29 abril 2025

O discreto instante da permanência


Peter Keetman, Nebellauf, 1956

As tragédias que nos afligem, tão próximas, soltaram as amarras, e nesse tempo que sobrevém as dores e as infindáveis lembranças, é possível perceber a velhice se apropriar do corpo, e com ela, o cálice com o elixir que robustece o amor poucas vezes manifesto. O sorriso tão natural que brota suavemente na face tranquila de mamãe impulsiona os momentos belos que os irmãos passamos a compartilhar, momentos não só de compreensão e leveza, mas de serenidade. A temperança nos acolheu proporcionando o estado de espírito que nos abrigou da desesperança, de uma angústia poderosamente crescente. O idílio de uma paz inesperada, que nos contempla em cada encontro, esparge seus olores e nos torna mais humanos, na fartura como na falta. 

Mas a caminhada foi exaustiva, muitas das vezes sem os resultados desejados. Não encontrar um caminho significava a prevalência de um mundo descartável, arrefecendo-nos. Foi o amor que forcejou, e se instalou, e repudiou veementemente a futilidade dos temores, das falsas promessas e vez ou outra, das torpes expectativas. Sobreveio o tempo de acreditar na bondade a qualquer custo, de sentir a imensidão do universo, desde seus míseros vespeiros ao maravilhoso poente outonal. Foi necessário despertar dos bons e dos maus sonhos com a mesma dúvida; deleitar com as visões magníficas do farol cintilante na Comporta Tannhäusen, mas também considerar a tolice do descaso de cada dia. 

Entre o que foi e o que é, emerge o discreto instante da permanência e com ela, a possibilidade contínua da transformação pelo amor. Os segredos superados pela entrega. Diante de mim, Jessica sorri e convida-me para saborear o chá de cada noite.


24 abril 2025

Milei et caterva


Nas ruas da Itália


Tantos absurdos cometidos, que um a mais, outro a menos apenas reforça a pobre liturgia dos eventos. Disso se trata o dia a dia no neoliberalismo, o que é fato em um momento, no outro deixa de sê-lo, e não raro, da forma mais patética e desprezível. Então, não é problema para um chefe de estado desancar com outro, de maneira vil, para depois desejar acompanhar pessoalmente seu funeral. E vai para o funeral levando uma comitiva imensa, desnecessária, em um verdadeiro voo da alegria. No meio dessa comitiva, a ministra de segurança que na véspera cerceou (e nas semanas anteriores brutalizou) com uma imensa tropa policial às manifestações de aposentados pelas ruas da capital, como a vigiar um inimigo ensandecido, que ameaça a segurança nacional. 

Desta feita não houve balaços, ainda que tenha comparecido muito gás pimenta. Também na comitiva comparece o porta-voz, aquele que regularmente porta mensagens dolorosas para a economia da nação, e que pretende surfar em alguma onda para alçar o governo da cidade autonoma, nas eleições vindouras. Nenhum mérito justificável, como gosta de proclamar aos quatro ventos, como bom neoliberal que é. Na comitiva vai a irmã do chefe de estado, a voz indispensável da consciência do mesmo, motivo mais do que suficiente para confirmar sua presença na viagem. Ao que parece, não estará presente nenhum dos cães que orientam ao chefe de estado, e temo por essa ausência sobre seu equilíbrio emocional. A esperança é que o cão defuntado possa inspirar com seus latidos do além o pobre presidente, tão solitário, tão infeliz.

Quanto ao ex-presidente eleito deste país, ainda internado (mas passa bem, está em franca recuperação), este recebeu a intimação em seu leito hospitalar. Declarou todos os impropérios golpistas antes e durante o seu governo (há provas documentais substanciosas), agora, acuado em sua insignificância, se declara inocente. Não obstante, o julgamento no STF prossegue, e ao que tudo indica, fará grande justiça ao povo deste país, porque seus atos foram covardes, e porque seus atos foram criminosos contra a democracia deste país.

