23 maio 2016

Sobre Ideologia e Propaganda

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Recuperei das estantes da casa de meus pais um livro adquirido há mais de 35 anos, ainda no tempo da abertura política, sobre a expansão ideológica de Tio Sam em nossa América Latina. Ficou esquecido esses anos todos, e agora talvez imbuído do espírito de luta e dos ares revolucionários, o retomo em um momento onde o tema volta fortemente à tona, considerando a situação política de ruptura constitucional e as suspeições de espionagem da NSA estadunidense no governo Dilma e em empresas brasileiras como a Petrobrás.

Há uma boa análise da guerra psicológica promovida pelos EUA, que se estende ao longo do século XX abrangendo os diversos golpes bem-sucedidos no continente, Guatemala, Chile, Uruguai, Peru, e o que fracassou em Cuba. Aliás Cuba é a menina dos olhos do trabalho de Katchaturov, então o diretor da Agência de Notícias Novosti e que certamente desfrutava de boas fontes de informação da inteligência soviética, debatendo a ação ideológica de órgãos específicos, como por exemplo a agência de informações dos EUA, a USIA.

Afora os momentos de exaltação a Lênin, e outros como a acusação a Solzenitsin que denunciava os gulaks soviéticos, o livro, traduzido direto do russo por Anita Leocádia e publicado por Ênio Silveira, traz boas análises, nenhuma devidamente aprofundada, mesmo quando traz um tema promissor, como a revista de costumes Reader Digest, que teve grande penetração em toda a América Latina e serviu para nos transplantar o 'american way of life'. Inclui na análise outros veículos de comunicação de massa, como televisão, rádio e imprensa escrita.

Também aborda os quadrinhos, como as críticas de Dorfman e Mattelart sobre os personagens de Walt Disney, "(...) utiliza apenas aqueles elementos das qualidades naturais da criança que permitem mistificar o mundo das crianças (...)", e o conjunto de outras publicações, referentes a histórias que se dedicam majoritariamente a crimes, violências e horrores". De um modo geral, pipocam na publicação informações embasadas em autores pouco conhecidos, como o pesquisador costa-riquenho E. Mora ou o jornalista R. Silva Espejo, do El Mercúrio.

O ponto interessante da obra é estudarmos o poder de penetração da propaganda dos EUA a partir de fora, de um autor que demarca o alcance pernicioso do imperialismo estadunidense. Em trechos bem escritos e documentados, como a parte do histórico dos golpes latino-americanos, é possível despertar o leitor para novos pontos de vista da questão, o que torna a leitura promissora, mas o estilo morno do padrão narrativo soviético prevalece na obra e entorpece a expectativa do leitor.   

Abaixo, um dos bons trechos da obra, em que Katchaturov aborda a ação imperialista contra o governo peruano de Velasco Alvarado.

"A campanha antiperuana desencadeada pelo imperialismo concentrou o seu fogo contra o 'estrangulamento da liberdade de palavra' como prova do caráter 'antidemocrático' do regime revolucionário. Na realidade, a propaganda imperialista perseguia os seguintes objetivos fundamentais: o descrédito das transformações antiimperialistas e antioligárquicas, realizadas durante a primeira etapa do proesso revolucionário, assim como da política externa independente do Peru (...)
Serviram de canais para a propaganda subversiva antiperuana os órgãos de informação de massas dos EUA, dos regimes latino-americanos de direita, assim como a imprensa reacionária do Peru. A partir de meados de 1974, após a expropriação dos jornais, a reação passou a utilizar os jornalistas que neles trabalhavam - tanto os de direita, como os de ultra-esquerda - para fazer uma crítica formalmente 'construtiva' contra o governo. 
(...)
A propaganda imperialista utilizou o regime chileno como fonte de inspiração para a campanha de calúnias contra o Peru. Quando da participação da URSS na construção de um complexo de industrialização de peixe no Peru, a imprensa sob controle da junta chilena, no início de 1974, apelou para uma falsificação, segundo a qual estariam sendo 'construídas instalações para o lançamento de foguetes' e o Peru estaria sendo transformado no 'baluarte do marxismo no continente'. (...)
(...)
O ponto culminante da 'guerra psicológica' contra o governo de J. Velasco Alvarado foi o pronunciamento contra-revolucionário de fevereiro de 1975. No dia 3 de fevereiro em Lima, teve início uma greve de policiais, que a reação utilizou para a organização posterior de ações armadas. Organizaram as provocações a CIA, a embaixada dos EUA, os agentes da IPC, espiões chilenos, os partidos políticos reacionários do Peru e os grupos esquerdistas*, assim como os serviços de informação do Ocidente, principalmente dos EUA. (...)"


* curioso observar o termo 'grupos esquerdistas' como facções não revolucionárias, pertencentes à oposição.  


(K.A.Katchaturov, A Expansão Ideológica dos EUA na América Latina - Doutrinas, formas e métodos de Propaganda dos EUA, Ed. Civilização Brasileira, 1980).


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