01 fevereiro 2012

Homens que despacham



Homens que despacham são esses homens, tolos e desnecessários, que surgem para cumprir alguma ordem onde você, mais cedo ou mais tarde, está de algum modo envolvido. Se prestam a convocar pessoas, e quando convocam, formulam a continuidade de uma ordem, para o bem ou para o mal. Desprendem um sorriso frívolo ao portarem a notícia ruim, assim como um olhar frívolo, quando ela é boa. Neste caso, é possível verificar o despeito que lhes revolve as entranhas, quando a frieza profissional por um instante é suspensa, sob um desconforto suavemente patético.

Revelam a “brecha” do sistema nesse átimo inapreensível, quando seus gestos tateiam superfícies sólidas e acumuladas de papéis, enquanto perdura o estado de júbilo do interlocutor. Assim como o sistema que representam, os homens que despacham devem manter-se no limite da funcionalidade, simples como isso. A indevida emoção torna-se um inconveniente, porque foram contratados para cumprir ordens, e não para avaliá-las.

Por uma curiosa derivação de suas funções, o infortúnio do outro tem o dom de lhes apaziguar o adestramento, e o recebem tal como uma gota de óleo na engrenagem. Mas a refulgência do bem-estar proporcionado tem o efeito de intimidá-los, de romper com a correia de transmissão. Então, o mecanismo se embaralha, o ato racional e consequente se manifesta em sensível paralisia, ainda que de efêmera duração.

O estranhamento esculpido nas faces parvas dura um piscar de olhos. Logo, como se as células digitais fossem reprogramadas, a energia é reconstituída e o dispositivo retoma suas funções. A frustração, se é que podemos assim nomeá-la, é prontamente absorvida em nome da presteza abjeta, e ei-los atentos, solertes, com inabalável disposição para a nova ordem a ser despachada, pois como vimos, esses miseráveis homens que despacham precisam dar algum sentido às suas vidas, mostrando que podem ser úteis ao sistema que servem.


27 janeiro 2012

Dois poemas




Mulher Azul


Mar Manto

branco

pensa

azul, à luz

irresolvível

insolúvel




Fronte


Pele fóssil

Pele míssil

escrita fina

filtra luz em fuga



por
Mônica Rebecca Ferrari Nunes




22 janeiro 2012

Comunidade do Pinheirinho


Há exato um ano, como parte das avaliações para o concurso de docente em sociologia, em uma universidade federal, propus um projeto de pesquisa denominado Polos Culturais, que pretendia, dentre outros objetivos, a prática cultural como estímulo à vivência comunitária, nos territórios da precariedade. Curiosamente, uma das comunidades precárias que tinha em mente era o Pinheirinho, na cidade de São José dos Campos. Para ficar mais claro o que pretendia, transcrevo abaixo parte da justificativa do projeto.

           "Consideremos duas comunidades carentes de São José dos Campos, Pinheirinho, assentamento com cerca de 2000 famílias, ou o Campo dos Alemães. Certamente uma população destituída de lazer e entretenimento, com mínima infraestrutura para uma vida social mais digna. Abandonada pelo poder público, absorve a apatia do esquecimento, revolvendo-se nas garras de opções de vida menos promissoras. Corrompida pela alienação dos meios hegemônicos de comunicação, amaciada em seus anseios mais vitais, as pessoas sobrevivem o dia-a-dia.
         A proposta da implantação do polo cultural tem a aspiração de apoiar o desenvolvimento de práticas culturais que tragam a vida comunitária novamente ao proscênio das preocupações, de despertar para a interação comunitária da maneira mais agradável, atraindo um público em que jovens e idosos possam comungar de uma mesma atividade. A poesia tem o poder de atrair, não de afastar as pessoas, de confraternizar, não de causar intriga, e isso pude acompanhar nos saraus das periferias paulistanas  
            Tanto a Cooperifa como o Binho surgiram em um bar, o espaço público por excelência (além dos templos religiosos) das periferias paulistanas. A escolha do polo cultural no Pinheirinho ou no Campo dos Alemães poderia recair em uma escola pública. Para que a iniciativa dê frutos, é necessário convocar os artistas da quebrada, dar-lhes a visibilidade e a responsabilidade de uma ação social.
            A poesia declamada, assim como o rap, são boas sugestões iniciais, porque demandam apenas o rascunho de um poema e o desejo de proclamá-lo. Os versos não precisam ser inicialmente autorais, há que se considerar a dificuldade inicial em produzi-los. Em uma escola pública é possível fazer crescer a biblioteca já instalada, e provavelmente raquítica porque deixada de lado, ou subaproveitada. A poesia declamada pode encontrar nela o templo natural para a prática de atividades culturais, grupos musicais, de teatro, de dança, encontros gastronômicos, festas tradicionais, todas essas práticas de cidadania podem vir no vácuo dos saraus, ou despontar de modo independente... 
          A escola pública pode, assim, ser valorizada em sua essência, contando com a mão de obra especial que dispõe, seu corpo docente.  É importante praticar esse espaço, tê-lo disponível, torná-lo sagrado, capaz de atrair pessoas, e despertar nelas o desejo de conviverem comunitariamente" (...)
-0-

