16 fevereiro 2013


Fui, enfim, ver "NO" e, como em tudo o que diz respeito à política latino-americana, e em especial a chilena, deixei o cinema com a memória recuperando os bastidores dos fatos históricos, que em certa medida, vivenciei à distância. Há uma veracidade elogiável, que começa na forma da apresentação, o diretor Pablo Larraín utilizou-se de tecnologia da época para aprofundar as semelhanças estéticas ao drama narrado, pontuado por clipes publicitários criados na ocasião da campanha. Podemos sentir o pulsar do enfrentamento político a partir dos vídeos que expunham as mensagens do 'si' e do 'no'.

Seis meses antes deste plebiscito estive no Chile, destino de uma longa road trip, que começou em Montevidéu e atravessou a Argentina. Trouxe de Santiago uma impressão amarga, marcada por fantasmas da ditadura e carregada de tensões psicológicas, tendo mesmo passado por duas situações constrangedoras, uma delas diante do palácio de La Moneda, e a outra, a mais difícil, o entrevero com um militar reformado, no ônibus que me conduzia a Viña del Mar, e que relato em alguma parte, aqui, no Chá das Montanhas.

Ainda preservo a agenda de 1988, e lá posso rever minha comemoração pela vitória do NO a Pinochet, o verdugo, que até um determinado momento parecia impossível. Ao final do filme, não revolvi as tristezas alimentadas em outras narrativas, registros das atribulações de nossa história contemporânea. Ao contrário, fui tomado por uma estranha lassidão que se incorporou à memória dos fatos, certamente envolvido pela sequência final, quando, após um formidável painel feito de ideias e criatividade, a publicidade esboça os primeiros passos de seu alienado caráter neoliberal. 

De outra parte, é inegável destacar a importância do relato histórico, afinal de contas, NO é sobretudo um filme que reabilita uma vitória, imensa em seu sentido simbólico.


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