04 janeiro 2012

A sociedade fragilizada



por Júlio César BIN
(Pós-graduado no Programme for Sustainability Leadership da Universidade de Cambridge)


Recentemente participei de um painel numa escola de propaganda e marketing em São Paulo, onde dois jovens com cerca de 30 anos, tinham a incumbência de falar sobre suas conquistas pessoais e sucessos profissionais. O objetivo era mostrar para uma plateia de universitários, como que a determinação, força de vontade e dedicação a um sonho, são fatores imprescindíveis na vida e na carreira de um individuo. As características da nossa sociedade e as condições socioeconômicas dos três não eram parte da mensagem, mas foi o que me fez sair do evento com este texto na cabeça.

O que me chamou a atenção foi o percurso distinto que os palestrantes percorreram. Um deles, jovem executivo de uma grande agencia de propaganda, contava o caminho que trilhou para chegar ao Olimpo ambicionado por 99% dos presentes naquele auditório: ser um publicitário de sucesso, diretor e sócio da agencia em que trabalhava há muitos anos.  Sua apresentação foi interessante, passando pela importância de seu empenho, sua procura e luta por seus ideais, assim como as dúvidas e preconceitos que vivenciou ao longo de sua juventude. Sabia o que queria e tomou as decisões certas no momento certo.

Sua estória tinha um tom meloso de rebeldia, repleta de momentos de espertezas e malandragens necessárias para driblar o sistema e, claro, sempre com o apoio da família para completar sua renda durante os vários anos que precisou investir tempo e dinheiro, não só com educação e viagens, mas também para trabalhar de graça como estagiário em agencias de propaganda.  
Logo depois o outro jovem narrou a sua historia de vida. Na verdade ele desconstruiu a fala do palestrante anterior.

Ele contou como nasceu e cresceu num ambiente hostil, “do outro lado da ponte”, onde o estado deixou de agir há muito tempo, onde serviços básicos como educação e saúde não existem e onde a sociedade sabe, mas prefere não ver o que acontece. Ele começou dizendo que todos ali provavelmente já tinham ouvido falar de como é viver nessa situação por meio dos noticiários da TV ou filmes, normalmente sobre o trafego de drogas, violência, criminalidade e, claro, sobre os bons projetos sociais que fazem o papel esquecido pelo estado.

Do outro lado da ponte é uma excelente metáfora para demonstrar as periferias pobres das cidades brasileiras. Em alguns casos, é do outro lado do rio, do outro lado da estrada, mas sempre existe algo que separa a pujança econômica da miséria e o descaso.

O jovem da favela, ex-drogado, ex-ladrão, ex-traficante, excluído socialmente, contou como foi sua ascensão ao crime e como havia sobrevivido (literalmente) à “aventura cinematográfica”. Ele contou como que seu sonho maior era simplesmente fazer parte, ser reconhecido como individuo, vencer socialmente, enfim, ter condições financeiras para possuir e consumir os produtos e serviços que habitam os desejos de qualquer pessoa, independente da classe social.

Com a determinação de um nobre guerreiro e com a sorte e a oportunidade de ter caído nas mãos de pessoas bem, anjos vestidos de voluntários, decidiu parar e foi guiado e recuperado para então tornar-se um mensageiro de como essa transformação é difícil, mas possível.  

Minha leitura foi que vivemos dentro de um sistema que alimenta e motiva jovens em nossa sociedade, ricos ou pobres, a buscar o sucesso financeiro e social por meio do ter a qualquer custo. Ter mais objetos de marca, ter um carro novo, ter bugigangas que não precisamos ter.  Vivemos num sistema que educa seus jovens para uma guerra social onde o perdedor é excluído, desqualificado, desempregado e desamparado.

Ao final do evento, fiquei com a percepção que estamos educando e motivando os jovens para que possam manter esse sistema funcionando e, nesse caso em particular, para se especializarem na comunicação e venda de coisas que, quase sempre, não precisamos.  Estes jovens, ricos e pobres, fazem parte da mesma sociedade, são cidadãos do mesmo país e ao mesmo tempo são partes de dois mundos completamente diferentes mesmo que frequentem as mesmas mídias sociais. A única coisa que eles têm em comum são as mensagens e propagandas.  Na linguagem marqueteira, pertencem a diferentes segmentos, diferentes “targets”, mas acabam sendo alvo das mesmas campanhas publicitarias e programas de TV.

Saí do evento ainda com muitas perguntas na cabeça.

O que precisamos fazer para mudar esse modelo econômico que lucra convencendo as pessoas a ter o que não precisam para ser felizes? Porque enxergamos os problemas sociais, sofremos com agressões diárias nos grandes centros urbanos, reclamamos da falta de educação e saúde, da corrupção, das drogas e da morte de nossos jovens pela violência urbana e não conseguimos acreditar que contribuímos diariamente para que estes problemas permaneçam? O sistema está doente e com ele estamos todos nós.
 
Mas a principal pergunta que tenho depois desse evento é: nesse sistema doente, quem está efetivamente vendendo droga para quem?


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