É com tristeza que leio os acontecimentos dos últimos dias, que culminaram com os atos de violência perpetrados pela ação policial, dois mil homens, caveirão, armamento pesado. Segundo o sítio de notícias Vi o Mundo, a reintegração de posse foi feita sem uma solução negociada. De acordo com o texto, "quem chega ao Pinheirinho está sendo recebido com bombas, que estão sobrando até para a imprensa e parlamentares". 

Triste desfecho. Minha frustração é a de não ter oferecido um mínimo do meu esforço para que o Pinheirinho pudesse incorporar ao menos um pouco de poesia em seu cotidiano.


04 janeiro 2012

A sociedade fragilizada



por Júlio César BIN
(Pós-graduado no Programme for Sustainability Leadership da Universidade de Cambridge)


Recentemente participei de um painel numa escola de propaganda e marketing em São Paulo, onde dois jovens com cerca de 30 anos, tinham a incumbência de falar sobre suas conquistas pessoais e sucessos profissionais. O objetivo era mostrar para uma plateia de universitários, como que a determinação, força de vontade e dedicação a um sonho, são fatores imprescindíveis na vida e na carreira de um individuo. As características da nossa sociedade e as condições socioeconômicas dos três não eram parte da mensagem, mas foi o que me fez sair do evento com este texto na cabeça.

O que me chamou a atenção foi o percurso distinto que os palestrantes percorreram. Um deles, jovem executivo de uma grande agencia de propaganda, contava o caminho que trilhou para chegar ao Olimpo ambicionado por 99% dos presentes naquele auditório: ser um publicitário de sucesso, diretor e sócio da agencia em que trabalhava há muitos anos.  Sua apresentação foi interessante, passando pela importância de seu empenho, sua procura e luta por seus ideais, assim como as dúvidas e preconceitos que vivenciou ao longo de sua juventude. Sabia o que queria e tomou as decisões certas no momento certo.

Sua estória tinha um tom meloso de rebeldia, repleta de momentos de espertezas e malandragens necessárias para driblar o sistema e, claro, sempre com o apoio da família para completar sua renda durante os vários anos que precisou investir tempo e dinheiro, não só com educação e viagens, mas também para trabalhar de graça como estagiário em agencias de propaganda. Logo depois o outro jovem narrou a sua historia de vida. Na verdade ele desconstruiu a fala do palestrante anterior.

Ele contou como nasceu e cresceu num ambiente hostil, “do outro lado da ponte”, onde o estado deixou de agir há muito tempo, onde serviços básicos como educação e saúde não existem e onde a sociedade sabe, mas prefere não ver o que acontece. Ele começou dizendo que todos ali provavelmente já tinham ouvido falar de como é viver nessa situação por meio dos noticiários da TV ou filmes, normalmente sobre o trafego de drogas, violência, criminalidade e, claro, sobre os bons projetos sociais que fazem o papel esquecido pelo estado.

Do outro lado da ponte é uma excelente metáfora para demonstrar as periferias pobres das cidades brasileiras. Em alguns casos, é do outro lado do rio, do outro lado da estrada, mas sempre existe algo que separa a pujança econômica da miséria e o descaso.

