Gostaria de compartilhar os resultados obtidos, divulgando o texto a seguir.
Antes, porém, considero importante destacar que os elementos
da narrativa, como os mensageiros em seu distanciamento infindável, a própria determinação em cumprir suas tarefas, se submetem a uma sofisticada metáfora temporal. Seguindo esta
linha, sem considerar as interferências dos acasos da vida, podemos desvelar cada situação de acordo com a proposta
sensível do autor, qual seja, um presente desprovido de subterfúgios,
tensionado inicialmente pela nostalgia do passado e mais ao final da narrativa, pelo desafio do futuro. Temos assim a resultante implacável de nossa condição de ser-aí, consciente de sua
fragilidade e impossibilitado em fugir da construção de seu destino.
Nas primeiras indicações do limite
natural da aventura, o tempo exerce seu papel e aprofunda a finitude do corpo.
A narrativa revela um dos eixos de sua metáfora, a vida em sua irrevogável
incompletude. A descrição do supremo esforço do mensageiro Domenico no terreno a
ser vencido e no tempo que irá levar com as mensagens se inscreve no lamento da
perda definitiva do contato com o mundo que ficou para trás. O fenecimento do corpo é
acompanhado pelas derradeiras lembranças, que cada vez mais se opõem aos
horizontes vindouros da caminhada sem fim.
O segundo eixo desta bela narrativa
de Buzzati é a meu ver, a dimensão temporal que a trespassa. Uma vez
estabelecida a ruptura com o espaço-tempo de um passado que se esvai - a
experiência vivida - a memória se incorpora às expectativas das fronteiras do
reino, não mais que o futuro - o tempo a ser vivido. As novas missões dos mensageiros serão
a de abrir caminho para o avanço às terras ignotas.
Os sete mensageiros
(Dino Buzzati)
Saí a explorar o reino de meu pai,
porém dia a dia distancio-me da cidade e as notícias que me chegam são cada vez
mais escassas. Comecei a viagem ao completar trinta anos e mais de oito se
passaram, precisamente oito anos, seis meses e quinze dias de ininterrupta
marcha.
Quando parti, acreditava que em poucas
semanas alcançaria com facilidade os confins do reino; entretanto, não deixei
de encontrar novos lugares e pessoas, e em todas as partes homens que falavam a
minha língua, que diziam serem meus súditos.
Por vezes penso que a bússola de meu
geógrafo ficou maluca e que, convencidos de nos dirigir sempre para o norte, em
realidade estejamos dando voltas ao redor de nós mesmos, sem aumentar a
distância que nos separa da capital. Isso poderia explicar porque ainda não
alcançamos a última fronteira.
Aos poucos, porém, atormenta-me a
dúvida de que este confim não exista, de que o reino se estenda indefinidamente
e de que, por mais que avance, nunca poderei chegar ao seu fim.
Dei início à tarefa quando tinha mais
de trinta anos, talvez demasiado tarde. Meus amigos, meus próprios familiares,
troçaram de meu projeto como sendo um desperdício dos melhores anos da vida. Na
realidade, poucos dos que eram de minha confiança aceitaram me acompanhar.
Embora despreocupado - muito mais do que estou agora - imaginei um modo de
comunicar-me durante a viagem com as pessoas mais próximas e, dentre os
cavaleiros da minha escolta, escolhi os sete melhores para que servissem de
mensageiros.
Acreditava de maneira equivocada que
dispor de sete mensageiros era mesmo um exagero. Com o correr do tempo observei
que, ao contrário do que pensava, eram ridiculamente poucos, e isso sem
considerar que algum deles caísse enfermo, ou fosse surpreendido por bandidos,
ou esgotasse alguma montaria. Os sete mensageiros me serviram com uma
tenacidade e uma devoção que dificilmente poderei recompensar.
Para distingui-los mais facilmente, eu
os nomeei com as iniciais da ordem alfabética: Alessandro, Bartolomeo, Caio,
Domenico, Ettore, Federico e Gregorio. Pouco habituado a distanciar-me de
casa, enviei o primeiro, Alessandro, na noite do segundo dia de viagem, quando
tínhamos percorrido umas oitenta léguas.
Para assegurar a continuidade das
comunicações, na noite seguinte enviei o segundo, e em seguida o terceiro, o
quarto, e assim sucessivamente até a oitava noite de viagem, quando partiu
Gregório. O primeiro ainda não havia regressado.
Este nos alcançou na décima noite,
enquanto montávamos o acampamento para pernoitar, em um vale desabitado. Soube
por Alessandro que sua rapidez estava inferior ao previsto; tinha pensado que,
viajando a sós e montando um magnífico corcel, poderia percorrer em um mesmo
tempo o dobro da distância que faríamos, entretanto, somente pode cobrir o
equivalente a uma vez e meia; em uma jornada, enquanto avançávamos quarenta
léguas, ele devorava sessenta, não mais.
O mesmo ocorreu com os outros.
Bartolomeo, que tomou o destino da cidade na terceira noite de viagem, retornou
na décima quinta; Caio, que partiu na quarta, não regressou antes da vigésima.
Logo constatei que bastava multiplicar por cinco os dias empregados por cada
cavaleiro para saber quando nos alcançaria.
Como cada vez nos distanciávamos mais
da capital, o itinerário dos mensageiros aumentava proporcionalmente.
Transcorridos cinquenta dias de marcha, o intervalo entre a chegada de um
mensageiro e o de outro começou a espaçar sensivelmente; enquanto que antes se
via regressar ao acampamento um a cada cinco dias, o intervalo passou a ser de
vinte e cinco. Desse modo, a voz de minha cidade se fazia cada vez mais débil;
passavam semanas inteiras sem que tivesse qualquer notícia.