Gaza continua sob ataque, e não existe paz possível no horizonte. A pax neoliberal preocupada com a livre concorrência, insinua que nada de mais ocorre nos territórios ocupados, sobretudo em Gaza. Além dos ataques aéreos, o zumbido incessante dos drones de controle inquietam a população palestina, que não tem sossego, que não podem ir e vir, que não desfrutam da possibilidade da livre concorrência. Uma violência arbitrária, que não tem limites e não se extinguirá. Um ano e meio de destruição, de mortes, de crimes de guerra. 

O sionismo nunca esteve tão próximo e tão longe de alcançar seus propósitos. 


19 abril 2025

De Brecht, por Osvaldo Bayer




Vi recentemente a declamação de Elogio ao Estudo de Bertold Brecht por um Osvaldo Bayer nonagenário, com a força e entonação devidas, sem a falsa emoção que acompanha os manifestos frívolos. Bayer se detém a cada estrofe, como a firmar a beleza do texto, repetindo sempre o verso Prepárate para gobernar (Prepara-te para governar).

Desde que travei contato com sua literatura, isso por volta de 2007 quando estive na Argentina e adquiri seu formidável Patagonia Rebelde, acompanhei a trajetória combativa, a vida, a luta política, a produção de textos históricos até sua morte aos noventa e um anos em dezembro de 2018. Sempre alimentei um grande respeito por suas ideias, pelo enfrentamento corajoso contra os governos autoritários, que ajudou a inspirar minha visão política de mundo. 

Abaixo, transcrevo o texto de Brecht com minha tradução.


Elogio do Estudo

Aprende o mais simples.
Nunca é tarde para aqueles 
cujo tempo chegou!
Aprende o alfabeto. Não basta
mas aprenda-o! Não te desanimes.
Começa já! Deves conhecê-lo todo!
Prepara-te para governar.

Aprende, marginal, homem do campo,
aprende, ocupante do cárcere,
aprende, mulher atada à cozinha,
aprende, sexagenária!
Prepara-te para governar.
Vem para a escola, homem sem teto.
O saber é para ti que sentes frio.
Faminto: toma com força o livro, é uma arma.
Prepara-te para governar.

Não temas em perguntar as coisas, camarada!
Não te deixa influenciar,
descobre tu mesmo.
O que não sabes por conta própria
não o sabes.
Revisa a conta.
És tu o que a paga.
Ponha o dedo sobre cada cifra.
Pergunta: Como se chegou até aqui?
Prepara-te para governar.

(Bertold Brecht)

https://youtu.be/9Wv-yYIuGNo?si=V2SOFMscqT4n9wu1



14 abril 2025

Alejo Carpentier


Ernest Cole


O segmento abaixo é uma transcrição traduzida do espanhol do denso ensaio de Roberto González Echeverría, Alejo Carpentier, sobre o autor cubano, publicado em Narrativa y critica de nuestra America, pela editorial Castalia, Madrid, em 1978. O volume traz um conjunto de textos sobre diversos escritores latino-americanos que naquele momento se destacavam com suas narrativas. Optei pelo texto sobre Carpentier, um escritor que entusiasma pela descrição do barroquismo presente em nosso continente (e nesse sentido, muito bem abordado por Echeverría), ao trazer esse elemento expressivo da arte na composição do caráter do nosso povo, bem como o componente político arraigado nas múltiplas maneiras dele se realizar na realidade cotidiana. Como Echeverría bem observa, "Esse barroco é a nova metáfora carpentiana para o americano, que será a mistura, o sem estilo e sem método".

Além do que, Carpentier merecia, neste pequeno e insigne blog, uma lembrança ainda que discreta. Sem dúvida, o texto de Echeverría tem o mérito de abarcar com a devida profundidade o imenso narrador que foi Alejo Carpentier, mas não seria possível trazer neste espaço o ensaio em toda sua extensão, o que sem dúvida nos faz perder muito. Fiz a opção por traduzir a parte final, para ainda saborear a parte final deste importante estudo crítico. 

