16 janeiro 2013

Pensamentos fugidios



            Uma voz, quase incidental, no meio da noite. Uma voz feminina que se alternava com uma guitarra plangente, foi o que me despertou. A sutil receita para romper a casca que separava meu sono do mundo real, da janela aberta, das paredes do edifício, do lugar onde nascia a melodia. Deixei-me levar pela crença de um sonho, que afinal de contas não durou muito, fazendo-me órfão, munido de uma consciência não muito clara de minha condição. 

Levantei-me...

                                      ... de onde surgira a voz, abruptamente interrompida? Da mulher dos gatos do quarto andar?, de qual espaço, por entre os edifícios?... Três e quarenta da manhã, ainda atarantado por retomar a realidade em meu cubículo, ou seria esse o sonho aflitivo de uma vida abandonada?, sigo até a cozinha, um copo com água, o corpo esgotado pela jornada desestimulante. O silêncio fez-se definitivo, como parecia ser o mais indicado para o horário...

Nada

Nada de vida no edifício em frente, tampouco da rua, ainda mais silente. Nenhum traço do que fora uma sonoridade sublime, tudo como que diluído no espaço morto de uma noite de outono. Uma sensação sonambúlica, em que a única certeza era a possibilidade de haver sentido uma voz lastimosa, sugada pela indiferença do mundo... 

            Movimentei-me pelo apartamento, sem concentração para uma possível leitura, sem disposição para sair pela noite. As notas da melodia que não me abandonaram... os tons, os minutos, as horas... O rosto intangível, esvaecendo-se. Aguardei um sinal, retomar a emoção efêmera... ausência incorporada em cada objeto ao meu alcance. Esforcei-me por subtraí-la com pensamentos fugidios... agora um copo e uma garrafa de vinho, larguei-me no sofá, exangue...

               Foi então que adentrou o rumor da chuva, seu olor suave, refrescando-me o corpo quente e úmido. O fundo negro da noite permitiu acompanhar a infinidade de gotinhas despencando, agrupadas, tombando nas ruas vazias, descartáveis... nada mais além disso...     e de sorver um copo após outro...  na mornidão sem qualquer inspiração...     nada que pudesse aventar...          ou talvez alguma esperança...  
  
o som do trólebus passando...     a pista molhada...      outro   gole...       o silêncio... 

                   vazio.


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