23 maio 2012

Mario Benedetti



Desaparecidos

Están en algún sitio/concertados
desconcertados/sordos
buscándose/buscándonos
bloqueados por los signos y las dudas
contemplando las verjas de las plazas
los timbres de las puertas/las viejas azoteas
ordenando sus sueños sus olvidos
quizá convalecientes de su muerte privada

nadie les ha explicado con certeza
si ya se fueron o si no
si son pancartas o temblores
sobrevivientes o responsos
ven pasar árboles y pájaros
e ignoran a qué sombra pertenecen

cuando empezaron a desaparecer
hace tres cinco siete ceremonias
a desaparecer como sin sangre
como sin rostro y sin motivo
vieron por la ventana de su ausencia
lo que quedaba atrás/ese andamiaje
de abrazos cielo y humo

cuando empezaron a desaparecer
como el oasis en los espejismos
a desaparecer sin últimas palabras
tenían em sus manos los trocitos
de cosas que querían

están en algún sitio/nube o tumba
están en algún sitio/estoy seguro
allá en el sur del alma
es posible que hayan extraviado la brújula
y hoy vaguen preguntando preguntando
dónde carajo queda el buen amor
porque vienen del odio


(Mario Benedetti)



03 maio 2012

Os delicados segredos da alma



Por
Mônica Rebecca F. Nunes
Marco Antonio Bin

Ele a aguardava no banco solitário, uma armação rústica de ramas de cedro, onde a relva se confundia com as pérgulas amparadas pelas sebes naturais, de onde se esparramavam cordões de folhas verdes, incrustadas por alamandas amarelas e uma espécie de bougainvilleas avermelhadas, espargidas pelo orvalho da manhã ainda fria e nebulosa. 

Ao longo do caminho, o silêncio do vale permitia com que sua espera fosse suave e generosa, sintonizado com o ambiente que o acolhia. Do outro lado, serpenteava mansamente o riacho de águas esverdeadas que escorria das montanhas a oeste e de algum modo definia o percurso pedregoso, que avançava em direção à cidade. 

Atravessou a vereda, escolheu uma pedra e a lançou ao meio das águas, ouvindo o estrugir do choque concorrer por um instante com o canto dos pássaros. O sol enevoado custaria um pouco mais a esquentar, o caminho permanecia virgem, apenas ressoando seus curtos passos. Sentou-se no gramado à margem d´água e ali permaneceu por uns bons minutos, acariciando as belas lembranças, que se confundiam com a ternura dos últimos encontros. 

O ritmo da grande cidade conduzira por longos anos suas falas e seus olhares, e por alguma razão que ele não se recordava ao certo, decidiram caminhar juntos, a partir daquele ponto que mal conheciam, em comunhão com a natureza e dos silêncios que eventualmente produzissem, intercalados pelas palavras generosas de sempre, pelos toques ariscos, pela alegria de estarem disponíveis para seus sonhos.

Foi quando ouviu um som que destoava, produzido no atrito com o cascalho, de modo alternado. Olhou para a estradinha e logo após a última curva, a uns cem metros, despontou a silhueta querida, um ponto que se destacava aos bocados, coberto pelo sobretudo vermelho. 

Logo foi possível distinguir o que mais apreciava nela, o sorriso exultante de uma pequena conquista, emaranhado pelos cabelos castanhos agitados pelo vento. Mais um pouco, e poderia se deleitar com o brilho vítreo dos dois topázios, que lhe revelariam os delicados segredos da alma. 

Ele se levantou para recebê-la, para o abraço demorado, que os aqueceu ternamente. Então ela começou a lhe falar sobre um belo tema, aleatório, que coincidia com a sutileza do momento, com o caminhar sem pressa, até o pequeno rancho que os esperava.

O caminho era longo, durava mais a cada passo que davam. Talvez quisessem isso mesmo: prorrogar o tempo de espera. De algum modo, havia na espera um acolhimento. Os anos que caminhavam em busca do pequeno rancho já se acumulavam. A estrada já havia mudado de cor, os lagos já se tornaram mares, os mares altos ficaram baixos dando vazão à praia imensa e sombria.  O sol esquentou. Continuavam. Juntos, sorridentes, felizes por estarem um na presença do outro. 