Fico particularmente orgulhoso em trazer um pouco que seja sobre a obra e o método de Carpentier; as falhas no ritmo ou na compreensão do texto ficam, por óbvio, sob minha exclusiva responsabilidade. Espero que apreciem.
 
(...)
"O recurso do método, que à maneira de Valle Inclán em Tirano Banderas e Asturias em O senhor presidente, destaca a figura de um ditador latino-americano, é esse futuro que a Revolução francesa anunciava. O título desta novela é, desde logo, uma paródia do de Descartes; mais do que uma paródia, é uma mescla de Vico com Descartes. Os recursos da história devem ser vistos, aqui, como as recurvas da mesma. O ditador hispano-americano regressa à França, de onde surgiu em princípio as bases de sua duvidosa legalidade, para dedicar-se desenfreadamente aos prazeres da carne, e ao labor de converter-se em uma espécie de déspota ilustrado, embora degradado; o ditador dorme em uma rede em seu suntuoso piso parisiense. Concerto barroco, o último romance de Carpentier, marca um retorno similar. Aqui vemos a influência da América na Europa. O barroco será assim o desarranjo do classicismo europeu como resultado do heterogêneo latino-americano: o Montezuma de Vivaldi, o esboço em gesso de tradições e traições, anuncia o jazz e outras manifestações exógenas do tipicamente novo do Novo Mundo. Esse barroco é a nova metáfora carpentiana para o americano, que será a mistura, o sem estilo e sem método. Nos últimos dois romances, surge um elemento novo em Carpentier, o humor.

García Márquez declarou que quando leu O século das luzes jogou no lixo o que tinha escrito de Cem anos de solidão e começou de novo. A influência de Carpentier sobre os novos novelistas tem sido enorme, às vezes, como no caso de García Márquez, por estímulo positivo, e outras, como em Severo Sarduy (quem parodia Intimidação, em Gestos), por estímulo negativo. Em prosa ficcional Borges e Carpentier são as figuras mais importantes na primeira metade do século XX na América espanhola. Borges por haver levado sempre até suas consequências mais radicais os problemas mais difíceis do ofício; Carpentier por ter moldado a uma temática latino americana experimentos novelísticos de alta envergadura, e sobre tudo, por ter feito da história latino americana seu tema principal. Além do que, por essa "curiosa indefinição" que o achacou Marinello em 1937 (no livro Uma novela cubana, publicado pela UNAM, México), Carpentier logrou dar causa à mais candente problemática hispano americana: a da falta de identidade, e conseguiu provar que, pelo menos em literatura, essa indefinição é o que define o americano. Ainda que, talvez, seja precisamente a indefinição o que defina a literatura, e então o exemplo de Carpentier será muito maior. 

Igualmente exemplar foi a entusiasta e laboriosa adesão de Carpentier à Revolução Cubana, que por fim lhe deu pátria desde a qual orientou suas multiplas peregrinações, e demonstrou a possibilidade de superar as contradições entre a vanguarda artística e a política.



31 março 2025

Cenas marcadas pelo tempo


A bela capa

Saiu a capa final, e com ela o miolo revisado. Trata-se de meu mais recente livro, Cenas que se diluem com o tempo, a ser lançado em abril, ou no mais tardar, em maio. Editado pela Urutau, tem sido uma nova experiência em termos de publicação, um ganho em termos de qualidade profissional. Desde a preparação da capa, passando pelos cuidados com a revisão pelo acabamento do livro, e considerando as dificuldades em publicar com a editora (pelas chamadas regionais serem muito concorridas), tenho uma grande expectativa pelo resultado final. 

