06 janeiro 2025

O abominável


Foto de Saul Leiter

 

Há momentos em que me aproximo um pouco mais das lembranças de minhas atuações políticas, claramente mobilizadas pelos embates sindicais e pelo ímpeto de solidariedade, que por um tempo abraçõu a tantos jovens. Mas a era amarga do liberalismo, conectada com outras forças ideológicas mesquinhas, abreviaram e sepultaram os mais rudimentares desejos de engajamento. No português mais claro, demos com os burros na água. Tenho belas passagens parcialmente registradas, o que me permite ainda recuperar algumas lembranças. Os episódios ficam mais visíveis do que as fisionomias, ou seja, as boas disputas políticas do passado estão menos apagadas do que aqueles que estiveram ao meu lado, codo a codo en las calles. 

Há aspectos que consigo preservar com boa lucidez, os autores e a literatura que estudei. Mais do que ler, aprofundei-me em meia dúzia deles pelo prazer, pela beleza, pelo encanto narrativo e talvez isso faça diferença, o frescor das palavras que persistem presentes. E justamente o exercício imaginativo da literatura me faz recordar situações das minhas experiências políticas, de muito antes das aventuras sindicais, que já não sei discernir se fazem parte da realidade ou da ficção. 

Na época do ginásio, de um dia para o outro surgiu um professor cuja única fidelidade com a educação era o indispensável jaleco branco, que vestia quando entrava na sala de aula, esbaforido, já atrasado. Sua expressão emanava um vazio profundo naquilo que queria dizer, provavelmente porque sempre estava atrás do que as pessoas tinham a dizer. Muito se contou depois que fazia parte das catacumbas frias do regime de exceção, onde utilizava o seu vigor físico para arrancar informações de prisioneiros. E que havia sido posto ali para intimidar professores com seus modos bruscos. Quanto a nós, jovens alunos, tínhamos mesmo um desprezo por ele, que se consolidou quando Jocilei, o mais camarada da classe, perguntou por que o jaleco, naquela tarde, estava tão manchado de sangue. 



30 dezembro 2024

Tempus fugit


Foto de Ernest Haas

 

Uma imagem recorrente sobressai de minhas recordações. A jovem garota de longos e ondulados cabelos castanhos, sorridente, ladeada por dois outros jovens que eu conhecia de vista das salas de aula. Caminhavam em meu sentido, pelo corredor das classes de pós-graduação. Logo tomaram a direita, dirigiram-se ao balcão da lanchonete, pediram seus cafés e se acomodaram em uma mesinha à esquerda onde eu estava com meu livro e minha timidez. Pensei: que linda mulher! mas logo em seguida, como uma condição inseparável dessa conclusão, Jamais conseguiria me aproximar de tanta beleza e inteligência juntas! Sim, porque ela conduzia a conversa com os dois rapazes, de um modo leve, altaneiro. O sorriso da bela jovem me marcou profundamente, cintila diante de mim até hoje, com suas reconstituições imaginárias, que naturalmente borram, revisam, iluminam partes do cenário, de acordo com meus desejos. E sempre amei aquele jeito descontraído, impossível de proporcionar indiferença. Sempre comento para Jessica que aquele foi o primeiro lampejo de maravilhamento que nos levou a uma aproximação metódica, contínua, dez anos antes de nos conhecermos. Naquele momento fiz o que me era possível, acompanhar seus gestos e vê-la partir com seus amigos de volta à sala de aula. O tempo se incumbiu, por caminhos inesperados, em conceder o reencontro nas circunstâncias da vida que sedimentaram uma apaixonada união. Ela costuma rir dessa minha predestinada lembrança e apenas confirma que naquele momento não teríamos ficado juntos. Concordo, o tempo foi generoso nesse sentido. Hoje ela está ali, docemente acomodada no sofá, em meio a sua leitura, a cabeleireira linda como sempre, os óculos inseparáveis que lhe dão mais charme. A bem dizer, o tempo não passou para o nosso amor, permanece edificando possibilidades para nossos sonhos comuns.