Passados seis meses - já havíamos
atravessado os montes Fasano - o intervalo entre uma chegada e outra aumentou
para quatro meses. Agora me traziam notícias distantes; os envelopes chegavam
amassados, por vezes com manchas de umidade em razão das noites passadas ao
relento pelo mensageiro.
Seguimos avançando. Em vão procurava
me persuadir de que as nuvens que se formavam acima de mim eram parecidas com
as de minha infância, de que o céu da cidade distante não era diferente da
cúpula azul que pendia sobre mim, de que o ar era o mesmo, da mesma forma que o
sopro do vento, o canto dos pássaros. As nuvens, o céu, o ar, os ventos, os
pássaros, eram vistos por mim como coisas novas e diferentes; e eu me sentia um
estrangeiro.
Adiante, adiante! Vagabundos que
encontrávamos pelas planícies diziam-me que os confins não estavam distantes.
Eu incitava meus homens a não descansar, sufocava as expressões de desalento
que brotavam em seus lábios. Eram passados quatro anos desde a minha partida,
que esforço mais prolongado! A capital, minha casa, meu pai, tornavam-se
estranhamente remotos, vagamente reais. Vinte longos meses de silêncio e de
solidão transcorriam agora entre as sucessivas chegadas dos mensageiros.
Traziam-me curiosas cartas amareladas pelo tempo e nelas encontrava nomes
esquecidos, formas de expressão insólitas, sentimentos que não conseguia
compreender.
Na manhã seguinte, depois de uma breve
noite de descanso, quando retomamos o caminho, o mensageiro partia na direção
oposta, levando para a cidade as cartas que por um longo tempo eu havia
preparado.
Transcorreram mais oito anos e meio.
Esta noite eu jantava solitário em minha tenda, quando entrou Domenico, que esgotado
pelo cansaço, ainda conseguiu sorrir. Havia quase sete anos que não o via.
Durante todo esse longuíssimo período não fez outra coisa senão correr através
dos prados, bosques e desertos, trocando quem sabe quantas vezes de cavalgadura
para trazer-me esse maço de envelopes que ainda não tive vontade de abrir.
Domenico já se retirou para descansar e partirá amanhã ao alvorecer.
Marchará pela última vez. Calculei em
minhas anotações que, se tudo correr bem, eu prosseguindo em meu caminho como
tenho feito até aqui e ele percorrer o seu, não verei Domenico antes de trinta e
quatro anos. A essa altura estarei com setenta e dois anos. Mas começo a
sentir-me cansado e é provável que a morte me leve antes. Desse modo, é
provável que não mais o veja.
Dentro de trinta e quatro anos (como
seria bom que fosse antes) Domenico vislumbrará de forma inesperada as fogueiras
do meu acampamento e se perguntará por que percorri tão pouco caminho. Nessa
mesma noite, o bondoso mensageiro entrará em minha tenda com as cartas amarelecidas
pelos anos, cheias de absurdas notícias de um tempo já sepultado; se deterá sob
o umbral, vendo-me imóvel, estendido sobre o leito, com dois soldados
flanqueando-me com suas tochas, morto.
Ainda assim, segue, Domenico, e não me
digas que sou cruel! Leva minha derradeira saudação à cidade onde nasci. Tu és
o vínculo sobrevivente com o mundo que outrora foi também o meu. As últimas
mensagens me fazem saber que muitas coisas mudaram, que meu pai morreu, que a
coroa foi passada ao meu irmão mais velho, que me deram por perdido, que no
lugar onde antes se encontravam os carvalhos sob os quais costumava brincar,
construíram altos palácios de pedra. De todo modo, continua sendo a minha
pátria.
Tu és o último vínculo com eles,
Domenico. O quinto mensageiro, Ettore, que me alcançará, se Deus quiser,
dentro de um ano e oito meses, não poderá partir porque não lhe daria tempo de
regressar. Depois de ti, Domenico, o silêncio, a não ser que eu encontre, por
fim, os esperados confins. Todavia, quanto mais avanço, mais me convenço de que
não existe fronteira.
Não existe, suspeito eu, fronteira, ao
menos no sentido em que estamos acostumados a pensar. Não há muralhas que
separem, nem vales que dividam, nem montanhas que impeçam a passagem.
Provavelmente cruzarei o limite sem me dar conta e, desconhecendo-o,
continuarei a avançar.
Por esta razão pretendo que, quando me
alcançarem novamente, Ettore e os outros mensageiros que o seguem não partam
de volta à capital, mas que cavalguem avante, precedendo-me, para que eu possa
saber com antecedência aquilo que me aguarda.
Desde há um tempo, me desperta em
plena noite uma agitação insólita, e não se trata de saudades das alegrias
abandonadas, como ocorria nos primeiros tempos de viagem, mas uma impaciência
em conhecer as terras ignotas às quais me dirijo.
Dia a dia, à medida que avanço para
esse objetivo incerto, noto - e até aqui não o confessei a ninguém - como o céu
resplandece uma luz insólita, jamais vista sequer em sonhos, e como as plantas,
os montes, os rios que atravessamos, parecem feitos de uma essência distinta
daquela de nossa terra, e o ar traz presságios que não sei expressar.
A cada manhã uma nova esperança me
arrasta para frente, para essas montanhas inexploradas que as sombras da
noite ocultam. Uma vez mais levantarei acampamento, enquanto do outro lado
Domenico desaparece no horizonte, portando para a remotíssima cidade minha
inútil mensagem.