02 novembro 2008

Sobre o otimismo



É preciso ir mais para além, mais para além da mera intenção em dizer que está feliz porque, afinal de contas, você é um otimista. Ou que descobriu seu caminho depois de ler Paulo Coelho ou O grande segredo. Se a alegria se deve ao caráter quietista desse otimismo, a isso em que as coisas se resolvem por uma saudável iluminação do destino, não duvido que logo essa bolha explodirá em dolorosa decepção. Para esse otimismo de faz de conta, prefiro o pessimismo de Benedetti, pois segundo ele, o pessimista é um otimista bem informado.

O otimista convicto não alardeia uma apreensão colorida de mundo para o mundo. Soa piegas e depois, bem, depois o otimismo não é uma graça, mas uma espécie de frescor consistente que mobiliza para a ação. Supõe a intervenção humana, consciente, destacando o essencial, a compreensão do compromisso. Sabemos que neste mundo pós-moderno não existe disposição para que as proposições elaboradas sobrevivam. Ou, em outras palavras, que elas surjam depois de você se vender às mais pusilânimes tentações disponíveis, ao alcance de seu cartão de crédito. O mercado é prodigioso em oferecer cura às desesperanças, aos vícios e principalmente às dívidas.

Como diz Bauman, nos aprofundamos nos esforços individualizados por alcançar um lugar privado e protegido, em um mundo parecido com um bazar lotado e barulhento. Aprendemos a cada dia uma nova maneira de sustentar a nova ordem de nosso tempo, que impõe o isolamento saneador em relação aos diferentes, e essa espécie de otimismo de superfície, que satisfaz os pobres de espírito com uma sabedoria descartável. A experiência cotidiana se contorce sobre si mesma numa concorrência desenfreada, que oferece mais abundância e estimula mais ganância. É nesse ambiente de esgotamento que o otimismo pueril viceja: em um mundo que instiga o desejo de se tornar um winner, sua é a luta para não ser um loser.


Um comentário:

Maria disse...

Concordo. Acho que muias vezes o otimista é confundido com o esperançoso. O otimista é um ser que deixa de fazer sua parte esperando que o melhor vai acontecer. Para mim, o esperançoso faz a sua parte, tem um plano B e, com isso tudo muito bem planejado, espera que tudo dê certo. O pessimista só leva as coisas mais a sério do que o esperançoso e segue a lei de murphy a risca.