07 julho 2013

Golpe e Exílio


Concluí a leitura de Golpe e Exílio, de Darcy Ribeiro em um agradável café portenho, próximo ao Congresso. São palavras de um espírito audaz, que em um primeiro momento descrevem o despropósito de uma ação golpista, longamente urdida, e na parte final, expõem o processo de exílio e do retorno, que ocorre pouco antes do AI-5.

Ao contrário do que poderia parecer, este relato não tem amargura, nem tampouco o espírito vingativo de uma lembrança dolorosa. Darcy rejunta os fatos e os expõe de modo didático, de quem viveu por dentro um regime condenado desde o princípio pelas elites e pelos militares deste país. 

Acompanhamos seu inconformismo diante do fracasso em restabelecer o marco constitucional, seu desprezo pontual por um ou outro ator social que podendo interferir optou por não fazê-lo, e sua clara percepção da irreversibilidade dos fatos, ao empreender uma espetacular fuga por caminhos pouco convencionais, até Montevidéu, no Uruguai. 

Nesta altura, quando poderíamos esperar por um acerto de contas com a história, Darcy expõe a irreverência de sua alma, contando-nos da nobreza de seus anfitriões uruguaios, convidando-o a participar da vida acadêmica e intelectual do país, descrevendo com humor suas emocionadas aventuras. Seu texto compõe um estilo elegante, apresentando-nos uma vida ativa e intensa, alimentada por suas convicções políticas e pelo imenso amor ao Brasil. 

Seu percurso natural de político e intelectual foi marcado por descontinuidades, e ao meu ver o mais grave, pelo descaso. Neste aspecto, o mundo foi-lhe mais gentil no acolhimento de sua obra. Na contracapa do livro há um pequeno texto de Galeano, seu amigo no exílio, que nos fala de Darcy Ribeiro aceitando o título de Doutor Honoris Causa da Sorbonne pelo mérito de seus fracassos. E prossegue alinhando cada um deles, para ao final concluir, Estes são os seus fracassos. Estas são as suas dignidades.
    

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