26 dezembro 2024

Uma recatada cabeleireira


Foto de Saul Leiter

Descobri esta recatada cabeleireira na galeria, em frente ao meu prédio. Já adquiro uma série de serviços nesse agradável espaço, em que possui bancos de praça, pequenas lojinhas, chão de caquinhos de cerâmica. Por ali circulam dezenas, às vezes centenas de pessoas dependendo do horário, que entram por um lado e saem por outro, observando as vitrinas, conversando com os proprietários, consumindo algum produto. No meu caso, gosto de frequentar o café Alma, logo na entrada de baixo, levar meus sapatos para o seu Canuto, exímio sapateiro, e minhas roupas para Vanda, minha costureira de anos. Lugares e pessoas bons de se visitar. Hoje, dia seguinte ao Natal, muito pouca gente. Elza, a cabeleireira, está aberta, aproveito e faço meu cabelo, um corte simples, só para aparar os excessos. Ela vem do interior de Goiás, tem o acento característico de quem se originou, como dizia Antônio Cândido, no território da Paulistânia - um espaço que inclui partes de Minas, do Mato Grosso do Sul, de Goiás, do Paraná e claro, do interior de São Paulo. Trata-se do sertanejo caipira, com seu jeito simples, acolhedor, desconfiado. Elza usa sua tesoura com capricho, enquanto me conta animadamente as coisas de sua vida, sua luta, seu passado, seus anseios. Tem tatuagens nos braços, o cabelo curto em um estilo punk, um sorriso permanente, mesmo quanto relata seus temores por andar pela cidade grande. Por isso apoia a polícia, odeia os vagabundos e tem uma definição não muito incomum: eles são os que estão nas ruas, não importa se desempregados ou bandidos, claro que não concordo e digo - minha única fala - que a miséria é uma construção social. Ela não entende, ou não quer entender, muda de assunto, ou não, quando se entusiasma ao falar de sua coragem, que não deixa de enfrentar sozinha os dilemas e as ameaças da vida. Se diz uma guerreira e bem denoto em sua expressão facial, através do espelho, o olhar da gata acuada prestes a saltar. Comprou a lojinha há pouco e os clientes marcam horário. Eu tive a sorte de passar em frente em um dia esvaziado. Conta dos irmãos que trabalham com a terra, no sul do Pará, mas não quer voltar. Conta da vida pacata que foi em Porangatu, das frustrações, das chateações, está lendo um livro de autoajuda sobre como se comunicar. As tesouradas são lentas, precisas. Gosta de assistir filmes do velho oeste e diz que vivemos a mesma realidade, e que vive com medo. Andar pela cidade, só com a luz do dia. Certamente contaria outros segredos se um cliente aleatório não chegasse para fazer a barba. 



22 dezembro 2024

Derradeiros passos encharcados


Foto de Harold Feinstein, 1969

Negociou com um Zé-ninguém a execução, um sujeito que mora num bairro distante. Sai para ver à distância o crime, um longínquo sentimento de amor e ódio o conduzem. Encontra na emoção forte – o assassinato que irá presenciar e a relação com a sra. Gubrech – o elixir para desencantar sua narrativa (e não sua vida - confusão entre realidade e ficção).

O dia chuvoso do crime. O sr. Martinez se emociona ao se preparar para ir ao local. Ônibus para a Paulista. Chuva forte, a água que alaga as calçadas e escoa como cachoeira pelas ruas transversais. O trânsito. Protela ao máximo, faltam duas horas, quer chegar antes e observar por alguns minutos o homem que desconhece seu destino.  

Pensa: Como serão os derradeiros passos encharcados do desconhecido? Afinal, por que esse pobre homem foi o escolhido? Não faz ideia. Certa vez, o viu em uma banca de livros na rua. Vestia uma camisa vermelha e como não gosta de vermelho, pronto, decidiu. Desloca-se então e encontra o sujeito, em sua brutal insignificância, no lugar de sempre. Está a poucos metros dele, sente asco. Desiste, não quer ver o desenlace contratado. 

Agora se exaspera: é o matador que não cumprirá o trato. Torce por isso. Tenta avaliar um contraplano que impeça o avanço da engrenagem. Circula pela Paulista. A água sendo retirada por rodos pelos empregados. Caos, desaba o mundo em água, foi uma péssima ideia se refugiar no Conjunto Nacional. O nível de água sobe, sufoca, desfalece, não sabe nadar, submerge aos poucos, sem que encontre alguma ajuda redentora.



10 dezembro 2024

Novas e nem tão frescas aragens




No domingo, houve a queda do governo Bachar al Assad, na Síria. As informações são desencontradas, embora tendam a aliviar as análises do grupo que tomou o poder, outrora um braço da Al Qaeda. Divulgam-se as notícias de que o ogro foi derrotado, amparadas por depoimentos de populares que temiam o ditador. A verdade é que a Síria deverá permanecer fragmentada, mais ou menos como ocorreu na Líbia, onde não foi possível (ou não foi permitida) até hoje a reconstrução da nação. 

