14 novembro 2023

Desandar



Por muitas razões, esse conto de construção singela e ao mesmo tempo tão intenso, escrito por uma autora espanhola desconhecida, me chamou a atenção desde o li pela primeira vez, o que me levou a traduzi-lo e publicá-lo neste blog. Não há muito mais o que dizer, o texto fala por si. 
Espero que desfrutem, com a mesma alegria que me animou.
 

Desandar

Por Maria Sergia Martín Gonzalez

 

Foi mamãe quem assegurou ter escutado três golpes no caixão, justo no instante em que se derramou a primeira pá de terra. Ainda que algumas vizinhas tenham tratado em tranquilizá-la, porque entendia sua dor, ela gritou aos coveiros que abrissem de imediato o ataúde. A contragosto aceitaram, enquanto se fazia silêncio no cemitério. Dentro, papai, vestido com o melhor de seus trajes, recebia o ar fresco com um amplo sorriso e um pouco de rouquidão. Em vida, sempre havia sido um homem cordial e afável e, quando chegava o outono, sua garganta se acostumava a ressentir-se. Bem-vindo, de novo, maldito outono!, foi a primeira coisa que disse. Ajudamos com que se juntasse entre mamãe, don Anselmo, o velho pároco, e eu, enquanto sacudíamos de sua roupa a areia e as pétalas de rosa que tínhamos depositado no interior do caixão. Mamãe, que tinha os olhos empapados de lágrimas por voltar a ouvi-lo, disse bem incomodada que, se aquilo fosse outra de suas brincadeiras, tinha muita pouca graça, pois tinham vindo todos os vizinhos, os amigos das partidas das tardes, suas amigas de trabalhos manuais, e até Paquita Peña, a que – segundo se dizia no bairro – era uma filha secreta de mamãe.

Papai pediu perdão a todos ali reunidos pelo transtorno de ter que devolver as dúzias de buquês e coroas que tinham enviado para a despedida. Se desculpou com afeto de seus companheiros de cartas por não poder acabar o torneio e deu uma piscada a Paquita Peña. Dizem que o ouviram dizer que cuidou de sua verdadeira mãe e que não fizesse caso das fofocas sem sentido. Logo beijou mamãe nos lábios e explicou que tinha esquecido algo muito importante. Que não sabia muito bem o que era, mas que necessitava recuperá-lo, antes de encomendar o sono eterno. Não teve maneira de fazê-lo recuperar a razão, nem sequer quando dissemos que tia Margarita estava sendo trasladada ao hospital, depois de desmaiar ao vê-lo sair do caixão. Um enfarte, creio que afirmou um dos profissionais de saúde. Grande susto levou a pobre mulher. Depois de velar durante a noite e fartar-se de chorar com mamãe enquanto o cuidava da mortalha, parece que seu machucado e desidratado coração não pôde resistir a novas emoções.

Já em pé, papai tomou mamãe pelo braço e a mim estendeu a mão como costumava fazer sempre que me levava ao parque. Perguntou se queríamos acompanhá-lo a desandar parte de seu caminho. Eu o olhei assim como se olha a um homem mágico, capaz de conseguir que os pássaros do céu voassem para trás, ou que a chuva, no lugar de cair e se espalhar, subisse até as nuvens e deixasse seco o solo. Confesso que, apesar de não entender muito bem o que queria dizer, assenti entusiasmado só em poder passar mais tempo com ele. Mamãe o apertou contra seu peito e os três começamos a desandar juntos. Desandar, disse, é como desfazer um caminho feito com anterioridade. No começo, resultou complicado isso de colocar um pé detrás do outro e retroceder sem tropeçar, sobretudo mamãe, mas quando descaminhamos os primeiros passos, parecia que tínhamos feito a vida toda. 

