17 dezembro 2025

Tempo das hienas

 



Foi com um gesto obscuro, 

à borda de uma cova

saboreando os restos de uma ossada

que a hiena mais astuta

observou ao longe

o pavor dos outros animais.

Houve um breve momento,

a covardia misturada ao pavor,

que fez com que os animais, todos

apenas recuassem

e as hienas se sentissem convidadas,

um butim farto as aguardava

e aproveitaram a frágil organização

dos bichos, todos

que perderam o sangue frio, 

o desejo de lutar.

Com sua mínima sensibilidade em interpretar o mundo

as hienas avançaram

souberam unir-se para devorar

as carnes de suas presas, todas

uma festança de grunhidos e uivos

e a floresta nunca mais foi a mesma.



(De um compêndio poético encontrado em meio às ruínas da civilização)



16 dezembro 2025

A caminho de Sófia




Mas voltemos ao trem que me levaria a Sófia. (...) Meus companheiros foram cinco, três búlgaros – mãe, filho e uma amiga dele, ao que pude perceber – e dois estadunidenses, com passaportes búlgaros. Eu isolado em meu português inútil, um estranho no ninho. Não desenvolvi nenhuma relação amistosa com meus companheiros de cabine, pois não tínhamos uma língua em comum, e porque cada grupo ficou na sua. Desde Istambul, levamos cinco horas e meia para atingir a fronteira com a Bulgária, e aí permanecemos parados por duas horas e meia. (...) Do outro lado da plataforma havia outro trem estacionado, e no meio, uma montanha de fardos de tecido manufaturado para serem embarcados. Os montes atingiam uns três metros de altura e se estendiam por toda a plataforma. Olhei para aquilo e por uma fração de segundo quis duvidar que tudo seria embarcado. De pronto me veio a lembrança daqueles trabalhadores eslavos em Istambul se esfalfando para colocar dentro dos ônibus e furgões seus pacotes de compras. Repetia-se o esforço, agora naquele lugar ermo, fronteiriço. (...) 

Grupos de incansáveis ‘estivadores’ eslavos, vestindo uma simples camiseta sob um frio congelante, movimentavam-se diante da enorme barreira de fardos. Estava claro que cada grupo tinha uma carga delimitada para si, a sua mercadoria. Logo, começaram a carregar o quinhão que lhes pertencia para o outro trem. Letras em cirílico indicavam alguma coisa sobre a mercadoria, talvez estabelecendo a que grupo cada monturo pertencia. Eu me tornava um espectador privilegiado, assistindo tudo desde o começo. Aos poucos pude distinguir um grupo do outro e lá pelas tantas passei a entender o esquema da divisão do trabalho. Grosso modo, o importante era levar tudo para dentro do trem, por conta de algum prazo estabelecido. O ‘como fazer’ é que variava. Um grupo, que atuava mais à esquerda do meu campo de visão, era composto por um eslavo que controlava o carregamento realizado por turcos. Ele ficava ao lado do que lhe pertencia e à chegada de um carregador, ajudava-o a acomodar o fardo em suas costas, o enorme fardo! Pensei em minha mochila, achava-a pesada em seus 19kg e via aquelas ‘pobres mulas’ ajeitando fardos pelo menos duas vezes mais volumosos...  

A sistemática era simples e dolorosa, o eslavo e o carregador catavam o fardo por um lado e sacudiam num movimento pendular até anularem a força de gravidade, quando o ‘chefe’ arremessava o pacotão em perfeita sincronia com a virada do carregador, que o recebia e o amparava em suas costas. Eram dois turcos a realizar esse trabalho de formiguinha, com o eslavo fiscalizando o encaminhamento e o embarque do material sem sair do lugar. (...) Mais à direita, o que me pareceu ser pai e filho transportavam seus invólucros de maneira mais usual e lenta: pegavam cada qual numa ponta e carregavam até a porta do vagão, onde outros dois recolhiam e ajeitavam os volumes em seu interior. Pai e filho iam e vinham em um movimento meticuloso, repetitivo, determinado. Às vezes o filho ficava uns minutos a sós – o pai saia de cena para resolver algum problema – e aproveitava para acender um cigarro. O frio enregelava os meus pés dentro da cabine, o que dizer da temperatura lá fora?... Talvez por isso todos trabalhavam sem cessar. De certa forma ali estava o ganha pão daquelas pessoas desafortunadas por injunções políticas, pela incompetência de dirigentes que não assumiam suas responsabilidades perante seus povos. Aqueles, à minha frente, não tinham tempo a perder com esse tipo de raciocínio, por isso continuavam a trabalhar duro. 

Aos poucos se juntaram em torno desses dois grupos iniciais outros sujeitos corpulentos, que já deviam ter concluído seus trabalhos alhures e ajudaram no transporte com as mercadorias. O monturo foi diminuindo, até que os derradeiros invólucros foram embarcados. Ao final, formaram rodinhas de três, quatro, e fumaram, gargalharam, moveram-se como cães de caça para um lado e para o outro, como se não soubessem ficar sem ter o que fazer. Mas deviam estar satisfeitos por mais uma etapa vencida. As cabinas do outro trem estavam repletas de mercadorias, as mulheres ficaram nos corredores organizando o fluxo de pacotes. Pensei um pouco sobre a minha situação: completamente isolado em uma cabine desaquecida, à mercê do movimento do trem para retomar a viagem. Não havia o que fazer, não havia a quem reclamar. A mais pura impotência me instruia em um duro aprendizado, saber suportar uma adversidade fora do meu controle. Não havia o que fazer, a não ser resistir como corpo e consciência. Demorou para o trem partir (o deles; o nosso permaneceu imóvel por um longo tempo) e, como se tudo estivesse perfeitamente sincronizado, começou a chover.

