06 julho 2014

Contemplação ao alvorecer


Primeiro a voz feminina alertando alguém para soltá-la, junto a um alarido intenso de outras vozes, também o automóvel passando com o som de uma música minimalista, alto o suficiente para me despertar e alimentar o desejo, ainda sob a madrugada escura, de retomar o trabalho. Tal como uma troupe felliniana que atravessa o deserto em meio aos seus destemperos, acabaram por desaparecer e o relativo silêncio voltou a reinar. Com a possível condenação dos incompetentes gestores hídricos tucanos, a água que se faz escassa, tomei outro banho e coloco-me a postos diante do computador para prosseguir. Fico por aqui, querida, ao longo da jornada que não contará com jogo do Brasil e tampouco Copa a distrair a concentração. Sobressaem os saborosos mistérios das articulações sociais dos cosplays e dos poetas periféricos, o corpo performático que se insinua e ganha vida em seus respectivos movimentos. Há algo de felliniano nestes encontros coloridos, inebriantes, mas também de camusiano na soturna elaboração pessoal de cada participante e então me submeto à conjunção dos imaginários, agora os mágicos alentos de Cortázar, páginas de paisagens que se sucedem, que se levantam hipotéticas ao sabor do puro ensejo, a luz do mar que penetra a janela e nos confunde com as brumas misteriosas de cada luar, o chiado metálico dos bondes com animados foliões a avançar pela avenida descortinando os primeiros matizes da aurora, o olhar peregrino dos bondosos viajantes que aportam no cais, a calma expectativa em uma cadeira de balanço, deixando-nos um pouco mais sonhadores e felizes...


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