Mamãe protestou um pouco, mas a mim foi divertido isso de voltar atrás. E assim, descaminhando, regressamos à funerária. Ainda perguntamos se alguém havia encontrado algo, mas ele disse que não estava ali o que buscava. Continuamos desandando até os últimos meses de hospital, até o caminho que levava aos balanços do parque, a suas partidas de cartas pela tarde, a nossa casa... Logo que entramos, comecei a chorar porque me sentia cansado e tinha fome. Mamãe me tomou nos braços, me deu a teta e me deixou dormindo no berço. Papai buscou e rebuscou em caixotes e armários, mas tampouco o encontrou. Quando saíram, senti como um desvanecimento que me fez converter em uma pequena partícula cósmica e me elevar por cima das nuvens. Eu os vi retroceder até a igreja onde ambos prometeram amor eterno. Que bonita estava mamãe, vestida de branco e ele, que elegante e jovial.

No mesmo altar, se despediu de mamãe e continuou descaminhando sozinho até a fábrica onde trabalhou toda sua vida, à estação de ônibus que o trouxe à cidade, ao lugarejo que tanto adorava, a sua festa de comunhão, aos jogos de rua... Na praça, em frente a um casarão branco de telhas azuis, o mesmo que durante anos nos havia desenhado com palavras, crianças brincavam de amarelinha. O menor o convidou a se aproximar. Papai negou com a cabeça, disse que não podia, que antes devia recuperar algo muito importante para ele e empurrou o portão com decisão. Dentro, uma mulher jovem e bonita preparava o almoço. Correu a abraçá-la pelos joelhos com seus pequenos braços.

- Mãe!

- Apronte-se, querido, ou você se atrasará para o primeiro dia de aula.


(traduzido do original em espanhol Desandar, https://www.zendalibros.com/ganadora-y-finalistas-del-concurso-de-relatos-surrealismopuro/)



Cristina Peri Rossi




Historia de un amor

Para que yo pudiera amarte

los españoles tuvieron que conquistar América

y mis abuelos

huir de Génova en un barco de carga.

 

Para que yo pudiera amarte

Marx tuvo que escribir El Capital

y Neruda, la Oda a Leningrado.

 

Para que yo pudiera amarte

en España hubo una guerra civil

y Lorca murió asesinado

después de haber viajado a Nueva York.

 

Para que yo pudiera amarte

Virgínia Wolf tuvo que escribir Orlando

Y Charles Darwin viajar al río de la Plata

 

Para que yo pudiera amarte

Catulo se enamoró de Lesbia

y Romeo, de Julieta

Ingrid Bergman filmó Stromboli

y Pasolini, los Cien Días de Saló.

 

Para que yo pudiera amarte,

Lluís Llach tuvo que cantar Els Segadors

y Milva, los poemas de Bertolt Brecht.

 

Para que yo pudiera amarte

alguien tuvo que plantar un cerezo

en la tapia de tu casa

y Garibaldi pelear en Montevideo.

 

Para que yo pudiera amarte

las crisálidas se hicieron mariposas

y los generales tomaron el poder.

 

Para que yo pudiera amarte

tuve que huir en barco de la ciudad donde nací

y tú combatir a Franco.

 

Para que nos amáramos, al fin,

ocurrieron todas las cosas de este mundo


y desde que no nos amamos

sólo existe un gran desorden.

 

(créditos: https://youtu.be/vb-FSZoelrg?si=7gHc7q5DjrvjyA60



06 novembro 2023

Embates, combates


Expulsão dos palestinos, 1948

A segunda-feira começa ensolarada, temperatura em torno de 22º.C. Seguem os ataques israelenses em Gaza, com uma violência inaudita, sem qualquer perspectiva de alguma trégua. Várias agências da ONU, em declaração conjunta, apelaram a um "cessar-fogo humanitário imediato", que por certo serão ignorados pelo Departamento de Estado e pelo governo israelense. O problema parece ser a completa ausência de limites à ofensiva das FDI, ignorando a população civil, ou confundindo-a com os combatentes do Hamas. Segundo o comunicado, Toda uma população está sitiada e sob ataque, sem acesso aos bens essenciais para a sobrevivência, bombardeada nas suas casas, abrigos, hospitais e locais de culto. Isso é inaceitável. A grande questão que ainda nem se esboça no horizonte longínquo: em que condições se dará a reconstrução de Gaza? 