(Diários de viagem, março de 1994)



15 dezembro 2025

Um poema, Robert Desnos

 


27.3.36


Eu me levantarei amanhã de manhã

Mais cedo que hoje

O sol amanhã de manhã

Será mais quente que hoje

Eu serei mais forte amanhã de manhã

Mais forte que hoje

Eu estarei alegre amanhã de manhã

Mais alegre que hoje

Eu terei amanhã de manhã

Mais amigos que hoje

E embora amanhã de manhã

A morte esteja mais próxima que hoje

Eu estarei amanhã de manhã

Mais vivo mais vivo que hoje!


(Traduzido da obra Les Poèmes de Minuit, de Robert Desnos)



10 dezembro 2025

O revolucionário republicano


Museu de História da Catalunha, 2024

Do mais inacessível do caráter obsceno, é daí que nasce, segundo o bondoso Canuto, a vertente que mais tarde se consubstancia no voto racista. Desta vez ele estava disposto a falar um pouco mais. Deixou sua sapataria como costumeiramente faz, e com sua boina de republicano espanhol – ele me garantiu que era – me viu em uma das mesinhas do Alma, puxou uma cadeira e sentou-se. É mais fácil encontrá-lo andando pelas cercanias, tomando umas biritas no bar da esquina, ou com algum conhecido em uma das lojinhas da galeria, do que em sua sapataria. A galeria preserva profissionais raros de se encontrar na grande cidade. Um pouco acima de sua sapataria, o barbeiro Muniz, sempre com seu jaleco branco. Aprecio o seu silêncio e seu capricho, fico ali sentado mais de hora enquanto ele realiza com a tesoura os contornos e os aparos. Cortei hoje, nunca sei se está de bom ou mal humor. 

Mais acima, uma pequena loja com queijos de todos os tipos e origens. Lá no fim, antes da curva para a outra saída, o alfaiate Jessé, baiano de quatro costados, trabalha na sobreloja e faz do térreo um expositor de seu trabalho artesanal. Por certo nenhum deles deixará herdeiros, quando morrerem ou fecharem seus estabelecimentos. Terão seus lugares ocupados por alguma loja de celulares ou de apostas. Ainda há poucos meses havia em frente a alfaiataria uma lojinha de canetas com cargas recarregáveis. Eram dois irmãos e faziam até a tinta para canetas com pena. Os irmãos mantinham uma conversa muito agradável sobre as peripécias de seu negócio. Não durou muito e em um belo dia vi as portas fechadas. Não sei o motivo, me disse o zelador Barbosa, mas garantiu que era em definitivo. Dá para desconfiar sobre as razões, quem hoje em dia escreve à mão? E mais grave, quem escreve à mão com uma caneta diferenciada? 

Agora, aqui na mesinha interna do Alma, observo o seu Canuto sentado próximo à saída da galeria com seu boné republicano, às falas com Barbosa, as pernas dobradas e o cigarrinho de palha numa das mãos. Penso que leve a vida como um verdadeiro existencialista: o que vale é o aqui e agora. Na verdade, provavelmente sem o saber, ele representa um perfeito republicano espanhol existencialista, saído dos anos 1930 direto para sua sapataria. Eu costumo lhe perguntar sobre a Guerra Civil Espanhola, ele me resmunga respostas. É outro que faz da voz um murmúrio quase inaudível, ou começo a ter problemas de audição.



02 dezembro 2025

Entre feras e chacais


Não é Gaza, 2025; é Haifa, 1948

Gaza está às moscas, ninguém falava antes, ninguém fala agora. Surge no horizonte dos noticiários a intervenção na Venezuela. Até bem pouco tempo atrás, um descaramento diplomático, hoje, uma possibilidade natural. Etapa final do capitalismo, matar antes de morrer. A pergunta que não quer calar: até onde a camarilha republicana pode bancar isso? Qual o limite para o silêncio do mundo diante de ações absurdas desse naipe? Não sabemos. Aliás, sabemos pouca coisa. Quando o mundo se transforma em um faroeste de segunda linha, tudo é possível. 

De sua parte, o junk journalism persiste, se renova, torna-se mais sórdido. Sua presunção fantasiosa não chama mais a atenção, do ponto de vista ético. As pessoas estão cada vez mais despreparadas para o embate humanista. De modo que a mentira se expressa como autêntica verdade, até que logo ali adiante, seja superada pelos fatos. É narrada em um tom formal, como se não houvesse outras interpretações possíveis para os acontecimentos; é elaborada nos mínimos detalhes (presumidos), não apenas distorcendo a compreensão da notícia, mas o que considero mais grave, construindo verossimilhanças que superem – e mesmo contradigam – os fatos. 