Neste mundo de controle e segurança os velhos déspotas podem cair, mas o que se sucede é o fracasso da unidade política e a consequente fragmentação dos interesses, cada qual sustentado pela geopolítica redigida pelas potências militares, os novos déspotas. Há pouco lia uma matéria que apresenta o conceito tecnofeudalismo, do economista grego Yanis Varoufakis, onde, de modo rápido e simplista, "a extração de valor tem se deslocado cada vez mais dos mercados e para plataformas digitais, que operam como feudos ou propriedades privadas". O tema não vem ao caso, talvez discutirei em outra ocasião, já estou cansado disso. Do meu ponto de vista, a manu militari com suas ogivas e foguetes apenas comparece para corroborar o poder do capitalismo e dessa sua nova roupagem, basta que vejamos, por exemplo, como Elon Musk dá as cartas a partir de seus interesses.  

Nada parece satisfazer a alguém, e ao mesmo tempo todos permanecem felizes com esses desmembramentos das nações, ou com o poder das plataformas digitais. No primeiro caso, anula-se a presença política anterior, enquanto se escancara as portas da exploração das riquezas naturais; no segundo caso, amplia-se a sensação de liberdade pelo direito ao consumo, com a subsequente preservação das relações capitalistas e tecnofeudai). Nações desmembradas não têm como influir em seus destinos: por mais que as populações demonstrem alívio, a verdade é que elas permanecerão em um estado de subalternidade, com um ganho desprezível de liberdade individual. E padecerão cada vez mais pobres, vide a Argentina de Milei, um sucesso para o chamado mercado, uma agonia para o grosso da população. 

Esse prolongado enfraquecimento da voz social deseja se confundir com a difusão dos direitos individuais. Mas o silêncio permanece, estressa, segrega, e se manifesta no fim das contas como um ensinamento covarde para a sobrevivência.     



28 novembro 2024

E assim caminhamos...

 

O jazz, raiz popular e negra

Sai o pacote de corte de gastos do governo Lula, tão esperado pelo mercado, e então, um dos resultados que não agradam ao mercado, isenção de IR a quem ganha até 5.000 reais, e aumento (nada tão chocante) para aqueles que ganham mais de 5 milhões por mês (taxa de 10%). Vejo a indisposição e o desagrado das classes dominantes e seus representantes no Congresso, que questionam e buscam novas negociações. É isso, os ricos não querem de maneira alguma fazer parte de um esforço por mais justiça na distribuição de renda. Mobilizam-se com incrível facilidade, e devem impor modificações. Como é desagradável tudo isso. Desagradável e exaustivo. A fala do ministro da Economia, Haddad, foi realizada com todo o cuidado. Uma explanação cautelosa e didática, mas isso certamente não encontra ressonância nas classes abastadas e que ainda se consideram donas do Brasil. O esforço do governo para amenizar as perdas das classes menos favorecidas e oferecer mais oportunidades é vista com desprezo por essa aristocracia escravocrata, e claro, por seus capitães do mato. Quanta dúvida a respeito do esclarecimento! Avançamos nas meias-verdades, desinformando o público em geral, e por trás dos noticiários pouco elucidativos, uma poderosa engrenagem de desinformação e notícias falsas segue atuando com força total, não só questionando o ajuste dos gastos, como trabalhando arduamente para inocentar os golpistas de 2023, sejam eles militares, cidadãos inocentes úteis, o próprio Bolsonaro. Como diria meu amigo Kruger, durma-se com um barulho desses.



25 novembro 2024

Clube dos senhores



 

Um grupo de homens de meia-idade se reúne nas noites de sábado e se organiza em duplas, na busca de emoções pela cidade. Retrato de uma dupla em especial, o sr. Martinez e o sr. Ruben, este um argentino, que circula por espaços no centro, bares, praças, terminando no café de um cinema, observando o movimento. Encontros ascéticos, que conseguem amenizar o tédio das noites do domingo. Sem dinheiro, homens decadentes como suas metrópoles, rememoram os bons tempos enquanto apreciam as belas senhoras da fila de ingressos.  

Como desdobramento do Clube dos Senhores, surge a cantina em que passam a se encontrar diariamente, onde uma convocatória feita por cartas pessoais informa que apenas os dez senhores convocados seriam atendidos em determinado horário. Encontram-se todos os dias e as refeições já estão postas quando chegam, duas a duas em mesas separadas, sem que apareça qualquer atendente. O pagamento, cinquenta centavos por dia, basta deixar sobre a mesa. Podem desfrutar por trinta minutos, quando então uma campainha intermitente determina que devem deixar o local.



06 novembro 2024

Entre a brandura e a revolução


O argumento do radicalismo fascista  

Penso na brandura dos partidos de esquerda em nosso Brasil, o respeito pelo processo democrático e o desejo da disputa árdua, porém dentro das normas estabelecidas. Além do que, gosta de tratar os partidos de oposição como adversários políticos, e não inimigos, como os regimes de excessão cívico-militares na América Latina nos ensinou. 

