13 dezembro 2010

Fábulas de hoje e de sempre


Pois foi, então, que o maligno resolveu dar as caras. Estava cansado de apostar a alma dos humanos, de preconizar maravilhas, de seduzir com sua conversinha bem posta, de tal modo que decidiu retornar com uma nova atitude.
Fazia já um tempo que observava, do alto (isso me parece um abuso de sua parte, mas em se tratando do demo...) aquele fazendeiro de incomensuráveis posses, mergulhado em abundante fortuna e ainda assim, insatisfeito. Um homem que vivia uma vida de consumo exacerbado, sempre acompanhado por belas mulheres, grandes empresários, ainda que não passasse de um velho solitário e desgostoso. O detalhe que interessava ao demônio era sua ansiedade por conquistar, por apropriar, por acumular, fazendo desse expediente seu entretenimento preferido.
Foi fácil ao tinhoso se apresentar e, após uma breve demonstração, convencer o fazendeiro de seu poder.
- O que você quer de mim?
- Nada, só estou aqui para lhe oferecer...
- Oferecer o quê?
- Bancar todos seus desejos materiais!
- Todos meus desejos materiais... - um leve sorriso iluminou as faces gordas - e o que você ganha com isso?
- Bom, deixe que eu me preocupe com essa questão...
O fazendeiro não viu problemas com a proposta.
- E o que devo fazer?
- Apenas me diga sim, um simples aceno positivo - comentou um tanto enfastiado com a conversa - e as coisas se arranjarão para você e para mim...
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O fazendeiro assentiu, o demo não precisou esperar mais e, pluft, desapareceu no instante seguinte. Tudo muito fácil, rápido, cordato, sem assinaturas, apenas a essência da palavra dita (ou no caso, do gesto assentido). Para o latifundiário ambicioso, nada mais adequado e promissor, para o diabo, nada mais propício uma nova aceitação humana envolta de seus projetos...
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Ocorre que para dar por um lado, o demônio achou por bem tirar de outro. Se apareceu para oferecer com uma das mãos, simplesmente decidiu tirar com a outra, sem mais delongas. Uma rápida olhada na região e, mais uma vez do alto, observou, espremida às bordas de um riacho pedregoso, uma pequena propriedade arrumada em um ponto esquecido de uma planície esturricada, que destoava da fertilidade das terras do fazendeiro.
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Morava ali um casal de meia idade, que tirava o sustento da terra áspera. A casa era pequena e bem instalada, caiada, de telhado vermelho e janelas acortinadas. Nos fundos, chamava a atenção uma trilha de pedregulhos, que serpenteava um pomar de árvores frutíferas e pequenos cultivos, conduzindo até um banco de madeira, tão rústico quanto acolhedor. Dali podiam vislumbrar as dimensões da planície e a imensidão da noite.
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O demo não pensou muito: Se dou para aquele, tiro destes. Sua jogada era de perversa simplicidade, conduzir a todos os envolvidos, o fazendeiro ali e o casal chacareiro aqui, ao desconsolo profundo, aquele pelo excesso, estes pela falta aguda. Nem precisou aparecer em frente ao casal e uma vez desencadeada a ação maligna, pôs-se a acompanhar tranquilamente, de tempos em tempos com um copo de scotch nas mãos esguias, Isso será divertido, e descarregou no éter aquela gargalhada metálica, saída das profundezas de seu ventre indecoroso...
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Quanto ao ambicioso latifundiário, ele se abarrotou ainda mais de bens e serviços. Assacou, possuiu, comeu, bebeu, defenestrou, abordou, granjeou, expoliou, apresou, comprou com requinte e mais tarde, perdulariamente... não sendo suficiente, achincalhou, azucrinou, humilhou, apegou-se e depois descartou, consumiu e regurgitou, até perder-se em meio à mais desnecessária fartura. Ao fim e ao cabo, não teve mais como mover-se, em meio ao olhar parvo, devastado pela matéria e acuado pelos pensamentos insones, já impossibilitados em alcançar algum prazer... E desconsolou-se profundamente. O funesto esfregou as mãozinhas avermelhadas, com mais uma daquelas gargalhadas que rasgavam a garganta, impregnadas do mais completo desprezo...
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Quanto ao casal, nada foi mais doloroso que o passar dos dias, progressivamente mais longos e difíceis. Trabalharam de sol a sol, replantando as culturas fenecidas, carregando o peso de um esforço laboral cada vez mais hercúleo. Comiam o que podiam colher e o que podiam colher lhes garantia a sobrevida física. Faltou provimento de lenha para as noites mais frias e o descanso dos domingos. O silêncio nas imediações tornou-se abissal, e a aspereza da paisagem, cada vez mais pronunciada. Até para a sádica apreciação do diabo, o cenário de desconsolo se aproximava do limite supremo. As faces covadas, os braços ressequidos, os passos cada vez mais miúdos buscavam durante os dias o sopro da vida. Mas havia as noites, e com elas, os gestos que os impregnavam de esperança.
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Quando o breu se tornava mais profundo e sequer se percebia o chão do próximo passo, lentamente se esgueiravam pelo caminho de pedregulhos, até o banco de madeira, e ali sem nada mais a dispor, voltavam-se para os céus. E encontravam o luzir das estrelas, com o qual se punham a imaginar o futuro. Nos dias de lua cheia, havia a oportunidade de espreitarem os rostos, tocar um ao outro, sentir o calor das faces, desvelar o sorriso embargado... Pouco falavam, a tudo intuíam. Sentiam-se, nestes momentos, fortes o suficiente para não se desconsolarem. Se os bens materiais, o dinheiro, a ambição, os prazeres supérfluos, as coisas forjadas pelos homens acabaram-lhes negadas pelo demo, as benesses de Deus permaneciam intocadas e assim, disponíveis para os corações atentos. A beleza fugidia da lua, o canto suave do pássaro noturno, o mar de estrelas a enaltecê-los em seus sutís desejos, o deslizar da lágrima perdida, os carinhos tão solenes, o vento que emaranhava os cabelos, a suavidade das sobrancelhas, o canto dos lábios, o desenho das marcas de expressão, os olhares cúmplices e mais do que tudo, o amor renovado a cada noite.
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Contra essas pequenas dádivas, o diabo nada pode fazer e dando-se por vencido, escafedeu-se para outras paragens...
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