09 agosto 2009

A hora do macaco


Quando começa a refletir, o homem toma consciência de que não dispõe de certeza, nem de apoio.
Karl Jaspers
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Agustín Días aproxima-se da taberna com dificuldades. Está particularmente exausto, e a esta hora, bastante sedento. Suas botas apertam de um modo cruel os pés maltratados pela caminhada. Sente o transbordar de um suor incômodo, que lhe encharca a camisa e as calças esfoladas, gastas pelo uso contínuo. Aos poucos, o sol se refugia por trás das dunas no horizonte longínquo, amenizando o calor tórrido da jornada. O céu límpido não prenuncia mudanças, prometendo uma noite estrelada e fria...
Nem uma leva brisa para romper a imutabilidade do lugar, a porta range ao ser aberta aos poucos...
Uma vez no interior da taberna, Agustín constata o silêncio mortal, nenhuma alma viva, fato estranho uma vez que a essa hora o lugar mostra-se habitualmente carregado de seres errantes do deserto e, sobretudo, de mulheres vindas sabe lá de onde. Não se aflige com o inusitado. Agustín agora senta-se num banco em frente ao balcão e observa as prateleiras robustas, de boa madeira, preenchidas por garrafas de tequila, enquanto aguarda algum movimento.
As garrafas o distraem. Observa-as, com o desejo mortal de um gole para molhar um pouco a garganta ressequida. Amarga certo desgosto pela situação, certa impotência pelo prazer impedido. Não abandona as garrafas, acariciando-as com os olhos, contendo o impulso de atacá-las, acreditando que será uma questão de tempo ver o seu copo cheio. Olha para um lado, para o outro, está com os braços cruzados sobre o balcão. Ninguém. Volta às garrafas de tequila, Minhas queridas...
Custa a virar-se para o centro do salão. As cadeiras e as mesas estão estranhamente empilhadas num canto, ao fundo. Sem dúvida, um inquietante abandono. Ao que se recorda, e Agustín faz um esforço neste sentido, Juarez, o dono da taberna, não lhe disse sobre um possível fechamento nesse dia. Agustín divertiu-se bastante na noite anterior, aliás, não se recordava de uma farra tão alegre e divertida como aquela, e ali está ele de volta, pronto para mais uma noite movimentada. Olha para o teto, vê as pás dos ventiladores imobilizadas desde há séculos, inúteis para afastar o calor ainda reinante. Agustín sente-se pouco à vontade, agora atenta para suas roupas empapadas de suor e areia. Atira a mochila junto a uma pilastra no centro do salão. Fixa-se no chão, esfrega a bota, ouve o ruído áspero do atrito com a madeira, coberta com grãos de areia, enquanto reflete por um instante numa idéia, numa vaga idéia. Estende aos poucos o olhar para mais adiante, até onde a penumbra permite distinguir o espaço do salão. Acaricia com os dedos o queixo mal barbeado. Não dá mostras de animar-se, a transpiração recrudesce, toma-lhe o corpo. Num gesto mais decidido, leva a mão direita ao peito, abre os botões da camisa e sente o suor pegajoso...
Não deseja ficar assim, pensando coisas. Acredita que os amigos da noite anterior chegarão a qualquer momento, para prosseguirem a diversão. Resolve girar no banco e coloca-se mais uma vez diante do balcão, a fim de dedicar-se as suas garrafas. A visão está um tanto turva, os ombros arqueiam-se para frente, como se suportassem um peso enorme, e quando leva os braços sobre o balcão, esbarra incrédulo em um copo com tequila, a sua disposição. Agrada-lhe a surpresa e sem perda de tempo, vira garganta abaixo o precioso líquido. Desaba a mão com o copo vazio sobre a madeira, num estrondo que ecoa pelo ambiente. Degusta feito um coiote saciado o resto da aguardente retida nos lábios, começa a sentir-se feliz por estar ali.
Passa a ouvir, após alguns instantes, notas alegres provenientes do piano, a voz indefectível - um pouco distante é verdade - de Mary Bay cantarolando. Do lado oposto, as gargalhadas sonoras de Benitez, seu velho amigo. A imagem de Juarez limpando copos e servindo-lhe mais um gole parece-lhe ainda incongruente, enquanto ouve outros colegas entrando taberna adentro, ruidosamente, sequiosos também para o primeiro trago. Seu espírito é preenchido por uma satisfação crescente. O calor que o angustiava agora o extasia... passa a vislumbrar o que pode das mulheres, do pôquer, das gargalhadas com hálito de tequila e cerveja... Esvazia o terceiro copo, pedindo ansiosamente por mais um. Anima-se com a pianola tocada pelo velho Romero, que completa o clima festivo do lugar... Olha mais uma vez para o canto do balcão, onde entreviu Juarez engraçando-se com Juju Buterfly, e não os vê.
Perdeu Juarez e, inesperadamente, todo o movimento que se insinuava no interior da taberna. Nem a melodia aveludada cantada por Mary, nem Gustavo el guarachero, ou Roberto, o contador de histórias, el conquistador del mar... todos, num piscar de olhos, perdem-se nas brumas do silêncio ressurgido. Nada mais; um vazio conclusivo, desolador e, ao fundo, mesas e cadeiras empilhadas. Agustín volta-se para o seu copo cheio de ar. Talvez tudo seja uma questão de tempo, titubeia, ainda com um ranço de esperança mal apanhada a envolver-lhe a mente.
Não saberia dizer quanto tempo mais. Distingue vagamente uma engrenagem de ruídos, que se intensifica aos poucos. Aguça os ouvidos sem se mexer e ouve o galopar de cavalos, lá fora, na areia que se esfria. Os sons imprecisos se assemelham ao rodar de carroças, várias delas. Vozes, cavalos, o chicote estalando, o alarido chega e logo passa. Uma caravana. Também foram audíveis alguns cães velhos ladrando. Eles ladravam, enquanto a caravana passava. Agustín ouve e agora vê uma mosca. Ela pousa em sua mão.


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