14 julho 2011

A dança dos milhões



Há pouco mais de dez anos, Moacir Werneck de Castro publicava no finado JB um artigo com o título que empresto para esta postagem. Texto denso, bem escrito, de abordagens múltiplas, impresso nas páginas iniciais do jornalão, davam o tom para a reflexão que pautava a edição (reflexão que hoje em dia se concentra na superficialidade dos analistas e filósofos 'qualquer coisa', mais preocupados com os cifrões e com a fama, pobre fama etérea).

A pena atilada do insigne jornalista e escritor descrevia belos contornos, fazendo um registro dos tempos então vigentes e que tristemente se anunciavam (Bush filho ainda não havia sido eleito) no horizonte. Vivíamos os tempos do governo FHC, Fujimori no Peru, Menem recém saído na Argentina, a cartilha neoliberal ainda se apresentando como a sagrada solução para as conjunturas econômicas do mundo, e em especial para a América Latina.

O texto iniciava trazendo as perdas bilionárias nas bolsas, como se fosse um salutar exercício dominical ao alcance de todos, trazendo como exemplo o caso de Bill Gates, que da noite para o dia havia perdido 11,5 bilhões. Moacir destacava um sutil comentário do Greenpeace, "Essa gente confunde a bolsa com um cassino". Interessante antevisão dos fatos. E trazia como contraponto a miséria do salário mínimo brasileiro, que na ocasião sequer atingia o patamar de 100 dólares, quantia que não representava "a décima milésima parte do milhão", esse mesmo milhão que, nas hostes neoliberais, significavam coceirinhas para a busca do sucesso.

O autor citava o ministro Malan, "com 151 reais o país vai à falência", ou seja, nosso mínimo sequer alcançava esse patamar (hoje é de 510 reais, ou 325 dólares, e ao que se saiba, não quebrou o estado). A realidade econômica de nosso país passava pelos ditames do FMI, e pasmem, a incompetência de nossas investigações federais levavam o FBI estadunidense a investigar os escândalos brasileiros, em paraísos fiscais. Não se tratava, pois, dos arremedos de escândalos hoje produzidos a granel pelos conglomerados midiáticos.

Werneck derivava o assunto dos milhões para outros temas. Por exemplo, citava que na CNN, uma das atrizes mais bem pagas da época, Júlia Roberts, nunca ganhando menos de 20 milhões de dólares por papel, havia revelado "o segredo de sua autoconfiança, a leitura de O Alquimista". Ele brincava, dizendo que nem o autor Paulo Coelho, nem tampouco seu editor, não souberam explorar o marketing pronto, com alguma divulgação do tipo "Alquimista garante faturamento de milhões", junto a uma foto do autor e de Roberts.

Mais delicada, na época, era a situação do jogador Ronaldo, que se restabelecia de uma grave contusão, muitos duvidando de sua recuperação para a Copa de 2002. Werneck chamava atenção para o menino nascido e criado no subúrbio do Rio, que em poucos anos havia amealhado uma fortuna de centenas de milhões de dólares, conforto contraposto à rispidez do mercado, "nada de sentimentalismos, tudo gira em torno da especulação sobre os milhões que ele vai deixar de ganhar"... E complementou, "as empresas anunciantes precisam de uma imagem de sucesso para investir... a dor... traz efeito negativo para o investimento".

O oposto dessa situação, naqueles dias, ocorria em Miami, o caso Elian González. Como se sabe, a justiça estadunidense, após um longo processo judicial, entregou o menino para a guarda do pai, que vivia em Cuba. Eis um assunto que mereceria, hoje, uma ótima reportagem. Como estaria o jovem Elian, que na ocasião foi o pivô de uma disputa entre ideologias. Os cubanos de Miami não aceitaram a entrega para o pai, tentaram suborná-lo com 2 milhões de dólares, "tentaram o garoto com videogame, pokemons, Disneyword, sanduíches do MacDonnalds... a parafernália ilusória do consumo em lugar do afeto".

Os cubanos miameros tentaram de tudo, inclusive a produção de um vídeo em que forjavam a felicidade de Elian, junto a tanto conforto consumista. Não deu certo, o menino optou por encontrar o pai e viver a vida em uma cultura menos opulenta, mas plena de sentimentos genuínos.