Os filminhos de narrativa paralela, como Nárnia, com seus leões, feiticeiros e peregrinos, fizeram bem o serviço de deslocar as consciências para um outro plano e fazê-las sonhar. Enquanto isso, a leitura criminosa do junk journalism desbasta a floresta do mal, a serviço do chefe. Há que se ter muito sangue frio nas veias e uma boa dose de canalhice no caráter para se transformar em um chacal. O pistoleiro contumaz não se aflige, nem antes, nem depois: sua moral é matar antes de morrer, seu desejo é sobreviver como um herói. Aprende logo a apertar o gatilho, toma gosto dessa prática e depois só lhe resta dormir como um anjo.



29 novembro 2025

Refeição ao ar livre

 



Ontem, o impactante Teorema de Pasolini, no CineSesc. Um retrato fragmentário da sociedade burguesa dos anos 1960, da fragilidade ideológica de seus integrantes, quando se percebem em uma vida sem grandes projetos. A presença alegórica dos personagens que compõem uma família e uma empregada, e os descaminhos a partir da presença de um visitante ilustre. 
O filme é praticamente uma leitura do livro homônimo de Pasolini. Abro-o e identifico praticamente cada sequência do filme. Abaixo, destaco o breve capítulo Refeição ao ar livre, relembrando cada detalhe do cenário constituído pelo diretor/autor. Um pequeno detalhe do complexo e ainda assim maravilhoso filme.
 

A família toda - como nos belos dias do verão, antes de começarem as férias - almoça no jardim. Emília serve à mesa.

Ninguém fala, e o único ruído vem de um rádio estúpido e distante - e que parece festivo. 

Embora escondam um segredo não partilhado, os olhares que Lúcia, Pedro e Emília só têm para o hóspede estão cheios de vibração e pureza.

Só Odete, fechada na sua agressiva palidez de pequeno coelho branco, parece ignorá-lo: e o faz quase abertamente. Isso, porém, a perturba. Só ela, pois, está imersa em outros pensamentos e não tem olhos para o hóspede. Porque até o pai - após as vicissitudes da noite ainda pálido e exausto - o contempla com um olhar que jamais teve antes.



As plagas para mais além


Praga, 1994


O passado em Buganvília remontava de súbito como um desmundo, como toda referência em seus prazeres e rudezas. Posicionava-se como uma história sonolenta e ainda não adormecida, e isso ficava cada vez mais claro ao andar por entre as pessoas e observá-las girar pela praça da fonte. nada mais esperado que o fluxo contínuo de sensações o conduzisse à remissão do passado, confrontando situações dispersas no tempo... Acercava-se, então, à esquina... quando olhou para o outro lado da rua e teve uma vaga imagem, sob o manto das penumbras indefinidas do final de tarde, de uma fileira de casas que se sucedia em um nível mais elevado em relação à rua. A visão imaginosa expôs estéticas mais modernas de construção, casas de alvenaria frondosas e arejadas, cada qual prolongando para os fundos extensos quintais onde projetavam-se árvores frutíferas, com estruturas de concreto para o churrasco, algumas com piscinas, a maioria apenas tendo o gramado com plantas ornamentais nos limites dos terrenos, que se completavam com cercas ou muretas de tijolos... Ângelo pensou, O medo social ainda não chegou em Buganvília... onde era evidente que o temor pela segurança não fazia qualquer sentido. 



14 novembro 2025

Conversa com Gardel




Tenho dormido profundamente, despertando a tempo de tomar o desjejum no hotel. Enquanto bebo minha taça de café preto, me perco no bulício vindo da rua, através da enorme vidraça, sem me preocupar em ordenar as impressões. Mais dois goles e desponta um flash, a lembrança perdida e renascida inesperadamente de um sonho tido na madrugada. Apareceu na íntegra, embora aos fragmentos. Um homem velho à beira da cama, coberto por toalhas de banho. Segurava em uma das mãos um fósforo, insuficiente para iluminar o ambiente ou para aquecê-lo no frio do quarto. O rosto indiscernível, olhava estático para o lume a queimar lentamente. Perguntei-lhe então se o que havia dito na conversa da noite anterior era real, se de fato tinha alguma vez conversado com Gardel. Fiz a pergunta em castelhano, onde estaríamos, em um hotel fuleiro de Buenos Aires? Quem era aquele velho que olhava obsessivamente para a chama do fósforo, Quiroga, Macedônio Fernandez, meu pai?... A penumbra que envolvia a habitação não permitia revelar muita coisa, mas conclui que a cena se passava nos anos 1930: a pequena pia ao fundo, o par de botinas junto à cama, o pijama branco e inteiriço... Não me respondeu à pergunta, manteve-se imóvel, calado, à beira da cama, sem desejo de levantar-se ou de voltar a dormir. A barba pontiaguda dançando ao fragor da luz pálida do fósforo... Não, não era papai, ele nunca teve barba e não gostava de Gardel.

 

(trecho do novo romance Morrer, Viver, ainda inédito).



30 outubro 2025

De Gaza ao Complexo do Alemão

 


Uma vez momentaneamente suspensa a matança em Gaza (fica ao critério do governo sionista retomar), a atenção midiática se volta para outra matança, em outro local geográfico, mas nos mesmos moldes, o Complexo do Alemão. Sem a necessidade de tanques ou foguetes, bastou uma tropa com 2.500 homens da polícia do Rio de Janeiro armada com fuzis para realizar  o mesmo morticínio de um dia pesado em Gaza, mais de 130 mortos. Nada justifica uma ação destas proporcões, com tamanha violência e sangue frio. Por mais que o alvo tenha sido grupos de traficantes criminosos, a operação espetaculosa a denuncia por si mesma. No meio do fogo cruzado, a vida de civis pobres sem nenhuma garantia. O que se viu ontem - e o que se ouve hoje do governador Claudio Castro - foi uma brutalidade atroz, que por mais amparada por uma estratégia militar, fracassou rotundamente porque aquelas mortes não significam o fim de nada. Nem tampouco o princípio. 

