13 janeiro 2009

O senhor Abílio



Tomou o jornal nas mãos, apenas para confirmar as notícias da primeira página. Deteve-se na mais insensata, ilustrada por uma imagem. Nela, via o que seriam corpos de crianças enrolados com panos, prontos para baixar a sepultura. Uma densa presença de adultos expressava sua dor, homens e mulheres que choravam ou simplesmente olhavam para o chão, devastados pelos acontecimentos. As mulheres expunham o sofrimento de maneira menos contida, os rostos crispados por mais uma jornada de dor e impotência. Suas almas estavam em comunhão com um tempo que já não lhes pertencia. Abílio não queria, mas pensou na prostração, na indolência, no prosseguimento da carnificina que súbito, lhe pareceu tão viva e inescapável. “Amanhã serão outros pais e mães pranteando suas crianças...”, e só então se deu conta do espírito irredutível da morbidez humana, que principiava como pequenos equívocos, lamentados aqui e ali, aos bocados transformados em crimes hediondos, em série, justificados com pesar, para depois serem esquecidos e sepultados, como aquelas crianças.