23 julho 2016

Não mais denunciar o que já não existe



Já não se trata mais de fazer uma análise do discurso midiático. Quem sabe dez ou quinze anos atrás seria relevante discutir os descaminhos das distorções assumidas e transmitidas como verdades. De minha parte, faço o esforço de questionar a arrogância do oligopólio midiático brasileiro, que nos últimos dois anos ultrapassou todos os limites do bom senso.

Ou seja, transformou-se em outra coisa, em agência publicitária dos interesses conservadores, em panfleto ideológico da ruptura institucional, em ponta de lança da mobilização golpista, ou tudo isso junto, perdendo a meu ver completamente sua capacidade de mediação da realidade, de avaliar de modo equânime os acontecimentos. O nível de desinformação chegou a tal ponto que os veículos dessa mídia corporativa não se vexam em integrar um pool noticioso onde consolidam seus interesses, articulados a outros segmentos da sociedade civil, notoriamente o judiciário, a Fiesp, lideranças neopentecostais, congressistas conservadores ou ideologicamente de direita.

Chegou a tal ponto que na semana passada uma enquete do Datafolha cujos dados foram deliberadamente modificados pelo jornal Folha de SP, em favor do governo interino e ilegítimo. Um tipo de ação que parece não mais promover indignação na classe, e que aparentemente acaba assimilada naturalmente pela sociedade. Foi um ato manipulador, eticamente condenável, mas que passou praticamente sem grandes contestações, salvo nas redes sociais. Esta a mídia a que estamos sujeitos e que orquestra o mundo de seus desejos, sem qualquer pudor, sem nenhum questionamento.

Ao contrário, o jornalismo parece concorrer entre si com o objetivo de, para alcançar os fins propostos por seus donos, valer-se de qualquer expediente. Trata-se de uma corrida insana de subordinados em sua canalhice subserviente que incorporam com fé. Tudo parece permitido, ao tempo em que o contraditório é descartado. A opinião crítica não mais se sustenta nesse jogo de interesses patronais, articulados a golpistas das mais variadas cepas, que atuam como se toda e qualquer violência moral fosse possível.

Assumem os ministérios indivíduos que respondem a processos na justiça; a visibilidade midiática projeta analistas que repercutem falsas expectativas sobre a retomada do crescimento econômico, enquanto os direitos trabalhistas são paulatinamente destroçados. A escola agora passa a ser um espaço em que a análise crítica deve ser descartada, em nome de uma neutralidade impossível no aprendizado; a única ideologia permitida passa a ser a do quietismo.

De modo que retorno ao início, não há mais razão para se perder tempo com esse falso jornalismo que se impõe acintosamente, como provável consequência da decadência moral desses velhacos que comandam o oligopólio midiático. Talvez seja importante acompanhar qual o destino dessa mídia tradicional que não soube acompanhar os avanços no processo democrático proporcionado pelas redes sociais, que eliminou a centralização ao disseminar a interação das ideias e denunciar a manipulação da notícia. A crise econômica converte cada veículo em massa falida a ser absorvida por corporações mais atentas ao espírito do negócio. 




a primeira foto, apresentada pela mídia corporativa, um terrorista islâmico; 
a segunda foto, ampliada, não mais que um jogador de paintball



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