Há quase trinta anos João Moreira Salles lançava o seu chocante documentário Notícias de uma Guerra Particular, em que se mostrava a ação policial em busca de traficantes nos morros cariocas, em um combate extenuante e sem fim. No meio, a população absolutamente exposta, sem saber o que fazer, seduzida pelos contraventores e temerosa da polícia. Hélio Luz, então delegado carioca, comenta no filme que só um idiota para não aceitar um emprego no tráfico, em vez de trabalhar por salário mínimo. E se eles quiserem, eles tomam tudo isso daqui... referindo-se à cidade do Rio de Janeiro. Seu discernimento foi impressionante, compreendia perfeitamente o que estava enfrentando. Hoje, não acredito, nem espero qualquer lucidez dos homens que governam o Estado. Embaçados e embasados na ideologia bolsonarista de que bandido bom é bandido morto, mobilizam a roda da desgraça sem qualquer critério humanista, sem qualquer objetivo de atingir o coração das grandes negociatas do narco.

O medo, como construção social, se espalha e ganha novos adeptos. Mais do que isso, faz com que qualquer terceirização (transferência) do problema seja vista como solução. E aí, estamos a um passo de ver a população como um todo ver com naturalidade a escalada de uma violência, que com essa metodologia miserável de querer resolver à bala, promete não ter fim.



29 outubro 2025

Não deixe de usar flores no seu cabelo

 

Café Soul, rua Augusta

Dia 27, aniversário de 80 anos do presidente Lula, que no domingo teve um encontro decisivo como Donald Trump e encaminhou muito bem o fim do patético tarifaço do início do ano. Parabéns, presidente, que acima de tudo deu uma aula de diplomacia no bolsonaristas, que ainda acreditavam no emparedamento de Lula com vistas às eleições do próximo ano! Viva! Uma vitória após a outra sobre como presidir democraticamente uma Nação!

Também no dia 27, 15 anos da morte de Néstor Kirchner, grande ator político da Argentina dos primeiros anos deste século. Juntamente com Cristina, sua esposa, conduziram por 12 anos os destinos do país, proporcionando bem-estar aos argentinos, equilíbrio fiscal e autonomia econômica. Foi o período em que mais visitei a Argentina e pude confirmar a estabilidade política e as perspectivas promissoras que então se alinhavam no horizonte. Tudo ao contrário do que ocorre hoje, com o governo de Milei.

No domingo, 26, ocorreram as eleições mi term na Argentina, com renovação parcial das cadeiras do legislativo. Vitória abrumadora do partido de Milei, Liberdade Avança, após forte apoio da Casa Branca - entenda-se Donald Trump - com um substancial pacote de recursos Swap de 20 bilhões de dólares para estabilizar por estes dias o câmbio. Poucos dias antes, o presidente estadunidense aprovou o apoio financeiro dizendo que A Argentina estava lutando pela sobrevivência... Eles não têm dinheiro, não têm nada... A grande questão que fica, como um país conduzido à beira do precipício por um governo incapaz como o atual vota pela fortalecimento legislativo desse mesmo governo incapaz?

Os peronistas perderam 2 cadeiras das 98, conseguindo manter seu universo de votos. O problema foi o avanço de Libertad Avanza, que de 44 subiu para 93 cadeiras. No senado, o quadro ficou pior, Fuerza Patria (peronismo) caiu de 34 para 26 cadeiras, e o partido de Milei saiu de 6 para 19. Seguramente virá a reboque desse terremoto as tão prometidas reformas previdenciárias e trabalhistas, além de novas privatizações do serviço público. Um horror que vivemos há nove anos, com a queda de Dilma e a ascensão de Temer e mais tarde, da eleição de Bolsonaro. 

Os argentinos têm uma longa e dura caminhada até que um governo efetivamente vinculado ao bem-estar social retorne vitorioso ungido pelas urnas. Bessent e os capitalistas estadunidenses buscarão o retorno devido a esse empréstimo e saberão como negociar em condições bastante vantajosas os imensos recursos argentinos. Será um período muito difícil para a maior parte dos argentinos, mas vejo um desdobramento nada auspicioso do governo Milei, profetizando seu completo descalabro. Serão dois anos difíceis para ele também, e se o roteiro do fracasso de Macri se repetir, ele sai da cena política em 2027. É o que ele merece, e o que sinceramente espero.

Não posso terminar este post com notícias tão desairosas. Ontem mesmo (mas agora já é 29, ou seja, na verdade anteontem...) recebi um bonito vídeo de Scott Mckenzie, cantando sua inesquecível canção San Francisco. Estava jovem, vestido de negro em um estúdio negro, a câmera dos anos 1960 capturando sua imagem em diversos ângulos, um típico exercício estético de uma época. Mas San Francisco possui no título um complemento, Be sure to wear flowers in your hair, frase que certamente influenciou toda uma geração pelo seu significado. Ainda hoje, a cidade de San Francisco exala algo da irreverência daqueles anos de beleza e rebeldia, de paz e amor, como se fosse imprescindível usar flores no cabelo...


