16 agosto 2012

Augusto Monterroso


Um traço que observo com prazer nos relatos deste quase desconhecido escritor guatemalteco, é a sutil ironia presente nas breves narrativas, expondo a nu preconceitos, tabus, hipocrisias sociais. No conto Obras Completas, vemos como um consagrado professor utiliza o conhecimento na relação com seus alunos-discípulos; em El Centenario, acompanhamos a história de sucesso e desventura do gigante Orest Hanson; ou em Sinfonia Concluída, um velho organista guatemalteco atravessa o Atlântico para que se reconheça sua descoberta, os movimentos finais da Sinfonia inacabada de Schubert.

É possível encontrar elementos de narrativa fantástica em seus textos, e um bom exemplo é o conto La Cena, onde ele narra um sonho em que Kafka, convidado para um jantar, nunca consegue chegar. Também é autor de dois microcontos, um deles bem conhecido, El Dinosaurio, "Quando despertou, o dinossauro ainda estava ali"e Fecundidad, "Hoje me sinto bem, um Balzac; estou terminando esta linha"

Abaixo, minha tradução de dois pequenos contos de Monterroso. Espero que desfrutem.


O Eclipse

Quando frei Bartolomeu Arrazola se viu perdido, entendeu que nada poderia salvá-lo. A selva poderosa da Guatemala o havia encarcerado, implacável e definitivamente. Diante de sua ignorância topográfica, sentou-se com tranquilidade, esperando a morte. Quis morrer ali, sem qualquer esperança, isolado, com o pensamento voltado para a Espanha distante, em particular no convento de Los Abrojos, onde Carlos V condescendeu descer de sua magna condição para dizer-lhe que confiava no zelo religioso de seu trabalho redentor.

Ao despertar, encontrou-se rodeado por um grupo de indígenas, com a expressão impassível de quem se dispunha a sacrificá-lo ante um altar, um altar que a Bartolomeu pareceu ser o leito em que descansaria, por fim, de seus temores, de seu destino, de si mesmo. 


Três anos no país tinham lhe conferido um mediano domínio das línguas nativas. Ensaiou algo. Disse algumas palavras que foram compreendidas.


Então lhe floresceu uma ideia, que teve por inspiração seu talento, sua cultura universal e de o árduo conhecimento de Aristóteles. Recordou que para esse dia, se esperava um eclipse total do sol. E se dispôs (em seu íntimo) a valer-se daquele conhecimento para enganar os seus opressores e salvar a vida.


- Se me matais - disse-lhes - posso fazer com que o sol se escureça por completo.


Os indígenas olharam-no fixamente e Bartolomeu captou a incredulidade em seus olhos. Viu que se produziu um pequeno conselho e esperou, confiante, não sem demonstrar certo desdém.


Duas horas depois o coração do frei Bartolomeu Arrazola jorrava o sangue com veemência sobre a pedra de sacrifícios (brilhante, sob a opaca luz de um sol eclipsado), enquanto um dos indígenas recitava sem qualquer inflexão de voz, sem pressa, uma por uma, as infinitas datas em que produziriam eclipses solares e lunares, que os astrônomos da comunidade maia haviam previsto e anotado em seus códices, sem a valiosa ajuda de Aristóteles.




Vaca

Outro dia, quando estava no trem, me ergui feliz sobre minhas duas pernas e comecei a agitar as mãos de alegria e a convidar todos para ver a paisagem e a contemplar o crepúsculo, que estava belíssimo.

As mulheres, as crianças e uns senhores que interromperam a conversa, olhavam surpresos e riam de mim, porém quando sentei-me outra vez, silencioso, não podiam imaginar que eu acabava de ver distanciar-se, lentamente, à margem do caminho, uma vaca morta, mortinha, sem que alguém a tivesse enterrado, nem quem houvesse publicado suas obras completas, ou quem lhe fizesse um emocionado e lamurioso discurso por sua bondade em vida, e por todos os jorrinhos de leite espumante com que contribuiu para que a vida em geral, e o trem em particular, seguissem sua marcha.

(contos extraídos de Cuentos, Alianza Editorial, 2008)


Um comentário:

Mônica Rebecca F Nunes disse...

delícias, icônicas, sutis...