Alguém poderá me dizer que esqueço de Cuba, e respondo preservando uma linha de análise histórica, uma hipótese que pode ser discutida em sua amplitude, porém não descartada, que o regime cubano enrijeceu na proporção do enrijecimento das medidas político-econômicas conduzidas pelos EUA. Por exemplo, acredito que Cuba não teria abraçado o marxismo-leninismo se o embargo não tivesse acontecido. E aconteceu de maneira desumana. Os irmãos Castro não eram marxistas-leninistas, afirmaram isso logo no início, porém, após os primeiros meses da revolução, as ações diretas do Pentágono se tornaram gradativamente mais intolerantes, culminando com a tentativa fracassada da Baía dos Porcos, em abril de 1961. O legado de Eisenhower foi o plano da malfadada invasão; Kennedy o realizou e Johnson jamais pensou em rever o bloqueio estabelecido pelo seu predecessor. Daí para a frente, as disputas da Guerra Fria deram as cartas e quando ela terminou, nos anos 1990, emergiu a arrogância desenfreada do capitalismo, que até os nossos dias busca sancionar tudo o que não for submisso aos ditames da ordem capitalista (neoliberal).

O que quero dizer com todo esse preâmbulo é que desde o PTB do governo Jango, para delimitar um período, e passando pelo PT de Lula, perdemos a oportunidade de tomadas de decisões que agregassem o poder econômico ao poder político, ou, políticas mais arrojadas, que delimitassem um poder popular democrático e orgânico, envolvendo todo o tecido social. Cito como exemplo o arrojo político de Brizola, no governo do Rio Grande do Sul. Em 1964, sua proposta de resistência ao golpe cívico-militar poderia ter levado a democracia à derrota, como de fato ocorreu, mas forjaria uma ideia perene de resistência organizada, o que nunca aconteceu em nosso país. A decepção não ficou restrita à esquerda ou ao nacionalismo popular brasileiro, se considerarmos os desdobramentos politicos na Bolívia de Juan José Torres, no Chile da Unidade Popular, no Uruguai da Frente Ampla, na Argentina do envelhecido peronismo com Perón.

Ao analisarmos o comportamento dos partidos de esquerda que estiveram no poder nos últimos sessenta anos de nossa história, contabilizamos a brandura permissiva que nos deixa hoje à mercê de uma maioria congressual conservadora até a medula, misógina, intolerante, que sustenta a iniciativa política com um forte discurso agressivo em uma luta de vale-tudo pela manutenção dos privilégios. Essa iniciativa já absorve as mazelas das populações mais carentes, marginalizadas, seduzindo-as a cada eleição ao incorporá-las em sua agenda política. Se esses grupos conservadores instalados no poder de fato irão retribuir o voto dos mais pobres em seu projeto político, isso vamos ver. 

De outra parte, falemos francamente: o que os partidos de esquerda fizeram para, de fato, obter a hegemonia, esse processo pedagógico que objetiva a formação de intelectuais orgânicos, nos mais diversos setores sociais, como proposição de uma nova ordem em construção? Nada, ou muito pouco. A construção de uma nova hegemonia necessita de uma profunda reforma (mudança, transformação) moral e intelectual do sujeito social. Conforme Gramsci, uma mudança moral e intelectual não pode deixar de estar ligada a um programa de mudança econômica". Entendemos o que quer dizer com isso.

Na Argentina de Milei ocorre o mesmo movimento sísmico da prevalência dos interesses políticos, os grupos dominantes da sociedade que desde sempre deram as cartas e viviam nas sombras, agora contam com poderosa representação no executivo e no Congresso para a manutenção do poder real. Esse poder real se estrutura em torno da mídia hegemônica, do judiciário, das corporações financeiras, da sociedade rural agroexportadora, uma elite eternamente voraz, disposta a levar às últimas consequências o mundo maravilhoso do ganha-ganha econômico e político. Ao que tudo indica, eles seguem as orientações de Gramsci com muita competência.

Resta crer que, no subterrâneo dos rincões abandonados, nos fundões mais agrios das villas e das favelas, persiste uma energia cívica, fragmentada e ultrajada momentaneamente, e que não se quebranta. Por mais distantes que estejamos de uma hegemonia moral, intelectual e econômica, como sugere Gramsci, a revolta fantasmagórica pode, em algum momento, e de modo muito forte, retomar o voluntarismo da caminhada pelas grandes alamedas da verdadeira democracia social.