Werneck observava com um provérbio espanhol, "poderoso caballero es don dinero", para concluir de maneira brilhante o seu artigo, "na sociedade em que vivemos a miragem da riqueza anunciada, afinal, se desmascara, sonho lotérico fomentado por torrentes de uma propaganda psicotrópica... superar a realidade não é simplesmente matéria de dinheiro".



02 julho 2011

En passant

Montmartre, 2010


Havia horas que o jovem K. tateava pelos caminhos de Sacre Coeur. Desde que descera na estação Anvers, rodeava em meio às lojas de souvenirs, tentando se convencer a escalar os caminhos até a igreja e, mais além, até a praça du Tertre. Por fim, avançou sob o vento cortante daquela manhã, submerso em pensamentos vagos. Contornou o caminho mais direto, o funicular, e subiu as infindáveis escadarias até o topo da colina.

Pensava na estação Bonne Nouvelle, ali próxima, o conto de Benedetti que começava e terminava na estação... pensava no impressionante desfecho, original diante de tudo que podia imaginar... Pensava nas verdades não ditas e nas verdades ouvidas e pensava nas situações da vida que o acompanhavam sem se definir. De quando em quando, voltava-se para o mundo ao redor, as escadarias, a velha eslovaca andando sobre a neve endurecida e esbravejando para os caminhantes imaginários, a mãe e filha conversando e fotografando, entre sorrisos e carinhos, o cume que se avizinhava, o ar gélido que penetrava-lhe os pulmões, o calor do esforço em contraponto com o frio penetrante...

Uma vez no alto, observou a cidade, seu entramado raso, sem os espigões das metrópoles brutalizadas, a névoa subtil embaçando a visão, e mais uma vez o vento tangendo, acariciando pesadamente o rosto barbado, colhendo a ele e aos poucos turistas que, estáticos, desejavam apreciar alguma coisa da paisagem. Não se sentia disposto a arredar pé dali, não tinha pressa, seu compromisso era com o dia, essa flânerie sem direção, aportando em todos e quaisquer lugares, um violinista tocava sem inspiração suas melodias desoladas, e no chão, o pedido por umas moedas.

Por fim deu meia-volta e seguiu os caminhos meândricos até a praça, que no verão ficava atulhada de turistas. Pois agora o inverno os afugentava e ela tornava-se aprazível, uns poucos tripés com quadros, seus autores distraídos em pequenas rodas de conversa. K. seguiu por um caminho que não conhecia, passou por pequenos restaurantes que abriam as portas e por cafés com poucos visitantes. Avançou até o fim da praça, seguiu por uma rua secundária, virou à esquerda e por uma passagem estreita, alcançou outra escadaria. Agora, a descida, interrompida por breves terraços que suavizavam para o transeunte. Sentia-se em forma, mas aproveitava as paradas para olhar para as janelas ao fundo, os telhados, o corredor coberto de vegetação, as elegantes luminárias, o silêncio que sibilava nos ouvidos...

Assobiava a trilha de Bonanza, cujos capítulos recuperou na tevê, nas noites em que se recolheu afugentado pelo frio. A melodia o remeteu à imagem de Ben, o patriarca de Ponderosa, e também a Ben, o cachorro do amigo Klaus. Vira o cão pela última vez havia meses e estava velhinho, andando com dificuldades, e lembrou da véspera da despedida, acariciando o bicho que parecia pressentir o adeus. "Não mais o verei", pensou K. enquanto descia o último trecho de escadas.

Chegou por fim à base, e tomou a rua transversal, que descia até um pequeno largo, com mais movimento de pessoas, e no lugar de dirigir-se à estação de metrô e dar por encerrado a caminhada matinal, decidiu tomar um café. Escolheu um pequeno bistrô, agradável e mais afastado, no meio de uma viela sem saída. Entrou como se fosse um pistoleiro em um salão do velho oeste (ainda sob os efeitos de Bonanza) e notou as mesinhas já preparadas para o almoço. 