Os olhares diziam o que não ousavam dizer porque temiam o desencanto. Ela e ele. Haviam construído a paisagem, os sons do riacho e o sobretudo vermelho. Inventaram um e inventaram o outro, e, agora, tão perto do rancho, arquitetavam modos de não chegar e assim permanecerem juntos, nesta estranha dança sem rumo.


14 abril 2012

Modos de resistir (3)



"(...) Tenho de confessar: bastou uma semana de cativeiro para sumir o meu hábito de limpeza. Vou zanzando pelos lavatórios, e lá até o companheiro Steinlauf, meu amigo quase cinquentão, de peito nu, esfregando-se ombros e pescoço com escassos resultados (nem tem sabão), mas com extrema energia. Steinlauf me vê, me saúda, e sem rodeios, me pergunta, severamente, por que não me lavo. E por que deveria me lavar? Me sentiria melhor do que estou me sentindo? Alguém gostaria mais de mim? Viveria um dia, uma hora a mais? Pelo contrário, viveria menos, porque lavar-se dá trabalho, é um desperdício de energia e de calor. (...) 

Steinlauf, porém, passa-me uma descompostura. Terminou de se lavar, está se secando com o casaco de lona que antes segurava, enrolado, entre os joelhos e que logo vestirá, e, sem interromper a operação, me dá uma preleção em regra. 

Já esqueci, e o lamento, suas palavras diretas e claras. (...) Seu sentido, porém, que não esqueci nunca mais, era esse: justamente porque o Campo é uma grande engrenagem para nos transformar em animais, não devemos nos transformar em animais; até num lugar como este, pode-se sobreviver, para relatar a verdade, para dar nosso depoimento; e, para viver, é essencial esforçar-nos por salvar ao menos a estrutura, a forma da civilização. Sim, somos escravos, despojados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, destinados a uma morte quase certa, mas ainda nos resta uma opção. Devemos nos esforçar por defendê-la a todo custo, justamente porque é a última: a opção de recusar nosso consentimento. Portanto, devemos nos lavar, sim; ainda que sem sabão, com essa água suja e usando o casaco como toalha. Devemos engraxar os sapatos, não porque assim reza o regulamento, e sim por dignidade e alinho. Devemos marchar eretos, sem arrastar os pés, não em homenagem à disciplina prussiana, e sim para continuarmos vivos, para não começarmos a morrer. (...)"

(extraído do livro É isto um homem?de Primo Levi, Ed. Rocco, 1988).



10 abril 2012

Modos de resistir (2)


Logo após a renúncia de Jânio, na sexta-feira, 25 de agosto de 1961, os militares mobilizam-se para impedir a posse do vice, João Goulart, que se encontrava em viagem diplomática na China. Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, organiza a resistência ao golpe, exigindo nada mais que o cumprimento da Constituição. O impasse durará treze dias, mas é certo que nos três primeiros, enquanto os dois lados vão consolidando apoios e estratégias, a expectativa é de um confronto militar. 
Na manhã da segunda-feira, 28 de agosto, com os transmissores requisitados da rádio Guaíba, Brizola transmite diretamente dos porões do Palácio Piratini, pela Rádio da Legalidade. Por volta das 11h30, estava marcada a audiência solicitada pelo comandante do III exército, Machado Lopes, e não se sabia com que intenções viria. 

