11 novembro 2011

Vozes que indagam


"O primeiro filme de Bertolucci, Antes da Revolução, expõe um tema interessante, e absolutamente atual: o jovem tecnicamente preparado para desencadear a Revolução, e no entanto, incapaz de solucionar seus impasses pessoais. A força do filme reside nesta impotência pequeno-burguesa, o sonho de uma revolução incerta e a realidade próxima vivenciada dentro dos limites impostos pelo grupo social dominante, sem perspectivas de travar alguma luta no desejo de algum rompimento. É o verdadeiro retrato dos jovens dos anos 1960, sonhadores - e protagonistas desses sonhos como uma válvula de escape ao anacronismo dos costumes - e ao mesmo tempo, reféns conscientes de seus conformismos. Alguns (poucos) que ousaram ir mais longe com a ruptura, acabaram tolhidos pelas garras de um sistema a princípio aturdido, mas ao final devorador como nunca.

E de madrugada, assisti a Noite Vazia, de Khouri. Foi como se tivesse levado um poderoso murro no estômago e o tempo parasse à minha volta. Cruel, instigante, sem concessões, ajuda-me a construir o quebra-cabeças da São Paulo do início dos anos 1960. Estamos diante de personagens que circulam à espera de algum acontecimento, enquanto o tédio flui amargamente nas relações. À parte o simbolismo das representações de cada uma das quatro personagens, e uma acentuada prevalência do 'solipsismo grupal', descortina-se um golpe decisivo, uma luz a mais sobre a hipocrisia social, sobretudo a de uma classe média em ascensão. Khouri não pode ser atacado pelos cinemanovistas da maneira que foi, principalmente por seu Noite Vazia. Trata-se de conceitos diferentes, de perspectivas temáticas e cinematográficas antagônicas, que não invalidam cada discurso e cada proposta estética. Noite Vazia é o que é, uma dura crítica do transe pequeno burguês nas noites mal dormidas. Sua sede por forjar uma emoção barata em cada esquina colide com a intransigência do mundo aos caprichos individuais, e o esforço por superá-la resulta numa atividade vã e muitas vezes mesquinha. Walter Hugo Khouri retratou maravilhosamente este impasse".

(in Diários, 15.02.98)


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