O jovem da favela, ex-drogado, ex-ladrão, ex-traficante, excluído socialmente, contou como foi sua ascensão ao crime e como havia sobrevivido (literalmente) à “aventura cinematográfica”. Ele contou como que seu sonho maior era simplesmente fazer parte, ser reconhecido como individuo, vencer socialmente, enfim, ter condições financeiras para possuir e consumir os produtos e serviços que habitam os desejos de qualquer pessoa, independente da classe social.

Com a determinação de um nobre guerreiro e com a sorte e a oportunidade de ter caído nas mãos de pessoas bem, anjos vestidos de voluntários, decidiu parar e foi guiado e recuperado para então tornar-se um mensageiro de como essa transformação é difícil, mas possível.  

Minha leitura foi que vivemos dentro de um sistema que alimenta e motiva jovens em nossa sociedade, ricos ou pobres, a buscar o sucesso financeiro e social por meio do ter a qualquer custo. Ter mais objetos de marca, ter um carro novo, ter bugigangas que não precisamos ter. Vivemos num sistema que educa seus jovens para uma guerra social onde o perdedor é excluído, desqualificado, desempregado e desamparado.

Ao final do evento, fiquei com a percepção que estamos educando e motivando os jovens para que possam manter esse sistema funcionando e, nesse caso em particular, para se especializarem na comunicação e venda de coisas que, quase sempre, não precisamos.  Estes jovens, ricos e pobres, fazem parte da mesma sociedade, são cidadãos do mesmo país e ao mesmo tempo são partes de dois mundos completamente diferentes mesmo que frequentem as mesmas mídias sociais. A única coisa que eles têm em comum são as mensagens e propagandas. Na linguagem marqueteira, pertencem a diferentes segmentos, diferentes “targets”, mas acabam sendo alvo das mesmas campanhas publicitarias e programas de TV.

Saí do evento ainda com muitas perguntas na cabeça.

O que precisamos fazer para mudar esse modelo econômico que lucra convencendo as pessoas a ter o que não precisam para ser felizes? Porque enxergamos os problemas sociais, sofremos com agressões diárias nos grandes centros urbanos, reclamamos da falta de educação e saúde, da corrupção, das drogas e da morte de nossos jovens pela violência urbana e não conseguimos acreditar que contribuímos diariamente para que estes problemas permaneçam? O sistema está doente e com ele estamos todos nós.
 
Mas a principal pergunta que tenho depois desse evento é: nesse sistema doente, quem está efetivamente vendendo droga para quem?


01 janeiro 2012

Passagem do Ano





O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão 
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar. 
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


Carlos Drummond de Andrade




31 dezembro 2011

A crise infindável (2)




Há exatos dez anos, encontrei com um pequeno grupo de jovens argentinos, em um albergue na Europa, e pude acompanhar o desespero e as lágrimas que os envolvia. As informações que recebíamos da crise política e econômica que varria a Argentina eram por demais devastadoras para se acreditar, e uma vez acreditando, difíceis demais para serem absorvidas. Lembro-me em especial do casal Mercedes e Daniel, que à deriva, já não tinham certeza do regresso à pátria, na semana seguinte.
...


Dolorosos momentos, paulatinamente superados com coragem política e com firmeza na arrumação econômica, pelos governos de Néstor e Cristina Kirchner. Sem seguir a cartilha liberal, hoje o país é um dos polos de desenvolvimento no continente, com a expectativa de crescimento em torno de 8%. Em contrapartida, o desconsolo se acerca da velha Europa, nuvens e sombras despontam em um horizonte pouco promissor. Grécia, Espanha, Portugal, Itália estão na berlinda, antecipam as mudanças políticas, reafirmam os ajustes liberais, restringem ainda mais o Estado do bem estar social, vislumbram perspectivas de instabilidade social... 
...


