03 maio 2012

Os delicados segredos da alma



Ele a aguardava no banco solitário, uma armação rústica de ramas de cedro, onde a relva se confundia com as pérgulas amparadas pelas sebes naturais, de onde se esparramavam cordões de folhas verdes, incrustadas por alamandas amarelas e uma espécie de bougainvilleas avermelhadas, espargidas pelo orvalho da manhã ainda fria e nebulosa. Ao longo do caminho, o silêncio do vale permitia com que sua espera fosse suave e generosa, sintonizado com o ambiente que o acolhia. Do outro lado, serpenteava mansamente o riacho de águas esverdeadas que escorria das montanhas a oeste e de algum modo definia o percurso pedregoso, que avançava em direção à cidade. 

Atravessou a vereda, escolheu uma pedra e a lançou ao meio das águas, ouvindo o estrugir do choque concorrer por um instante com o canto dos pássaros. O sol enevoado custaria um pouco mais a esquentar, o caminho permanecia virgem, apenas ressoando seus curtos passos. Sentou-se no gramado à margem d´água e ali permaneceu por uns bons minutos, acariciando as belas lembranças, que se confundiam com a ternura dos últimos encontros. O ritmo da grande cidade conduzira por longos anos suas falas e seus olhares, e por alguma razão que ele não se recordava ao certo, decidiram caminhar juntos, a partir daquele ponto que mal conheciam, em comunhão com a natureza e dos silêncios que eventualmente produzissem, intercalados pelas palavras generosos de sempre, pelos toques ariscos, pela alegria de estarem disponíveis para seus sonhos.

Foi quando ouviu um som que destoava, produzido no atrito com o cascalho, de modo alternado. Olhou para a estradinha e logo após a última curva, a uns cem metros, despontou a silhueta querida, um ponto que se destacava aos bocados, coberto pelo sobretudo vermelho. Logo foi possível distinguir o que mais apreciava nela, o sorriso exultante de uma pequena conquista, emaranhado pelos cabelos castanhos agitados pelo vento. Mais um pouco, e poderia se deleitar com o brilho vítreo dos dois topázios, que lhe revelariam os delicados segredos da alma. 

Ele se levantou para recebê-la, para o abraço demorado, que os aqueceu ternamente. Então ela começou a lhe falar sobre um belo tema, aleatório, que coincidia com a sutileza do momento, com o caminhar sem pressa, até o pequeno rancho que os esperava.


2 comentários:

porsiempreamapola disse...

Qué bello (y qué ganas de saber bien el portugués para poder disfrutar más cada nota).
Gracias por mantenerte por aquí...

Marco Bin disse...

Gracias, Daniela, muy amable!