![]() |
| Foto de Fred Herzog |
26 fevereiro 2025
Carlos Fuentes e Nuestra Latinoamerica
18 fevereiro 2025
Reflexões de botequim
![]() |
| A lua da Bela Vista |
Mais para além, mais para além
da mera intenção em dizer que se está feliz porque, afinal de contas, é um
otimista. Assim, Rubem Montillo passou a refletir, enquanto comia sua fatia de pizza, no balcão da Santa Clara. Se a alegria se deve ao caráter quietista do otimismo, a isso em que
as coisas se resolvem por uma saudável iluminação do destino, não duvido que
logo essa bolha explodirá em lamurioso pessimismo. O otimista convicto não
alardeia uma apreensão colorida de mundo para o mundo. Soa piegas e depois,
bem, depois o otimismo não é uma graça, mas uma espécie de disposição natural
que mobiliza para a ação. Supõe a intervenção humana, consciente, racional,
destacando o essencial, a compreensão
do compromisso. O fato de estar
propenso a por si só revela o estado de espírito otimista por
excelência, sendo desnecessário encontrar razões para decliná-lo como uma força
mítica.
Desta forma, uma frase como hoje o dia está belo, sem umidade excessiva, sem ruídos, de uma luminosidade suave e morna, e de outra parte sinto uma disposição para escrever, para arrumar minhas coisas, de sorrir e clamar para as pessoas o quanto a vida é bela..., talvez não seja a banalidade desprezível de um pensamento da revista Caras, mas inevitavelmente o início de um torpor indigesto, propondo certo otimismo para terminar no vazio. Um torpor fútil, no caminho da prevalência do supérfluo. As derivas de Montillo esbarraram em uma frase que recordou de Benedetti, o pessimista é um otimista bem informado... Talvez bastasse para distrair-se em seu devaneio.
Mas prosseguiu, avaliou que na pós-modernidade não existe disposição para que as proposições elaboradas sobrevivam. Sem sustentar um olhar apreciativo e condescendente, subsiste à deriva esse ser-aí liquefeito, assustado, preconceituoso, esperando cada qual o seu Godot. Lembrou-se de uma frase de Bauman, não há sonho comunitário vigente, mas a sensação de segregação e exclusão... As amarras típicas de nosso tempo, que arremetem cada vez com mais força ao isolamento e à intolerância, sob a proteção dos muros salvadores. A relação cotidiana pode ser considerada como uma bênção, sempre com conforto e proteção entre os iguais. E Rubem Montillo pareceu chegar a uma conclusão momentânea, antes de pedir a segunda fatia: nesse ambiente asséptico desponta o otimismo pueril dos indolentes, que nada acrescenta a não ser desilusão e miséria.
11 fevereiro 2025
Letra e Alma
![]() |
| Paulo Cesar Pinheiro |
07 fevereiro 2025
Os mal-entendidos
06 fevereiro 2025
Cenas que se diluem com o tempo
![]() |
| A capa que não é a capa |
Ao
todo, temos 56 narrativas sobre os acontecimentos cotidianos, que na primeira
metade da obra descrevem um conjunto dissonante de expectativas, desejos,
gestos harmoniosos, delineados pela condição humana; e na segunda metade,
narram os tons mais sofridos, as angústias e tensões que nos inquietam. Instantes
observados, apreendidos, descritos amorosa ou dolorosamente: a rudeza da noite
no espaço urbano, um passeio a beira-mar, o sepultamento da avó, a carona na
companhia de um líder muçulmano, a complexa relação entre pai, filho e avô, o
arrependimento após a contratação de um pistoleiro. Nada que pretenda ir além
das convenções silenciosas, ou da mera possibilidade do imaginário. Temos aqui
uma sucessão de narrativas que testemunham a presença do ser humano como
protagonista de seus atos.
https://benfeitoria.com/diluem.