Já estamos no fim do processo de revisão, e o próximo passo será a edição em si. O livro conta com 144 p. e desta feita, sem prefácio. Considerava até dois meses atrás como o meu patinho feio, pois ali está reunido um conjunto heterogêneo de gêneros e formatos diferentes, pequenos e médios contos, crônicas ficcionais, relatos de viagem, um fragmento de diário, poesias em prosa, um esboço de roteiro e até mesmo uma curta peça dramatúrgica. Mas com o resultado da chamada, iniciei leituras de revisão e me dei conta de um prazer inesperado que a obra me proporcionou.

O conjunto reúne 56 textos, sendo 28 singelos, afetuosos, recordatórios e 28 tensos, ardilosos, dramáticos, uma obra sem prefácio. Optei por reunir textos avulsos, alguns guardados há anos, que deram uma curiosa e ao mesmo tempo harmoniosa consistência de coisas diferentes que consolidam uma obra. Um livro que descreve situações, circunstâncias definidas por um tempo passageiro, apreendidas ao sabor do momento e que aos poucos se deixam diluir.



22 março 2025

Hackman, Gaza



Gene Hackman faleceu há poucos dias, juntamente com sua esposa. Este é um doloroso caso que pode se transformar em narrativa: dois idosos que moram isolados, praticamente sem contato com amigos e um deles (a esposa) falece e o outro (Hackman) tomado pela doença de Alzheimer, não sabe como reagir, ou como se virar, até que acaba fenecendo. Muito triste esse desfecho, considerando a cadeia de acontecimentos – a morte da esposa por hantavírus, sua incapacidade em reagir e buscar ajuda pelo avançado grau da doença. Um grande ator ganhador de dois Oscars, que marcou suas atuações pela presença cênica. Tinha uma grande admiração por seu trabalho, em especial no impactante Mississipi em Chamas, de 1988. No final, de nada valeu toda a fama e reconhecimento.

Israel volta a atacar fortemente Gaza, depois de dois meses de trégua, e deixa mais de 400 mortos. Como escrevi no posfácio de minha peça Terra Devastada, não haverá paz, porque não há negociação possível, considerando Netanyahu e Trump no poder. Ano que vem teremos eleições, e a pressão sobre a esquerda política só tenderá a aumentar. Até lá, Lula deverá se segurar porque é Lula, mas e depois? Paro por aqui, sigo para Santo Amaro.



03 março 2025

A amplitude de Ainda Estou Aqui


Greg Girard

Esse o Brasil, uma conjunção de formações díspares que não se alinham e no mais das vezes, se contradizem. Uma sociedade rompida que se constrói pela autofagia, onde os grupos mais fortes se estabelecem em detrimento dos mais débeis. Assim sempre foi e segue sendo, ainda que vez ou outra governos mais populares estabeleçam algum nível de desenvolvimento social. Leio Verdade Tropical, de Caetano Veloso com gosto, com uma defasagem de trinta anos desde sua escritura. Sua narrativa descreve o tempo todo o que se faz e o que se destrói em uma sociedade autoritária. O episódio de sua prisão, junto com Gilberto Gil, é de uma ignomínia absoluta, só mesmo produzida por um sistema ignorante até a medula, e que dispõe de poder.

O processo da detenção dos dois não difere da de Rubens Paiva e de tantos outros brasileiros. Lembro de Rubens Paiva em razão do filme Ainda Estou Aqui, de Walter Moreira Salles, ter ganho o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ontem. Uma festa coletiva, que tomou conta das ruas do Brasil, que demonstra a penetração que o filme teve nas várias parcelas da população. Mais de cinco milhões de pessoas só no Brasil assistiram no cinema Ainda Estou Aqui, propiciando uma compreensão muito clara do que significou a violência militar sob a ditadura, demolindo as falsas convicções de que o período foi de desenvolvimento e bem-estar.