Verifico pessoalmente a penetração da retórica ameaçadora israelense: no sábado, após o ato em apoio à Palestina, encontrei com um casal portando bandeiras palestinas. Perguntei se podiam me dar uma e o rapaz, de maneira solícita, entregou a que levava pendurada no corpo. Tomei o metrô, encontrei Moniquinha, participei de um belo lanche da tarde com sua família e na volta, ela me pediu para não levar a bandeira (dobrada), pois poderia ser perigoso.

Massa e Milei continuam suas campanhas para a presidência da Argentina, e por mais que me informe com os índices das pesquisas, não consigo ter uma informação concludente, pois há diferenças nos resultados. A última, da consultoria Analogías, divulgada pelo jornal Página12, mostra Massa com 42,4% e Milei com 39,7%, com mais de 12% de indecisos. Essa diferença já foi de 8 pontos há dez dias, e certamente se reduziu em função do apoio de Pato Bullrich e de uma parcela de Juntos por el Cambio. Preocupa que o ultraliberal não perca popularidade mesmo com seus atos estúpidos. Ao contrário, seus momentos de choro e de agressividade parecem cair bem na avaliação de uma parte da população. Fora esses momentos bizarros, nada acontece de substancial para uma redução tão acentuada em tão pouco tempo. Nada consegue deter o impulso da imbecilização coletiva. 

Nesse sentido, contribuem atores como Macri, que sobe à ribalta tal como um boneco teleguiado, para proferir suas certezas, atacar o peronismo e cumprir com as ordens da central a que se submete, no mínimo para criar o caos, ou para ajudar a preservar a hegemonia do poder real. Tem desempenhado tais propósitos com esmero. Mesmo que sua fala seja torpe e sem substância, tem garantido o espaço midiático e, sem nunca se alterar, profere os argumentos que, repetidos à exaustão, acabam assimilados, talvez como verdades ineludíveis. 

Por representar a nata do poder econômico e midiático, sua imagem fornece confiabilidade. Sem um filtro crítico considerável, que questione seu governo e seus atos, suas palavras tornam-se palatáveis para uma parcela que deseja mudança - sem compreender que esse não é o caminho de qualquer mudança! Subindo ao proscênio no momento mais delicado da campanha presidencial, guindado sabe-se lá por quantas mãos e cérebros poderosos, para além de ser um homem do mercado, Macri é um homem do sistema, com o mais absoluto apoio das corporações jurídico-midiático-financeiras.



01 novembro 2023

Os espectros liberais e o peronismo



A situação política na Argentina, que se mostrava tensa e complexa há duas semanas, antes do primeiro turno das eleições, modificou-se completamente. O peronismo, ensanduichado entre duas candidaturas de direita e ameaçado não ir para o segundo turno, logrou afastar uma delas, e agora, habilitado à disputa do balotage, reune todas as chances para vencer a que sobrou. Como se deu o milagre?

O principal adversário, o sinistro Javier Milei, surfou na onda do discurso de mudança até onde pôde. Era o favorito, ganhou as primárias com quase dez pontos sobre Sergio Massa, e bem à frente de Patrícia Bullrich, a candidata do Juntos por el Cambio. Enquanto se mostrava uma surpresa, carreou grandes multidões de jovens, principalmente. Suas aparições na mídia eram dramaticamente engraçadas, mas isso enquanto conseguiu sustentar-se em seu blablabla radical. Bastou o tempo passar e ser testado por seus adversários, para sua verdadeira envergadura se mostrar, e desabou por si só, como um castelo de areia. 

Tenta nessa reta final alguma composição com Bullrich e o ardiloso Maurício Macri, que mesmo não tendo reunido cacife para disputar a presidência ou uma vaga no senado, tem seus aficcionados, principalmente na Cidade Autônoma de Buenos Aires, onde seu irmão, Jorge Macri, venceu as eleições. O problema todo é que essa composição, por todos os ataques mútuos anteriores, não se sustenta e não convence. Milei, um leão assustador no primeiro turno, agora não passa mais do que uma triste imagem de um gatinho confuso.