"(...) Pode ser que esse encontro não signifique uma simples visita de amigo, que não seja uma aliança entre o poder militar e o poder civil: pode significar uma comunicação da deposição do governo do Estado. (...) Se ocorrer a eventualidade de um ultimato, ocorrerão também consequências muito sérias, porque não nos submetemos a nenhum golpe, a nenhuma resolução arbitrária. Que nos esmaguem! Que nos destruam! Que nos chacinem neste Palácio! Chacinado estará o Brasil com a imposição de uma ditadura! Esta rádio será silenciada; porém, não será silenciada sem balas. Tanto aqui como nos transmissores, estamos guardados por fortes contingentes da Brigada Militar. (...) Não nos encontramos entre uma submissão à União Soviética ou aos Estados Unidos. Tenho uma posição inequívoca sobre isto. Mas tenho aquilo que falta a muitos anticomunistas exaltados deste país, que é a coragem de dizer que os Estados Unidos da América, protegendo seus monopólios e trustes, vão espoliando e explorando esta nação sofrida e miserabilizada. Penso com independência. Não penso ao lado dos russos ou dos americanos. Penso pelo Brasil e pela República. Um Brasil forte e independente. Não um Brasil escravo dos militaristas e dos trustes e monopólios norte-americanos. Nada temos com os russos. Mas nada temos também com os americanos, que espoliam e mantêm nossa pátria na pobreza, no analfabetismo e na miséria. (...) Povo de Porto Alegre, meus amigos do Rio Grande do Sul. Não desejo sacrificar ninguém, mas venham para a frente deste Palácio, em demonstração de protesto contra essa loucura e esse desatino. Venham, e se eles quiserem cometer essa chacina, retirem-se. Mas eu não me retirarei e aqui ficarei até o fim. Poderei ser esmagado. Poderei ser destruído. Eu, a minha esposa e muitos amigos civis e militares do Rio Grande do Sul. Não importa! Ficará o nosso protesto, lavando a honra desta nação. Aqui resistiremos até o fim. A morte é melhor do que a vida sem honra, sem dignidade e sem glória."

(Trechos do pronunciamento de Brizola, extraídos do livro 1961: O Golpe Derrotado, de Flavio Tavares, Ed. LP&M, 2012)



06 abril 2012

Modos de resistir (1)


(...) Os protestos (de Wall Street) realmente criaram um vazio - um vazio no campo da ideologia hegemônica - e será necessário algum tempo para preenchê-lo de maneira apropriada posto que se trata de um vazio que carrega consigo um embrião, uma abertura para o verdadeiro Novo. A razão de os manifestantes saírem às ruas é que estão fartos de um mundo onde reciclar latinhas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar cappuccino da Starbucks com 1% da renda revertida para os problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para se sentir bem. Após a terceirização do trabalho e da tortura, após as agências matrimoniais começarem a terceirizar até nossos encontros, os manifestantes perceberam que por um longo tempo permitiram que seus compromissos políticos também fossem terceirizados - e querem-nos de volta. (...)

(Slavoj Zizek in OCCUPY - Movimentos de protesto que tomaram as ruas, Boitempo Editorial, 2012)


05 abril 2012

Linhas Periféricas



Nunca é demais sentir o pulsar das periferias.
Sobretudo quando se manifesta poeticamente, rompendo com normas e preconceitos. 



04 abril 2012

Baudelaire




Assim, o princípio da poesia é, estrita e simplesmente, a aspiração humana a uma beleza superior, e a manifestação desse princípio reside num entusiasmo, numa excitação da alma - entusiasmo absolutamente independente da paixão, que é a embriaguez do coração, e da verdade, que é o alimento da razão. Porque a paixão é natural, demasiado natural para não introduzir um tom ofensivo, discordante, no domínio da beleza pura, demasiado familiar e por demais violenta para não escandalizar os puros Desejos, as graciosas Melancolias e os nobres Desesperos que habitam as regiões sobrenaturais da poesia. (...)

(extraído do livro A Invenção da Modernidade, Relógios D´Água, Lisboa)




21 março 2012

Mulheres de Gaoudel



Os olhares, as expressões das três mulheres mais próximas. Acabam de atravessar a fronteira e esperam. Caminharam sob as condições mais íngremes, e uma vez em aparente segurança, não lhes resta alternativa senão aguardar. Diante de seu interlocutor, que registra a photo-op que correrá o mundo, fustigam nossos olhares compungidos. Não há razão para sorrir ou chorar, por isso exprimem indignação. A alma dilacerada incorpora-se nos gestos visíveis, tornando consistente a coragem que as conduz. Não há rancor ou revolta, ao contrário, há uma sutil elegância que nos embriaga, e assim permanecerão. O clic da máquina eterniza o gesto sublime, de aparência inesgotável, mas antes do mundo disseminar sua emoção, estas mulheres estarão cansadas de perseverar. 

Entregues ao silêncio de seus gestos, será difícil resistir indefinidamente ao escárnio, e o tempo cobrará seu tributo. O corpo manifestará seu brio até o limite do possível, e então... e então já não saberemos mais.