17 fevereiro 2013

Benedetti em dois tempos


Vivir Adrede foi um dos últimos livros de Mario Benedetti, publicado em 2007, dois anos antes de sua morte. Nesta obra, composta por 32 breves reflexões poéticas, e 83 cachivaches, pensamentos vagos, soltos, 'descartáveis', fala-nos das efêmeras percepções ao redor, dos detalhes perdidos na memória, dos sofrimentos e das alegrias humanas. 

Sempre me tocou a obra de Benedetti pela elegância de seu estilo, que a meu ver se robustece ao incorporar paixão e dúvida. Paixão por entregar-se com ardor aos seus temas, e dúvida ao reconhecer os limites humanos, a começar pelos seus. Daí a poesia plena, os escritos cortantes e sutis, o estilo que expõe com igual maestria o sensível e o concreto.  

Nesta coletânea, sobrevém a serenidade dos anos, o olhar ainda mais cuidadoso e ainda mais incisivo, mas sempre cadenciado pela ternura humana, inextinguível mesmo nos momentos mais delicados. Sabedor do limite da existência, descreve aleatoriamente o que pode e deseja descrever, o passado, o crepúsculo, o tempo, a piedade, a globalização. Degusta cada palavra, imergindo-nos na serenidade que apenas os longos anos de paixão e dúvida podem brindar.


O SILÊNCIO

"No princípio foi o silêncio. Sombrio, inextinguível, poderoso. Que esplêndida laguna é o silêncio. O ouvido científico e ateu ainda não descobriu qual foi o primeiro som que enfrentou essa calma nem qual foi o ser vivente que proferiu o alarido inaugural.
Nessa questão da origem do humano, os crentes se apóiam no Gênesis e ali se dão conta da aparição de Adão, de Eva e da serpente celestina (também criação de Deus) que organizou os primeiros amores incestuosos. Depois a coisa se fez trágica e os primeiros cainitas acabaram com os primeiros abelitas.
Enquanto isso, o silêncio era um vigia contemplativo, porém imóvel, e assim seguiu de século em século, esquadrinhando guerras de soslaio e esmigalhando pazes, tão breves como transitórias.
A partir daí, o silêncio se apoderou dos insones e também dos sonhos, onde os piores pesadelos convertiam o adormecido em cego e surdo. Assim pois, quando os amantes se abraçam em silêncio não escutam o pulsar de seus comovidos corações. E quando os suicidas ingressam no fim, talvez compreendam que a morte é o silêncio. De sua parte, o silêncio do mar, que escuta sempre, é mais concentrado que o de um cântaro, mais implacável que duas gotas.
Alguns veteranos narram que em sua desgastada sombra apenas o grilo rompia o silêncio, mas quando emudecia a serenata, a escuridão era de novo silenciosa e azul.
Assim posto, para que negá-lo (tal como escrevi há trinta anos), existem poucas coisas tão ensurdecedoras como o silêncio". 


PERSONAGENS

"Lemos e relemos. Quando lemos muito, costumamos esquecer os títulos, porém não dos personagens. Estes perduram mais que a trama romanceada ou o ritmo dos poemas. Em certas ocasiões, o nome do personagem nem sempre fica na memória, todavia seu sopro vital sim, penetra na alma do leitor.
Existem personagens literários em que se oferece um abraço carregado de adjetivos e também existem atraentes bocas femininas em que se recebe um beijo de papel.
Os personagens vibram, avançam, se detêm, voam, submergem, se deixam escolher, e os acomodamos no arquivo das recordações. Alguns são como espelhos e outros são como aliados ou acusadores.
Existem personagens jubilosos e outros com um poço de tristezas. São tão melancólicos que nos contagiam sua melancolia; tão promissores que os aplaudimos nos sonhos. Tão santos que os encaramos com ceticismo, e tão demoníacos que nos espantam o coração.
Existem personagens cegos que nos miram com as mãos e outros delirantes que nos envenenam os hábitos. Existem personagens transparentes e outros irremediavelmente opacos. Há os que cavilam em verso e os que se lavam na chuva. Os que mendigam e os que desperdiçam.
Existem personagens viúvos que choram sem lágrimas e quando terminam com sua liturgia impressa, se evadem do papel e a celebram com seu cônjuge de carne e osso, ao sabor de um beaujolais.
Finalmente existem personagens que quase quase somos nós mesmos. E os queremos, apesar de tudo".

(textos extraídos e traduzidos da obra Vivir Adrede, Santillana Ediciones, 2009).

   

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