No canto esquerdo, um casal tomando o desjejum, umas duas mesas do meio ocupadas por homens que interromperam a conversa para observar a entrada do forasteiro e ao fundo, uma jovem escrevendo, como a esperar a diligência da tarde, com uma enorme bagagem ao lado. K. dirigiu-se para os fundos, próximo da garota, que não parava de escrever. "Talvez faça minhas anotações também", pensou. Sentou-se na mesinha próxima da jovem e pediu uma taça de café noir, e se deu conta de que não estava inspirado a escrever.


Já não chamava mais a atenção do pequeno público, que retomou a conversação mais parecida a um murmurar mântrico. Foi quando a garota moveu suas coisas para mais perto de si, como a convidar K. a sentar-se mais próximo. Ele desculpou-se pelo incômodo, o movimentar difícil por entre as mesinhas e o pequeno espaço do lugar. Seu francês deve ter soado tão desastrado quanto sua chegada, ela lhe abriu um sorriso e perguntou sua origem. Subitamente K. animou-se com as circunstâncias e passou a organizar as ideias e a fala na língua que pouco conhecia. A jovem abriu-lhe outro sorriso, suspendendo a escritura, e com um sinal de positivo, mais um gesto facial, confirmou-lhe que seu francês era bom. E conversaram.

Chamava-se Heléne e acabara de chegar do Laos, depois de dois meses de viagem. Estava carregada de pertences, roupas, caixas de chá verde, um chapéu típico da Indochina, e despertava a atenção de K. pelo modo de se expressar, pelas palavras pronunciadas com vagar, pela serenidade do olhar, aberto para expor todas as experiências de uma viagem apaixonante. Falaram do Laos, de música (a jovem era pianista), de Estrasburgo e de São Paulo, da beleza de uma vida sem ganâncias, marcada pelo ritmo da pobreza coletiva, e do respeito ao próximo. Falaram de um mundo tão amplo e ao mesmo tão pequeno, a ponto de permitir aquele encontro, a convergência de um peregrinar por caminhos opostos.

Ela pediu água quente para o chá, ele outro café. Não se incomodaram com o espaço acanhado do Café e vez ou outra silenciavam por segundos, era quando o blues de fundo fruía solene, já dividindo o espaço com o ronronar monocórdio das pessoas que chegavam para o almoço. As garçonetes iam e vinham, levando pedidos e trazendo pratos. Por fim, depois do terceiro café e de saberem um pouco mais do cotidiano de cada um, K. alegou que tinha de partir. A jovem retirou do caderninho uma folha e escreveu umas frases na língua asiática, reproduzindo a sonoridade fonética. Ele tomou o papel e despediu-se. 

As coisas terminariam por aí, com K. levantando-se, outra vez de modo a chamar a atenção dos presentes e partindo após um beijo casto na face da bela mulher... Ela o acompanhou até a saída do bistrô. A passagem pelas mesas, atravessando pedaços de conversas íntimas, relatos cotidianos, tensões, projetos, terminou por despertar-lhes a memória de uma longa história em comum, de uma vida mundana intensa, pactuada ao longo dos anos de convívio. Enquanto se desviavam das mesinhas, cada qual sorriu pelas lembranças retomadas. Uma vez do lado de fora, sob o vento enregelante que soprava dos baixios de Montmartre, o senhor K. alinhou os cabelos de Heléne com o carinho habitual e se despediram, o longo suspiro dividido nos lábios, a certeza compartida de que a aventura prosseguiria.


O imaginário que nos supre


Gedächtniskirche, 2010


O mês de junho passou sem que pudesse absorver devidamente as alegrias, e registrar as efemérides marcantes.

Histórias Invisíveis surgiu em uma prazerosa tarde de encontros. Muitas imagens me acudiram antes deste evento, a mais recorrente delas, a presença das nossas personagens se apresentando, sem qualquer cerimônia, na mesa do café, no escritório durante a escritura, nas ruas, nos cantos menos previsíveis. Desejavam, por minha intermediação, saltar para o mundo.