 


17 outubro 2025

Halt (Deténganse)

 


Es Auschwitz 

la fabrica de horror que la locura humana eligió a la gloria de la muerte

Es Auschwitz 

estigma en el rostro sufrido de nuestra época

y ante los edificios desiertos, 

ante las cercas electrificadas, 

ante los galpones que guardan toneladas de cabellera humana

ante la herrumbrosa puerta del horno donde fueron incinerados

padres de otros hijos, amigos de amigos desconocidos, esposas, hermanos, niños que en el último instante envejecieron millones de años

pienso en ustedes, pedimos por su salud y por ustedes

pienso en ustedes, hombres de la tierra de Sión

pienso que estupefactos desnudos, ateridos, cantaron la hatikva en las cámaras de gas

pienso en ustedes y en vuestro largo y doloroso camino desde las colinas de Judea

hasta los campos de concentración del Tercer Reich

pienso en ustedes

y no acierto a comprender

cómo olvidaron tan pronto el vaho del infierno.

        

(Sílvio Rodriguez, recitando Deténganse, un poema de Luis Rogelio Noguera, BsAs, 12.10.2025).



30 setembro 2025

Kerouak, quem diria, já era


McCoy Tyner, sempre um espetáculo

Não basta nestes tempos ser apenas um escritor cuidadoso, versátil, imaginoso, ele tem de ser mais, e suas narrativas têm de se sincronizar com os temas pulsantes destes tempos. Parece um círculo vicioso sem graça, mas é isso, você começa a escrever, avança e não pode esquecer-se dos assuntos que mobilizam no presente momento, LGBTQIAPN+, o autoritarismo político (decorrente da ascensão de Trump e do filme brasileiro Ainda Estou Aqui); dos grupos marginais da sociedade; dos povos originários aos precarizados das margens urbanas, ou a violência de gênero. Há um chamariz encantado nesses temas que promovem uma atenção sempre especial, 

Não basta escrever sobre a memória social, em seus pequenos desdobramentos cotidianos, ou sobre a velhice e seus limites. Sobre a morte e outras surpresas, por exemplo, como escreveu Benedetti. Adquiri há pouco, aqui na livraria do cine Petrobras o livro finalista do Prêmio São Paulo, No Muro da Nossa Casa, um pequeno romance de Ana Kiffer, além de escritora, professora de literatura na PUC-Rio. Quero ler, claro que o tema me agrada, mas também quero espreitar os caminhos que a conduziu para que este livrinho de menos de cem páginas ganhasse destaque, dentre certamente as centenas de outros que concorreram. 

Talvez seja um bom sinal ter a quarta capa e a orelha escritos por escritor e político conhecidos e respeitados. Talvez. Há uma sistemática semântica (atravessou-me por um instante, que exagero, o termo cunhado por minha amada M. em outra circunstância, a mesmice discursiva) aqui presente que se destaca, e isso é importante conhecer. No mais, o tratamento visual do livro é discreto, assim como a editora, uma pequena casa do Rio. Já não é mais assunto uma narrativa do tipo on the road, à maneira de Kerouak, pé na estrada, um tema que pode ter fascinado, por sua originalidade, nos anos 1950. Demorei tantos anos e só o adquiri ontem, porque estava em promoção na livraria aqui ao lado. Quero ler logo, mas à despeito de sua força e atração, não teria muito apelo editorial nos dias de hoje.



17 setembro 2025

Das trevas, para um novo tempo


Arnaldo Antunes, show Novo Mundo


Como é triste ver tanto desconsolo junto. Mas chegará o dia, e não tenho a menor dúvida, de que toda essa balbúrdia política proclamada com tanta pompa e pouca substância pela direita no mundo será desmascarada, e seus cúmplices devorados pelo ocaso. Pelo menos por uma geração, ou duas, tal como ocorreu com o fascismo europeu dos anos 1930. Há, no final das contas, uma fragilidade humana que procura se travestir de heróis justiceiros e, com isso, pobremente convencer as pessoas de que agem de acordo com a justiça e a liberdade. E maltratam. E assassinam. Lançados uma vez mais ao proscênio das ações políticas, essas lideranças xenófobas reagem às demandas populares com sua habitual retórica verborrágica, que por um momento entusiasmam, para depois consubstanciarem o trágico. 

Como se o aprendizado histórico não tivesse mais efeito, e toda a tragédia precisasse ser revivida, com uma outra roupagem. Desta vez, nenhuma guerra mundial salvará a humanidade de tantas personagens lamentáveis; restará a ação da resistência de uma esquerda de distintas colorações que, em um trabalho difícil, persistente, assumirá para si e para o mundo a consolidação de bastiões democráticos, renitentes, consistentes, a rebater os malefícios socio-político-econômicos dessa safra de tiranos. Não faço a menor ideia de quanto isso dura, mas a farsa irá sucumbir diante das evidências. Estamos todos compelidos à luta de nosso fundamental de nosso tempo. 

E não há como medir esforços para romper a ignorância política, com o compromisso de restabelecer o convívio entre adversários (e não a produção de novos inimigos), a prática indispensável dos intensos, indispensáveis e verdadeiros embates políticos. 



