03 setembro 2012

As colunas de Hércules


O grande empreendimento marítimo realizado por Portugal e Espanha, nos séculos XV e XVI culminou com a descoberta do Novo Mundo, ou, nas palavras de Fuentes, sua invenção. Seus formidáveis detalhes são descritos em duas obras que devoro aos poucos, Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda, e Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, no primeiro caso, a construção europeia de sua utopia para realizar a aventura épica que se consolida no segundo texto. Em ambas as obras, o relato objetivo, bem elaborado, que seduz ao leitor, proporcionando a adesão necessária para avançar longamente na leitura. 

O mundo passa por uma profunda transição científica, que irá afetar as concepções religiosas do cristianismo, e consequentemente, a visão de mundo. A imprensa de Gutemberg e o protestantismo de Lutero irão acentuar essa transição, permitindo que um novo sistema econômico, o capitalismo mercantilista, trate de expandir os horizontes então conhecidos, dando início ao longo processo de constituição do imaginário nacional,  descrito por Benedict Anderson, em seu livro Comunidades Imaginárias.

Poderíamos abordar o tema a partir de inúmeras perspectivas, porém gostaria de retornar às grandes navegações, onde a épica empreende o desvelamento da utopia tão longamente alimentada pelos mitos de diversas civilizações. No horizonte desta utopia, o Paraíso Terrenal, também identificado pelas descrições como as Ilhas Fortunadas, para além das colunas de Hércules, onde se pode desfrutar de uma paisagem de generosa verdura... agrestes pomos e saborosos, que os moradores podem alcançar sem trabalho, esforço ou cansaço... com um clima onde predominam ares bonançosos e salutíferos (Plutarco, apud Holanda).

Em 1519, Cortés desembarca em Vera Cruz, e adentra pelo interior, tomando o caminho de Tenochtitlán. Antes de alcançar o destino, recebe de Montezuma como uma espécie de oferenda a índia Malinche, Malintzin, depois Marina, e como nos descreve Octavio Paz, também conhecida como La Chingada, que, no México, origina um vocábulo ambíguo, carregado de sexualidade, chingón, variando de sentido conforme a entonação.

Segundo Paz nos descreve, "La Chingada é a mãe aberta, violada ou seduzida pela força", e mais adiante, "Ela encarna o aberto, o chingado, em relação aos nossos índios, estóicos, impassíveis, fechados", desenvolvendo a ideia de aberto e fechado, a mãe que se abre para o vilipendiador estrangeiro, o mexicano encerrado em seu isolamento, histórico e pessoal. Na ilustração desta postagem, Cortés encontra Montezuma, vemos o registro do diálogo que irá determinar pouco mais tarde a prisão do Grande Tlatoani do México, o Senhor da Grande Voz, "despojado de seus atributos por um europeu renascentista e por uma mulher que outorgou a língua índia aos espanhóis" (Fuentes).

Cortés, em nome da autocracia do reino espanhol, silencia à força a autocracia indígena, representada por Montezuma. Em 1553 perdemos o direito de conhecermos a nós mesmos, pois um decreto da metrópole impediu de circular nas colônias as histórias da conquista. De algum modo, a narrativa de uma épica da conquista sucumbe juntamente com a utopia da descoberta (ou da invenção) do Novo Mundo. Sem uma voz que relatasse a nossa memória - "recordar o futuro, imaginar o passado", passamos a suprir o vazio de história, escrevendo romances. Para Lezama Lima, será a arte do barroco que proporcionará a afirmação de nossa identidade, ou como em suas palavras, "Vemos que o senhor barroco americano, a quem designamos como o autêntico primeiro instalado no que é nosso, participa, vigia e cuida as duas grandes sínteses que estão em sua raiz, a hispano-incaica e a hispano-negróide". 

Assim, a cosmogonia da Latinoamerica incorpora a rebelião da arte barroca, a mestiçagem de brancos, negros e índios, e o fantástico como a expressão diferenciada de nossa narrativa. Passamos de Carpentier a Borges, de Rubião a Azuela, de Darío a Benedetti, e nos tempos presentes alcançamos as bordas de nossas cidades, a épica do cotidiano conduzida por sonhadores humildes, com sua voz que resiste em não se apagar, e o imaginário a fomentar uma renovada utopia, não muito além das colunas de Hércules.  




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