Já não se satisfaziam apenas com a representação nas histórias, almejavam o prazer da igualdade negada. Delicadamente, desprendiam-se do papel que lhes fora atribuído pelos autores, queriam sentir a naturalidade de flanar pelos lugares, sem permissão a pedir.

Ao imaginá-los tão próximos, eu fazia o movimento inverso deles, desprendendo-me da realidade.

Apaixonei-me com o imaginário enquanto durou. Acalentei repetidamente seus passos nas releituras das histórias, para deliciar-me com os hábitos imaginados de cada um, e trilhar o caminho que deliberamos escolher, em uma profusão de possibilidades. Pude, ainda uma vez torná-los vívidos, e me emocionar com o mundo ao redor.
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O mês de junho marcou também o décimo aniversário da morte do professor Milton Santos, esse crítico profundo do mundo em que vivemos.

Lembro-me que na ocasião eu vagava em meio às inúmeras dúvidas, por onde retomar o caminho dos estudos de pós-graduação. Girava em um torvelinho de ideias e projetos, e foi quando me decidi buscar a Geografia, que topei com um aviso simples, no quadro de avisos do departamento, anunciando seu falecimento.

Acalentava consultá-lo sobre meus projetos, e aquela notícia me fez sepultar todos eles, por algum tempo. Lembrei que semanas antes, atravessara o saguão, vindo do prédio das Ciências Sociais, e soube por um conhecido que Milton Santos proferia um seminário, em uma das salas. Pensei e disse para mim mesmo, "hoje não!", sem imaginar que seria a última oportunidade.
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Posso dizer que conheci mais profundamente as ideias do pensador Milton Santos depois de sua morte, nas minhas aulas de Comunitária, e no meu projeto de doutoramento. Nos anos de graduação, na Geografia, conheci o professor quase que intimamente, mas graças ao contato pessoal tão comum, pelo convívio nos mesmos espaços. Não fui seu aluno, e devo ter visto uma ou duas palestras, se tanto, mas tomava café na cantina, ao seu lado, observando-o e ouvindo-o, em toda a sua generosidade.

Em maio de 1988, quando ocupei de maneira bissexta a diretoria de cultura da associação dos funcionários da CEF, resolvi convidá-lo para uma palestra em nosso auditório, para falar da condição do negro em nossa sociedade, aproveitando os cem anos de lei Áurea. Até hoje sou capaz de imaginá-lo sorrindo para mim, em uma decidida recusa, sem usar da descortesia ou, mais admirável, sem dizer não.
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Também em junho, meu time de coração ganhou o tricampeonato da Libertadores das Américas. Em outros tempos teria comemorado fervorosamente. Hoje, diante do panorama mercantilizado e corrupto do futebol mundial, apenas me satisfiz com as boas lembranças de um passado mágico, quando o uniforme livre de anúncios e vestido por homens apaixonados pelo ofício maravilhavam o mundo com a graça de sua ginga.

Ainda hoje, causa-me especial comoção o imaginário das imagens da final entre Santos e Benfica, 1962, no Estádio da Luz. Aqueles deuses negros vestidos de branco, desfilando pelo gramado e fazendo gols, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
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A consciência imaginante apreende o irreal, revelando o imaginário. Nele, as coisas diferem da percepção do real, pois se definem na apreensão irrealizante do fato imaginado. Talvez isso explique e justifique algum excesso bondoso no registro das lembranças.



18 junho 2011

Uma bela jornada




Sábado passado, eu e Mônica Rebecca tivemos o prazer de acolher dezenas de pessoas queridas para o lançamento das Histórias Invisíveis, tão acalentadas por nós ao longo de dois anos.

Foi uma jornada alegre e festiva, onde pudemos encontrar os amigos de todos os dias e os que perdemos o contato cotidiano. Em meio a palavras de carinho, de abraços afetuosos, ao sabor de vinho e dos sorrisos gentis, ocorreu a confraternização tão prazerosa, que começou no final da tarde e alongou-se noite adentro.

Fica a expectativa de que as narrativas ficcionais, calcadas na realidade acelerada de nosso cotidiano, possam despertar os olhares generosos, e o desejo pelo tempo igualmente bondoso, que se insiste em desconsiderar.



