15 junho 2009

Tempos difíceis




para os Racionais MCs

A noite está entregue ao lixo, aos primeiros seres disformes em seus andrajos e que, sob o silvo do vento frio, vagam à deriva pelas ruas agora mais negras, em sintonia com o surgimento das cortesãs desgarradas. Os seres diurnos, oficiais, se retiraram exaustos para os abrigos aconchegantes. A noite aprofunda o abandono e a paisagem perde a mobilidade desenfreada, e aguarda os acontecimentos. Não há mais do que um movimento vago que aos bocados ganha dimensão, pelos cantos e pelos vazios, nas calçadas, nos becos, por trás dos monturos de dejetos acumulados, por sob a penumbra, onde os cães farejam o próximo desjejum. Articulações lânguidas, palavras ladradas, insones, são os seres abissais, personagens miseráveis que se insurgem em sinuosa e discreta avalancha, provenientes de nenhum e de todos os lugares, com o propósito de imprimirem suas marcas sem um registro definido.

Assim o espaço público ressurge como reduto do restolho social, reverberando rondas cuja dor já não conta mais, ensejos desairosos que se perdem no breu da miserabilidade, rumor abafado que redefine as regras do contrato social. Por mais cruel que sejam as condições, os novos donos do espaço não desistem e retornam e se estabelecem e demarcam territórios, sem necessidade de subterfúgios ou de buscas atormentadas, encarnando seus rituais secretos, obscuros para a civilização do capital. Não lamentam a ausência da agitação das ruas, do brilho do sol, do soslaio indigesto, da ganância aflitiva, e por isso não lastimam a fuga de semelhantes tão diferentes, que no despertar da aurora renovarão o embate da vida miúda, vivenciando ainda uma vez a expectativa de uma jornada bem sucedida na metrópole.


14 junho 2009

Manuel Bandeira (2)





Tema e variações


Sonhei ter sonhado 
Que havia sonhado. 
 Em sonho lembrei-me 
De um sonho passado: 
O de ter sonhado 
Que estava sonhando. 
 Sonhei ter sonhado... 
Ter sonhado o quê? 
Que havia sonhado 
Estar com você. 
Estar? Ter estado, 
Que é tempo passado. 
 Um sonho presente 
Um dia sonhei. 
Chorei de repente, 
Pois vi, despertado, 
Que tinha sonhado.



13 junho 2009

Manuel Bandeira


Lua 

  A proa reta abre no oceano 
Um tumulto de espumas pampas 
Delas nascer parece a esteira 
Do luar sobre as águas mansas. 
 O mar jaz como um céu tombado, 
Ora é o céu que é um mar, onde a lua, 
A só, silente louca, emerge 
Das ondas-nuvens, toda nua.



12 junho 2009

Fragmentos (2)



Os bons homens despertam para o trabalho... O que veem, o que pensam... o que querem?... Divagava, enquanto os via começar mais uma jornada de labuta. Não perdia um movimento daquela torrente de bravos, que se mobilizava em sentido contrário, homens rústicos em suas bicicletas ou a pé, marchando decididos rumo aos seus afazeres, com a expressão altiva desenhada nas faces marcadas por uma vida comum, cujo parâmetro inescapável era a rotina, as mesmas atitudes diárias, refeitas com a mesma dedicação de pai para filho, raramente quebradas pela angústia da existência, enfim, corpos que passavam, imprimindo a dialética de uma fugacidade permanente, pois que diuturnamente reproduzida... E a paisagem ao redor se erguia serena, um armazém, um boteco mais adiante, um açougue abrindo as portas, a vida renascendo e dando vida ao lugar, desenrolando-se em sua beleza, tão incógnita quanto vigorosa. O dia nascia com os pássaros voluteando no céu de um azul incólume e com aquele movimento humano, regido pela discrição. Ângelo portava o peso da metrópole, o som 'Up to my neck in you' ressoando pelos neurônios, enquanto usufruía o frescor da cena, deleitosas imagens impressionistas; no momento, não passava de um olhar intruso que fustigava a calma provinciana, um desconhecido que caminhava ao sabor do acaso, sem despertar suspeitas a não ser miradas generosas, que de quando em vez se deslocavam do foco no caminho. Tudo parecia se acomodar ao caráter da visita inesperada de Ângelo, uma aparição sem questionamentos em meio a um universo em equilíbrio e dessa forma, tudo conjurava por uma permanência instigante, ensejando-lhe um “seja bem-vindo, forasteiro”...