Bullrich não agrega, e nem seu discurso agressivo seria um ponto de contato com Milei. Macri, por fora, mais preocupado em agir por conta própria contra o peronismo, não está em seu melhor momento, seja junto ao eleitorado, seja entre os poderes midiáticos de Clarín e La Nacion. Nessa enorme brecha aberta na direita, Massa consegue reunir os cacos da coligação peronista e de modo hábil, restaura sua força junto sua base eleitoral. Como ministro da Economia, avança nas propostas sociais possíveis, o que tem projetado a imagem de um político sério e atento às dificuldades econômicas da população. 

O que poderia ser seu calcanhar de Aquiles, a alta da inflação, não parece ter força suficiente para promover um desgaste letal em sua campanha, e penso, muito em razão da inapetência opositora. Isso confirma uma suspeita minha, desde o golpe em Dilma, e depois com a aparição de Macri, Bolsonaro e agora, Milei: a direita é esse fragmento de falsas promessas com suas bobagens descartáveis, que sozinhas não representam nada como projetos transformadores, como novas ideias (como disse Pedro Aznar, promesas falsas, ideas a medio cocinar, falacias mal vestidas de tecnicismos...), a não ser o empenho aos interesses dos grupos dominantes dessa mesma nação. E quando há um curto-circuito nessas relações perigosas e vaidosas, ou seja, quando os canalhas não se entendem na partilha do botim, renasce a força dos projetos mais abrangentes, mais populares, como aconteceu ano passado com a vitória de Lula, e agora, com a possível vitória de Massa. 

Milei e sua trupe dá mostras de afundar na areia movediça que a própria frente política criou, sem forças para se erguer e restabelecer, nesses próximos 20 dias, certamente vítima de suas infindáveis diatribes, que surgem sob retóricas atraentes, culminam como fundamentos vazios e quase sempre produzem indigestão. Demonstra a cada dia o que não é. Ao contrário de seu movimento desequilibrado, aliado às declarações bombásticas e de pouca substância de Bullrich (Ojala que la economia explote antes del (día) 19...), e à futilidade política de Macri, remonta o peronismo kirchnerista, nem tanto de Massa, mas de Cristina, de Kicillof, e tal como diz a letra do começo da marcha, Los muchachos peronistas/ todos unidos triunfaremos/ Y como siempre daremos/ Un grito de corazón: Viva Perón, Viva Perón!     

(atualizado em 01.11.2023, às 10h).



22 outubro 2023

Argentina: os próximos passos

 

A esperança de que nosso Norte continue sendo o Sul

Uma inquietude nos atravessa a todos: o risco de colhermos uma amarga derrota amanhã, nas eleições argentinas. Como tem sido corriqueiro nos pleitos dos últimos anos, na América Latina, o espantalho assustador da direita ressurge de suas fundas trevas, mais ameaçadora, mais ignóbil, mais empolada, propondo suas soluções esdrúxulas, política e economicamente irrealizáveis, e que estão mais de acordo com as normas do pacto com a violência, sem qualquer apego ao diálogo, em que a sociedade, manipulada pela retórica grosseira, entrega seu destino às vozes que a desejam destruir. No contexto da crise política e da inflação galopante, as vagas promessas de solução, de uma nova era, sem corrupção, sem Estado, sem subsídios, consegue capturar corações e mentes, principalmente - e isso me impressiona - de jovens. 

Na quinta-feira, assisti a uma palestra da socióloga Verónica Gago, que nos mostrou de um lado o processo de mobilização feminista no enfrentamento da crise e de outro, o tamanho do buraco criado pela financeirização do capital, aprofundando o endividamento das famílias. O crédito sem a mediação salarial tornou-se uma alternativa desesperada para as famílias ao menos subsistirem, "envididarse para vivir". O quadro atual não indica uma solução a curto prazo para a inflação, hoje em torno de 120% ao ano. As perspectivas de estabilidade econômica, e o consequente apaziguamento social e político, serão mais satisfatórios quanto mais sério for o cronograma da governabilidade, abrangendo a grande parcela da população, menos favorecida, recompondo os programas sociais, a preservação do poder de compra dos trabalhadores e aposentados, os direitos trabalhistas, de moradia etc. 