05 junho 2011

Ollanta Humala


Urnas encerradas, os primeiros números de boca de urna de três institutos de pesquisa indicam vitória do candidato nacionalista Ollanta Humala: CPI, com 52,5% dos votos; Datum, com 52,7% e Ipsos Apoyo, com 52,6%. Importante para as mudanças sociais que se fazem necessárias no Peru, um país que mantém elevados índices de crescimento, mas que persiste com péssima distribuição de renda, sobretudo entre a ampla população indígena.

Confirmando-se os resultados extra-oficiais, ganha também a Unasul, com a participação efetiva de mais um país no processo de integração latinoamericano. Uma vitória da democracia e da transparência!

p.s.- acompanhei a cobertura pela TelesurTv, ao vivo, que simultaneamente atualizou o espectador em relação à situação política no Iêmen e a cobertura do final das eleições portuguesas. Impressionante a qualidade da informação, realizada com clareza e objetividade na abordagem dos fatos. Jornalismo sério, competente e prestativo, como deve ser.


31 maio 2011

O velho Santiago



Há tempos que venho ensaiando em escrever sobre este segmento de narrativa, que me acompanha desde a adolescência, no começo do amor pela literatura. Trata-se do velho Santiago, o protagonista do livro de Hemingway, O velho e o mar, em um momento perdido lá no meio da história, quando ele já está em alto-mar, na expectativa da dura luta contra o peixe capturado, e se perde nos fragmentos dos devaneios ocasionais, os jogos de beisebol, DiMaggio, a leitura do tempo, o céu límpido de setembro, e então, a lembrança de uma queda de braço contra um negro de Cienfuegos, que começou em uma manhã de domingo e terminou no alvorecer do dia seguinte, antes que os trabalhadores tivessem de ir às suas fainas.

Por que a reminiscência deste episódio? Talvez o assombro inicial pela imagem dos dois oponentes, imóveis, medindo forças frente a frente, impávidos, tomados pelo desejo do enfrentamento. O velho Santiago em sua juventude, e o negro de Cienfuegos, um atleta encorpado. Davam-lhe cigarros acesos e rum, com o que mantinha-se para derrotar o rival, em meio a uma platéia que acompanhava incrédula ao desafio.

Trocaram-se os juízes, os apostadores iam e vinham, e assim passaram-se as horas. Por um momento, Santiago pareceu fraquejar cedendo alguns centímetros, mas resistiu e a custo, conseguiu equilibrar a contenda. Despontava o novo dia, e quando todos os presentes propunham o empate, Santiago reuniu todas as forças que lhe restavam e forçou a mão do negro para baixo, mais para baixo, até encostá-la na madeira.

Não penso na vitória do velho Santiago, não é o ponto mais relevante, mas sim essa imagem do combate justo, forjado nos olhares que se mediam e se respeitavam. Para um moleque como eu, a representação da taberna, o lampião de querosene e as sombras dançantes, o saboroso ardor do rum e a névoa renovada de fumo, aprofundaram o cenário trágico, de silenciosa fixidez, da metáfora do embate cotidiano. Como se a breve cena preparasse a sofreguidão do embate a seguir, em alto-mar, magnificamente descrito.

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Antes de me causar espanto, a cobertura midiática das eleições presidenciais no Peru me confirmam o horror nauseabundo que vivenciamos aqui, no ano passado. O candidato Ollanta Humala é ignominiosamente conduzido ao sacrifício público, submetido às desventuras de um ataque sem quartel, envolvendo os grandes veículos de comunicação do país.

O brutal dispositivo dos meios hegemônicos sepulta o jornalismo sério e informativo, disseminando uma visão capenga da realidade, eivada de vileza e intolerância. No processo desgastante, o verdadeiro jornalismo é o primeiro a ser sacrificado, vindo a seguir (ou ao mesmo tempo) os receptores das mensagens, toda a população.

Resta saber se ela vai tolerar esse parcialismo desabrido, sem escrúpulos, que nada é capaz de produzir senão desinformação, em nome dos recorrentes interesses corporativos.