O trabalho didático desse filme foi mais efetivo do que todo o processo de educação formal em 60 anos! Esclareceu, coletivamente, sobre os horrores da ausência de liberdade e de direitos civis. Talvez o ponto chave do sucesso foi uma narrativa que expõe a brutalidade de maneira indireta, sem a necessidade de conduzir o espectador às salas de tortura com a cadeira do dragão e as maquininhas de choques elétricos. E mais ainda: expor a sorrateira invasão domiciliar de uma família de classe média, quebrando sua estrutura com o sequestro e desaparecimento do pai. Tudo manifestamente decidido e conduzido nas entrelinhas do terror, sem rosto e sem finalidade.

Caetano e Gil foram sequestrados por terem participado de um show onde os artistas expunham a faixa famosa de Torquato Neto, Seja marginal, seja herói, sobre a reprodução de um corpo estirado no solo. A significação desse gesto superava a compreensão das mentes obtusas dos militares de plantão, que viam aí uma associação intolerável com propósitos subversivos. É provável que o tropicalismo e sua rebeldia cultural tenha incomodado as casernas, que na falta do que fazer, passaram a deter artistas. Os dois meses de prisão de Caetano produziram um terrível mal-estar depressivo, superado a custo mesmo no exílio em Londres. Espíritos sensíveis, que acusavam a dor e a violência recebida, sem uma pronta reação. Assim foi também com frei Tito, que não apenas foi detido, como duramente torturado, e que acabou se enforcando no exílio francês.

Eunice Paiva não se dobrou, embora tenha mantido um impressionante sangue frio no método que seguiu para denunciar a ditadura. Até onde pôde, lutou por saber do destino do marido, até que quarenta anos mais tarde, a partir dos relatórios da Comissão Nacional da Verdade, consegue finalmente a declaração de que Rubens Paiva tinha sido torturado e morto em dois dias, e seu corpo diligentemente desaparecido. Como ela, muitos não se dobraram ao longo dos anos.



26 fevereiro 2025

Carlos Fuentes e Nuestra Latinoamerica


Foto de Fred Herzog


De minha parte, segui de certo modo envolvido com a leitura de La Gran Novela Latinoamericana, de Carlos Fuentes, intercalando com a apreciação deste ou daquele ensaio sobre os escritores de Nuestra America que ele destaca. Uma leitura difícil de abandonar, seja onde for. Não saio de casa sem o volume, e lá estou sentado em qualquer canto, devorando de modo aleatório esta obra que, detendo-se nas idiossincrasias do imaginário, expande-se até nos encontrar no mundo real. 

Com alguns autores Fuentes demonstra um apaixonado envolvimento, e descreve suas obras com leveza, carinho e profundidade, expondo a força característica de seus signos. É assim, por exemplo, quando fala da obra de Lezama Lima e suas eras imaginárias, "se uma cultura não logra criar uma imaginação, resultará historicamente indecifrável", especificamente em Paradiso. De Roa Bastos e seu Eu, o Supremo, ou da Comala do impressionante Juan Rulfo, alinha a versatilidade dos seus aspectos mágicos. 

Assim, o painel apresentado em La Gran Novela... captura o leitor mais alheio à realidade latino-americana. Um painel que se monta e se torna mais atraente à medida que Fuentes avança deste para aquele autor, criando uma espécie de relação entre eles e reafirmando a matriz comum da solene história a que pertencemos, registrada pelo maravilhoso da grande novela latinoamericana. 

O texto sobre o nosso Machado - que ainda não li na íntegra - produz o seguinte comentário: "Machado de Assis, Machado de La Mancha, o milagroso Machado, é um pioneiro da imaginação e da ironia, da mestiçagem e do contagio em um mundo ameaçado cada dia mais pelos verdugos do racismo, da xenofobia, do fundamentalismo religioso e outro, implacável fundamentalismo, o do mercado".

Pois como não pensarmos nossa ficção latino-americana como uma apropriada metáfora de nossa realidade do passado e do futuro? 

(Diários, julho/2012)