02 setembro 2025

Sobre um prefácio



 

Um mundo de diferenças

 

Nunca silenciarás minhas melodias,

Porque sou o amante da terra,

O trovador do vento e da chuva.

Salem Jubran (1941-2011)

 

Quando F. me pediu para escrever o prefácio de seu romance, aceitei sem pensar duas vezes, ao acreditar que com a leitura, vivenciaria novas impressões dos espaços devastados da Gaza de nossos dias. Meses antes, já havia saído de uma incômoda experiência, definida pela infindável pesquisa a que me submeti sobre a cultura palestina, ao concluir depois de muitos anos minha peça Terra Devastada, cujos personagens transitam de uma realidade atormentada por bombas e proibições, à realidade etérea da vida após a morte. 

Perguntava-me, o que mais poderia apresentar o romance de F.? Pois foi essa a bela surpresa. Com a leitura, não contava deparar-me com a fantasia, com as paixões e angústias como reflexos de um mesmo espelho, a mover a história, a ilustrar as tensões subjetivas que escondem seus personagens tão humanos. Em meio a um espaço conflagrado, eis que emerge o valor dos sentimentos, fazendo o leitor a compartilhar sonhos e confissões. Os percalços estão nos momentos de lirismo de cada indivíduo tolhidos pelo genocídio em curso, com o jogo de vozes narrativas a expandir-se indefinido entre o tempo presente e o tempo passado, entre o tempo da realidade cotidiana e o tempo mítico, assim como o reflexo nos espelhos denota a dualidade entre o real e o imaginário.

A dor e o sofrimento pelo que acontece em Gaza, e mais especificamente, em Rafah, surge aqui e ali, no transbordamento das personagens, que se sucedem tal qual uma apresentação teatral, em que a luz da cenografia os trazem ao proscênio para mitigar suas aflições. E nada parece escapar ao escrutínio das emoções, e o mundo real a cercear o distanciamento que é lembrado na narrativa indireta, Raquel nutre em si raiva e indignação. Raiva e indignação pela dor das mulheres que veem os filhos explodindo pelos ares e pela dor dos filhos diante das mães desfazendo-se em sangue, ossos e lágrimas (...).

É no capítulo Montanha Mágica que sobrevém a fantasia, como uma necessidade para contribuir com os fatos históricos, a ideia de um casal fundador, que uma vez desaparecidos, retornariam com um exército de anjos para salvar Rafah dos fuzis e bombas. Não há qualquer incompatibilidade nessa mitologia, ainda mais se considerarmos o cul-de-sac em que os palestinos se encontram hoje, cercados e à beira de mais uma expulsão sionista. Como na poesia de Refaat Alareer, em que uma criança olha para os céus no aguardo de seu pai, desaparecido em um resplendor, e ao mirar um barrilzinho voando alto, imagina que ali existe um anjo trazendo de volta o amor e a esperança.

Há sempre a leveza na escrita de F., que enseja a leitura continuada. Os capítulos se sucedem em novas revelações, conectando-as com o já conhecido: a narrativa assim não nos deixa reféns do desconsolo; nas fronteiras de Rafah procura dar a tensão subjetiva da vida que nos é negada nos relatos jornalísticos. Assim, Emmanuel, Raquel, Ava, Cashemira, despontam com suas dúvidas, embrenhados em uma tormenta psicológica que estremece o ser, tal como as bombas de um inimigo invisível. Em um ambiente de turbulência sem fim, a destruição é simultânea e nada poupa, seja o mundo pessoal com seus afetos, seja o mundo coletivo com a força de uma cultura.



31 agosto 2025

Poesia Palestina



 

Se devo morrer


Se devo morrer,

você deve viver

para contar minha história

vender minhas coisas

comprar um pedaço de tecido

e uma corda,

(que seja branco com cauda negra)

para que uma criança, em algum lugar de Gaza,

enquanto olhe o céu nos olhos

esperando a seu pai que se foi em um resplendor -

e não se despediu de ninguém,

nem mesmo de sua carne,

nem de si mesmo -

veja o barrilzinho, meu barrilzinho que fizestes, voando alto

e pense por um momento que ali há um anjo

trazendo de volta o amor.

Se devo morrer

que traga esperança

que seja um conto.


(Rafaat Alareer, 1979 - assassinado em 06.12.2023)


Entre estrangeiros

(Gaza, 1951)

fragmentos


Pai!

Por favor, por Deus, diga-me

Iremos algum dia a Jaffa?

Sua preciosa imagem

segue flutuando diante de meus olhos.

Regressaremos a ela algum dia com orgulho, 

apesar desses tempos, com dignidade?

Diga-me, entrarei em minha casa?

Entrarei nela com meus sonhos?

E a encontrarei, e ela me encontrará?

Ouvirá meus passos?

Entrarei através deste coração

tão nostálgico, tão sedento?


Pai,

se tivesse, como os pássaros

asas para levar-me,

haveria voado com um desejo despreocupado

pela saudade de meu país.

Mas sou da terra;

a terra continua atando-me.


Vamos recuperá-lo,

retomemos este país

nunca aceitaremos um substituto,

nunca aceitaremos um preço por ele!


Nenhuma fome nos matará,

nenhuma pobreza nos esmagará,

a esperança prevalecerá

cada vez que a vingança convoque.