31 janeiro 2025
Enquanto isso
![]() |
| Café e Literatura |
Soube que Estela se foi. Schuman passou por aqui e de modo bastante sucinto, talvez por estar incomodado com alguma reação minha. Não ficou nem para um café. Foi quando Jessica me perguntou quem era Estela, que me dei conta que não me recordava dela com precisão. Quis confirmar com outros amigos que trabalhavam no mesmo emprego, como Rosaldo e Fonseca, mas eles não se recordavam dela. Ou melhor, Claudemir até se recordou vagamente, mas disse que Estela era de outro setor, do jornalismo, e que nunca tinha mantido contato com ela. Fiquei a lamentar a dolorosa displicência dos amigos e o meu completo apagamento. Seu nome não me era estranho, nem sua atividade paralela, como delegada sindical: participava das reuniões de lideranças, das assembleias dos dissídios salariais e nos trazia informações da cúpula dirigente. Era o que Schuman tinha me dito, mas não me lembrava de sua aparência, de sua presença junto de nosso grupo de amigos. Havia um número grande de colegas que participavam fortemente da política interna da empresa, era um bom tempo para isso, saíamos do período da ditadura, queríamos mudanças. Atrás de nós, vinham todos aqueles que também queriam coisas diferentes e acreditavam em nossas ações. Comecei a recordar de muitos representantes sindicais, que se alternavam à medida que fracassávamos em nossos pleitos. Fora isso, havia a perseguição encoberta por parte da direção da empresa (quando não por parte da própria direção sindical) o que impunha atitudes furtivas, firmes e coletivas, porém cuidadosas. O fato de Estela ser do setor de jornalismo fazia com que atuasse como os demais, com força nos princípios, mas igualmente com bastante discreção institucional e, bem, isso era assim com todos. Eram muitos rostos anonimos que desfilavam diante de mim, rostos de fantasmas, de jovens que não existiam mais. Mas Schuman deve ter tido uma razão subjetiva para vir me informar e cá estou, tentando escarafunchar minhas relações daquele tempo. Foi difícil ouvi-lo lamentar, em meias palavras, que não compreendia como eu havia esquecido a importância de Estela.
28 janeiro 2025
O chatbot chinês
![]() |
| Em uma parede de Nápoles |
O mundo segue sob o estrebuchar de uma direita desvairada, que regurgita
ameaças sem um princípio sensato, sem uma virtude objetiva. Promove em escala
mundial o ódio, a segregação, o individualismo, o medo, a desrazão. Não foram
apenas os decretos assinados por Trump em sua posse, por si só um gesto
simbolicamente arrogante, mas os ecos dessa empáfia que percorreram o mundo, formatados
nas declarações de Milei em Davos contra a pluralidade de gênero, e mais
recentemente, em repetição às diatribes de Trump em relação ao México, prometendo
construir um muro na fronteira com a Bolívia, um muro de 200 metros, cuja
serventia é desconhecida. Como Trump e Milei, espalham-se os falastrões,
pequenos, médios, grandes, com o entusiasmo de promover um radicalismo
neoliberal do qual não assumem as consequências éticas, políticas, sociais, e que
ali na frente se encontra com os dogmas fascistas. Somos um planeta que adoece
sob a destruição por um capitalismo demente, que produz em escala jamais vista
antes bilionários na medida que empurra milhões de seres humanos para a vala
comum. A trégua em Gaza é um acontecimento bestial, pois a partir desse momento
artificial de paz, podemos acompanhar as dezenas de milhares de pessoas
regressando aos seus lares, sobreviventes, caminhando e levando seus corpos sob
os escombros. Nada sobrou, e muitos foram mortos sem misericórdia. O objetivo
principal, o resgate dos reféns israelenses, só ocorre agora com as negociações, que
podiam ter sido encetadas no começo. Ruínas, morte, destruição, isso me parece
a imagem desse capitalismo pernicioso, que blasfema e se militariza, enquanto
fenece. Uma pequena empresa chinesa golpeou em quase 1 trilhão de dólares as
poderosas companhias estadunidenses do setor de tecnologia ao desenvolver um
chatbot bom e barato. Trump vai espernear, mas o que pode fazer, sancionar os
chineses? Não vai dar certo. Gastar um dinheirão a mais? Pode ser. Bater na
mesa como um valentão? É provável, mas isso não impedirá que ele entenda o
movimento dos mercados (que ele tanto ama) em torno das melhores oportunidades.