Em outras palavras, a opção mais sensata no momento seria a vitória de Sergio Massa, da coalizão Unión por la Patria. Ainda que seja ministro da economia de um governo que falhou ou se omitiu em muitos aspectos, é o candidato que reúne mais serenidade, e talvez capacidade, para desenvolver um projeto de contemple algum tipo de pacificação nacional e que possa gerar desenvolvimento econômico sem graves rupturas. Torço muito para que a Argentina encontre o espírito de sua seleção de futebol, unida e determinada a jogar do modo mais eficiente para vencer. Como na poesia de Benedetti, cantamos porque llueve sobre el surco/ y somos militantes de la vida/ y porque no podemos ni queremos/ dejar que la canción se haga ceniza.



19 outubro 2023

As ternas memórias de Julio Escobar



Uma boa notícia em um mês conturbado: entrou em edição final meu livro de contos, As Ternas Memórias de Julio Escobar e outras rememorações, pela editora Mondru. Segundo o editor Jeferson Barbosa, o livro estará presente na Flip, em novembro, e outras feiras e eventos que a editora participará ainda neste ano. Em seguida, segue a divulgação pelos apoiadores da pré-venda a partir de dezembro, quando devo receber meus exemplares. 

Segundo o editor, há sobreposto à capa alguns padrões, que tentam ampliar a ideia de fragmentos da memória e até de caminhos e reconstrução da memória por meio da escrita. Trata-se do sombreamento losangular que recobre a capa. A escolha foi feita entre sete opções, e penso que é a imagem que melhor retrata o tema do conto-título. O tom azulado foi uma opção pessoal ao eleger as cores, os tipos gráficos, a estética das capas. 

O esforço agora é possibilitar o lançamento ainda neste ano. Houve algum atraso em relação ao cronograma original, que indicava que o livro estaria pronto por volta de agosto. Seja como for, ele seguirá seu curso, vamos aguardar a divulgação e a pré-venda, para então tomarmos uma decisão sobre um lançamento presencial. 

O mais importante é que, por parte da editora, houve muito cuidado na edição, o que acreditava que ocorreria pela relação profissional mantida, sempre com muito respeito ao autor. No que diz respeito ao texto final da obra, também houve, de minha parte, uma atenção inédita, quando decidi submetê-lo a uma revisão profissional, que me pareceu bem feita. Isso, aliado ao conjunto de contos que compõe o livro, desenvolvido sob uma temática principal - a memória, a rememoração - me permite dizer que se trata de um trabalho maduro e criteriosamente bem-sucedido. 

Mesmo os contos mais antigos, e ali estão presentes dois - escritos há mais de trinta anos - não desafinam na montagem orgânica da obra. Alguns outros passaram por profundas reescrituras, visando dar mais consistência às narrativas e valorizar a relação com o tema principal. Foi o caso, por exemplo, de Formas de contemplar o espaçoCoriolano Salvatore, Rodolfo evoca. Ficará a cargo dos leitores se aprovam o resultado final.



08 outubro 2023

Por que não haverá solução



Creio que a parcela mais crítica e atenta dos cidadãos do mundo já desconfiam aonde este novo enfrentamento entre palestinos e israelenses vai levar: a lugar nenhum, ou, a nenhum aprendizado. O mundo com suas lideranças bochornosas de hoje, riscou da agenda a palavra negociação. O que deve prevalecer é a palavra ameaçadora e o ato belicoso, vindo por trás um orçamento bilionário de contratos com armamentos. É o que acontece na Ucrânia, onde a UE prefere torrar mais de 130 bilhões de euros ao longo de um ano e meio, em armas enviadas ao Zelenski, com resultados bastante incertos, do que procurar uma negociação direta com a Rússia e cessar com a sangria desatada. Para que o descalabro não seja tão assustador ao pobre cidadão comum, é necessária uma contínua cobertura acrítica das mídias sobre o que se passa por lá. 

No caso do Oriente Médio, o ataque do Hamas suscitou uma enérgica reação conjunta desses mesmos governos entorpecidos contra o ataque terrorista, desta feita executado em minúcias e em grande escala. Quando as mortes ocorrem aos borbotões pela ação policial lá no morro, trata-se da consequência de uma ação cirúrgica e necessária para conter a criminalidade. Para o bem dos bairros classe-média do entorno. Ninguém quer saber quantos morreram ou o nível da violência policial para aquietar as almas criminosas. Mas quando há uma ação oposta, uma invasão "do morro ao asfalto", o pânico exige que o Estado Policial reaja à altura, acabando com a violência dos marginais. É mais ou menos o que ocorre em Gaza. 

