25 maio 2011

Histórias Invisíveis



Se me permitem, abordarei um projeto literário recém-concluído, cuja consecução foi muito especial para mim. Há pouco mais de dois anos, eu e a pesquisadora e escritora Mônica Nunes, demos início, muito ao acaso, a um exercício de observação da realidade urbana, e passamos a produzir pequenos blocos de registros, amparados em figuras anônimas, ocultas por detrás de seus movimentos corriqueiros, e vislumbradas no abandono das ruas, no burburinho de um café, ou na intimidade de um pequeno apartamento da grande cidade.

Cada situação tracionada tão somente pelas delicadas variáveis das pequenas escolhas, que ao final das contas, vivificam a alma do cotidiano. Os olhares revelando o amor, o desconsolo, o estranhamento, as palavras ternas, as aflições, as dúvidas, as carícias sutis, mescladas com golpes tormentosos... A cada tema proposto, uma continuidade específica da narrativa e assim por diante, de tal modo que podíamos remontar, ao sabor da pura ficção, o drama social e existencial de cada personagem.

Foi a partir desse processo de intervenção do imaginário, que optamos por criar os percursos das personagens e promover novas derivações para os fatos. Das apreensões do real, esboçamos a ficção possível, e ao longo das histórias os protagonistas e coadjuvantes se acertam em torno do ritmo de suas vidas, marcado pelas minúcias das rotinas diárias.
Elevam-se, assim, as personagens mais comuns, à margem do processo regido pelo espetáculo. Capturamos, em nossa observação da realidade, os atores sociais menos relevantes, e alinhamos nossa pena em torno de seus possíveis, acompanhando seus sonhos, dores, alegrias, impasses, os inúmeros matizes da dimensão humana.
Em um mundo permeado por temas que se imaginavam sepultados no século passado, como racismo, homofobia, preconceitos linguísticos e de classe, procuramos avançar no sentido oposto, referendando a beleza dos pequenos gestos, concebidos longe das câmaras de segurança, ou da mediação sensacionalista. Apenas a sagração da vida convencional, com sua elegância peculiar, que se desvanece com a mesma naturalidade que surge, e com isso, revelando a força da sua presença.
Convidamos o leitor a peregrinar pelas dobras da Paulicéia, e ouvir a polifonia de vozes, sussurradas, pensadas, esboçadas, sufocadas. Confesso, de minha parte, o prazer de interagir livremente a dimensão real com a imaginária, e descobrir que elas se tocam, se misturam, se interpõem ininterruptamente, revelando as contradições que perpassam o cotidiano urbano das pessoas comuns.
Redescobrimos, enfim, ao escrever estas doze crônicas ficcionais da cidade, o quão inspirador é poder perceber e se apaixonar pelo próximo, bem ao nosso lado.

Histórias Invisíveis, de Mônica Rebecca Ferrari Nunes e Marco Antonio Bin, Editora Horizonte.
Lançamento: dia 11 de junho de 2011, na Livraria da Vila, Alameda Lorena, 1731, 1. andar.

Estão todos convidados!


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