07 junho 2009

Cortázar e a poesia



“(...) de certo modo a linguagem íntegra é metafórica, referendando a tendência humana à concepção analógica do mundo e o ingresso (poético ou não) das analogias nas formas de linguagem. Essa urgência de apreensão por analogia, de vinculação pré-científica, nascendo no homem desde suas primeiras operações sensíveis e intelectuais, é a que leva a suspeitar uma força, uma direção de seu ser até a concepção simpática, muito mais importante e transcendente do que todo racionalismo quer admitir”. (pg. 364)

“Por que é a imagem instrumento poético por excelência? (...) Por que anseia o poeta ser em outra coisa, ser outra coisa? O cervo é um vento escuro; o poeta, em sua ansiedade, parece esse cervo saído de si mesmo, que assume a essência do escuro vento”. (pg. 380)

“O poeta e suas imagens constituem e manifestam um só desejo de salto, de irrupção, de ser outra coisa”. (pg. 381)

“Em verdade, para o poeta angustiado, todo poema é um desencanto, um produto desvinculado de ambições profundas mais ou menos definidas, de um balbucio existencial que se agita e urge, e que só a poesia do poema (não o poema como produto estético) pode, analogicamente, evocar e reconstruir”. (pg. 381)

“Mas a poesia é canto, louvor. A ansiedade de ser surge confundida em um verso que celebra, que explica liricamente (...) A música verbal é ato catártico pelo qual a metáfora, a imagem se libera de toda referência significativa, para não aludir e não assumir senão a essência de seus objetos”. (pg. 383/384)

“Todo poeta parece haver sentido que cantar um objeto (um tema) equivalia a apropriar-se dele em essência; que só podia ir-se até outra coisa e ingressar nela pela via da celebração”. (pg. 385)

“Mas formas absolutas do ato poético, o conhecimento como tal (sujeito cognoscitivo e objeto conhecido) é superado pela direta fusão de essências: o poeta é o que anseia ser (dito em termos da obra: o poeta é seu canto)”. (pg. 388)

“O poeta, mago ontológico, lança sua poesia (ação sagrada, evocação ritual) até as essências que lhe são alheias, para apropriar-se delas.” (pg. 389)

“O poeta se transpõe poeticamente ao plano essencial da realidade; o poema e a imagem analógica que o nutre são a zona onde as coisas renunciam a sua solidão e se deixam habitar (...)”. (pg.390)


(Tradução de excertos do texto original Para una poética, que integra o livro Obra Crítica/2, Buenos Aires: Punto de Lectura, 2004)



04 junho 2009

Prévert


Paris at night
Trois allumettes une à une allumées dans la nuit
La première pour voir ton visage tout entier
La seconde pour voir tes yeux
La dernière pour voir ta bouche
et l´obscurité tout entière pour me rappeler tout cela
En te serrant dans mes bras

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03 junho 2009

Um muro na Palestina


Resultado de imagem para muro construido na palestina



A partir de um cuidadoso trabalho de jornalismo investigativo (coisa rara por aqui), René Backmann, do Nouvel Observateur, desenvolve o tema principal de seu livro (Un mur en Palestine), a edificação de um muro de concreto (também denominado barreira), que isola assentamentos judaicos em terra palestina, chegando em certas partes a alcançar 9 metros de altura, com câmeras e outros dispositivos de segurança. Para os palestinos, trata-se de um muro de anexação, já que parcelas de seu território são incorporados na construção da barreira, sem data para devolução. A construção desse muro, ou barreira, prevê unicamente a segurança das colônias judaicas na Cisjordânia, estabelecendo um sentimento de segregação que em nada ajuda o processo de paz.