25 maio 2011

Histórias Invisíveis



Se me permitem, abordarei um projeto literário recém-concluído, cuja consecução foi muito especial para mim. Há pouco mais de dois anos, eu e a pesquisadora e escritora Mônica Nunes, demos início, muito ao acaso, a um exercício de observação da realidade urbana, e passamos a produzir pequenos blocos de registros, amparados em figuras anônimas, ocultas por detrás de seus movimentos corriqueiros, e vislumbradas no abandono das ruas, no burburinho de um café, ou na intimidade de um pequeno apartamento da grande cidade.

Cada situação tracionada tão somente pelas delicadas variáveis das pequenas escolhas, que ao final das contas, vivificam a alma do cotidiano. Os olhares revelando o amor, o desconsolo, o estranhamento, as palavras ternas, as aflições, as dúvidas, as carícias sutis, mescladas com golpes tormentosos... A cada tema proposto, uma continuidade específica da narrativa e assim por diante, de tal modo que podíamos remontar, ao sabor da pura ficção, o drama social e existencial de cada personagem.

Foi a partir desse processo de intervenção do imaginário, que optamos por criar os percursos das personagens e promover novas derivações para os fatos. Das apreensões do real, esboçamos a ficção possível, e ao longo das histórias os protagonistas e coadjuvantes se acertam em torno do ritmo de suas vidas, marcado pelas minúcias das rotinas diárias.

Elevam-se, assim, as personagens mais comuns, à margem do processo regido pelo espetáculo. Capturamos, em nossa observação da realidade, os atores sociais menos relevantes, e alinhamos nossa pena em torno de seus possíveis, acompanhando seus sonhos, dores, alegrias, impasses, os inúmeros matizes da dimensão humana.

Em um mundo permeado por temas que se imaginavam sepultados no século passado, como racismo, homofobia, preconceitos linguísticos e de classe, procuramos avançar no sentido oposto, referendando a beleza dos pequenos gestos, concebidos longe das câmaras de segurança, ou da mediação sensacionalista. Apenas a sagração da vida convencional, com sua elegância peculiar, que se desvanece com a mesma naturalidade que surge, e com isso, revelando a força da sua presença.

Convidamos o leitor a peregrinar pelas dobras da Paulicéia, e ouvir a polifonia de vozes, sussurradas, pensadas, esboçadas, sufocadas. Confesso, de minha parte, o prazer de interagir livremente a dimensão real com a imaginária, e descobrir que elas se tocam, se misturam, se interpõem ininterruptamente, revelando as contradições que perpassam o cotidiano urbano das pessoas comuns.

Redescobrimos, enfim, ao escrever estas doze crônicas ficcionais da cidade, o quão inspirador é poder perceber e se apaixonar pelo próximo, esse desconhecido bem ao nosso lado.

Histórias Invisíveis, de Mônica Rebecca Ferrari Nunes e Marco Antonio Bin, Editora Horizonte.
Lançamento: dia 11 de junho de 2011, na Livraria da Vila, Alameda Lorena, 1731, 1. andar.

Estão todos convidados!



19 maio 2011

Fuga sem fim




A dor sentida contém os passos, não faço mais do que me arrastar pelas ruas. Já não sinto as pernas, então alcanço o banco na praça. Sou obrigado a parar em um lugar que desconheço completamente. Acomodo-me sob a amplitude da praça, uma tarde opaca e úmida. Meu olhar percorre os cantos, os edifícios soturnos, as árvores eriçadas, com seus galhos escalvados. Um misto de ausência e torpor, por minutos nada acontece, a não ser o vento cortante, em rajadas sucessivas. De repente, duas estampas que emergem da saída do metrô e cruzam a praça deserta, céleres, até desaparecerem do outro lado. Invejo-lhes a destreza do deslocamento, a agilidade que não me é permitida. Penso (e só posso fazê-lo porque estou detido) sobre esse movimento acelerado das pessoas, sobre o inevitável ritmo humano na metrópole, como se todos escapassem, desejosos de proteção do ruído incessante, sob o pretexto de um compromisso. Deslocamo-nos almejando o abrigo da sanidade, fugindo do inconveniente sonoro da modernidade, que atormenta e devora.