Paciência, filha minha, paciência.

Amanhã, a vitória estará de nosso lado.


(Harun Hashim Rasheed, 1927-2020)


(tradução livre do espanhol realizada por Marco Antonio Bin)



29 agosto 2025

Chalámov e outras rememorações


As narrativas de Chalámov


E aí estão mais uma vez as memórias de nossos atos, de nossas situações vividas, de nossos lamentos, de nossas não tantas, porém saudáveis alegrias. Cada qual as reporta à sua maneira, de Primo Levi, com que facilidade o homem se esquece de ser um homem, a Chalámov, lembre-se do principal: o campo é uma escola negativa para qualquer um (...) quanto a mim, decidi que dedicarei todo o resto da minha vida justamente a essa verdade. Claro que se trata aqui de recordações individuais que se tornam universais pela brutalidade humana, no trato com humanos. 

As histórias de Varlam Chalámov me seduzem em um aspecto simples, o espírito de sobrevivência onde é quase impossível sobreviver. E nos descreve como se dá o inverno, se há nevoeiro gelado, na rua faz quarenta graus abaixo de zero; se o ar da respiração sai com ruído, mas ainda não é difícil respirar, então, quarenta e cinco graus (...) abaixo de cinquenta e cinco graus o cuspe congela no ar". Boris Schnaidermann que faz o prefácio do livro, diz que o leitor deve ficar imerso em um grande cansaço espiritual, não basta a simples leitura. E é assim que ocorre, história após história, ao mesmo tempo que somos capturados pela narrativa de Chalámov, nos cansamos espiritualmente em deparar com tantas situações duras ao extremo para se contornar. 

Soljenitzin ao descrever Um dia na vida de Ivan Denissovitch, expõe o terrível de uma jornada em um dos gulags stalinistas, a amargura e o sofrimento que por sua vez, como nas obras anteriormente citadas, revelam a honestidade dos relatos, deixando o leitor de algum modo ciente pelas coisas reveladas e que tinham de ser ditas. 

Creio que assim ocorre com todas essas narrativas recordatórias, que aportam uma nova dimensão da intolerância humana, ultrapassa os muros desses campos e nos alcança tal qual uma lança no peito. Formas de tormentos humanos que graças à competência em se contar sobre a dor e a torpeza, esses escritores imprimem a ferro e fogo nas páginas de nossa civilização. 

Mas também se pode alimentar a memória considerando as passagens efêmeras que nos encantam. No conto Cartas, do meu recente livro Cenas que se diluem com o tempo, estão ali registrados, em sequência, a beleza das recordações alinhavadas nas cartas de um tal de Vincent ao irmão Theo; de um certo Severino Giovani a sua amada América Scarfó e de uma mulher anônima que reencontra, após décadas, o caderno contendo os poemas escritos a ela por seu amor. Lembranças passageiras que destaquei de outras lembranças apaixonantes e que designam, estas sim, o orgulho de nossa condição humana.



11 agosto 2025

A apresentação de Cenas...


Cenas que se diluem com o tempo, ed. Urutau


Será nesta terça-feira, dia 12, o lançamento de meu quarto livro de contos, Cenas que se diluem com o tempo, resultado de chamada feita pela editora Urutau. Junto ao prazer de lançar o livro publicamente, a satisfação de reencontrar pessoas que fazem parte de minha história, e que seguem de alguma forma próximas de mim. Tudo acaba sendo um privilégio, desde a possibilidade de redigir, preparar e lançar uma obra, a poder estar em contato com o carinho de tanta gente querida. Quem puder, cola lá!

Bar Balcão, Rua Dr. Melo Alves, 150, Consolação, das 18h às 21h. Um lugar muito bacana.

Grande abraço.  



08 agosto 2025

Hiroshima, por Tamiki Hara

 

Gaza, tal qual Hiroshima


Oitenta anos da hetatombe atômica de Hiroshima. Retomo o livro Flores de Verão de Tamiki Hara, um dos poucos sobreviventes, sua descrição límpida, serena, como se tudo não tivesse passado de um lamentável equívoco, ou algo muito previsível de acontecer e portanto, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. É uma narrativa dentre tantas que poderiam surgir, por toda a tragédia, Tamiki Hara consegue manter uma linha cronológica que de alguma forma situa o leitor diante de tanto horror. A cidade destruída, tal como aparece nas fotos aéreas, tiradas pela força aérea dos Estados Unidos, ocorreram com os escombros já frio. Mas na descrição de Hara, as ruínas estão escaldantes, muitos focos de incêndio e fumaça. O que existia deixou de existir, e essa constatação surgem de modo indireto, quando ele relata que pelo terreno plano, havia chegado a uma rua, ou que o bosque de bambus tinha sido derrubado. 

Talvez seja esse modo oblíquo de descrever que torne o livro fascinante, pois exige que o leitor interprete o que exatamente significava toda a destruição ao redor. No capítulo final, escrito anos mais tarde, é interessante ver as relações que Tamiki Hara cria ao se descrever, ao falar das coisas ao redor, na sucessão delicadamente opressora dos acontecimentos. "O que surge nos meus olhos, porém, é a imagem das pessoas em desalento a observar os trilhos. Sempre penso que perto deles vagueiam as sombras de pessoas com a vida devastada, atiradas num local de onde, ainda que lutem, não conseguem se desvencilhar".