Abaixo, destaco e traduzo o depoimento de Netzah Mashiah, engenheiro encarregado de supervisionar o trabalho dos cartógrafos (os grifos são meus):


"Os políticos (...) não se cansam de discutir sobre o traçado da barreira. Por essa razão o primeiro ministro (Ariel Sharon) e o ministro da Defesa decidiram confiar o assunto ao exército e atribuindo-lhe um único objetivo: impedir a passagem dos terroristas palestinos e sua entrada em Israel. O problema não era saber onde passaria a barreira, sobre quais terras, mas a quem ela iria servir. E qual traçado seria o melhor para alcançar seu objetivo. Estas são as instruções que os responsáveis do projeto - todos militares - receberam no momento de começarem o trabalho. A barreira que você pode ver hoje construída foi elaborada pelo exército, aprovada pelo diretor geral do ministério da Defesa, o chefe do Estado Maior do exército, o ministro da Defesa e o governo. A fase seguinte consistiu em legalizar o procedimento das requisições de terras, por razões de segurança. Requisitar, isso não significa que nós nos tornamos proprietários das terras. Nós não as utilizamos além do tempo necessário para a missão atribuída à barreira: fazer desaparecer o terrorismo. Nós partimos do princípio de que essa barreira é provisória. E que sua existência depende da maneira que os palestinos se encaminharão para a paz. Ela pode portanto durar cinco minutos ou cinco décadas" (...)

Como podemos observar, as decisões são impositivas e supostamente revogáveis. Em nenhum momento houve predisposição por parte do governo israelense em discutir a situação com as autoridades palestinas. Além do que, é de se duvidar que as terras requisitadas sejam um dia devolvidas: nenhum atentado terrorista ocorreu nos últimos anos em território israelense, o que significa dizer, as condições para a devolução das terras requisitadas já estão dadas.

O livro é esclarecedor sobre temas como o processo de construção da barreira em si, a colonização judaica na Cisjordânia, a cartografia resultante após sua implantação (com quatro mapas em grande escala), as marchas e contramarchas da política de ocupação, o desenho de uma nova fronteira... Para nos informarmos sobre este descalabro silencioso de nosso tempo, penso que valha a pena ser lido.


Un mur en Palestine, por René Backmann, Paris, Folio Actuel, 330pg., 2006.



01 junho 2009

Vazio de propósitos


Os comunicadores do supérfluo estão por aí, presentes nos mais diversos meios de comunicação, atuando com toda a liberdade que o mercado lhes permite. Cacarejam, esperneiam, tripudiam, acariciam, com a pretensão de formarem a opinião pública, mas significando, de fato, um lamentável desvio da construção do espírito crítico da população. Esses indivíduos são a mais evidente prova de que, hoje, a palavra é dada para quem não tem nada a dizer. Ou para quem consegue fazer do discurso sedutoras peripécias inconsequentes. Somos informados por quem não assume o compromisso dessa responsabilidade, e que se empenha em satisfazer as exigências mercadológicas da empresa jornalística em que trabalha. Mais nada. 

Assim, vagamos sem esperanças, do big brother aos programas esportivos dominicais, dos editoriais políticos viciados aos jornais eletrônicos espetaculosos, onde o interesse maior é o índice de audiência, amealhando fatias de um público que se aliena e se apraz com cacarejos. Cabem aí todos os esforços para produzir e repercutir um vazio de propósitos. Lembro-me de um desses articulistas intocáveis da mídia impressa descrevendo uma paisagem nevada, que desfrutava de um rincão canadense. Em meio aos laivos de filosofia barata, expunha seu desânimo ao que entendia ser a bagunça da vida brasileira. Do conforto de sua hospedagem cinco estrelas, lamentava não termos passado pela experiência da guerra, como os povos do norte, pois assim, quem sabe, daríamos hoje mais valor às coisas...

Essa esquizofrenia é muito mais comum do que parece; é natural pessoas viverem em seu mundinho adocicado – bafejadas em grande parte por esses comunicadores do supérfluo – e acreditarem que nosso atraso ou nossa incompetência comunal se deve à falta de um sofrimento maior, como se ao redor delas nada de pútrido estivesse ocorrendo. A miserabilidade glauberiana anunciada como amalgama da temática do Cinema Novo, esgarçou-se de modo indecoroso e hoje as mazelas acumuladas ao longo de décadas de indiferença, fazem dos problemas sociais dos anos cinquenta e sessenta uma singela introdução da sua brutalidade.

À falta a compreensão social desse despautério, surgem simultaneamente as crônicas, artigos, comentários, palpites fora de lugar, falácias pretensamente sociológicas que não guardam qualquer relação com a realidade cotidiana. Pretendem funcionar como fábulas encantatórias, com um conteúdo chinfrim para amenizar o nada do momento... Esses comunicadores do supérfluo estão aí para galhofar o máximo possível, como a dizer de maneira provocante, “vejam como vocês são uns babacas...!”.

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