21 janeiro 2025
Os ninguéns, os nenhuns, os ignorados
![]() |
| foto de Todd Webb |
Sueñan las pulgas con comprarse un perro; y sueñan los nadies con salir de pobres
Los nadies, Eduardo Galeano.
Desde ontem, os números apontam mais de 100.000 visitas acumuladas desde o início do blog, há mais de 16 anos. Não é um número exuberante, se considerarmos que a média foi em torno de 17 visitações diárias. Na verdade, não me impressiono pela quantidade, mas por alcançar uma marca redonda e significativa, 100.000. De onde procederão esses números, quem são essas visitações, faz sentido considerar os dados expressos friamente pelo Google, que relaciona a presença de países tão discrepantes como Singapura ou Lituânia? Seja como for, está aí a marca, e desse imenso conjunto de visitas, por certo existem leitores reais e sensíveis, que dedicam alguns instantes para a leitura dos textos.
Ontem tomou posse Donald Trump, pela segunda vez. Se a sua primeira passagem revelou-se um tempo doloroso e nada inspirador, deste vez ele já começa tomando medidas fortes, como a retirada dos EUA da OMS, mais investimentos na exploração de combustíveis fósseis - e podemos imaginar que irá ignorar a COP30 no final do ano, em Belém - além de trazer ao procênio do poder figuras radicais como Marco Rubio para o Departamento de Estado, Linda McMahon para a educação, Robert Kennedy para a saúde (um sujeito negacionista, anti-vacinas), além do pior de todos, Elon Musk, como autoridade para a eficiência do governo. Esse sujeito já se apresentou ontem fazendo claramente o gesto nazista ao final de seu discurso. Serão tempos difíceis. Ontem mesmo Cuba retornou à lista de patrocinadores estatais de terrorismo, menos de uma semana depois de Biden retirá-la da malfadada lista.
Penso no cessar-fogo em Gaza, no movimento das pessoas retornando não para suas casas, mas para os seus entulhos. Netanyahu fez um serviço colossal, tornando o território palestino inabitável, com mais de 90% das construções devastadas, sem alimentos, sem saúde, sem educação. Tudo destruído pela sanha sionista, que não está satisfeita com essa trégua. Uma paz delicada, que pode terminar a qualquer momento, com novos e violentos bombardeios. Uma paz que não garante desenvolvimento social, ou um mínimo de autonomia, que não deixará de ser tutelada pelos drones do exército de Israel. Uma paz tão frágil quanto a estrutura de uma bolha de sabão. Já começaram as trocas de reféns - sim, Israel também fez reféns palestinos nesses 15 meses de conflito, como Khalida Jarrar, membro do Conselho Legislativo Palestino. Com Trump, não há perspectivas favoráveis para uma paz duradoura.
Trump representa o que o capitalismo moderno, ou o que se denomina por alguns analistas, o neofeudalismo, tem de mais significativo a oferecer: arrogância, violência, descomprometimento com o mundo, na medida em que os interesses do Make America Great Again sejam questionados. Um bufão, que passará o rolo compressor nas minorias latinas e que tomará medidas draconianas, sem a menor consideração. E o pior, será seguido e amado por legiões de inconsequentes, de farsantes políticos, de racistas, de jornalistas submissos, que levarão seu poder aos rincões mais insalubres do mundo, preservando-os como tal.