Sobreviver ao ataque atômico exerce uma dor estranha, indescritível como o trágico evento, e permanente, que não se descola por um minuto da consciência de mundo. O sucesso de sua narrativa, a beleza das flores, a reorganização social, os raios de sol, tudo parece exercer uma beleza secundária, que não recompõe mais o modo de ser. E o modo de ser já não se define por "sou isso" ou "sou aquilo", de maneira concreta, como se a fragmentação da cidade só lhe permitisse ser as coisas volúveis de um sentimento passageiro. Assim, tudo é perceptível de modo suave, com um valor indispensável, uma rajada de vento, o aroma primaveril sussurrando poemas, pinturas e músicas, "Apenas o ardor da vida emite um súbito raio de luz, e a cotovia, tendo escapado aos limites humanos, se converte em estrela cadente". 

A tragédia criminosa de Hiroshima não deixa de pulsar no coração dos seres sensatos, assim como Gaza o faz em nossos dias.

 

29 julho 2025

As cenas do cotidiano






E por fim, chegaram! 

Uma bela partilha de livros que estarão presente no lançamento, em breve. Um livro que tive grande prazer em organizar, com seus textos abordando diversos gêneros, escritos ao longo dos últimos vinte anos. Estruturados em duas partes distintas, cada qual com o mesmo número de narrativas, a primeira expressa em uma proximidade mais acolhedora, e a segunda em um olhar mais árido, mais distante, os textos oferecem os afetos, as impulsividades, as penumbras de recortes cotidianos, que fazem diluir a força e as certezas dos sentimentos, o que faz da memória o derradeiro testemunho do relato. 

Para logo, o encontro com amigos leitores e com quem mais desejar se aproximar.



23 julho 2025

O fim, e as questões singelas




Como é difícil olhar vez ou outra para esse congresso e deparar com tantos imbecis eleitos se manifestando a favor de Trump! Mais difícil é imaginar que muitos desses tantos imbecis serão reeleitos na próxima eleição, ainda que trabalhem para o fim das políticas sociais. Um dos filhos do ex-presidente segue fazendo campanha contra o Brasil, lá nos EUA. Trump, ansioso e pouco informado, tascou um tarifaço de 50% nos produtos brasileiros, que passa a valer a partir de 1. de agosto. Se a diplomacia brasileira não for bem-sucedida nas negociações em curso (há negociações?) Lula deverá aplicar a política de reciprocidade, e taxará em 50% os produtos estadunidenses. Mas o absurdo é ver o filhote babaca mais essa bancada bolsonarista dando toda a corda para Trump. Ela não tem escrúpulos, desfralda bandeiras com o nome do presidente estadunidense em pleno congresso! O neoliberalismo cacarejando sem qualquer noção de como proceder, em um mundo cada vez menos dependente da economia dos EUA e expandindo as relações multilaterais. Os Brics ganham musculatura e isso nos enche de esperança, é o que nos resta, é o que se contrapõe ao que Yanis Varoufakis chama de tecnofeudalismo, onde as plataformas digitais atuam como feudos nas nuvens. Em outras palavras, elas não produzem nada, exceto reunir produtores e consumidores, para que o dono desse feudo na nuvem possa extrair uma renda, que é como a renda da terra no feudalismo, mas agora é uma renda da nuvem baseada em capital. Aí estão os Musks, os Bezos, os Galperins, a fazer fortuna em nome da precarização do trabalho. Concentração de poder e riqueza, à expensa da imensa maioria desafortunada.

As falidas lideranças neoliberais fomentam a exploração do capital em novas vestes: sujeitam-se aos ditames desses novos superpoderosos, em nome da extinção do Estado. Não conseguirão, e não porque o socialismo prevalecerá, mas porque a tirania tecnológica será pesada demais para os anseios irrefreáveis desses autocratas, meros pistoleiros do entardecer, condenados desde sempre a prestar contas à justiça social. Essa justiça social pressupõe uma resistência que abarca os seres humanos determinados a lutar pelo bem-estar do outro. Como disse Antonio Cândido, o grande homem é aquele que descobre quais são as necessidades fundamentais do seu tempo e consagra a elas a sua vida. Os indivíduos livres e responsáveis estão alinhados a esta consigna.

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Estes dias têm sido de leituras fragmentadas e pouca escritura. Visitei mamãe no domingo, pudemos conversar ao longo da tarde sobre a viagem dela com minha irmã até Buganvília. Confesso que me despertaram o desejo de lá regressar, ainda que o cenário seja desolador. Com a morte de minha tia Romina, sobra apenas a tia Neli, em meio a uma cidade transformada. Segundo minha irmã, não há mais nada que lembre a velha Buganvília. Ou nós estamos velhos e a cidade se remoçou, modernizando-se. Não há mais casas de madeira, não há mais ruas sem asfalto ou de paralelepípedos. Muitos dos pontos de referência desapareceram, como a loja de meu avô, ou o clube da cidade. Meu bom tio Rosario, com a morte de sua esposa, ficou solitário na farmácia que sempre teve, na avenida Brasil. Meu romance é um derradeiro chamado àquela cidade que conheci, e minha descrição se remete a um tempo que não mais existe. Talvez agora valha a pena reler o livro e depois retornar a Buganvília.