Enquanto os ataques cirúrgicos de Israel têm a função de eliminar bases terroristas, sem a contagem precisa de vítimas, isso pouco importa e conta com a absoluta complacência da comunidade internacional. Mas quando em 7 de outubro surge um ataque maciço palestino, que deveria provocar ao menos um questionamento incômodo sobre a tragédia palestina pós-Nakba, o mundo, esse mundo de lideranças frívolas, reage em uníssono, como se o que ocorre naquela parte do planeta fosse uma novidade. Não é. A violência conta-gotas da ocupação israelense é uma narrativa censurada.

O que vai ocorrer é que o ataque do Hamas será contido e a montanha de cadáveres resultante será varrida para baixo do tapete, com a conta apresentada unicamente para o grupo político palestino. Não haverá aprendizado, nem negociação. Não convém, afinal, para quê mexer nesse vespeiro e trabalhar diplomaticamente pelo estabelecimento de dois Estados soberanos e livres? O problema da solução armada é uma opção que a cada confronto foge ao controle. Os falcões do Pentágono, ou da Otan, têm dificuldades em aceitar que novos jogadores com muito cacife diplomático, como os Brics, por exemplo, sentem-se à mesa em condições de igualdade e mostrem como aprenderam a jogar o jogo da guerra. Esses insignes falcões estão politicamente falidos e mesmo assim querem impor que a banca vença o jogo, com a truculência do passado, mas produzindo a ignorância do futuro. 

A ladainha é repetida, não negociamos com terroristas, como se uma fração de terrorismo também não estivesse entranhada em suas ações. Sentimentos se misturam, hipocrisia, arrogância, prepotência, desprezo... O inimigo pagará um preço como nunca conheceu antes... Nesse quadro, o Hamas é o menor dos problemas. A imposição de subserviência se estabelece, não haverá negociação, não existe espaço para o diálogo, para as narrativas com análises distintas de uma mesma história, e o mundo morboso permanecerá com a sua Verdade e replicará em suas redes digitais a vitória, descaracterizando qualquer oposição como "apoio ao terrorismo". Lamentáveis serão os desfechos. Não fazem ideia do que semeiam, mas parece que não se preocupam com isso, nem com a fome, como o ódio, com a destruição, com absolutamente nada.


05 outubro 2023

15 anos!


Há quinze anos, no embalo da febre dos blogs, lancei o Chá nas Montanhas, sem muita pretensão, a não ser dispor de um canal em que pudesse publicar minhas impressões políticas e culturais, além, claro, de divulgar meus textos literários - crônicas e pequenos contos. Um pouco antes, havia passado por uma primeira experiência que durou um ano e meio, o Caminhos da Liberdade. Por alguma razão, considerei aquele blog insuficiente, e ao encerrá-lo, fiquei seis meses preparando o lançamento deste Chá nas Montanhas.
 
Com o passar dos anos, ao contrário do desgaste que costuma pressionar os blogueiros, sinto-me estimulado a publicar meus textos aqui, com uma regularidade que se mantém desde o início. Nunca o blog ficou três semanas sem uma postagem. Postagens sempre criadas, textos produzidos e não copiados, e em grande parte delas, ilustradas com imagens de meu acervo pessoal. Desse modo, o leitor de visitas indica mais de 91 mil visualizações, 788 postagens em 5.475 dias, que propiciaram um livro de crônicas publicado, O que aparentemente nos resta, e outro inédito, para vir a lume em breve, Pétalo nauseabundo. 

Creio que, por meu entusiasmo e quase necessidade de escrever aqui, o blog deverá continuar por um longo tempo, quem sabe por mais 15 anos! Logo, serão 100 mil visualizações e 800 postagens, o que me dá grande satisfação. A comemoração da data inclui todo esse imenso número de leitores silenciosos, os quais agradeço de coração.

Viva o Chá nas Montanhas!