Também me lembro que, poucos dias após esse encontro com os argentinos, já em um albergue em Berlim, comemorávamos entre brasileiros a passagem do ano novo (2002). Na manhã seguinte, sacava-se nos caixas eletrônicos bilhetes de euro no lugar de marco. A Europa entrava em uma nova etapa da integração, desta feita monetária. Acreditava-se, enfim, que o bloco econômico ganharia força e robustez, competindo com a Alca e, bem, dez anos depois, sobrevém a crise econômica, recessão, desemprego, incertezas em relação ao futuro. Nós, os vira-latas latinos, que éramos estimulados a olhar o velho continente (e os países industriais no todo) como o exemplo de civilização a ser seguido, bueno, seguimos consolidando uma década de políticas econômicas mais integradas, que nos traz esperanças de anos de crescimento sustentado.
...


Falo de crescimento sustentado porque ele não se pauta na dinâmica dos interesses de mercado, mas na recomposição da dimensão humana. O crescimento reverte-se prioritariamente em desenvolvimento social, da Venezuela à Argentina, do Peru e Bolívia ao Brasil. A vida não se limita ao bem estar dos escritórios e gabinetes, mas à fortuna da sociedade como um todo. Com a CELAC, organismo recentemente criado para a integração mais efetiva dos países latino-americanos e do Caribe, surge a oportunidade de avançarmos com nossas próprias pernas, a partir de nossos interesses, em paz. 
E isso não é pouco.
...


Feliz 2012 a todos!  



19 dezembro 2011

A crise infindável (1)




E se mergulhamos assim, nessa crise profunda e angustiosa, onde o sistema financeiro se arremete em desesperado gesto salvaguardar sua pele, está posto que esquecemos a essência da civilização. Em outras palavras, sobrevalorizamos o espírito de competição, aquele apropriado ao voraz instinto de sobrevivência, e abandonamos a civilidade do espaço público. Ficou mais oportuno privatizar interesses do que sociabilizar o convívio.

***

As mentes deficitárias dos gabinetes se aperfeiçoaram em estratégias de exploração. Em seus quartéis-generais, emanam decisões que não consideram o corpo e o espírito humano. Não fazem ideia o que seja o pulsar da praça, com o encontro despojado das diversidades, a magia da música popular e dos bancos comuns, do algodão doce e da brincadeira das crianças, do calor dos cumprimentos e do canto das vozes. 

***

Desde que se meteram no enganoso desejo de cumprir metas artificiais, se distanciaram da dignidade humana, da verdade das palavras. Perderam o sentido da justiça social. Desde que desregularam normas em favor da montagem do mundo corporativo globalizado, o futuro transformou-se em metas esvaziadas, recheadas de números. A ideia de acumulação ultrapassou limites, fixou o referencial do indivíduo bem sucedido, nos tornamos mais armados e menos amados. Assim, os encontros motivaram oportunidades para especular, e a conversa, a possibilidade de mais cifrões. 

***

As economias centrais, molas propulsoras deste capitalismo sem face, sangra em meio a sua desfaçatez pós-moderna. Os rituais de sacrifício incorporam milhares de pessoas, no panteão do deus mercado. Mais doses de arrogância, que geradas nas mentes deficitárias dos gabinetes, alcançam os indivíduos e produzem uma sociedade mais temerosa, mais fragilizada, mais desvalorizada. Daí a frieza dos números, a indicar o corte na carne, a inexorável brutalização da sobrevivência. 


01 dezembro 2011

Guenádi Aigui


Sono e Poesia

(para Boris e Jerusa)

1

Dezembro - e por mais que nos animemos - de dia ou de noite - atrás das janelas - é sempre uma treva dezembrina.
A vida é o suportar dessa treva.
Semelhante treva dilata os espaços, como que incluindo-os em si, mas ela mesma é infinita. Isto é mais do que cidade e noite - você fica rodeado por certo, País-Intempérie, único, ilimitado.
Você deve sobrepujar ainda algumas horas de trabalho solitário. Você é um dos guardiães da noite - diz Kafka. 
Mas você se lembra da possibilidade de Abrigo, mesmo - de Salvação - da angústia soprada pela Intempérie-País.
Finalmente, você estende o cobertor por cima da cabeça, a outra extremidade você dobra sobre as pernas. E eis que já esperas que o sono te rodeie de todos os lados. Te encerre em seu Seio. Certamente não pensas no que isso lembra... Certo retorno? Ao quê? Para onde?
(...)

(extraído do livro Silêncio e Clamor)